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Sábado de sol

novembro 30, 2009

Foi uma semana de muita ansiedade para a família Castanheira. Depois de calcular os custos e planejar toda a logística, Seu Jorge conseguiu dar um jeito apresentar seus entes mais queridos aos encantos tropicais da praia de Copacabana. E como era de praxe, levariam cadeiras reclináveis, barracas, isopores bombando de cerveja gelada, frango assado, farofa de ovo, molho vinagrete e aquela churrasqueira emprestada do vizinho. As crianças estavam em polvorosa, imaginando como seria cavalgar em cavalos marinhos, lutar contra tubarões brancos e até nos muitos baldes de camarões frescos que poderiam catar.

Sairiam de Austin em uma carreata, antes mesmo do sol nascer. Queriam pegar todo o esplendor de um dia à beira da princesinha do mar, só retornando ao anoitecer, quando teriam a chance de testemunhar o letreiro da boate Help iluminando o calçadão mais falado do cidade. Seu Jorge, com seu Monza Ret 88 azul metálico, levaria a esposa Charlene e os filhos Clodomir, Agenor e a pequena Relínea. Ela, que sempre assistira as novelas de Manoel Carlos, fantasiava com os artistas que esbarraria enquanto estivesse tomando seu banho de sol sobre a canga com motivos indianos que havia comprado na feirinha de sábado. Se desse de cara com algum cantor, então, seria a glória.

Walter, que era dono de um aviário em Noba Iguaçu e estava recém separado da namorada, levaria os frangos, os isopores e a churrasqueira em seu Fusca vinho, enquanto Joelma se encarregaria de levar Roberta, Cleise, Kahrynne, Suelle, Marcantônio, Luiz Rodrigo, Giuliana e Jorge Pedro na Doblô ( fruto de um divórcio cansativo e perturbador com um ex jogador de futebol que a trocara por um transex polaco ). Guardaram todos os carros juntos no quintal de Seu Jorge, o anfitrião, e fizeram um acampamento provisório em sua casa, para concentrar os preparativos e evitar que algum engraçadinho ousasse se atrasar. Era uma família típica de subúrbio, que a todo momento se embrenhava na casa uns dos outros em busca de cerveja, diversão e fofoca.

Ainda era madrugada quando começou a correria. Deixaram tudo pronto no carros e então foram acordar as crianças, que num pulo só já estavam de sungas, biquínis e bóias em mãos. Sempre muito irritadiça, Joelma zangou com o pequeno Agenor quando o flagrou tentando comer um dos sanduíches de sardinha que estavam na bolsa térmica que trouxera do esteites. Revoltado, ele fez bico e logo se enfiou no carro do pai. Era cachorro latindo para um lado, periquito zunindo para o outro, a confusão estava armada quando, enfim, chegou a hora de partir. Todos dentro dos carros, testa suando de aflição, funk tocando nas alturas e chave do portão havia desaparecido misteriosamente do cadeado.

Procurou-se em tudo que foi bolso, nos cantos dos carros, na beira da piscina e até nos ralos. Nada encontraram. Os homens pensaram em arrombar a tranca, mas daí os bichos poderiam fugir ou até pior: vândalos invadindo a residência durante o período que passariam fora. Muito se descabelou até que Agenor, com seu bico do tamanho de um mundo, confessou ter engolido a maldita chave por engano. Estava com tanta fome que pegou a primeira coisa que viu à sua frente, e lá se foi o chaveiro me forma de morango para seu estômago de avestruz.

Depois de intermináveis minutos de sermão, onde ele bebeu quase dois litros de leite com açúcar, os ânimos começaram a se acalmar. Infelizmente, ao acordar, ele já havia ido ao banheiro, o que dificultaria que expelisse a chave para a liberdade daquela gente ansiosa. Nem mesmo os três mamões que lhe socaram garganta abaixo foram de alguma serventia, já que o pirralho era como um relógio: só cagava ao acordar e depois da novela das oito. Era inexplicavel, mas também era assim que funcionava. Agenor tinha seus cinco anos, mas sabia muito bem o tamanho da merda que havia feito.

Precisariam esperar que a natureza seguisse seu curso, e o menino até pareceu estar gostando de ver tudo aquilo acontecendo ao seu redor. Ao contrário da maioria, ele queria mesmo era ficar em casa jogando vídeo game, e foi com o cabo de seu Playstation que acabou levando umas saraivas por ter arruinado com o fim de semana da galera. Acabaram fazendo um churrasco chinfrim à beira da piscina ao som de um pagode qualquer. Ele só foi colocar a chave para fora no domingo à noite, depois de se empanturrar com bolo de aipim, doce de leite e uvas passas. A aventura da família Castanheira foi adiada, mas eles ainda vão conseguir realizar seu sonho. Nem que para isso tenham que deixar guardado um litro de purgante no armário da cozinha.

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