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Não estamos mais no Leblon

fevereiro 22, 2010

O som dos passarinhos farfalhando pelos galhos da aroeira não deixava dúvidas: aquele seria um belo dia ensolarado. As crianças deviam estar no colégio, pois não havia um pipa no céu. Resolvemos nos aproximar de uma casa amarela, com portão de madeira e varanda cimentada. Pelas cortinas estampadas com motivos silvestres, podemos observar que Ofélia e Adelaide estão animadas com os preparativos para o jantar. Mãe e filha seguem conversando em direção a copa, onde será posta a mesa. A casa, tipicamente suburbana, é tomada pelo cheiro de manjericão que escapa do forno.

– Você viu que a manteiga está mais barata no Mundial, Adelaide?!

– Vi, sim! Comprei cinco tabletes hoje cedo, quando voltava da Ioga.

– Ótimo! Assim não ficaremos sem manteiga! Todas com sal, né?

– Isso mesmo, todas com sal. E eu ainda trouxe um ramo de hortelã.

– Hmmmm… para quem não gostava de ir às compras, você está se saindo muito bem.

– E este cheiro… está uma delícia, mamãe. O que teremos para o jantar?

– Bom, eu estou preparando um empadão de tomates secos com ervas finas e sopa de palmito.

– Mas empadão não combina com sopa, não tem nada a ver…

– Claro que não, Adelaide. Mas quem quiser comer empadão, com empadão de tomate seco.

– E quem quiser comer sopa de palmito, come sopa de palmito!!

– Isso mesmo! Não é ótimo, minha filha?!?

– Genial! Adorei a idéia!

– A Helena vem? Por acaso… você a convidou?

– Não, aquela vaca marcou um rodízio japonês com o pessoal do pilates…

As duas caem na gargalhada e rolam pelo chão, com o que parece ser uma piada interna. Não sabemos ao certo o que poderia haver de tão engraçado, mas mãe e filha chegam a ficar de olhos marejados. Adelaide tem uma crise de bronquite, enquanto sua mãe nota que molhou a calcinha de tanto rir. O cachorro do vizinho é atiçado pela gritaria e começa a latir em círculos, mas logo se aquieta. Helena surge na janela e o olha com desprezo, pondo fim na bagunça. Olhando do alto, com o por do sol emoldurando suas fachadas de chapisco, poderíamos jurar que a vida daquelas pessoas era ditada pela mediocridade.

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5 Comentários leave one →
  1. cinebuteco permalink
    fevereiro 22, 2010 5:52 pm

    E pra rir tem que ter motivo??? Gostei de Ofélia e Adelaide… cascaram o bico sem motivo aparente.

  2. fevereiro 22, 2010 5:56 pm

    Quem ri de si mesmo vive mais!

  3. fevereiro 23, 2010 1:30 pm

    Adorei o texto, rafael!

  4. Maria permalink
    fevereiro 26, 2010 1:11 am

    mas não abandonam esse ranço zona sul, né?

    e não é empadão… é “quiche”. hahahahaha

  5. março 2, 2010 11:09 pm

    Faço minhas as palavras do Fernando, rs, muito bom.

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