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Um dia Comum

julho 26, 2007

Abriu os olhos, tirou o lençol que lhe cobria o rosto, e percebeu que havia dormido com as janelas escancaradas. A claridade já invadia furiosamente seu quarto, denunciando o acúmulo de poeira sobre os móveis, além dos restos da pizza espalhados pelo piso. Sua mãe reprovaria tamanho desleixo, se ao menos pudesse ver o chiqueiro em que se transformara aquele apartamento. Enquanto reunia forças para desgrudar o corpo do colchão, esticou os dedos até o criado mudo e pegou o celular. Já passava de meio-dia…

Apontou o controle remoto para o espelho, ligando o televisor. A apresentadora do noticiário local anunciava, com um leve ar empolgação, que cinco das modelos mais famosas no mundinho fashion saltariam de pára-quedas usando somente lingerie e salto agulha. Tudo em nome de uma campanha publicitária em prol da luta contra a anorexia. O primeiro sorriso do dia brotou, de forma pervertida, em seu rosto amassado. Seria um espetáculo se pudesse conhecer uma daquelas beldades, quase desnuda, em carne, osso e maquiagem.

Sua vida, no entanto, era de um marasmo sem precedentes. O máximo que ele já conseguira se aproximar de uma celebridade foi quando ajudou Narjara Turetta a se levantar de um tombo, no calçadão de Madureira. Na ocasião, ela tentava se eleger vereadora, e estava distribuindo panfletos aos transeuntes. Nunca foi eleita. Na verdade, ninguém sequer lembra de sua candidatura, mas ele sempre comenta o ocorrido, com o orgulho de um verdadeiro herói.

Espreguiçou, sentindo a coluna estalar, e deu uma bocejada. Viu no teto uma teia de aranha meneando com a brisa, prova irrefutável de seu pouco caso com a limpeza. Lembrou-se da vez em que cogitou chamar uma faxineira, indicada pela prima do açougueiro. A cabocla cobrava oitenta dinheiros só para limpar, e mais vinte se fosse para deixar tudo brilhando, mas acabou perdendo o serviço quando se recusou a tocar na imagem de São Jorge, que adornava uma prateleira sobre a porta da cozinha.

Pulou da cama, pôs-se a caminhar até o banheiro e, ainda cambaleante, ligou o chuveiro. Enquanto esperava a água esquentar, olhou-se no espelho e percebeu que os fios brancos já lhe cobriam quase toda a cabeça. Nem mesmo seu avô tinha uma cabeleira tão acinzentada, aos setenta e cinco anos. O charme de parecer um quarentão com o rosto de um moleque, porém, era inegável.

– Se elas gostam tanto de um grisalho, porque, então, não está chovendo mulher em minha horta? Pensou consigo mesmo, cerrando os punhos e fazendo uma careta, contra a imagem refletida no espelho, já embaçado. Entrou no box, fechou a cortina de plástico e deixou a água quente bater nos ombros. Há tempos que não conseguia se envolver com uma rapariga, e aqueles banhos demorados tinham se tornado sua única fonte de prazer.

No fundo, ele sabia que não era o charme dos cabelos brancos que interessava às mulheres, e sim um bolso cheio de grana. Só que esse não era o seu caso. Morava de aluguel numa quitinete do subúrbio, não tinha carro, estava desempregado e, para piorar a situação, não se importava com nada disso. Levava a vida numa boa, sem grandes preocupações.

Desde a formatura, fazia bicos como tradutor para se sustentar. O pouco dinheiro que ganhava era o suficiente para bancar as despesas e o maldito vício no cigarro mentolado. Queria mesmo era ser escritor de novelas, mas sabia que para entrar nesse ramo é preciso ter muito mais que talento e idéias mirabolantes. Ainda assim, anunciava aos quatro ventos que ainda ficaria famoso por ter um folhetim exibido no horário nobre.

Estava se enxaguando quando ouviu um forte estouro do lado de fora. No susto, acabou saindo com espuma escorrendo pelas pernas. Enxugou-se com um pouco de pressa e correu para o quarto, temendo se tratar de um confronto entre traficantes e policiais. Pela cortina entreaberta, percebeu que as crianças continuavam brincando normalmente, e que aquele barulho não era o prenuncio de um tiroteio.

Mais aliviado, tomou um gole de coca-cola, colocou uma bermuda de cintura frouxa e foi estender a toalha no varal. Acendeu um cigarro, o último do maço, e aproveitou para recolher alguns lençóis, que já estavam secos há mais de uma semana. Foi então que a viu, estatelada, sobre o canteiro de margaridas. Tão branca, tão delicada… e tão comprida!

Não podia acreditar naquilo que seus olhos teimavam em mostrar. Era inusitado demais, até mesmo para um sonho. Beliscou o próprio braço e certificou-se de que estava acordado. Vestindo apenas calcinha de renda e soutien meia-taça, ali estava uma das modelos mais belas do mundo, toda contorcida e com os olhos semi-abertos.

Estupefato, ele permaneceu quase duas horas, completamente inerte, apenas observando-a. O que teria acontecido para aquela beldade ter um fim tão trágico? E cair justamente em seu quintal, no meio do subúrbio? Porque diabos ela não estava com o pára-quedas? Teria ocorrido um atentado, ou só uma desavença com outra modelo vingativa? Agora, de nada adiantavam as respostas. Ele precisava dar um jeito de resolver a situação.

Tentou ligar para o irmão, repetidas vezes, mas não conseguiu. O maldito devia estar em alguma de suas importantíssimas reuniões de negócios. Com medo de chamar a polícia e ser acusado de terrorismo, preferiu não arriscar. Voltou ao quintal, com um lençol branco para cobri-la, até decidir o que fazer. Como que por um milagre, ela arregalou os olhos, tossiu fortemente e resmungou algo indecifrável.

Sem acreditar no que estava vendo, correu até ela e constatou o improvável: estava viva, de fato. Visivelmente desorientada, a modelo descruzou as pernas e cobriu um dos seios, que estava à mostra por todo aquele tempo. Sem conseguir compreender sequer uma palavra do que a moça sussurrava, ele decidiu colocá-la para dentro. Com sorriso malicioso estampado no rosto, ele levantou as mãos para o céu e bradou:

– Eu sabia que esse cabelo grisalho ainda ia me servir pr’alguma coisa! Agora sim ta começando a chover mulher na minha horta!

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