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Gleyson, Werlei e a Taba

setembro 13, 2016

São Paulo, bairro da Mooca, inverno de 2005.

Que Gleyson era um delinqüente, todo mundo já sabia. Ninguém desconfiava, na verdade, que fosse estúpido. E nesse quesito, ele conseguiu ultrapassar o cúmulo da idiotice. Tudo começou na noite de sábado, quando ele ficou sozinho em casa…

Lá pelas onze horas, seu melhor amigo, Werlei, chegou com a maconha. Loucura total, correram para o sofá para apertar o baseado. As bocas chegavam a espumar de tanta saliva, e vontade de fumar.

Mandaram a fumaça para dentro, se revezando no PC, para ver quem falava mais merda no MSN. Ora um fumava, entrando em órbita. Ora outro dava um trago, alucinando com cachorros possuídos por encostos.

A droga bateu tão forte – era da bôua – que resolveram guardar o resto para a noite seguinte, quando Gleyson ficaria sozinho, mais uma vez. Werlei se encarregou de esconder o prato com as guimbas, enquanto o amigo chorava ao som de Anastasia.

O domingo amanheceu ensolarado, e Gleyson acordou com a tia fazendo um tremendo barulho na cozinha. Ainda com os cabelos tapando os olhos amendoados, ele foi averiguar qual era o motivo de tanto estalo.

“Vai ter bolo”, disse a tia solícita, enquanto batia a massa numa vasilha rosa. Dando de ombros, Gleyson foi tomar seu banho, e depois de pentear as melenas, sentou-se ao PC para conversar com os inseparáveis amigos de internet.

Meia hora depois, ouviu a tia rindo à toa lá na cozinha, toda boba. Sentiu um cheiro familiar, e correu até lá. A coitada estava curtindo uma onda sem nem saber, toda descabelada e com a dentadura quase saltando da boca.

Só então que o projeto de estrupício se tocou que o amigo tapado havia escondido a maconha no forno, e que a tia desligada nem se tocou de tirar aquele objeto estranho lá de dentro. Nunca mais Gleyson deu essa bobeira, e agora fuma a erva até acabar. Só não sabe se esse bolo pode dar onda, mas se der…

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Páginas Da Vida: Chirli

agosto 2, 2016

Penha/RJ, Agosto de 2006

“Eu tavo sem dinhêro e num tinho comarranjá mais. Já tavo começâno a passa fômea, sinti as custela aparecêno… Tava foda pra dá dicumê pra crionça, né? Fui pido prus outro um cadinho duquicumê. Minha vizinha, Marilêndea, tavo com o galinheiro cheinho. Num pensei mais de três veiz, pulei lá e peguei umas cinco galinha.
Quando eu tavo colocando elas pra cuzinhá, vivinha da silva, piscou uma lampadinha daquelas de idéia encima da minha cabeça. Perguntei pra Manel se ele tinha tinta preta e o maldito me chamo de maluca. Apelei pra creatchividade, né? Pintei as galinha toda, dexei elas pretinha e fui na casa de macumba vende quenem que fosse galinha preta de macumba. Foi um sucesso só, minina. Hoje eu tenho um galinhêro meu, com as minha galinha que eu depois pinto de preto. As criança tudo agora tem uquicumê. Gabriel tá crecêno bunito de se vê e a cabeçona dele nem parece que é mais grande que das outra. Suelle já ta até de peitinho, aquela vadia. Num demora muito ela me aparece dibarriga e eu metolheaporrada. As gêmia tão bem, tãmem. Mas oquieu me mijo toda é de pensá nas macumba que tão tudo dano errada… Galinha branca pintada de preta num presta, né?”

Chirli: esperta, empreendedora, mãe de família e dona de condomínio no subúrbio carioca.

Parágrafos Soltos de Contos Inacabados [Pt 05]

julho 12, 2016

[…] e sabia que existem pessoas que nascem sorrindo, vivem fingindo e morrem mentindo. Rosalba era tão patética que levou desaforo pra casa e acabou se apaixonando por ele. Daí casaram, tiveram filhos, mudaram para um apartamento menor, cancelaram a Net e, desde então, o jantar se resume a arroz com sardinha em lata. Ela diz que ainda não é feliz, mas solta um risinho bobo quando lembra que água e vento são meio sustento. Foi aí que ela deu de ombros e viu um envelope vermelho entrando por baixo da porta […]

Achocolatado

junho 30, 2016

Toda manhã, quando entra na padaria que fica na esquina da Rua Dionísio com a Rua Jaci, Neuzinha apoia a bolsa sobre a prateleira de biscoitos, inclina o corpo sobre o balcão e pede um achocolatado pelando para o cafuçu de olhos verdes. Ela se recusa a pedir um Nescau ou um Toddy:  gosta mesmo é de falar “a-cho-co-la-ta-do”, com todo o chiado que sua carioquice suburbana permite. Adanette, moça do caixa, morre de ciúmes e jura de pés juntos que a cliente está dando em cima do servente, mas a verdade é outra: o tesão de Neuzinha é segurar aquele copo quente enquanto espera o 679 (Méier-Grotão), só esperando o dia em que terá coragem de derramá-lo sobre a cobradora que ousou soltar spoiler do Casamento Vermelho de Game of Thrones, há uns alguns anos. Sim, ela é vingativa, mas também é meio cagona.

No elevador, pelo corredor…

maio 5, 2016

Depois de ter batido pernas por toda Madureira, Jaymin chegou em casa munido de quinze sacolas e dois embrulhos. Além de ter dado um belo trato nas melenas, ele fez as unhas e também caprichou na depilação. Agora que estava trabalhando numa sauna de luxo da zona sul, o delicado mocinho precisa ousar mais no visual e causar impacto com sua produção.

Engana-se quem pensa que, por ser uma pintosa coquete, Jaymin só pensasse em futilidades. Em meio a tantas plumas e paetês, sua sala de estar é adornada por uma suntuosa estante de mogno, abarrotada de clássicos da literatura brasileira. Seus livros favoritos são os de Nelson Rodrigues, logicamente.

Jaymin é um orgulhoso morador do subúrbio e não deixa que ninguém o derrube do salto por morar fora do eixo Copacabana-Leblon.  Por conta disso, já saiu no tapa com três drags e em todas as ocasiões saiu sem um arranhão, tamanha sua agilidade. Estava quase na hora de ir para o trabalho, então ele fumou um último cigarro enquanto ouvia o novo CD da Beyoncé, debruçado no parapeito da janela.

Jaymin deu uma retocada no rímel, pegou a Louis Vitton do Paraguai e calçou o Croc azul-celeste. Saiu andando pelo corredor se sentindo a própria Natalie Portman. Por dentro, espumava de vontade de beber um refrigerante e comer uma coxinha daquelas bem gordurosas, mas precisava manter a forma e silhueta na mais perfeita harmonia. Vai que um dia aparece um gringo que o leve para a Europa?

Não esperou muito pelo elevador que, para seu deleite, chegou vazio. E quando a porta já estava quase fechando, ele escutou o apelo de uma xavasca para segurar o elevador. Como estava num dia de incomum simpatia pelo ser humano, esperou a menina, segurando gentilmente a porta. Pelo barulho que ecoava até o fundo do corredor do 13º andar, percebeu que ela estava usando salto agulha bico fino. Seu perfume chegou antes, adocicado e exageradamente popular – Avon, Natura ou Turma da Mônica, Jaymin não sabia dizer…

Toda vestida de preto, a loira entrou ofegante no elevador, agradecendo sua paciência em esperá-la. Jaymin acenou com a cabeça, aproveitando para dar uma averiguada no modelito da criatura… discretamente, por trás de meus óculos espelhados da D&G. Ela, então, começou um diálogo inusitado:

Mulher: – Estou bonita? [fazendo uma voz doce, com biquinho]

Jaymin: – Sim, está linda. [sendo ironicamente sincero]

Mulher: – Estou cheirosa? [ levantando o cabelo e mostrando a nuca]

Jaymin: – Seu perfume é bem marcante. O fixador deve ser bom. [poupando detalhes sobre a qualidade]

Mulher: – Ganhei ontem. Já está na metade. [se achando a poderosa]

Jaymin: – Eu sou meio alérgico. Prefiro os que não tem cheiro forte. [só usava CK One comprado em doze prestações sem juros]

Mulher: – Estou gostosa? Fala a verdade… [colocando o dedinho na boca]

Jaymin: – Está sim. Tomara que faça muito sucesso hoje. [todo contorcido para não gargalhar, jogando a cabeça para trás]

Mulher: – Está dizendo isso porque gostaria de me comer? [cinco segundos de silêncio depois]

Jaymin: – De forma alguma. Sou vinhado e tenho um bom senso estético. [sem desmunhecar, sem falsete na voz e escondendo o Manolo]

Mulher: – Ai, a-d-o-i-r-o-v-i-a-d-o. Vocês são muito inteligentes. [dando um tapinha nas ancas]

Jaymin: – Vai numa festa? [já desconfiando da resposta]

Mulher: – Não, vou encontrar um conhecido. [também conhecido como cliente fixo]

Jaymin: – E o maridão, ficou em casa vendo Game of Thrones? [dando de ombros]

Mulher: – Não, fofo. E eu lá sou mulher de ficar presa a um homem só? Deus me livre! [mostrando todos os dentes da boca, num sorriso largo]

Saíram do elevador e Jaymin abriu a porta do prédio para ela, que se despediu com um beijinho no rosto e uma mão sacana apertando sua bunda. Rodada que devia ser, jogou-se dentro de um taxi e seguiu na direção da Zona Sul. Jaymin até pensou me pedir uma carona, mas achou melhor ir de ônibus, mesmo. Parou num boteco e bebeu uma Pepsi Light em homenagem àquela garota, que com todos os seus desvios de moral, ainda conseguia ser mais honesta que muitos marmanjos casados que entrariam na sauna, naquela noite.

Filho a varejo

abril 27, 2016

Querido Rogério,

Eu estava voltando de uma reunião com os donos de um novo empreendimento quando, já na altura de Madureira, parei num sinal vermelho e vi uma jovem sentada no ponto de ônibus, com cinco crianças a tiracolo. Brincando, perguntei se poderia ficar com alguma delas. Para minha surpresa, ela ofereceu o mais velho, que não ia bem na escola e seu único dom era comer, sozinho, um pote de margarina por dia.

Imaginando que ela entendera se tratar de uma brincadeira, recusei a oferta e apontei para a menina, que vestia um macacão encardido, e disse que gostaria de ficar com ela. Sem a menor cerimonia, ela levantou- se do banco e veio me entregar a criança, já avisando que apesar da aparência frágil e delicada, aquela pequena era um estorvo e só fazia chorar madrugada adentro.

Perplexa, tentei desfazer o mal entendido, dizendo tratar-se apenas de uma brincadeira, mas ela não aceitava devolução. Mandou que eu levasse a menina, e ainda me deu o menorzinho, que sequer tinha largado o peito. Apavorada com a situação, pensei em ligar para a policia, mas cadê que a Tim pegava por aquelas bandas? Quando dei por mim, ela já tinha enfiado todas as crianças no carro e desapareceu.

Sem alternativa, dirigi até uma delegacia e descobri que estavam em greve, por falta de pagamento. As crianças estavam aos prantos no banco de trás e um desespero me subiu pela espinha. Não teve jeito… eu trouxe todos aqui para casa. Todos já estão de banho tomado, assistindo um desenho qualquer na Netflix. O maiorzinho já aprendeu a mexer no iPad e até perguntou se eu era sua nova mãe… confesso que chorei escondida na área de serviço, mas foi de alegria.

Então é isso, querido. Já está decidido! Quando você chegar em casa, hoje à noite, terá uma família completa. Se não for te tirar muito do caminho, tem como passar no mercado e trazer uns cinco potes de margarina (pode ser Becel) e dois pacotes de fraldas descartáveis da Turma da Mônica, tamanho M? A menorzinha é linda, mas parece uma fábrica de churros. (Risos)

Beijos.

Te amo.

Nazareth.

Dona Gleide

março 9, 2016

Depois de anos trabalhando honestamente, Dona Gleide sucumbiu à tentação. Sempre foi uma diarista muito respeitosa e nunca cometeu deslize algum nos lares em que já trabalhou. Naquela tarde, porém, estava limpando as janelas do apartamento de Seu Rui quando bateu uma vontade louca de provar um pouco do tal absinto, verdinho e cristalino, que jazia inerte há meses naquela elegantíssima garrafa decorada. Com a porta trancada, ela sacou uma tacinha da cristaleira e se serviu.

A rotunda senhora jogou-se no sofá e apreciou seu aroma, relembrando os tempos em que chupava drops de anis ao sair da escola. Foi, aos poucos, tomando coragem para beber mais um pouco, até que ouviu um molho de chaves tilintando pelo corredor dos elevadores. Num único gole, mandou para dentro toda a tacinha e sumiu com as evidências. Por sorte, era só o vizinho do lado chegando do passeio com seu casal de pinschers, e ela respirou aliviada. Minutos depois, uma onda de calor subiu-lhe as pernas, causando cócegas em suas vergonhas.

Foi uma sensação tão gostosa, que ela chegou a se tremer todinha. Dona Gleide ficou namorando a garrafa de absinto e lá se foi mais uma dose. Seu Rui, que vivia sozinho, nem notaria o desfalque. Ela lavou a cozinha, ganhou dois goles. Limpou o banheiro, bebeu um pouco mais. Passou a roupa e deu uma provadinha. Já estava de banho tomado, antes de ir embora, quando o patrão avisou que só voltaria no sábado. Sem titubear, ela resolveu dar uma última investida e acabou servindo a garrafa inteira. Sim, ela era uma mulher guerreira como Clara Nunes e não se deixou abater.

Foi uma noite de delírios e risadas solitárias até que, enfim, amanheceu.  Desesperada, Dona Gleide ficou tentando imaginar como disfarçaria sua traquinagem. Tentou misturar desinfetante com álcool, mas ficou turvo. Perfume quase não tinha. O listerine era de laranja e até o detergente era de outra cor. Estava quase se rendendo ao fracasso quando se lembrou de um truque, inventado por sua neta. Desceu correndo as escadas e foi até o armarinho.

Com uma canetinha hidrocor, tingiu meio litro de álcool etílico e acrescentou três drops que carregava na bolsa. Agitou a mistura por algum tempo e deu-se a mágica: um líquido verde e aromático, capaz de enganar até o mais chato dos clientes. Já suando, Dona Gleide tratou de encher a garrafa de absinto e deu no pé, antes que o porteiro a visse por lá. Meses se passaram e Seu Rui sequer tocou na garrafa. O abuso da diarista nunca foi descoberto, mas ela ao menos teve assunto para uma tarde inteira de carteado com suas amigas do Colubandê.