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Eunice e o reino das águas sujas

dezembro 4, 2009

( Parte 1 )
Mal conseguiu entrar em casa e a chuva desabou lá fora, estrondosa como nos filmes de terror. Aos poucos, a água foi alagando toda a vila onde morava, já que o escoamento daquela região sempre fora muito precário. Eunice estava nervosa, pois imaginou que acabaria passando mais uma noite ilhada na rampa do metrô, comendo o restinho dos biscoitos recheados que levara para o lanche. Ao contrário do que aconteceu na semana anterior, até que deu um jeitinho de chegar em seu lar sem muito perrengue, mas só ficou tranqüila mesmo depois de tomar um banho bem quente e se jogar na cama. O fim de ano, como de costume, estava acabando com suas forças, e o amontoado de papéis sobre sua escrivaninha prometia uma longa noite de trabalho antes de ficar pronta para a apresentação que faria na manhã seguinte. “A merda é que hoje eu não vou conseguir ver o programa da Hebe…”

Atordoada pelo estridente toque de seu despertador, a loira levantou-se cambaleando e, minutos depois, já estava pronta para o batente. Se dormiu três horas inteiras foi muito, mas o trabalho ficou excelente. “Aqueles idiotas vão ver que eu sou foda!” Tomou uma vitamina de abacate e comeu torradas com geléia de ameixa, enquanto ouvia a previsão do tempo na tv. Deu uma conferida na bolsa, jogou uma garrafa de Coca-cola, uma calcinha limpa e algumas balas: três itens sem os quais ela não conseguiria viver. A maldita chuva persistia sobre toda a cidade, inundando ruas e causando deslizamentos. Eunice resolveu ir de táxi, para evitar qualquer imprevisto, pois se ousasse atrasar meia-hora seria o fim de sua carreira. O problema era chegar até a alameda sem tomar um banho de lama, já que os malditos taxistas não subiam até a rua onde morava, alegando ser área de risco pela proximidade com a favela. Não tinha outro jeito: protegida sob um enorme guarda-chuva, ela foi pulando como um teletubbie os pequenos córregos que beiravam as calçadas, até chegar na estação.

O entorno parecia um cenário de filme catástrofe, tamanha a destruição. Uma amendoeira havia caído por conta dos fortes ventos que varreram as ruas durante a madrugada, impedindo a passagem de automóveis pela avenida principal. Já atrasada, Eunice seguiu em direção à passagem subterrânea que a levaria ao outro lado do bairro, onde conseguiria um táxi com mais facilidade. Lá embaixo, no entanto, a água havia subido até a altura dos joelhos, e só se podia chegar ao outro lado passando por cima de uma passarela improvisada com tábuas de madeira suspensas por tijolos. “É, estou mesmo fodida e mal paga”, pensou enquanto levantava a barra das calças. Um pouco ressabiada, a jovem não teve outra alternativa e seguiu pelo único caminho disponível, tentando se equilibrar como um exímio malabarista. Como azar pouco é bobagem, viu um rato tentando escalar a madeira e acabou escorregando para dentro da água, sendo violentamente sugada para dentro de um bueiro destampado.

Desesperada, a jovem tentou agarrar-se em qualquer coisa pelo caminho, mas a pressão era tanta que foi carregada pela enxurrada até perder os sentidos. Muito tempo depois, acordou boiando sobre um enorme amontoado de garrafas pet, coberta de lodo e lixo. Estava muito frio, muito escuro naquele lugar. Ficou tão atordoada com a situação, que parecia não compreender que estava imersa em tamanha imundice. Havia entrado num estado de transe tão caótico que regrediu aos instintos mais básicos. Sua mente, numa comparação porca e mal lavada, estava no modo de segurança. Fora tão judiada, que comeu os dejetos que foi encontrando pela frente, e bebeu da água suja que escorria pelas paredes. Suas roupas foram se rasgando pelos galhos e pedras pelos quais se arrastava. Eunice estava, pois, quase à beira da morte.

Passaram-se alguns dias e ela, finalmente, voltou a si. Estava fraca e machucada, com os olhos fundos e a barriga oca. Tentou olhar ao redor e, por conta da pouca iluminação, deduziu estar presa numa gigantesca galeria subterrânea, onde desembocavam vários dutos de esgoto e águas pluviais. Por ter ficado tanto tempo naquela escuridão, acostumou-se a enxergar pelo tato e pela audição, e não notou o fedor que envolvia o ambiente. Vasculhou todo o local, tateou as paredes e foi engatinhando lentamente sobre uma pequena passagem de paralelepípedos, na iminência de encontrar um jeito de escapar daquele inferno que havia se instaurado em sua vida. Chorou um pouco ao se dar conta de que, àquela altura, já deveria ter sido demitida, e ninguém dera conta de seu desaparecimento. Isso sem falar no maldito carnê do Ponto Frio, que não foi pago e estava rendendo juros… Eunice não se deu como derrotada; muniu-se das forças que ainda tinha para escapar dali com alguma dignidade.

Estava quase chegando do outro lado quando ouviu algo grande sair da água, como se estivesse a seguindo. Não havia para onde correr, muito menos como se esconder. Suas opções eram mergulhar novamente naquela água podre, ou encarar o que a espreitava. Ergueu-se mais um pouco e notou um par de olhos amarelos e luminosos, fitando-a compenetradamente. O medo que percorreu suas veias acabou se transformando em um impulso gutural: berrou com todas as forças e mostrou que estava disposta a lutar para sobreviver. Pendurou-se numa alça presa à parede e ficou de frente para a criatura, que enfim falou alguma coisa: “Se quisesse fazer-te algum mal, teria arrancado tuas tripas quando ainda estava frágil demais para realizar aonde veio parar, mocinha.” Uma tocha foi acesa, e tal qual não foi a surpresa de Eunice ao perceber que estava diante de um imponente crocodilo amarelo, com quase três metros de altura. “Diga-me, pequena intrusa… como você se chama?”

( Parte 2 )
Em poucos segundos, a galeria foi tomada por ratazanas, baratas, vermes, lacraias e mais uma infinidade de bichos estranhos. Mais três tochas foram acesas, e Eunice pôde perceber a imensidão que a cercava. Seu coração disparou a uma velocidade muito além do suportável, o que a fez perder os sentidos e desabar mais uma vez. Seu corpo, sujo e fragilizado, caiu sobre as águas causando alarde. O imenso crocodilo amarelo, num suspiro debochado e quase impaciente, ordenou que seus lacaios a salvassem da morte. “Não deixem que essa lombriga morra afogada, levem-na daqui e tratem dessas feridas” Num salão menos úmido, eles cuidaram para que ela não adoecesse. Estava fria demais, quase azul. Todos os seres ao seu redor pareciam entendê-la, e quiçá, também fossem capazes de falar como o grandioso réptil. Rapidamente, seu corpo foi coberto por milhares de anelídeos, que limparam sua pele e sumiram com qualquer resquício de imundice. Depois, um volumoso grupo de ratos envolveu seu corpo, aquecendo-o e conferindo um rubor em seu rosto.

Horas depois, ainda com a visão turva e um gosto terrível na boca, a jovem acordou do trauma e pediu por socorro. “Pelo amor de deus, alguém me tira daqui! Eu vou morrer! Eu vou mor…” Não parecia, entretanto, que alguém estivesse vindo resgata-la. Medo, raiva, fome, insegurança, confusão: tudo se misturava num ritmo frenético em sua mente. Estava quase entregando as pontas quando surgiram quatro baratas brancas do mar cáspio, que a sentaram sobre seus cascos firmes, e a levaram em direção ao imponente crocodilo. “Eis que, finalmente, poderemos ter uma prosa decente. Permita que eu me apresente: sou Yerbo, rei supremo do reino subterrâneo. E esses são meus fiéis serventes” proclamou com orgulho. “Sente-se melhor, frágil garota?” perguntou o gigante escamoso, enquanto alisava sua rotunda pança com a pata de unhas compridas e afiadas. Visivelmente descontrolada, Eunice protestou: “Onde é que estou? O que está acontecendo?” Neste momento, sanguessugas ameaçavam subir por suas pernas, levando-a ao desespero “Quem são vocês, porra! O que querem comigo?!?”

“Nós é quem fazemos as perguntas por aqui, senhorita. Não costumamos ver muitos humanos por aqui. Pelo menos nos últimos cinqüenta anos. E, não se preocupe: não temos a menor intenção de nos aproveitar desse seu corpo, para ser mais sincero” divertiu-se o grotesco Yerbo, ao perceber que Eunice tentava esconder os seios. “Eu fui carregada pela chuva, caí num bueiro e não me lembro de mais nada. Como é possível? Isso deve ser um sonho, ou… Ouch! Mas que merda!” Uma das baratas gigantes a mordeu no tornozelo e pareceu esboçar algo parecido com um sorriso. “Não, jovenzinha. Aqui embaixo não existem sonhos… Não… Poderia me revelar seu nome, ou devo pedir para que algum de meus fiéis escudeiros a amedronte mais um pouco?” resmungou sem muita paciência o dono daqueles túneis. “Eu me chamo Eunice, e sou secretária de uma gr… Bom, eu me chamo Eunice.”

”Sente-se, Eunice. Quero saber mais de você e do seu mundo, Estamos todos muito excitados com sua repentina visita.” Por mais absurda que parecesse a situação, ambos conversaram por horas a fio. Eunice parecia estar se acostumando com o lugar, como se Yerbo exercesse algum tipo de controle sobre ela, e até permitiu que alguns roedores subissem em seus ombros, sem notar a imundice que a cercava. Mais tarde, ficou sabendo como era regido aquele condado de esgotos, toda a hierarquia de vermes, roedores e criaturas disformes, e como era a vida em meio a tanta putrefação. “Estou fascinada. É como num conto de fadas! Só não compreendo como vocês possam ter desenvolvido a habilidade de falar tão perfeitamente se humano algum apareceu aqui nos últimos anos.” Neste momento, surge um rato grisalho por trás de Yerbo, usando chapéu de feltro e sapatilhas de boneca. Ele caminhava com uma certa dificuldade, indicando que talvez fosse um dos seres mais antigos daquele reino. Encarando-a, esclareceu a situação de forma ríspida e concisa: “Isso não é do seu interesse, Eunice. Sua presença aqui nas galerias não é mero fruto do acaso. O destino a trouxe até aqui, e todos sabemos disso. Você veio ao nosso reino para nos ajudar a dominar o seu mundo.”

( Parte 3 )
Sua boca encheu-se d’água quando viu a bandeja de frutas frescas que prepararam em sua homenagem. Maçãs, goiabas, bananas, mangas, ameixas, nêsperas, nectarinas, graviolas e cerejas. Uma profusão indescritível de cores, aromas e sabores, que faria qualquer pessoa regozijar só com o olhar. E Eunice poderia comer tudo aquilo até se fartar, pois ninguém a repreenderia. Aquela era a oportunidade perfeita de se deixar levar pela gula, sem culpa e nem remorso. Sem afobação, nem olho grande, ela se deliciou com as texturas de cada e ainda repartiu com os demais. Seu prazer multiplicou-se ao ver que todos poderiam experimentar aquelas mesmas sensações, por estarem vivos e cheios de vigor. Essa era a melhor lembrança que guardava do dia em que voltou do hospital, depois de passar dois meses em coma por conta de um atropelamento que sofrera na Avenida Brasil.

Naquele momento, entretanto, ela não tinha sequer água potável para matar a sede. Justamente quando sua garganta secou, ao ouvir os planos megalomaníacos do rato cinzento. Olhou em volta, procurando por sua bolsa. Mesmo que a encontrasse por ali, não a deixariam pega-la de volta. Yerbo parecia muito excitado com a idéia de levar seu reino para a superfície, e já sonhava com o harém de fêmeas no cio que o esperaria, depois de consumada a dominação. Passados tantos anos isolado naquela podridão, ele iria procriar e espalhar seus genes pelo planeta. “Sim, eu serei desejado e cobiçado por todas elas” vangloriava-se, tal qual os mais estúpidos dos homens. Eunice, que a essa altura esperava uma distração deles para roubar uma tocha e tentar escapar, quase engasgou-se de tanto que riu. “Você não me considera capaz de tal feito, lepréia esquelética? Pois saiba que minha virilidade vale por mil touros!” ameaçou odiosamente, com os olhos em chamas.

“Não a deixe irrita-lo, majestade. Vosso reino será imponente, e sua virilidade será motivo de cobiça dentre as semelhantes desta perversa delinqüente” palestrou o rato, enquanto ajustava as sapatilhas de borracha. Aos poucos, a galeria foi esvaziando, e o pequeno exército de Yerbo abrigou-se em suas tocas e frestas. Eunice ainda não tinha idéia de como escapar dali, mas sua intuição dizia que as baratas do mar cáspio poderiam ajuda-la a encontrar seus pertences, já que as criaturas asquerosas eram capazes de nadar a uma velocidade sobrenatural. “Eu não me oponho a nada, pois o meu mundo já está em ruínas. Só gostaria que vocês me concedessem o direito de conhecer seus túneis, enquanto planejam o que fazer comigo” flertou a jovem, agora com os seios à mostra e um jeito compulse de falar. O crocodilo parou por alguns segundos, pareceu pensar no que ela havia pedido e então se pronunciou: “Diga-me o que deseja, Eunice. Desde que não seja nada muito…”

“Eu quero que as baratas me levem pelas águas! Quero me acostumar com a vida no esgoto” declarou a mocinha, de forma capciosa. Se tudo desse certo, ela faria com que as malditas nadadoras a levassem até uma tubulação mais próxima aos bueiros, onde teria a chance de fugir e contar ao mundo sobre os planos obscuros daquela estranha civilização. “Seu desejo será atendido, loirinha. Mas se tentar escapar de nossos domínios, lembre-se de que podemos encontra-la em qualquer lugar desse planeta. É só você deixar sua torneira aberta, que estaremos lá, subindo pelo esgoto e devorando suas entranhas” retrucou Yerbo, com uma certa desconfiança na voz. “E se você quer diversão, minhas cáspias sabem muito bem onde leva-la. Sente-se em seus cascos, e elas a mostrarão nosso paraíso escondido.” Eunice sorriu como uma demente, enquanto o rato a entregava uma das tochas “Tome cuidado para que não se apague. Ou você não poderá ver as maravilhas que temos aqui embaixo”.

( Parte 4 )
Eunice estava distraída lendo um torpedo de seu ex-namorado e não viu de onde veio a pancada que a derrubou sobre um hidrante desativado, perto de Bonsucesso. Foram duas horas estirada ao relento até que notassem seu corpo ensangüentado e, finalmente, viesse o socorro. Apesar de não ter sofrido muitas escoriações, sua mente apagou imediatamante após bater com a cabeça no metal. Os médicos fizeram de tudo para tirá-la do coma, mas não houve resposta. Só o tempo diria até onde iam as seqüelas deixadas pelo acidente, além da enorme cicatriz no couro cabeludo. Após recobrar a lucidez, entretanto, algo passou despercebido. Ela não era mais a mesma moça dócil e frágil de outrora. Algo de obscuro entranhou-se na essência daquela desafortunada convalescente.

Enquanto seguia rumo a ferveção subterrânea, Eunice pensava num jeito de acabar com os planos de Yerbo e voltar à superfície antes do Natal, já que sua família faria um junta-pratos no terraço e ela entraria com o peru enorme e pesado que comprara na mão de um contrabasdista argentino. De todas as épocas festivas, aquela era sua favorita, e nada nesse mundo a faria perder a desculpa anual para sair da dieta. Empunhando a tocha com uma certa destreza, ela seguia observando atentamente as paredes e reentrâncias daquelas galerias, na certeza de que encontraria algo que a desse alguma vantagem contra aquela horda de pestes subterrâneas. O sangue corria por suas veias com um estranho ardor, tal qual veneno, ou ódio incontido.

Foram mais de quarenta minutos seguindo a corrente até que percebeu algo familiar num amontoado de lixo, onde animais mortos misturados com restos de macumba formavam uma verdadeira ilha de podridão. Sim, ali estava sua bolsa de couro, que fora carregada pela turba. Ficou tão eufórica que quase mergulhou para resgata-la, mas bastou bater com o calcanhar no caso das baratas para que elas a levassem até lá, muito obedientes. Apesar dos dejetos que a cobriam, os fechos e a vedação eram de primeira: tudo estava intacto e seco. E qual não foi surpresa ao descobrir que lá dentro ainda estavam sua maquiagem, as chaves de casa, a apresentação encadernada, uma garrafinha de Coca-cola e um pacotinho de Menthos… A fome era tanta que ela quase os engoliu de uma só vez, mas uma estranha epifania revirou sua mente. Guardando tudo de volta, ela pediu que as baratas voltassem à galeria de Yerbo.

O rato cinzento não acreditou quando a viu caminhando, majestosa, sob a luz do fogo que queimava em sua tocha. “Já está de volta, Eunice? O que houve com a sua farra?” perguntou com a voz trêmula. A jovem seguiu em direção ao roedor e abaixou-se, chamando-o para uma conversa discreta. O crocodilo amarelo deveria estar repousando em seu leito, e aquela era a sua chance de encostar o maldito puxa-saco na parede. Com o tom de voz controlado e firme, ela abriu um sorriso doentio e ordenou: “Escute-me, e não tente chamar a atenção de mais ninguém, seu rato imundo. Eu tenho algo aqui dentro que pode destruir todos vocês em dois segundos, então é melhor fazer o que eu digo… ou explodo tudo isso em um piscar de olhos!” Ele tenta não rir, e então pergunta o que ela teria de tão devastador naquela sacola.

Os olhos do rato quase saltam de suas órbitas ao perceber que ela tem em mãos algo que jamais acreditaram existir de fato. Há anos e anos, sempre se ouviu falar sobre a mortífera combinação de refrigerante com balas de menta, mas aquela era a primeira vez que alguém ameaçava explodir todo o seu reino com tamanho requinte de crueldade. “Eu vou perguntar uma única vez, e você irá me responder claramente, ok?” sussurrou Eunice, abrindo a garrafa e jogando as balas lá dentro. “Onde fica a saída deste submundo nojento?”

( Parte Final )
Yerbo acordou com o alvoroço das baratas, indicando que algo terrível estava para acontecer. Arrastando a pesada cauda, ele seguiu preocupado até o covil onde mantinha presa Eunice, acabando por presenciar uma cena aterrorizantemente burlesca. A jovem estava eufórica, com o rato amarrado na garrafa de coca-cola, que fervilhava de tanta pressão. “Como ousa me desrespeitar, sua atrevida?” gritou enfurecido. “Estou de partida, e não há como você me deter, crocodilo asqueroso!” respondeu de forma contundente. “Eu quase morri há alguns meses, jogada ao léu depois de ser atropelada! Só recobrei minha vida porque lutei, e é isso que sou agora, uma selvagem mulher do asfalto! Jurei que nunca mais seria subjugada novamente e te digo: vou-me embora daqui!” Mais uma vez, os covardes vassalos desapareceram, deixando-a sozinha com o rei dos esgotos.

“Não me importo com você, Eunice. Mas esse rato é fiel a mim e não merece morrer. Solte-o, que mostraremos o caminho até a superfície” prometeu o réptil com alguma sinceridade. “Isso não basta! Quero sua promessa de que não tentarão tomar o meu mundo!” condenou a jovem, sacudindo mais uma vez a garrafa. Eunice só não contava com a falta de sorte, que volta e meia assombrava sua vida. Em meio a tanta confusão, ela não notou a horda de lacraias rasteiras que a cercaram, formando um carpete vivo de centopéias. Yerbo, sem se deixar notar, percebeu aquele perigoso detalhe e ironizou: “Foi muito bom conhecê-la, Eunice. Espero que não guarde rancor…” Num movimento descuidado, ela tentou ameaça-lo novamente e acabou levando mais de mil ferroadas. Suas pernas incharam no mesmo instante, e a dor tomou seu corpo. A garrafa de coca-cola caiu no chão e explodiu em disparada, detonando uma válvula que controlava as grandes comportas que cercavam as galerias.

Eunice foi se transformando numa pequena monstruosidade, ao passo que a volumosa torrente de veneno correu por suas veias. Em poucos minutos, todos os túneis foram inundados pela água que passava pelas comportas abertas. Milhares de ratos, baratas e minhocas foram arrastados pela correnteza, assim como o corpo de Eunice, que estava em choque anafilático. Yerbo, apavorado, tentava se agarrar a uma das alças que mantinham as tochas para não ser sugado por um dos dutos que seguiam em direção ao mar. As baratas do mar cáspio, entretanto, confundiram-se com seus gritos e acabaram o empurrando em direção ao redemoinho. Tudo aconteceu em muito pouco tempo, fazendo com a pressão das galerias arrebentasse com os bueiros, transformando a cidade num verdadeiro pântano com chafarizes de bosta.

Eunice foi expelida num canal que desembocava perto da praia de Ramos, coberta por uma lama preta e pegajosa. A prefeitura declarou estado de calamidade, e o Rio de Janeiro virou notícia mais uma vez. Por toda a cidade, ratos invadiram prédios e centros empresariais, assim como baratas das mais variadas espécies subiam pelas paredes de padarias, hospitais e restaurantes. Milhares de pessoas foram picadas por lacraias e sanguessugas, causando pânico, confusão, mortes e correria. Três dias depois, Eunice despertou, sobre uma montanha de lixo e animais mortos. Seu corpo ainda estava deformado, mas a dor havia desaparecido. Ao se dar conta de tudo o que havia acontecido, ela deu uma gargalhada tão gostosa que chegou a se mijar. Estava tentando se limpar quando percebeu que um coelho branco corria desorientado ao seu redor, com um enorme relógio pendurado no pescoço. Começaria ali uma outra história, ou tudo fora um delírio causado pelo coma? Talvez, nunca se saiba, já que Eunice desapareceu, deixando apenas uma caixinha vazia de Menthos sobre a mesa…

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