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A pirraça e os elefantes

novembro 23, 2009

Dora jamais escondeu o orgulho que sentia por sua filha: uma doçura de criança que só chorava quando vinham as malditas cólicas causadas pela intolerância a lactose. No colégio, a pequena Rossana tirava notas altas, e era elogiada até pelas serventes pelo comportamento exemplar. Sempre com a cartilha em dia e o caderno meticulosamente bem cuidado, ela ganhava estrelinhas douradas o suficiente para iluminar um céu particular. Com o tempo, entretanto, ela deu a fazer pirraças das mais estridentes. Jogava-se ao chão, batia coma cabeça nas paredes, e enfiava palitos de dente nas tomadas. Certa noite, chegou a babar como uma delinqüente de tanto que chorou, ao saber que jantariam berinjela empanada.

Sem outra alternativa, Dora resolveu partir para a chantagem e ameaçou: “Cada nova pirraça sua, e Deus mata três elefantinhos!” Na hora, a menina até que se assustou com aquela temível possibilidade, mas depois de duas horas, lá estava ela fazendo birra novamente. Queria tomar banho de mangueira à noite, queria sorvete no lugar da janta, queria beber água que brotava na calçada. Apesar das palmadas nas pernas e os castigos, ela continuava tinhosa e persistente. Pouco ligava se o todo poderoso estaria mesmo matando algum bicho por conta de seu comportamento impulsivo. Rossana não lembrava nem de longe a criança brilhante de outrora, cujos elogios foram ficando cada mais escassos.

A coisa foi piorando até uma noite de sábado, quando assistiram a um programa sobre animais à beira da extinção. Ao ver que os elefantes estavam praticamente sumindo, uma onda cavalar de culpa correu sua espinha até chegar no estômago. Rossana imaginou que os animais sofreram mesmo com a fúria divina e acabou explodindo em angústia. Passou a noite inteira com uma forte disenteria, chegando a ter alucinações. De tão perturbada, começou a ouvir vozes assombrosas e atirou-se pela janela. Antes de atingir o concreto, ainda tentou rezar pelo perdão, mas como moravam no segundo andar, só conseguiu fechar os olhos e torcer para que não fosse para o mesmo céu que os malditos elefantinhos.

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