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Amor materno

setembro 6, 2007

Depois de passar o dia inteiro servindo executivos num sofisticado bistrô de São Conrado, tudo o que Rosália desejava era apreciar uma boa taça de vinho tinto, ao lado de Cristina, sua filha e, consequentemente única companhia, desde o problemático divórcio. Estava tão empolgada com a idéia que decidiu fazer uma surpresa para a menina.

– Cristina, querida. Está indo para casa?
– Sim, mãe. Mas vou dar uma passada no shopping antes. Por quê?
– Ah, tenho uma surpresa para você!

Sempre muito afetuosa, Rosália prepararia um dos pratos favoritos de garota: medalhões com arroz à piamontese. Comprou um quilo de filé mignon e algumas tiras de bacon, além de temperos exóticos. Há séculos que não se dava um luxo desses, mas valeria a pena. Poucas eram as oportunidades de sentar-se à mesa, para apreciar uma refeição junto à filha. Adiantou-se o máximo que pode, para servir o jantar tão logo Cristina chegasse em casa.

– Mãe, tô aqui, hein?!
– Que bom, minha filha! Venha me dar um beijo!
– Depois! Vou tomar um banho logo, porque to toda suada!
– Não demore, querida! A surpresa está quase pronta!

Como toda mãe zelosa do subúrbio, ela terminou de por a mesa com seu esmero habitual, usando a prataria que só era vista em ocasiões muito especiais. Estava preparando-se para retirar o tabuleiro com as carnes do forno quando ouviu a filha descendo as escadas, como se fosse um foguete.

– Vou ali fora, manhê! Já volto!
– Aonde está indo, minha filha, com essa pressa toda?
– Comer um podrão, ué? To morta de fome e com preguiça de esperar!

Por alguns segundos, Rosália chegou a pensar que teria um colapso, mas só sentiu as têmporas latejarem. Apoiou os medalhões numa das bocas do fogão, tirou as luvas protetoras e tomou um gole de vinho. Com uma quase imperceptível alteração no tom de sua voz, demonstrou seu desconforto.

– Mas eu já estou com a janta quase pronta, Cristina!
– Ah, foi mal! É que eu to a fim de dar uma variada, hoje!
– Como assim, dar uma variada? Quase não conseguimos sentar à mesa juntas!
– Tava a fim de comer outra coisa, sabe? Que não fosse a tua comida, sei lá…

Naquele momento, ela precisou controlar seu primeiro impulso, quase animalesco. Por pouco, não estrangulou a própria filha. Tamanho atrevimento era motivo mais do que justo para cometer uma loucura. Mas Rosália era conhecida e admirada por sua complacência, e acabou se contendo.

– Azar o ser. Vai perder um banquete!
– Banquete? O que tem aí na fogão? Macarronada, de novo?
– Medalhão, com arroz a piamontese e temperos exóticos!

Dito isso, a mãe abriu um sorriso cheio de cinismo e apoiou a mão na cintura, como que desafiando Cristina a mudar de opinião. Visivelmente confusa, a garota foi até a porta, girou a maçaneta e, quando estava quase saindo, arrependeu-se. Fez gesto carinhoso, passando a mão por cima do peito e desabafou.

– Ai, mãe. Mudei de idéia!
– Jura?
– É! Desisti do podrão!
– E vai comer o que?
– O nosso jantar, ora bolas! Afinal, você teve tanto trabalho, né?

Rosália esboçou uma feição de agradecimento, inclinando suavemente a cabeça em direção ao ombro, e jogando uma das pernas para trás, como se estivesse sem jeito. Estendeu os braços, pegando o tabuleiro, onde os medalhões reluziam de tão suculentos, e mostrou-os para a filha.

– Isso aqui?
– Claro! Adoro o teu medalhão!
– Então coma aqui, querida!

E foram todos para a lata do lixo, num piscar de olhos. Atônita, Cristina ficou sem saber o que fazer diante daquela atitude, tão absurda e surreal. Ao olhar novamente para a mãe, notou que a mesma havia adotado um semblante totalmente atormentador. Seus olhos transbordavam ira, e os dentem rangiam, uns contra os outros.

– Mãe, a senhora ta louca? Porque jogou tudo fora? Ta desequilibrada?
– Você não disse que queria um podrão? Pois coma! Devem estar uma delícia.

De súbito, Rosália pegou-a pelos cabelos, enfiando sua cabeça na lixeira, onda há pouco jogara os medalhões, insistindo para que os comesse antes que esfriassem. Babando como um cachorro louco, vociferava descontroladamente que até mesmo um podrão deveria ser consumido enquanto estivesse quente e crocante.

– Coma tudo, sua vadia! Caso contrário, não terá sobremesa!

Continuou naquela insanidade até que a filha perdesse os sentidos, sufocada pelo cheiro do lixo misturado ao calor da comida. Rosália, então, lavou as mãos, passou uma escova nos cabelos e tomou o que restava da garrafa de vinho. Sentou-se de frente a janela e pediu um Bic Mac pelo telefone. Sem pickles, logicamente, pois pepino lhe causava gases.

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