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Trauma natalino

dezembro 11, 2007

Clarinha passou a odiar festividades natalinas e axé music quando, aos oito anos de idade, pediu uma boneca Barbie ao Papai Noel e acabou ganhando um disco da Banda Eva autografado. Seus pais pensaram que eram lágrimas de felicidade, e se deram por satisfeitos. Naquela noite, ela adormeceu chorando, em silêncio, e ninguém jamais soube de sua decepção.

Uma década se passou e nem o tempo foi capaz de curar aquelas feridas. A moça, crescida e então estudante de artes plásticas, aborrecia-se já no começo de dezembro, assim que o primeiro vizinho enfeitasse uma fachada com aquelas milhões de lâmpadas pisca-pisca. A simples menção de qualquer coisa relacionada ao assunto, a deixava irritada.

Este ano, entretanto, um dilema se instaurou no coração de Clarinha. Ela, agora, estava namorando um rapaz de família, cuja tradição de ornar a casa para o Natal era um evento quase que obrigatório. Por alguns dias, ela refutou a idéia com todos os argumentos possíveis, chegando a forjar uma crise de diarréia, para não ter de participar dos deprimentes preparativos.

O namorado, sempre muito atencioso e tranqüilo, insistiu até não mais poder, ao que ela mostrou-se irreversível. Chegaram a ficar alguns dias sem se falar direito, até que o amor acabou falando mais alto. Temerosa de que sua resistência daria cabo do relacionamento, Clarinha permitiu-se, uma única vez, ir contra seus ideais. Só pediu para que não a obrigassem a usar o gorrinho vermelho, pois isso já seria abuso.

Chegado o momento de emperiquitar a casa, optaram por deixá-la encarregada das mangueiras luminosas, por ser tão hábil com as artes e pra lá de criativa. Praticamente leiga no assunto para o qual fora designada, Clarinha não perdeu a classe e resolveu procurar algumas imagens festivas no computador do namorado.

O que ela encontrou, no entanto, foi algo terrível. Seu amado iria presenteá-la com toda a discografia de Ivete Sangalo, em cujo embrulho encontrava-se um bilhetinho, onde se lia: “Para quem perdeu o medo do Natal, não custa nada tentar ouvir a Ivetão. Com amor, Deolindo”. Indignada com aquela afronta, a moça desceu as escadas sem soltar um pio, e prometeu uma belíssima surpresa, para a noite de festa.

Ela passou dois dias totalmente reclusa na garagem, armando as mangueiras luminosas num enorme suporte de arames. Todos que tentavam aproximar-se, eram rapidamente despistados pela obcecada rapariga. Até Deolindo estranhou tal agressividade, mas resolveu não confrontar, pois acreditava tratar-se de algo fenomenal.

Passaram-se duas semanas, e todos eufóricos com a chegada do Natal. A ceia já exalava diferentes aromas pelo quintal, e Clarinha finalmente resolver ligar o interruptor de sua obra de arte, para a família do moço. Qual não foi a perplexidade de todos ao verem, pela primeira vez, o resultado de tanto esforço. Ela havia traçado um Papai Noel sorridente currando uma rena cotó, cujo nariz vermelho piscava alucinadamente.

Com um sorrisinho cínico no canto da boca, ela despediu-se de todos, carregando duas garrafas de espumante e um pacote de amendoins. Comemorou, sozinha, depois de tantos anos, o melhor Natal de sua vida. E lá pelas tantas, absurdamente embriagada, cantarolou baixinho: “Arerê, um lobby, um hobby, um love com você… Arerêe”

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