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No elevador, pelo corredor…

maio 5, 2016

Depois de ter batido pernas por toda Madureira, Jaymin chegou em casa munido de quinze sacolas e dois embrulhos. Além de ter dado um belo trato nas melenas, ele fez as unhas e também caprichou na depilação. Agora que estava trabalhando numa sauna de luxo da zona sul, o delicado mocinho precisa ousar mais no visual e causar impacto com sua produção.

Engana-se quem pensa que, por ser uma pintosa coquete, Jaymin só pensasse em futilidades. Em meio a tantas plumas e paetês, sua sala de estar é adornada por uma suntuosa estante de mogno, abarrotada de clássicos da literatura brasileira. Seus livros favoritos são os de Nelson Rodrigues, logicamente.

Jaymin é um orgulhoso morador do subúrbio e não deixa que ninguém o derrube do salto por morar fora do eixo Copacabana-Leblon.  Por conta disso, já saiu no tapa com três drags e em todas as ocasiões saiu sem um arranhão, tamanha sua agilidade. Estava quase na hora de ir para o trabalho, então ele fumou um último cigarro enquanto ouvia o novo CD da Beyoncé, debruçado no parapeito da janela.

Jaymin deu uma retocada no rímel, pegou a Louis Vitton do Paraguai e calçou o Croc azul-celeste. Saiu andando pelo corredor se sentindo a própria Natalie Portman. Por dentro, espumava de vontade de beber um refrigerante e comer uma coxinha daquelas bem gordurosas, mas precisava manter a forma e silhueta na mais perfeita harmonia. Vai que um dia aparece um gringo que o leve para a Europa?

Não esperou muito pelo elevador que, para seu deleite, chegou vazio. E quando a porta já estava quase fechando, ele escutou o apelo de uma xavasca para segurar o elevador. Como estava num dia de incomum simpatia pelo ser humano, esperou a menina, segurando gentilmente a porta. Pelo barulho que ecoava até o fundo do corredor do 13º andar, percebeu que ela estava usando salto agulha bico fino. Seu perfume chegou antes, adocicado e exageradamente popular – Avon, Natura ou Turma da Mônica, Jaymin não sabia dizer…

Toda vestida de preto, a loira entrou ofegante no elevador, agradecendo sua paciência em esperá-la. Jaymin acenou com a cabeça, aproveitando para dar uma averiguada no modelito da criatura… discretamente, por trás de meus óculos espelhados da D&G. Ela, então, começou um diálogo inusitado:

Mulher: – Estou bonita? [fazendo uma voz doce, com biquinho]

Jaymin: – Sim, está linda. [sendo ironicamente sincero]

Mulher: – Estou cheirosa? [ levantando o cabelo e mostrando a nuca]

Jaymin: – Seu perfume é bem marcante. O fixador deve ser bom. [poupando detalhes sobre a qualidade]

Mulher: – Ganhei ontem. Já está na metade. [se achando a poderosa]

Jaymin: – Eu sou meio alérgico. Prefiro os que não tem cheiro forte. [só usava CK One comprado em doze prestações sem juros]

Mulher: – Estou gostosa? Fala a verdade… [colocando o dedinho na boca]

Jaymin: – Está sim. Tomara que faça muito sucesso hoje. [todo contorcido para não gargalhar, jogando a cabeça para trás]

Mulher: – Está dizendo isso porque gostaria de me comer? [cinco segundos de silêncio depois]

Jaymin: – De forma alguma. Sou vinhado e tenho um bom senso estético. [sem desmunhecar, sem falsete na voz e escondendo o Manolo]

Mulher: – Ai, a-d-o-i-r-o-v-i-a-d-o. Vocês são muito inteligentes. [dando um tapinha nas ancas]

Jaymin: – Vai numa festa? [já desconfiando da resposta]

Mulher: – Não, vou encontrar um conhecido. [também conhecido como cliente fixo]

Jaymin: – E o maridão, ficou em casa vendo Game of Thrones? [dando de ombros]

Mulher: – Não, fofo. E eu lá sou mulher de ficar presa a um homem só? Deus me livre! [mostrando todos os dentes da boca, num sorriso largo]

Saíram do elevador e Jaymin abriu a porta do prédio para ela, que se despediu com um beijinho no rosto e uma mão sacana apertando sua bunda. Rodada que devia ser, jogou-se dentro de um taxi e seguiu na direção da Zona Sul. Jaymin até pensou me pedir uma carona, mas achou melhor ir de ônibus, mesmo. Parou num boteco e bebeu uma Pepsi Light em homenagem àquela garota, que com todos os seus desvios de moral, ainda conseguia ser mais honesta que muitos marmanjos casados que entrariam na sauna, naquela noite.

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