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A não correspondência

novembro 5, 2009

Adélio continuou enviando as cartas para o mesmo endereço, ainda que tivesse se passado uma década desde a última vez que a tivera em seus braços. O rompimento foi doloroso, mas inevitável. Já não se falavam mais com os olhos, pois os mesmos sequer se encontravam. Apesar do não amor, conseguiam evitar o ódio. Tudo seguiu o caminho natural, esmaeceu aos poucos, até não restar mais nem uma gota de querosene na lamparina. Apagou-se o fogo que outrora ardia com a força de mil sóis, e cada um seguiu seu rumo. Levou um bom tempo até que ele percebesse que havia cometido um dos erros mais estúpidos de sua vida. E então já era tarde. Não havia como arrancar a casca da ferida, pois em seu lugar restou uma quelóide: lembrança viva e disforme do trauma causado pela resignação. Numa tarde alaranjada de maio, escreveu a primeira e mais sofrida das incontáveis correspondências. Não recebia respostas, mas continuou naquela função. Um dia, talvez, descubra que suas palavras são lidas, sim, mas não por Ivonete – sua amada. Naquele apartamento, de teto rebaixado e piso de tacos, agora vive uma senhora triste chamada Regina. E seus olhos se enchem de lágrimas, a cada nova entrega que o carteiro faz. Talvez um dia ela se identifique, e se houver coragem… bom, se houver coragem ela assuma que se apaixonou por ele desde a primeira leitura.

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