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Passado a limpo

dezembro 29, 2008

Há apenas dois dias do reveillon, e sem qualquer perspectiva de como iria passar a virada do ano, Rojane resolveu fazer uma retrospectiva do que acontecera em sua vida nos últimos trezentos e sessenta e cinco dias. Pegou um caderno velho, que costumava usar para anotações e devaneios, e com uma caneta vermelha pôs-se a escrever furiosamente.

Começou pelas desavenças, que foram muitas. Desde a briga com o dono do aviário, que insinuou vender suas primas a preços módicos, até o colega de trabalho, com quem rompeu relações ao descobrir que o maldito a envolvera numa orgia fantasiosa. No fim das contas, Rojane perdera muitos amigos, mas economizou com os cartões na Natal.

Em se tratando do coração, no que diz respeito aos sentimentos melosos, ela teve algumas paixões. Seus relacionamentos sempre foram muito impulsivos, aliás. Namorou com alguns deles, mas só houve um com o qual ela desejou compartilhar um futuro em comum. Ele teria sido perfeito, se Rojane não o tivesse afugentado com a infeliz idéia de morarem juntos num conjugado em Bonsucesso.

Em seu aniversário, a moça descobriu que fora adotada. E como se isso não fosse o bastante, soube que seus pais verdadeiros a trocaram por um terreno em Padre Miguel. Chorou copiosamente, até se dar conta de que tudo poderia ter sido bem pior. Se a tivessem trocado por uma Variante azul, por exemplo, ela jamais teria como encontra-los, e também não teria como vomitar todos os traumas que carregara pela vida, inconscientemente. Pelo menos eles tinham um pomar, do qual levou algumas mangas maduras.

Rojane também ganhou alguns quilinhos, mas perdeu quatro dentes. Tudo porque se distraiu com um belo moreno, enquanto descia as escadas tumultuadas da integração do metrô. Por sorte, ele era dentista. E nem cobrou caro pelo serviço. Mas infelizmente, para ela, o rapaz já estava de compromisso com um bartender.

Ao colocar tudo na balança, entretanto, Rojane teve um ano feliz. Estava solteira, endividada, e tomando antibióticos, mas fora desejada, abraçada, querida pelos amigos que lhe restaram e ainda cabia naquela calça apertada que a deixava com jeito de perigosa. Talvez não tivesse cometido algumas gafes, mas no fim de tudo, não se arrependia de nada.

Resolveu, então, que iria estourar sua sidra com as colegas de lambaeróbica, numa laje com vista para os fogos do piscinão de Ramos. Lá, fariam um churrasco, só para os mais chegados. Rojane ficou de levar o molho vinagrete, mas comprou dois frangos assados para fazer uma surpresa e sair bem na fita. Quem sabe, assim, não teria mais sorte em 2009?

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