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a falta que você me faz

junho 16, 2009

Ontem à noite, Maria Cristina estava impossível. Chegou do colégio eufórica, com uma energia própria de criança que começa a desvendar o seu lugar no mundo. Corria pela casa, agitadíssima, contando as novidades que permeavam seus pensamentos mais festivos. Eu, na medida do possível, tentava prestar atenção, enquanto organizava a papelada daquele processo que vem, aos poucos, me tirando a lucidez.

Passado algum tempo, a menina foi se acalmando, e eu pude me concentrar melhor. Sozinha, Maria Cristina colocou um disco para tocar, e pegou um pacote de rosquinhas com leite. Ela adorava sentar-se com o pai no chão da sala, onde devoravam guloseimas enquanto ouviam canções antigas. Talvez ela esteja aprendendo a superar sua ausência, não sei ao certo. Agora compreendo, e sinto, a falta que ele nos faz.

Lá pelas tantas, ela largou tudo para vir me abraçar, sem soltar um pio. Senti seu coraçãozinho batendo retumbante, estava emocionada. Com um sorriso inimitável estampado no rosto, me chamou para “brincar de sonhar”. Perguntei se já estava com sono, afinal eram quase dez horas. Mas não. Ela queria mesmo que eu fosse para o quarto, onde sonharíamos acordadas até não mais poder. Tentei negociar, mas não tive sucesso. Só pedi alguns segundos para guardar as pastas em minha bolsa, e lá estava ela, aflita, já vestindo seu pijama de flanela.

Assim que entrei no quarto, ela me perguntou o que eu faria se nossa casa amanhecesse repleta de cãezinhos. E daí começou a tagarelar, imaginando-os rolando pelo carpete, latindo e rosnando para nosso gato rajado, que já idoso, não suportaria tamanho furdunço. Depois, ela imaginou um enorme chafariz de chocolate no jardim, onde passaríamos horas nos lambuzando. Com os olhos fechados, Maria Cristina lambia os dedos e batia as pernas, como quem estivesse mesmo deliciando-se com tudo aquilo.

Do nada, ela me questionou se não estava achando graça na brincadeira. Afinal, se fosse para brincar sozinha, conversaria com suas bonecas. Pode ser que a pequena tenha notado meu distanciamento, atendo-me só a ouvir suas mirabolantes viagens… A verdade é que não conseguia parar de pensar em Ernesto, depois de vê-la sentada com os biscoitos. Aquele hábito era tão deles, e só de me lembrar de toda a rispidez que nos envolveu até a última vez que nos falamos… acabei desmoronando.

Ao notar minha tristeza, Maria Cristina teve a sagacidade de não se deixar levar pela maré, e me perguntou se também sonhara com ele, seu pai, à beira da tal fonte. Eu respondi que sim, com a cabeça, e ela contou que ele estava vestido de branco, todo sujo de chocolate. Justamente o que ele foi comprar naquela noite, quando ensaiava um pedido de desculpas. Mas era eu quem devia ter de me perdoar. Por tê-lo forçado a sentir-se culpado. Por tê-lo feito sair e não mais voltar. Por ter causado em minha filha uma falta que jamais poderá ser substituída…

Com inumeráveis e indescritíveis sensações correndo pelo meu corpo, resolvi cair de cabeça naquele jogo. Sonhei que nós três vivíamos numa colina forrada de margaridas e arbustos, com cães, gatos e renas vivendo livres e dóceis. Tínhamos um poço, de onde era possível puxar baldes e mais baldes de morangos, e uma amendoeira gigante fazendo sombra no gramado. Não precisávamos de dinheiro, nem de televisão, e ao entardecer, ganhávamos asas, para voarmos sobre um lago tão azul quanto céu.

Maria Cristina me interrompeu, bruscamente, dizendo que eu passara dos limites. Ela até compreende que eu sonhe em voar, mas viver sem televisão seria imperdoável. A pequena cruzou os braços e fez bico, afirmando com veemência que a brincadeira havia acabado. Quem diria… tão pequena e já estava viciada na mídia do escândalo. Sem potencializar o assunto, voltei a falar de Ernesto… depois de muito custo, um sorriso brotou novamente em seu rostinho angelical. E então mergulhamos os três, novamente, naquele mar de chocolate, até adormecermos e sonharmos, de fato, com uma vida que infelizmente não voltaremos a ter.

Bonus track: Greg Laswell “Girls Just Wanna Have Fun”

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