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Do ralo pra panela

agosto 7, 2009
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O maior problema de Dona Eneida era decidir o que fazer para o almoço. Macarronada? Omelete? Bife com batata-frita? Purê de berinjela? Salpicão? Todo dia era a mesma pendenga: perguntava ao marido, ao filho caçula, e até para a afilhada, que não tinha nada a ver com a história. Ninguém tinha sugestões, só queriam saber do prato quentinho sobre a mesa. Depois de tantos anos cozinhando, a cansada dona de casa já havia até perdido a vontade de comer. Só se alimentava porque era preciso, e nem ligava se o feijão estivesse aguado demais. Em alguns dias, inclusive, preferia mergulhar biscoito champanhe no café com leite a bater um prato de comida.

Era quase meio-dia e ela ainda estava lavando a louça do café da manhã, quando ouviu um barulho estranho na área de serviço. Logo de cara, pensou que fosse um rato. Correu até a despensa, mas não era de lá que vinha o ruído. Olhou nos cantos, procurou atrás da sapateira, e até debaixo dos armários, até ouvir novamente aquele som estranho! Havia algo dentro do ralo, arranhando a tampa, vindo do esgoto. Assustada, Dona Eneida chamou o marido e apontou para aquela coisa, que subia pela tubulação… Ele deu de ombros, dizendo que era a espuma da máquina de levar e, numa atitude tipicamente machista, virou as costas, deitando-se novamente no sofá, onde a garrafa de cerveja o esperava suadinha.

Acuada, ela não podia fazer nada além de temer o que sairia dali. Continuou na função doméstica, mas sempre de olho naquele canto. Preparou um almoço básico, para não ter como perder de vista a saída do ralo. Arroz, feijão e alguns ovos fritos: foi o que almoçaram, de bom grado e barriga cheia. Dona Eneida sequer colocou uma garfada na boca. Estava atenta ao que acontecia na área. Sua aflição começava a ganhar ares de paranóia, quando ela cogitou tratar-se de um jacaré vindo do esgoto. Estavam todos deixando a mesa quando ouviu-se um estalo. Era a tampa de aço que se soltara, revelando um par de garras alaranjadas, que escapavam da tubulação. Logo, o piso estava repleto delas…

Dona Eneida não conseguia acreditar, mas o ralo de sua área de serviço estava vertendo lagostas vivas e sadias. Nunca antes tinha visto uma de perto, e agora estava diante de uma verdadeira invasão. Rapidamente, ela colocou toda a família para catar os bichos, que iam sendo jogados em baldes, em bacias, no tanque e até na máquina de lavar. O gato se assustou e saiu correndo, enquanto o cachorro latia enlouquecido, para aqueles pequenos monstros que avançavam em sua direção. Como elas não paravam de sair do ralo, a solução foi prender a tampa novamente e veda-la. Ainda sem fôlego, a dona de casa olhou ao seu redor e levou as mãos aos céus. Sua vontade de cozinhar havia voltado! Naquela noite, jantariam lagostas cozidas com batatas amassadas, até não agüentarem mais.

Ela sabia que custava uma verdadeira fortuna comer lagostas num restaurante medianamente sofisticado, e por isso tratou de pedir ao filho que procurasse receitas requintadas na internet. Temente a deus, ela tinha certeza de que aquele acontecimento era uma intervenção divina, e tratou de fazer bom uso dos bichos, com todo o respeito com que tratava de uma galinha, que mais tarde se tornaria uma canja. Como seu ralo não parava de produzir aquela distinta iguaria, Dona Eneida decidiu popularizar a lagosta. No dia seguinte, pendurou uma placa no portão e ofereceu pratos finos a preços módicos para a comunidade. E quem completasse a cartelinha com cinco selos, ainda podia levar uma garrafa de sidra. Ela só não fornecia as taças, porque aí já seria muito abuso.

Bonus track: The B-52’s “Rock Lobster”

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One Comment leave one →
  1. maio 26, 2011 10:56 pm

    hahahaha espertinha essa Dona… xD

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