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quase no picadeiro

junho 22, 2009

Foram cinco anos de muita ralação, onde esforços sobre-humanos, dezenas de noites em claro e relações pessoais estremecidas culminaram na sua colação de grau. Glécia não podia acreditar que, depois de tantos apertos e uma caderneta de poupança zerada, finalmente poderia exercer a profissão de jornalista, almejada desde a mais tenra infância, por influência de Lois Lane e seus cabelos esvoaçantes.

De tão empenhada, alguns anos mais tarde, conseguiu uma indicação para trabalhar como editora de um telejornal. Estava bem perto de atingir seu próximo sonho na escala evolutiva: dirigir uma equipe talentosa e levar ao mundo a informação nua e crua, sem maquiagem e sem exageros apelativos. Glécia queria ser referência, queria ser lembrada daqui a cinqüenta anos por seus incríveis feitos e dedicação total à verdade. Mas um balde d’água desmanchou suas mechas em escova egípcia.

Ao chegar à redação, nesta última sexta-feira, ela se deparou com uma boneca gigante, andando de um lado para o outro, falando como uma maritaca no cio, dando ordens a torto e a direito. Sem entender o motivo do furdunço, foi entrando sorrateira. A loira, de botas brancas e batom rosa, sorriu e apresentou-se como a nova editora-chefe. Não por menos, era afilhada de uns dos diretores da emissora e, como diploma não era mais problema, achou que já estava na hora de fazer seu debut.

Atordoada, Glécia trancou-se em sua sala e chorou. Caiu no pranto como uma criança perdida no supermercado, chegou a soluçar de tanta raiva. Ficou imaginando a cena onde aquela criatura enorme e rotunda, bêbada num almoço de Natal, revelava seus anseios de lidar com jornalismo, notícias e fofocas… E o padrinho tarado, com suas pelancas e rugas de sobra, emocionado de tanto prosecco, oferecia uma vaga de alta responsabilidade, no intuito de impressionar a família e, quem sabe, se fartar naquelas carnes.

Sem mais o que esperar, Glécia juntou seus trapos, esvaziou as gavetas, despediu-se do porteiro e ganhou a rua. Não quis lutar contra a afilhada, não pediu demissão e não deu mais notícias. Resistiu aos impulsos que a diziam para enfiar a caneta tinteiro no pescoço da maldita e seguiu pra rodoviária, onde tomou o primeiro ônibus que tinha lugar vago e ar-condicionado. Foi embora para Araçatuba do Norte, onde arrumou um bico num circo mambembe. Pelo menos assim, e só assim, ela saberia que de palhaça só tinha a cara.

Bonus track: KoRn “Clown”

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