Skip to content

Um amor de família

março 6, 2008

Marcio e Marcela eram primos, e moravam na mesma vila, à beira de um córrego. Apesar de terem sido criados como irmãos, os instintos falaram mais alto e eles acabaram se bolinando, sempre enfurnados em cantos escuros, trocando carinhos e fluidos corporais. “Vai nascer filho torto”, alertava o avô Belarmino.

Aos treze, ela engravidou do primo e a família teve seu primeiro grande susto, que fora batizado de Marcilio. O guri tinha uma cabeça absurdamente desproporcional em relação ao corpo, mas foi amado como uma criança normal. “Esse aí vai pensar duas vezes, antes de se meter em problemas”, dizia o avô Guadalupe.

O bebê nem desmamou e a safada já estava prenhe, novamente. Nove meses se passaram e eles tiveram uma filha, Marcelina. Diferentemente do irmão, ela não tinha uma cabeçorra, mas nasceu com um par de olhos sobressalentes. “Ela verá a vida com outros olhos”, dizia a tia Cosmerinda.

Por conta de uma inconseqüente gozada nas coxas, Marcantônio veio ao mundo um ano depois dos nascimento da irmã. Esmirrado e prematuro, tinha uma cauda peluda brotando no fim da coluna vertebral. Cresceu saudável, e tornou-se um diabinho. “Quando faz merda, vem com esse rabo entre as pernas”, exclamava uma vizinha embriagada.

Os rebentos já estavam grandinhos quando Marcela embarrigou, mais uma vez. O casal, que já havia conseguido se acostumar com as estranhezas de sua prole, não sabia por qual novidade deveriam esperar. Dessa vez, seriam quíntuplos. Cinco chances de trazer ao mundo outra aberração… e não deu outra.

Marcelle, Marcus, Marcondes e Marcirenne nasceram acoplados, em forma de ciranda. Tanto que, para mamarem, era preciso revezar as tetas, de dois em dois. Agenor foi o único sortudo, que veio ao mundo sem deficiência alguma. Talvez por isso tenha sido agraciado com um nome diferente. “O patinho feio tornar-se-ia, então, um lindo cisne, de penas sedosas e brilhantes”, lia a mãe, para sua prole.

Vinte anos se passaram, e todos conviveram bem com suas esquisitices. Marcio e Marcela finalmente se casaram, ao fundarem a Igreja Hexagonal do Amanhã Vindouro. Marcílio abriu uma fábrica de chapéus, Marcelina era dona de um consultório oftalmológico, Marcantônio tornou-se gerente de uma pet-shop e os quatro siameses inauguraram um centro espírita.

Só Agenor que, por sentir-se excluído daquela família bizonha, não agüentou a pressão. Jogou-se da ponte e caiu de cabeça numa pedra. Ficou paraplégico e meio abobalhado, mas não morreu. E depois de tanto suplício, enfim, encontrou seu lugar dentre seus entes. E todos quase foram felizes para sempre, se os siameses não tivessem resolvido começar tudo de novo…

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: