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até quando ainda houver sol

julho 31, 2009

Caiu a tarde e a situação permanecia inalterada. Sem internet, sem telefone, sem energia elétrica, sem carros, sem comunicação, sem nada… Tudo parou de funcionar, como que num efeito dominó ou passe de mágica. O céu alaranjado foi torna-se escuro, ninguém tinha notícias do que acontecia além de seus próprios quarteirões, e um medo quase desesperador começou a rondar a vizinhança. O que teria causado aquele blecaute total? Porque é que nada funcionava? Até quando duraria aquele tormento?

Gabrielle estava com calor e, numa tentativa de não se esvair em suor, seguiu para o quintal, onde deitou-se na grama e ficou observando as estrelas. Nunca havia imaginado que poderia ver tantas constelações a olho nu. Em alguns momentos, poderia jurar que o céu se movimentava como um tecido bordado em lantejoulas. Estava tão fascinada com aquele cenário, que até esqueceu da situação calamitosa pela qual estavam passando. Ficou lá, quieta, imóvel, enrolando a ponta dos cabelos cacheados entre os dedos, sozinha com os grilos, que agora eram os substitutos mais próximos de seu mp3 player…

Dona Glicéria, que passou quase toda sua vida sem tais modernidades, armou sua cadeira de praia sob a amendoeira. Com um leque em punho, refrescava-se calmamente, enquanto tudo ao seu redor parecia desmoronar. Havia acompanhado o por-do-sol pela janela da sala, saboreando um bolo de laranja. Só lamentava pela torta salgada que estava na geladeira, que havia sido especialmente preparada para a reunião dos paroquianos. Fora isso, dormiria com as janelas abertas, pois a tela de náilon impediria a entrada dos pernilongos. Nada mais a preocupava.

Silvia e Rogério estavam apaixonados, e por isso nem sofreram com o baque do apagão. Ficaram namorando, deitados na rede da varanda, na esperança de que tudo aquilo se normalizasse. Conversavam em sussurros, planejando um futuro colorido e com fogos de artifício. Seus beijos quase os alimentava. A vida a dois era tão mais confortável, que passariam o resto da existência se abraçando. Conseguiam entreter-se apenas com os seus próprios olhares, e o tempo que se passou não contava para eles.

Eles ainda não sabiam, mas o mundo ao seu redor havia deixado de existir. Os cachorros não paravam de latir, e uma revoada de andorinhas passou em direção ao bosque que ficava algumas quadras depois do shopping. Algumas pessoas passaram a noite em branco, jogando conversa fora. Outras, mais apavoradas, rezavam pela intervenção divina. Era apenas uma questão de tempo até que suas histórias também chegassem ao fim.

Bonus track: Creed “What If ?”

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