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mulher, sempre mulher

janeiro 26, 2009

Ela abriu o ferrolho e deixou que a brisa vinda do corredor empurrasse a porta, naturalmente. Só assim conseguia arejar o apartamento, de pequenas janelas e piso de tacos, alugado há tanto tempo que já sentia como sendo seu. Precisava respirar, pois sentia-se sufocada pelos pensamentos compulsivos, que reverberavam em sua cabeça, desde a briga que tiveram na noite passada.

Não conseguira dormir direito, fritou na cama como um bife na chapa, e acabou devorando um livro inteiro da Coleção Vagalume, sem pregar os olhos. Quando percebeu, já estava o sol raiando por detrás dos prédios, e sua rotina precisava recomeçar. Lavou o rosto, como se água fria lhe conferisse algum ânimo, soltando um longo suspiro. Ah, aquela briga… maldita lembrança que teimava em voltar…

Armou a tábua de passar roupas e ligou o ferro elétrico, que demorava cerca de dez minutos para esquentar. Pensou nas palavras ásperas que lhe foram ditas, e cerrou os punhos. Queria socar as paredes, mas não era dada à auto-flagelação. Desamarrotou uma bata para si, e uma blusa vermelha para ele, que ainda dormia. Pensou seriamente em deixar o tecido queimar, mas isso já seria sandice.

Ela já estava coando o café quando o viu despertar, esfregando as mãos nos olhos para tirar as remelas. Entreolharam-se, em silêncio, e assim permaneceram, até que ele saísse do banho, largando a toalha molhada sobre a cama, como protesto. Foi quando ela perguntou se queria manteiga no pão, recebendo uma negativa. O nó entalado na garganta parecia então crescer…

Quando já estavam no elevador, ele abriu mão de seu orgulho e abraçou-a. Não pediu desculpas, mas sorriu de um jeito sereno. Isso já era um grande avanço, para quem costumava ficar dias e dias com a cara fechada. Seus olhos marejaram, e ela segurou-o pela mão. Ainda não conseguia administrar sua mágoa, mas admitiu: – Olha, eu posso não ser completa como aquela mulher, mas sou muito digna! Se te pego batendo punheta pra vizinha mais uma vez, pode ter certeza que te castro na gilete, seu pervertido.

Despediram-se na portaria com um beijo contido, e seguiram em direções opostas. Ele, com ar sacana, sorria como quem tivesse ganhado na loteria. Ela, melancólica, soluçava consigo mesma, por saber que mesmo tendo seios roliços e cabelos compridos, jamais seria capaz de oferece-lo a sensação pavorosa que é discutir com uma mulher de verdade, quando esta tem plena consciência de que está coberta de razão e com as unhas bem feitas.

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