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Domingo no Maraca

março 14, 2010

Era domingo. Lá estava eu, em ao meio ao louvor de milhares de fiéis na arquibancada do Maracanã, quase atônita com o que via. Não seria exagero dizer que me arrependi por acompanhar Dona Maria ao mega-culto contra belzebu, pois o povo mais parecia estar encarnando o dito cujo. Era um tal de homem bater com a cabeça nas grades, mulheres gritando em uma língua semi-alienigena, e as crianças tremendo como bambu em dia de ventania… uma coisa de apavorar.

Por várias vezes, pensei em fazer a louca e sair correndo, mas poderiam pensar que eu estava dominada por algum demônio e eu realmente passaria vergonha. Resignada, decidi ficar ali até acabar o culto. Como tinha umas balas na bolsa, resolvi me distrair chupando-as e contando quanto tempo elas levariam para se diluir na saliva. Estava entretida neste intrigante desafio quando, de repente, tudo parou. Com o susto, engoli a bala, que graças a deus não era da Soft. Imaginem se eu engasgo ali, que desespero?

Todos olhando fixamente para o altar, enquanto eu me segurava para não tossir co ma sensação desesperadora de ter um doce preso na garganta. Um grito e o pastor rodou como um pião pelo tapete vermelho, no que aquela energia foi tomando conta do estádio e o povo aplaudindo com um furor que quase me molhou a calcinha. Confesso ter me emocionado com a imitação de mulher-maravilha, pois sou fá dela e só faltaram os braceletes para o show virar espetáculo.

Mas enfim, ele pediu que atirássemos para o gramado nossos óculos, muletas, dentaduras, aparelhos de surdez, próteses e afins. Segundo o mesmo, era só ter fé e fazer uma oferta em dinheiro que qualquer doença ou deficiência desapareceriam em questão de segundos. De cara, ninguém reagiu, e eu acabei soltando um risinho debochado. Olhei novamente dentro da bolsa e só tinha uma nota de dez reais e o vale transporte. Cogitei perguntar se eles me dariam troco, mas como ninguém se manifestou, agradeci e fiquei quieta.

Do nada, os desesperados começaram a arremessar seus pertences e aviões de dinheiro, sapateando como crianças sapecas. Era uma alegria tão grande, que muitos se diziam curados! Eu bem que fiquei tentada, daí puxei meus óculos para a ponta do nariz e tentei ler o placar. Nada aconteceu. Coloquei-os de volta, e eu lia que era uma maravilha. Puxei novamente até o queixo, e continuava não enxergando nada. Como a armação é nova, e eu só paguei a primeira parcela, achei prudente não arriscar.

Ao fim do culto, quem era míope saiu tropeçando, quem era banguela continuou sem dentes e quem não conseguia andar saiu carregado. Dona Maria desapareceu na turba, o que me foi bem conveniente. Rezei uma Ave-Maria, um Pai-Nosso e pedi que Iansã me protegesse. O dinheiro que acabei não jogando para eles rendeu uma cervejinha na saída, e se houvesse um placar, eu teria vencido por dois a zero.

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4 Comentários leave one →
  1. cinebuteco permalink
    março 15, 2010 7:04 pm

    É por essas e por outras que nessas horas dou GRAÇAS A DEUS por ser ateu.

  2. março 18, 2010 4:20 pm

    Descreveu bem, essas manifestações de fé são engraçadas e assustam ao mesmo tempo.

    Gostei do blog.

    Abraços

  3. abril 2, 2010 2:15 pm

    Muito bom o texto, o pior é que tem gente que é assim mesmo. Joga a moleta pro alto e depois sai carregado…

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