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Ratazanas sempre voltam

novembro 10, 2010

Donercília estava de joelhos, limpando o piso da casa nova, quando foi atacada por uma enorme ratazana, que surgira não se sabe de onde. Por sorte, acabou saindo ilesa do incidente, mas o susto foi tão grande que seus cabelos ficaram brancos, naquele exato momento. Ao ver seu reflexo num espelho, desesperou-se: tinha apenas 25 anos e agora parecia uma velha.

Com os dois filhos pequenos à tiracolo, Donercília correu para a UPA do Méier e relatou  o acontecido. A ratazana, em seu relato, parecia ter dois metros de altura… Um médico a examinou, fez várias perguntas e, enfim, constatou que tudo não passava de um estresse pós traumático. Em poucos meses, seus cabelos estariam normais outra vez… ela poderia dormir tranquilamente.

Mas não foi bem assim. O temor de que a ratazana pudesse retornar fez com que ela passasse as noites em claro. Algum tempo depois, Donercília começou a definhar: sua pele enrugou-se como um maracujá, os dentes caíram e, inevitavelmente, envelheceu a ponto de nem mais conseguir falar. Seu desespero era tanto que, toda noite, rezava pela chegada da morte.

Donercília passou cinco longos anos entreveda numa cama, até que a ratazana reapareceu. As duas se entreolharam fixamente por alguns minutos, e então veio o segundo ataque. Desta vez, porém, não fora a rata quem avançara contra sua presa. A moribunda, tomada por uma força imensurável, devorou a carne da roedora, e ainda lambeu os dedos. Depois caiu morta, com os olhos esbugalhados, já que a bicha havia comido arroz com chumbinho a tarde inteira e não queria ir para o inferno sozinha…

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5 Comentários leave one →
  1. novembro 11, 2010 2:44 pm

    Fantástico, Rafael. Por que eu li algo nas entrelinhas?

  2. novembro 11, 2010 5:44 pm

    E também li algo nas entrelinhas. E mesmo tendo certeza de que o conto não foi sobre duas pessoas que conheço, diria que serve perfeitamente pra duas pessoas que conheço. Perfeitamente.

    Bem-feito pra Donercília e pra ratazana.

  3. novembro 14, 2010 3:59 am

    Adoro os finais dos seus contos!!!

  4. novembro 14, 2010 1:24 pm

    Eu não li nada nas entrelinhas. Mas não seria difícil preenchê-las!
    Muito bom o fantástico-surreal-suburbano!
    Bjs!

  5. novembro 21, 2010 5:14 pm

    Oh, meus céus…

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