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Raspas e restos

fevereiro 25, 2008

Hercilia enlouqueceu, de uma hora para a outra, sem motivo aparente. A mulher que, antes, era uma profissional dedicada e eficaz, transformou-se numa maltrapilha desequilibrada. Deixou de tomar banho, escovar os dentes e lavar os cabelos. Andava pelas ruas completamente desgrenhada, comendo restos de comida e rolando na lama.

Uma semana se passou, e ela já não voltava mais para casa. Um mês depois, não lembrava mais do próprio nome, e já havia perdido suas roupas. A família deixou de procurá-la, passados seis meses do desaparecimento. Completamente alheia ao mundo ao seu redor, Hercilia vivia num aterro sanitário, nua, com um bando de urubus.

Passou semanas observando o turbilhão de aves negras revoando vertiginosamente sobre pedaços de carniça, alimentando-se de restos e lixo, quando avistou, no meio de uma pilha de entulhos, um long-play do Benito Di Paula. Foi aí que ela recobrou a lucidez e deu-se conta do estado em que se encontrava. Aterrorizada, saiu em disparada, tropeçando na carcaça de um cavalo.

Os urubus, de quem tanto cuidou durante todo aquele período, não pestanejaram. Formaram uma imensa nuvem negra, rodopiante, e comeram-na, juntamente com os restos do animal. Levaram apenas alguns minutos para que eles se dissipassem. Não sobrou nada, a não ser o disco. Mas ela ficará para sempre em suas lembranças, como o melhor banquete que já tiveram.

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