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Achocolatado

junho 30, 2016

Toda manhã, quando entra na padaria que fica na esquina da Rua Dionísio com a Rua Jaci, Neuzinha apoia a bolsa sobre a prateleira de biscoitos, inclina o corpo sobre o balcão e pede um achocolatado pelando para o cafuçu de olhos verdes. Ela se recusa a pedir um Nescau ou um Toddy:  gosta mesmo é de falar “a-cho-co-la-ta-do”, com todo o chiado que sua carioquice suburbana permite. Adanette, moça do caixa, morre de ciúmes e jura de pés juntos que a cliente está dando em cima do servente, mas a verdade é outra: o tesão de Neuzinha é segurar aquele copo quente enquanto espera o 679 (Méier-Grotão), só esperando o dia em que terá coragem de derramá-lo sobre a cobradora que ousou soltar spoiler do Casamento Vermelho de Game of Thrones, há uns alguns anos. Sim, ela é vingativa, mas também é meio cagona.

No elevador, pelo corredor…

maio 5, 2016

Depois de ter batido pernas por toda Madureira, Jaymin chegou em casa munido de quinze sacolas e dois embrulhos. Além de ter dado um belo trato nas melenas, ele fez as unhas e também caprichou na depilação. Agora que estava trabalhando numa sauna de luxo da zona sul, o delicado mocinho precisa ousar mais no visual e causar impacto com sua produção.

Engana-se quem pensa que, por ser uma pintosa coquete, Jaymin só pensasse em futilidades. Em meio a tantas plumas e paetês, sua sala de estar é adornada por uma suntuosa estante de mogno, abarrotada de clássicos da literatura brasileira. Seus livros favoritos são os de Nelson Rodrigues, logicamente.

Jaymin é um orgulhoso morador do subúrbio e não deixa que ninguém o derrube do salto por morar fora do eixo Copacabana-Leblon.  Por conta disso, já saiu no tapa com três drags e em todas as ocasiões saiu sem um arranhão, tamanha sua agilidade. Estava quase na hora de ir para o trabalho, então ele fumou um último cigarro enquanto ouvia o novo CD da Beyoncé, debruçado no parapeito da janela.

Jaymin deu uma retocada no rímel, pegou a Louis Vitton do Paraguai e calçou o Croc azul-celeste. Saiu andando pelo corredor se sentindo a própria Natalie Portman. Por dentro, espumava de vontade de beber um refrigerante e comer uma coxinha daquelas bem gordurosas, mas precisava manter a forma e silhueta na mais perfeita harmonia. Vai que um dia aparece um gringo que o leve para a Europa?

Não esperou muito pelo elevador que, para seu deleite, chegou vazio. E quando a porta já estava quase fechando, ele escutou o apelo de uma xavasca para segurar o elevador. Como estava num dia de incomum simpatia pelo ser humano, esperou a menina, segurando gentilmente a porta. Pelo barulho que ecoava até o fundo do corredor do 13º andar, percebeu que ela estava usando salto agulha bico fino. Seu perfume chegou antes, adocicado e exageradamente popular – Avon, Natura ou Turma da Mônica, Jaymin não sabia dizer…

Toda vestida de preto, a loira entrou ofegante no elevador, agradecendo sua paciência em esperá-la. Jaymin acenou com a cabeça, aproveitando para dar uma averiguada no modelito da criatura… discretamente, por trás de meus óculos espelhados da D&G. Ela, então, começou um diálogo inusitado:

Mulher: – Estou bonita? [fazendo uma voz doce, com biquinho]

Jaymin: – Sim, está linda. [sendo ironicamente sincero]

Mulher: – Estou cheirosa? [ levantando o cabelo e mostrando a nuca]

Jaymin: – Seu perfume é bem marcante. O fixador deve ser bom. [poupando detalhes sobre a qualidade]

Mulher: – Ganhei ontem. Já está na metade. [se achando a poderosa]

Jaymin: – Eu sou meio alérgico. Prefiro os que não tem cheiro forte. [só usava CK One comprado em doze prestações sem juros]

Mulher: – Estou gostosa? Fala a verdade… [colocando o dedinho na boca]

Jaymin: – Está sim. Tomara que faça muito sucesso hoje. [todo contorcido para não gargalhar, jogando a cabeça para trás]

Mulher: – Está dizendo isso porque gostaria de me comer? [cinco segundos de silêncio depois]

Jaymin: – De forma alguma. Sou vinhado e tenho um bom senso estético. [sem desmunhecar, sem falsete na voz e escondendo o Manolo]

Mulher: – Ai, a-d-o-i-r-o-v-i-a-d-o. Vocês são muito inteligentes. [dando um tapinha nas ancas]

Jaymin: – Vai numa festa? [já desconfiando da resposta]

Mulher: – Não, vou encontrar um conhecido. [também conhecido como cliente fixo]

Jaymin: – E o maridão, ficou em casa vendo Game of Thrones? [dando de ombros]

Mulher: – Não, fofo. E eu lá sou mulher de ficar presa a um homem só? Deus me livre! [mostrando todos os dentes da boca, num sorriso largo]

Saíram do elevador e Jaymin abriu a porta do prédio para ela, que se despediu com um beijinho no rosto e uma mão sacana apertando sua bunda. Rodada que devia ser, jogou-se dentro de um taxi e seguiu na direção da Zona Sul. Jaymin até pensou me pedir uma carona, mas achou melhor ir de ônibus, mesmo. Parou num boteco e bebeu uma Pepsi Light em homenagem àquela garota, que com todos os seus desvios de moral, ainda conseguia ser mais honesta que muitos marmanjos casados que entrariam na sauna, naquela noite.

Filho a varejo

abril 27, 2016

Querido Rogério,

Eu estava voltando de uma reunião com os donos de um novo empreendimento quando, já na altura de Madureira, parei num sinal vermelho e vi uma jovem sentada no ponto de ônibus, com cinco crianças a tiracolo. Brincando, perguntei se poderia ficar com alguma delas. Para minha surpresa, ela ofereceu o mais velho, que não ia bem na escola e seu único dom era comer, sozinho, um pote de margarina por dia.

Imaginando que ela entendera se tratar de uma brincadeira, recusei a oferta e apontei para a menina, que vestia um macacão encardido, e disse que gostaria de ficar com ela. Sem a menor cerimonia, ela levantou- se do banco e veio me entregar a criança, já avisando que apesar da aparência frágil e delicada, aquela pequena era um estorvo e só fazia chorar madrugada adentro.

Perplexa, tentei desfazer o mal entendido, dizendo tratar-se apenas de uma brincadeira, mas ela não aceitava devolução. Mandou que eu levasse a menina, e ainda me deu o menorzinho, que sequer tinha largado o peito. Apavorada com a situação, pensei em ligar para a policia, mas cadê que a Tim pegava por aquelas bandas? Quando dei por mim, ela já tinha enfiado todas as crianças no carro e desapareceu.

Sem alternativa, dirigi até uma delegacia e descobri que estavam em greve, por falta de pagamento. As crianças estavam aos prantos no banco de trás e um desespero me subiu pela espinha. Não teve jeito… eu trouxe todos aqui para casa. Todos já estão de banho tomado, assistindo um desenho qualquer na Netflix. O maiorzinho já aprendeu a mexer no iPad e até perguntou se eu era sua nova mãe… confesso que chorei escondida na área de serviço, mas foi de alegria.

Então é isso, querido. Já está decidido! Quando você chegar em casa, hoje à noite, terá uma família completa. Se não for te tirar muito do caminho, tem como passar no mercado e trazer uns cinco potes de margarina (pode ser Becel) e dois pacotes de fraldas descartáveis da Turma da Mônica, tamanho M? A menorzinha é linda, mas parece uma fábrica de churros. (Risos)

Beijos.

Te amo.

Nazareth.

Dona Gleide

março 9, 2016

Depois de anos trabalhando honestamente, Dona Gleide sucumbiu à tentação. Sempre foi uma diarista muito respeitosa e nunca cometeu deslize algum nos lares em que já trabalhou. Naquela tarde, porém, estava limpando as janelas do apartamento de Seu Rui quando bateu uma vontade louca de provar um pouco do tal absinto, verdinho e cristalino, que jazia inerte há meses naquela elegantíssima garrafa decorada. Com a porta trancada, ela sacou uma tacinha da cristaleira e se serviu.

A rotunda senhora jogou-se no sofá e apreciou seu aroma, relembrando os tempos em que chupava drops de anis ao sair da escola. Foi, aos poucos, tomando coragem para beber mais um pouco, até que ouviu um molho de chaves tilintando pelo corredor dos elevadores. Num único gole, mandou para dentro toda a tacinha e sumiu com as evidências. Por sorte, era só o vizinho do lado chegando do passeio com seu casal de pinschers, e ela respirou aliviada. Minutos depois, uma onda de calor subiu-lhe as pernas, causando cócegas em suas vergonhas.

Foi uma sensação tão gostosa, que ela chegou a se tremer todinha. Dona Gleide ficou namorando a garrafa de absinto e lá se foi mais uma dose. Seu Rui, que vivia sozinho, nem notaria o desfalque. Ela lavou a cozinha, ganhou dois goles. Limpou o banheiro, bebeu um pouco mais. Passou a roupa e deu uma provadinha. Já estava de banho tomado, antes de ir embora, quando o patrão avisou que só voltaria no sábado. Sem titubear, ela resolveu dar uma última investida e acabou servindo a garrafa inteira. Sim, ela era uma mulher guerreira como Clara Nunes e não se deixou abater.

Foi uma noite de delírios e risadas solitárias até que, enfim, amanheceu.  Desesperada, Dona Gleide ficou tentando imaginar como disfarçaria sua traquinagem. Tentou misturar desinfetante com álcool, mas ficou turvo. Perfume quase não tinha. O listerine era de laranja e até o detergente era de outra cor. Estava quase se rendendo ao fracasso quando se lembrou de um truque, inventado por sua neta. Desceu correndo as escadas e foi até o armarinho.

Com uma canetinha hidrocor, tingiu meio litro de álcool etílico e acrescentou três drops que carregava na bolsa. Agitou a mistura por algum tempo e deu-se a mágica: um líquido verde e aromático, capaz de enganar até o mais chato dos clientes. Já suando, Dona Gleide tratou de encher a garrafa de absinto e deu no pé, antes que o porteiro a visse por lá. Meses se passaram e Seu Rui sequer tocou na garrafa. O abuso da diarista nunca foi descoberto, mas ela ao menos teve assunto para uma tarde inteira de carteado com suas amigas do Colubandê.

Parágrafos Soltos de Contos Inacabados [Pt 04]

fevereiro 28, 2016

[…] Claudenise estava toda boba, e nem cabia dentro de si: ganhou um echarpe da patroa. Ansiosa para se exibir, ficou contando os minutos para o fim do expediente. Tomou banho com sabão de coco, para a pele ficar mais brilhosa, e passou Leite de Rosas, para ficar saborosa. Mesmo com o calor que torrava o Leblon, ela saiu com o echarpe enrolado no pescoço, rumo à Central. Foi se gabando o caminho todo, e quando saltou do metrô, avistou a escada rolante: era o seu momento de glória. […]

Escrota

janeiro 26, 2016

Ronalda Cristina finalmente tirou férias. Estava exausta, sem saco para nada. Só queria ficar jogada no sofá, assistindo Netflix, bebendo cerveja e comendo pipoca. O problema era o que fazer com as meninas… estavam as duas em casa, também de férias, e o pai só as pegaria depois do carnaval. Enquanto procurava o isqueiro dentro da bolsa, ela concluiu que esse era o lado ruim da guarda compartilhada. Sentiu-se escrota por alguns minutos, mas passou.

Deixou as meninas jogando videogame e desceu para fumar. A mais nova tinha alergia e a outra estava na fase politizada, então Ronalda tinha que dar uma volta no quarteirão para se entreter com o cigarro. Até pensou em arrumar um cachorro para ter uma desculpa melhor, já que conhecia quase todos os cães da rua e, vez ou outra, brincava que estava levando o maço para passear. Ria sozinha, coitada, da situação patética que estava vivendo.

Voltando para o prédio, percebeu que a escolinha da esquina estava repleta de crianças. Era a tal colônia de férias que as meninas tanto falavam, mas ela não teve paciência de prestar atenção. Olhou pela grade e viu que os pequenos estavam aprontando um inferno lá dentro, felizes que só eles. Piscina, tobogã, pula-pula e nada de aula. Ah, que alívio deveriam sentir os pais ao deixar as crianças ali por uma semana ou duas, né?

Ronalda deixou o cigarro cair da boca e correu para casa. A conversa com as meninas foi tão animada que, em meia hora, elas já estavam matriculadas na tal colônia. Passariam duas semanas lá, enquanto ela fingia estar num cruzeiro rumo a Fortaleza. Nessa hora, ela agradeceu aos céus por saber mexer no Photoshop: fez algumas montagens toscas de sua viagem fictícia e começou a postar no dia seguinte.

Com a despensa abarrotada de salgadinhos, cerveja e maços de cigarro, Ronalda trancou a porta, guardou a chave, ligou o ar condicionado e se jogou no sofá. Nas duas semanas que passou sozinha, ela colocou todas as séries em dia e engordou (feliz da vida) quase quatro quilos. Ela não teve remorso algum de ter feito o que fez, exceto por ter esquecido de inventar um affair para causar inveja nas amigas do trabalho. No fim das contas, ela concluiu que era mesmo uma escrota e gargalhou sozinha.

Pipoca doce, mas coloca a salgada por cima

janeiro 2, 2016

Eduardo e Glauce se conheceram na fila das barcas. O flerte se deu quando ela deixou cair o saquinho de pipocas e ele ofereceu um pouco das suas. O rapaz também pedia para colocar a salgada por baixo, então foi amor à primeira vista. Enquanto seguiam de Niterói para o Rio, papearam e descobriram afinidades. Não sabiam os sobrenomes um do outro, mas já estavam íntimos.

– Eu gosto de tomar sorvete na cama enquanto assisto tv, mas não curto novelas.

– Adoro cozinhar, mas não pego em carne crua. E também não gosto de alho.

– Só tomo banho frio, mesmo no inverno. Água quente me faz tossir a noite inteira.

–  Gosto de temperar as saladas com azeite, vinagre e sal. Nunca ponho orégano.

– Lavo minhas cuecas junto com as meias, pois só uso das brancas.

– Eu coleciono livros clássicos e só consigo cagar lendo revista de fofoca!

– Eu tive hepatite, sarampo, catapora, sífilis, furúnculo e erisipela.

– Eu não sei consigo pintar as unhas da mão direita sozinha!

– Eu nasci de sete meses, mas falei e andei antes de completar um ano.

– Eu tive três namorados cearenses, dois paulistas e cinco aqui do Rio.

– Eu nunca namorei…

– Sério? Que triste!

– Não precisa ser triste…

– Você é muito reticente, Eduardo!

– E você é uma gracinha, sabia?

Daí veio um beijo daqueles que deixam qualquer um constrangido. Trocaram juras precoces de amor e seguiram para o apartamento de Glauce, onde assistiram a vários filmes melosos na Netflix, comeram pão de queijo recheado com Nutella e fizeram amor, com direito a lágrimas nos olhos. Passaram duas semanas juntos num romance inflamável, até que Glauce confessou ter fingido o orgasmo numa transa morna. Eduardo, que era orgulhoso demais para receber uma crítica sobre sua performance, deu-lhe um soco que arrancou três dentes da boca. Romperam o namoro antes de comer o empadão de palmito que estava na geladeira, mas Eduardo conseguiu pegar a barca das nove. Daí ele conheceu a Maria Eduarda.

Do bem

dezembro 30, 2015

Sandriane sempre foi desconfiada e, de uns tempos para cá, andava debochando de todo e qualquer post com lição de moral que é postado no Facebook. Não que ela fosse avessa aos finais felizes, todo mundo tem direito a seu dia de princesa Disney, mas daí para um vagão inteiro cruzar as pernas em solidariedade a um suposto menino que teria sofrido um suposto comentário homofóbico do suposto pai, “já é muito abuso da minha santa ignorância” como ela costumava enfatizar.

O problema é que o incômodo se transformou em obsessão. Sandriane começou a coletar essas historietas na timeline dos mais de 900 amigos e conhecidos, para publicar em tom de deboche em sua página de “fanfics”. É lógico que, assim como o caso do menino no metrô acabou se revelando um conto, muitas outras histórias também só existiram no reino da imaginação, mas a jovem foi ficando cada vez mais paranoica, a ponto de duvidar da própria mãe.

Em poucos dias, sua página acabou recebendo mais de trezentas mil curtidas e ela encontrou um certo conforto nos comentários, que se multiplicavam com uma espantosa velocidade. Eram pessoas que, como Sandriane, já não conseguiam ver credibilidade naqueles relatos onde senhoras aleatórias reagiam aos infortúnios de militares da reserva, tampouco nos questionamentos pouco plausíveis de crianças de seis anos de idade.

O sarcasmo generalizado ganhou forças e o exército da desconfiança liderado pela moça passou a monitorar e difamar qualquer um que postasse qualquer tipo de relato com teor positivo ou catarse. Os comentários, agora inflamados pelos debates entre descrentes e os mais esperançosos, tornaram-se uma viciante arena virtual. Sandriane estava tão satisfeita com todo o sucesso que passou a deixar que seus asseclas cuidassem da página, enquanto ela ia tocar a vida.

Ao sair do prédio para comprar um maço de cigarros, Sandriane escorregou num folhetinho da mãe Dalcira de Inhansã e bateu com a cabeça no canteiro de cacos de mármore que o porteiro havia feito, com o próprio dinheiro, para ornamentar a calçada judiada pelo descaso. O sangue escorria pescoço abaixo, quando um mendigo apareceu para ajudá-la. De sua mochila, ele tirou um kit de primeiros socorros que havia ganhado na véspera do Natal, junto com um prato de sopa e uma muda de roupas limpas.

Ao ouvir os apelos do maltrapilho, uma velhinha apareceu com um copo de água com açúcar, para acalmar os ânimos, enquanto uma enfermeira que passava pelo local tentava acionar o SAMU ao mesmo tempo em que ajudava a estancar o sangramento na fronte de Sandriane. Não tardou para aparecer um menino de seis anos, rechonchudo e com trejeitos afeminados, proferindo palavras de conforto e acalento num português impecável. Sandriane, que não havia levado identidade, balbuciava palavras sem nexo enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Era meio-dia quando se juntou ao grupo uma famosa travesti da região, que publicou no Twitter um apelo emocionado a todos os telejornais da cidade. Susana Naspolini, que passava ali por perto para cobrir a alegria dos moradores pela rua recém asfaltada, viu a hashtag e chegou em poucos minutos para cobrir aquele momento emocionante de colaboração entre desconhecidos. Com direito a link ao vivo no RJTV, a história de Sandriane espalhou-se e uma multidão acompanhava a espera pelo SAMU.

Dentre os curiosos, alguns seguidores de Sandriane testemunhavam, incrédulos, toda a comoção em torno de sua musa. Ao perceberem que a travesti estava sendo ovacionada por conseguir parar uma ambulância no meio da avenida, além do fato de Sandriane estar cercada pelos clássicos estereótipos das histórias que tanto criticavam, eles não tiveram dúvidas: sua líder cedeu aos encantos da positividade e estava traindo o movimento com a ajuda de benfeitores anônimos.

A decisão foi unânime e Sandriane foi destituída do posto de administradora da página. Aos olhos descrentes daquela comunidade onde somente o cinismo e sarcasmo deveriam ser propagados, ninguém deveria se deixar envolver por tamanha onda de altruísmo. Destruíram toda e qualquer prova de que ela havia fundado a seita virtual do negativismo e seguiram seu culto amargo rumo ao extermínio total de qualquer tipo de empatia.

Sandriane se recobrou do acidente sem qualquer tipo de sequela e parou de fumar. Guardou remorsos pela traição de seus seguidores, até o dia em que soube que estavam se estapeando até mesmo por conta de um simples “bom dia”. Com o peito leve, sentiu-se feliz em ter de volta alguma esperança no futuro e nas pessoas, mesmo que algumas continuem forçando a barra com histórias muito detalhadas e inverossímeis de acontecimentos corriqueiros.

Glória

junho 29, 2015

Glória chegou cansada do trabalho. Foi um dia difícil, e ela precisou de muita resiliência para não jogar tudo para o alto. Ligou a ducha no máximo. Queria um banho bem quente e assim o fez. Ensaboou-se com calma, sentindo a água escorrer por suas curvas até sumir na névoa que se formou dentro do box. Mesmo consciente da necessidade de economizar, ela deu-se o direito de ficar ali, numa prazerosa relação consigo mesma e envolta pelo vapor… Ao relaxar por completo, ela fechou a água e se envolveu na toalha. Enquanto se enxugava, a mente voou longe.

Seu marido entrou no banheiro, subitamente, e ao vê-la ali, nua, com um sorriso tão descansado, não hesitou em comentar: “Às vezes fico me perguntando, será que a parte da toalha em que sequei meu rosto após o banho é a mesma em que sequei a bunda?”

Glória retribuiu com um suspiro.

Antes que seja tarde

junho 19, 2015

“Essa vai pros corações solitários” sussurrou Isis no microfone, enquanto esticava o braço para alcançar seu acordeom. Usava tranças nos cabelos e as unhas eram pintadas com pequenas flores brancas. Tinha saído de Campo Grande com a tarde ainda clara e seguiu de trem até o Centro, onde pegou um táxi para Copacabana. O bom de ter chegado cedo é que poderia arrumar suas coisas com calma e deixar o palco do jeitinho que gostava. No camarim, passou cajal nos olhos, um batom levemente dourado e três borrifadas de perfume, porque nada é mais importante do que estar cheirosa. Tomou algumas caipirinhas, já nem contava mais, antes do bar encher. Esta noite, faria um especial só de canções para que sofre com os sintomas da saudade.

“Ainda penso em você, a cada manhã e cada beijo que não demos” foi o que escreveu Dado num torpedo para sua ex-namorada. Estavam separados há dois anos, mas ele não conseguia superar a distância. Até havia tentado se envolver com outras pessoas, mas o coração tem vontade própria. Nada que tivesse de novo poderia se comparar, de forma alguma, com o que tiveram. Ele ainda nutria esperanças de que, com um boa dose de tempo e saudade, ela o aceitaria de volta. Beijou a foto que ainda ilustrava sua mesa de cabeceira, com a devoção que se deve a uma santa. Suspirou, com ares de quem estivesse apaixonado e apagou a luz do quarto. Saiu do Méier pouco antes das dez, pois ainda pegaria dois amigos antes de seguir para o bar.

“Se dormir antes de eu chegar, saiba que te amo” rascunhou Janalenne num pedaço de papel de pão, que prendeu na geladeira com um ímã dos de farmácia. Vivia sozinha com a filha, numa favela de Cascadura. Mal conseguiam se ver, por conta dos horários discrepantes na luta diária pela sobrevivência. Havia largado o cigarro, e isso a deixava um pouco ansiosa. Enquanto descia o morro, ajeitou a marmita dentro da bolsa, para que não sujasse o casaco. Iria cobrir sua irmã no balcão do bar, pois estava juntando dinheiro para mandar uma ajuda ao resto da família, que havia ficado no interior da Bahia.

“E por hoje é só” disse Everaldo, agradecendo a presença de todos. Já passava de três horas da manhã, e os clientes ainda estavam animadíssimos. Tudo o que ele queria era fechar aquelas portas e deitar ao lado de Analice, sua esposa. Mas desde que comprara o bar, por mais que estivesse sempre lotado e cercado de pessoas de boa índole, o peito ardia em angústia. Tudo o que ele realmente queria era continuar com a barraca de frutas nas feiras-livres que circulam pelos subúrbios. Acordava cedo, sim, mas tinha todo o tempo do mundo para curtir a família e não sofrer com a maldita saudade.

Bonus track: Pato Fu “Antes Que Seja Tarde”