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encontro macabro

fevereiro 13, 2009

Passava de meia-noite quando o telefone de Keyla tocou. Não foi propriamente um susto, pois seu irmão costumava ligar naquele horário, já que as tarifas para interurbanos ficavam mais baratas na madrugada, e podiam conversar sem se preocupar com a conta. Ela, que já estava pronta para dormir, atendeu a ligação em tom de alegria. Do outro lado da linha, entretanto, era seu namorado, Frediney, quem tinha novidades…

“Feliz sexta-feira 13!! Hoje é dia de maratona, madrugada adentro!! Tá preparada?!” – gritou ele, empolgadíssimo. “Já comprei dois hamburgões na Tia Célia e uma Coca de dois litros! Vem pra cá, gata! Agora!” Keyla olhou para camisola que vestia, para a cama pronta e o para edredon que a esquentaria. Pensou por alguns segundos e foi categórica: “Desculpa, gato. Agora não vai dar. Tenho prova logo cedo, e meu pai vai estranhar se eu sair na madruga. Mas a gente pode fazer a maratona à noitinha, ainda vai ser sexta-feira 13…”

Do outro lado da linha, um silêncio incômodo. Frediney havia criado a tradição de assistir a pelo menos dois filmes de terror na madrugada de uma sexta-feira 13, com muita comida, refrigerante e prevaricação. Mas a recusa de Keyla o deixou aborrecido. Aquela data era mais do que especial para ele, não havia justificativa plausível para se desmarcar. Absorto dentro de sua decepção, ele não se conteve: “Pois eu vou me besuntar com chantilly e bater punheta sozinho! Tá me ouvindo?!”

Aquele era o código para Keyla deixar de lado qualquer resistência de lado. Muito contrariada, ela bufou e acabou trocando de roupa. Como o namorado morava duas ruas abaixo, ela nem calçou o tênis, e foi de chinelo mesmo. Chegando lá, encontrou a porta destrancada, como sempre, e entrou. Numa cena típica de comédia pastelão, a moça o flagrou completamente nu, com a porta da geladeira aberta. “Se você acha que a gente ainda vai ver algum filme, pode ir voltando pra casa, Keyla. To bem sozinho, aqui!”

Aquele misto de frustração e raiva a deixou ainda mais excitada. Com seu jeitinho sacana e lépido, ela pulou para cima de Frediney e beijou-o com sofreguidão. Seus corpos entrelaçaram-se no chão da cozinha, derrubando cadeiras e potes de biscoito. Fizeram amor como aquela fosse a última vez e, de fato, era. O pai de Keyla – pastor de uma igreja evangélica e portador de distúrbio bipolar – a seguira até lá. Como a porta estava aberta, observou a tudo, sentindo o asco preso na garganta, e com um facão bem amolado, acabou com a raça dos safados.

Coberto de sangue, ele fez uma oração e depois destrinchou o casal, colocando-os dentro do freezer, em recipientes individuais, higienicamente lacrados. Lavou as mãos na pia do lavabo, limpou o facão com sabão em pasta, orou mais uma vez, e já ia saindo, quando avistou os dvds da série “Sexta-feira 13” sobre a mesinha da sala. Ao perceber do que se tratavam, murmurou para si mesmo, como um velho babão: “Mentirada da porra! Não sei como perdem tempo vendo essas bobagens…”

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