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o triste fim do gato rajado

maio 13, 2009

Tinha um gato morto na caixa d’água. Mas ninguém sabia. Todos reclamavam da fedentina que tomou conta do quintal, mas não suspeitavam de que, lá dentro, o bichano estava em decomposição. Procuraram em todos os cantos, mas não descobriram de onde vinha aquele cheiro horrível de coisa podre. E daí começaram as acusações. A troca de farpas. Os insultos. Cada um com o seu cada um. Só que ninguém arredou pé. Criticaram-se, xingaram-se, violentaram-se, mas não descobriram o corpo do bicho boiando na água. A velha surda só gritava coisas aleatórias, a loira manca apontava pra vizinha de cima, e esta dava de ombros, como quem não tivesse nada a ver com o furdunço. Os dedos apontavam para tudo que é lado, mas não era de ninguém a culpa pelo fedor. Só do gato. Que foi curioso e caiu na água. Ele morreu afogado, porque não sabia nadar. E lá estava: inchado, verde, despedaçando-se. Ele só queria ser acariciado. Ele só sabia ser pajeado. Mas ninguém vive de elogios e afagos. Foram semanas até que o encontrassem, mas aí já não tinha mais jeito. Haviam bebido daquela água e, agora, cada um carregava dentro si um pouco do bichano. Finalmente ele conseguiu o que tanto queria. Ser de todos. E não ser mais nada…

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