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Fé na folia

fevereiro 20, 2009

Quando seus pais anunciaram que toda a família iria passar o carnaval num retiro evangélico, Thaís murchou. Mesmo tendo sido criada sob as rigorosas imposições da igreja, a moça gostava de cair nos blocos, sambar, suar e entregar-se à lascívia que rola solta na festa pagã. Tudo isso na encolha, logicamente. Ninguém poderia saber que ela, moça devota e comportada, escapava na surdina da noite para se vulgarizar com desconhecidos.

No culto daquela noite, ela não orou. Tudo parecia estar perdido, até que sua avó caiu doente, acometida por uma pneumonia que a deixou de repouso absoluto, bem na semana que antecede o carnaval. Tão alta era sua febre, que a velha começou a ter delírios, onde a neta se esfregava compulsivamente em criaturas demoníacas. Cogitou-se, então, adiar a viagem, para que ela fosse internada.

Foi aí que a mente fervilhante de Thaís entrou em ação. Como sempre fora muito prestativa e afável, ofereceu-se para cuidar da avó, enquanto a família poderia fugir dos pecados carnais que os incultos cometeriam naqueles dias infernais. Se a coroa piorasse, Thais ligaria para avisar e eles voltariam. Simples assim. Mas todos tinham certeza de que as orações de fé e devoção da netinha favorita surtiriam efeito.

Sem desconfiar de nada, a familia partiu ao encontro da paz. Thaís, por outro lado, cuidou apressadamente da avó e caiu na pista. Com um shortinho jeans que mais parecia um cinto, jogou-se na depravação e se entregou aos mais impuros dos homens. Beijou na boca, mostrou os seios, sambou até não mais conseguir se manter de pé. Voltou para casa trocando os passos, com um chupão no pescoço e a virilha em chamas.

No dia seguinte, acordou com uma puta ressaca, mas um coquetel de cápsulas estimulantes e sucos a trouxe de volta à vida. O mesmo não poderia ser feito por sua avó, que estava caída no chão, estatelada, dura que nem pedra, mortinha. A velha deve ter tentado ir ao banheiro e não agüentou voltar para a cama, no que desfaleceu. Assustada, Thaís nem tocou no corpo, e correu para o telefone. Chegou a digitar alguns números, quando ouviu o bloco chegando, ao longe. Desligou o aparelho e pensou, por alguns instantes.

Naquele dia, ela teve a certeza de que sua alma pertenceria mesmo ao inferno, por toda a eternidade. Como não havia mais nada a fazer pela velha, colocou-a de volta na cama, ligou o ar-condicionado no máximo e voltou para o ritmo frenético da bagunça. O frio manteria o corpo longe da putrefação, enquanto Thais aproveitaria aqueles dias de festa sem culpa alguma atazanando suas idéias. E ela pulou o carnaval como uma desvairada. Cometeu indecências e se perdeu na luxuria retumbante.

Na quarta-feira de cinzas, exausta, ela acordou ao meio-dia em ponto. Estava tão desidratada, que bebeu uma coca-cola de dois litros sozinha, soltando um longo arroto. Como não haveria mais bagunça pelas ruas, nem blocos ali por perto, ligou para o pai e avisou sobre o falecimento da avó. Sorriu um pouco, por ter curtido a vida sem amarras. E depois chorou, também, pois nem todo folião é de ferro.

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