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gerundismos

janeiro 8, 2009

Aquela foi a primeira ligação que Analice recebeu no ano. Acordou com o telefone tocando e, sonolenta, nem percebeu tratar-se de um número restrito. Do outro lado da linha, uma voz feminina com sotaque carregado parecia cintilar.

– Bom dia! Aqui é Creidiane da Silveira, da editora Guanabarino. Com quem eu estou falando?
– Err… bom dia. É que eu estava dormindo…
– A senhora poderia estar me informando o seu nome, senhora?
– Senhora não, por favor… tenho só 25 anos… e meu nome é Analice.
– Pois bem, senhorita. Posso estar tomando cinco minutos de sua manhã?
– Já tomou dois. É melhor ser concisa… Creidilene, correto?
– Crediane da Silveira, da editora Guanabarino.
– Ok…
– A senhora sabe que a reforma ortográfica vai estar entrando em vigor a partir de hoje?
– Sim, eu sei…
– Pois a editora Guanabarino tem o orgulho de estar oferecendo algo de muito útil, que a senhora poderá estar adquirindo neste exato momento: a cartilha de re-alfabetização para adultos. Por apenas quarenta e nove dinheiros, a senhora poderá estar recebendo em casa não só a cartilha com todas as novas regras ortográficas, como um lindo estojo de crochê, na cor que mais estiver desejando.
– Creidilene, queri…
– Creidiane da Silveira, senhora. Da editora Guanabarino.
– Isso, Creidinane! Você, por acaso, já leu cartilha? Está por dentro de todas as novas regras?
– Senhora, as novas regras só vão estar entrando em vigor a partir de hoje, então…
– Então, já entraram. E eu ficaria muito contente se você parasse de usar o gerúndio comigo.
– Gerúndio? Senhora Analice, esta ligação está sendo gravada. Caso queira faz…
– Eu quero que você, Creidiane, pense duas vezes antes de oferecer essa maldita cartilha para mais alguém antes de se informar sobre a forma mais adequada de abord…
– Obrigada pela atenção, senhora Analice. Estaremos anotando suas sugestões para que possamos estar melhorando e ampliando a sua satisfação. Bom dia, e feliz ano novo. É o que vai estar desejando a editora Guanabarino, e todos os seus colaboradores.

Estupefata, Analice desligou o telefone e tentou dormir novamente. Mas aquela ligação a deixara um pouco desorientada e aborrecida. E por alguns minutos, ela desejou ardentemente que alguém tivesse a feliz idéia de tornar o gerundismo um crime hediondo.

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