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um dia quente

janeiro 19, 2009

O sinal havia mudado do vermelho para o verde, mas algumas pessoas arriscaram atravessar, assim mesmo! Solange estava agachada, afivelando a sandália de couro, quando o avistou, do outro lado da rua. O coração quase lhe escapuliu goela afora. Ali estava o homem por quem fora apaixonada durante tantos anos. Cabelo engomado, barba bem feita, terno risca-de-giz e maleta de couro em punho… “Como ele está lindo, meu Deus!”, pensou a morena, agora ajeitando a alça do soutien.

Os olhares cruzaram-se e, então, veio um arrepio. Ela tentou disfarçar, chacoalhando os cabelos cacheados. Olhou para o sinal, depois de volta para o moço. Uma onda gélida percorreu sua espinha, e ela entrou em pânico ao lembrar que havia se esquecido de passar o baton. “E se ele me reconheceu? Eu fico horrorosa sem baton! Que merda!!”. Meteu a mão dentro da bolsa e vasculhou cada compartimento. Acabou encontrando uma amostra grátis, na cor rubro delírio, que foi de grande serventia.

Foi então que besuntou os lábios, rezando para que não estivesse se borrando. Precisava dar um jeito na vida e comprar um estojo decente de maquiagem. Algo de qualidade! “Sempre maltrapilha. Vai ver é por isso que estou há tanto tempo encalhada ”, criticou-se silenciosamente. Ao perceber que o sinal estava para fechar, ajeitou o cabelo mais uma vez, e fez cara de acaso. Como se acaso existisse, enfim…

“Quando ele estiver atravessando, vou dar-lhe um esbarrão e deixar cair todas as minhas coisas . Não tem como esse puto não me reconhecer!” calculou, perversa e matreira. Sinal vermelho, pisou firme na faixa de pedestres e pôs-se a marchar. Galopou, de tão empinada! Conforme o planejado, deu-se o esbarrão. Ombros se encontrando em branda violência, como que numa coreografia mal ensaiada. Para tornar o momento mais dramático, Solange foi ao chão.

O rapaz, com um ar preocupado, abaixou-se para ajuda-la. Solange fez um ar de desolação e comprimiu os olhos. Parecia sentir dor, mas era tudo teatro. Prontamente, ele segurou-a pela mão e sorriu. Educadíssimo, um verdadeiro cavalheiro a corteja-la. Naturalmente, a rapariga ficou ruborizada com aquele gesto, e sabe-se lá porque, danou a rir como uma louca. Escangalhou-se em uma gargalhada, colocando as mãos sobre a barriga!

Ela ria sem parar, até que começou a ficar vermelha. Estava visivelmente descontrolada, trêmula. Um pequeno tumulto formou-se ao redor do incidente. O rapaz começou a se assustar com a reação de Solange, que arregalou os olhos e ardeu em chamas. Pegou fogo, literalmente. Foi o primeiro caso de combustão espontânea ao ar livre testemunhado por algumas centenas de pessoas no Rio de Janeiro. Pelo menos ela morreu sem saber que Adaílton, a razão de seu afeto, havia casado com outro homem e estava na fila para adotar um pug estrábico da Micronésia.

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