Skip to content

o sabor

fevereiro 16, 2009

Primeiro dia de aula, depois da rotina desregrada das férias. Acordaram cedo, tomaram café da manhã e depois arrumaram a mochila. Na merendeira, um suco de uva e mirabel de morango serviriam para matar a fome no recreio. Dalva estava nervosa por reencontrar sua turminha, e por isso não conseguiu terminar o almoço. Seguiram pela rua de paralelepípedos, e o calor escaldante foi a desculpa de Eliane para fugir da dieta e inventar que deveriam tomar um sorvete. “Só para refrescar, Dalvinha”. A menina sorriu, e aceitou a oferta da mãe.

“O meu é sabor de coelho!”, pediu ao balconista. “Sabor de coelho? Esse não tem.” Diante da negativa, ela insistiu. “Quero o meu sabor de coelho!” Cruzou os braços, fez birra e franziu a testa. Impaciente, Eliane ameaçou ir embora quando a pirraça piorou. “Eu quero de coelho, eu quero de coelho, eu quero de coelho!” A menina esta irredutível quanto à sua escolha, e não demorou muito para começar a espernear-se pelo chão, batendo com a cabeça no pé da mãe. O rapaz até tentou esculpir um maldito coelho sobre a casquinha, mas não era exatamente aquilo que ela queria. “Isso não é de coelho!”

Desistiram do sorvete e Dalvinha ficou na escola, com semblante emburrado. Justo ela, que nunca fora dessas coisas, entrou com os bracinhos cruzados e uma “tromba” de meio metro. No caminho de volta, Eliane refletiu sobre o comportamento da infante e teve uma idéia. Passou no mercado, fez algumas compras e já chegou preparando o almoço. Quando a pequena voltou da escola, sob a tutela de Tia Izenilce, encontrou a mãe fatiando cenouras, com um sorriso rasgado no rosto. Seus olhos brilharam como estrelas, e ela exclamou, cintilante: “Mamãe, você conseguiu o sabor de coelho!”

“Então é isso? Cenoura é o tal sabor de coelho?” A menina acenou com a cabeça, afirmativa. “Vá tomar um banho, que você está fedendo a galinha. Tem um surpresa no forno pra você!” Dalvinha correu para a suíte, e quase esqueceu de enxaguar os cabelos, de tão entusiasmada. Sentiu um cheiro diferente vindo da copa, que a deixou com a boca cheia d’água e os dedos nervosos. Desceu as escadas em disparada e, então, deu de cara com uma das cenas mais grotescas e vis de sua vidinha. Em cima da mesa, um coelho assado, com a pele dourada, e uma cenoura cravada na boca.

Em estado de choque, ela sequer conseguiu chorar. Ficou parada, atônita, olhando para aquele bicho assado e fumegante. Eliane, desesperada, jamais poderia imaginar que a filha ficaria tão apavorada com o almoço. Sacudiu-a, abraçou-a e, por fim, jogou um copo de água gelada na cara da menina. Só isso para tira-la do transe. E então veio o pranto. Um choro que perdurou até a noitinha, quando Rogério chegou do trabalho. Foram seis semanas até que Dalvinha perdoasse a mãe. E mais alguns meses para esquecer que seu bichinho de estimação fora cruelmente levado ao forno, sem ao menos ter a chance de se despedir. Aquele trauma a tornaria, anos mais tarde, uma terrorista do Peta, onde seu maior feito fora o envenenamento de 700 pessoas num cruzeiro, ao servir carne de coelho com estricnina.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: