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Calvário

janeiro 21, 2008

Numa cama de hospital enferrujada, com lençóis de bordas puídas, Dona Zildete aguardava a fatíca chegada da morte em tom de inexorável apatia. Sofrendo há décadas com um caso crônico de diabetes, ela sempre teve muitos cuidados com a saúde, e tinha ampla noção dos perigos que tal deficiência poderia acarretar. Mas o excesso de zelo não a impediu de cortar profundamente a língua, numa tentativa imbecil de lamber a tampinha de alumínio que cobria o pote de iogurte light, sabor papaya com sementes de girassol.

Internada, para conter tal hemorragia, a pobre senhora acabou sendo contaminada por uma bactéria devastadora, que em poucos dias destruiu todo o sistema imunológico, e ainda a deixou levemente abobalhada. Seus dias de vida estavam se esvaindo, como a areia que escorre por entre os dedos de uma criança que brinca na praia. Ao saberem que já não lhe restava muito tempo de vida, os parentes trataram de se preparar para o pior.

O advogado foi chamado, com um certa urgência, para tratar do testamento, que ainda não fora totalmente redigido. Com muita dificuldade, ela enumerou todos os bens e seus respectivos herdeiros, causando um certo burburinho dentre os menos privilegiados. A filha caçula, por exemplo, ficou com uma coleção de tartarugas empalhadas, e nada mais. Até Adélia, que fora adotada, teve mais sorte e ficou com o Chevette vermelho com bancos forrados em couro de alto brilho.

Ao perceber que o seu fim estava próximo, a enfermeira de Zildete recomendou que as crianças fossem brincar no gramado, com uma excursão de pequenos mongolóides. O advogado, cujos honorários já estavam quitados, perguntou em tom angelical qual seria seu último desejo. A velha tossiu repetidas vezes, e então fechou os olhos.

Uma das noras, Saraline, caiu no pranto e começou a gritar, porque velha havia morrido sem realizar sua última vontade. Todos soluçavam sem muito alarde, até que Zildete reabriu os olhos e tossiu mais uma vez. Farta de todo aquele calvário, a moribunda segurou na mão da enfermeira e sussurrou, bem baixinho:

– Eu quero morrer sendo sodomizada por um michê bem robusto, negro, que cobre caro, tenha cavanhaque e cabelos crespos. Se eu partir antes dele gozar, peça que despeje a porra sobre meu rego, e pincele com a chapeleta. Só então, me declarem morta. Mas, por favor… peça para que paguem o rapaz em dinheiro!

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