Dia de Yemanjá, Rainha do Mar
O despertador tocou às cinco horas da manhã, mas Odete não iria trabalhar. Dia de Yemanjá era coisa séria para ela. Ligou para a o chefe e inventou uma indisposição genérica, daquelas que não precisavam de atestado médico para abonar a falta. Depois de desembaraçar as guias e passar creme no cabelo, a morena rumou para a feira, onde compraria ramalhetes de flores para ornar seu barco. Todo o terreiro já estava seguindo em direção a praia, e ela não queria perder nem um segundo da festa que fariam em homenagem a rainha do mar. Ela se embebedou, dançou e agradeceu pela proteção. Ao anoitecer, já fora de si, Odete se ofereceu para a entidade. Ninguém tentou detê-la, e riram de como as ondas a empurravam de volta para a areia. Aquele foi o jeito sutil de Yemanjá dizer que, apesar de todas as oferendas, ainda era antiquada o bastante para não curtir “girl on girl”.
O sofrido fim de Odair
Marinara chutou novamente a cabeça de Odair e sentiu um nó na garganta. Era só para garantir. Depois de quase um ano tratando-a como uma pilha de trapos, ele estava morto. A manicure bem que tentou pôr um fim na relação de forma pacífica, mas naquele domingo ele invadiu o salão fedendo a cerveja e mijo, querendo comê-la a força, pele a pele. Encurralada, ela não teve outra alternativa a não ser gritar: “Vaaaaaaaaaaaaascoooo!!! Vaaaaaaaaaaaaascoooo!!! Vaaaaaaaaaaaaascoooo!!!” Não há nada mais devastador para um flamenguista do que tal afronta. O infarto foi fulminante, e ela estava livre. Se soubesse que seria tão fácil acabar com aquela desgraça, já teria desfilado seminua pelo quarteirão com a Cruz de Malta como tapa-sexo.
Enfrentando a crise
– Chegou cedo hoje, amor?
– Regina, olha só… perdi o emprego…
– Caralho, Valtair! O que você fez?!?
– Nada, porra… Me mandaram embora, foi isso!
– E agora, como é que a gente faz pra viver?!
– Sei lá, mas acho que você vai ter que trabalhar e…
– Isso, nunca! Não nasci pra servir aos outros!
– Bom, então a gente vai ter que se desfazer de algumas paradas…
– Vai, homem! Desembucha!
– Bom, a gente vai ter que começar a vender as crianças!
– Ótima idéia! Vou armar uma barraquinha na feira.
– É… eu sabia que você não iria gostar da idéia.
– Não, muito pelo contrário, Valtair! Eu adorei!
– Para com isso, Regina. To boladão com tudo isso… to preocupado!
– Pois eu falo sério! Vou pintar um de cada cor! Tipo pintinho, saca?!
– Ah, vai… Senta aqui e me ajuda a pensar, mulher!
– Peraí que eu vou pegar as crianças, daí você me ajuda com a tinta…
– Regina?
– Oi!
– Eu posso, tipo… pelo menos pintar o Ernesto de azul?
Rogério Sanitário
Naquela manhã, Rogério teve uma surpresa mais que desagradável. Saltou do ônibus com uma puta vontade de mijar, passou correndo pelo botequim onde sempre costumava tomar uma média, derrubou algumas moedas que estavam no bolso da calça, passou direto pelo segurança, não bateu o cartão de ponto e seguiu em disparada rumo ao banheiro. Ao abrir a porta, deparou-se com o vaso sanitário imundo, topo respingado de merda, como se alguém tivesse um super-mega-ultra borrifador acoplado à bunda. Depois de se aliviar, seguiu calado até sua mesa. Estava tentando se controlar para não perguntar quem fora o autor de tal obra de arte. Duas horas se passaram e, de tão revoltado, ele acabou não se segurando e imprimiu a foto de um porquinho com uma mensagem malcriada, para colar sobre a cena do crime. Mais tarde, mandou uma circular para toda a repartição, exigindo respeito, e que todos tivessem noção de higiene. Falou sobre a falta de profissionalismo que era ter uma privada suja como a de rodoviárias infectas, e reiterou sua ojeriza ao que encontrou boiando logo cedo. Minutos depois, foi chamado a sala do chefe. Poucas palavras foram ditas, e dali ele seguiu para o RH, onde foi efetivado seu desligamento da empresa. Naquele dia, Rogério aprendeu que não se deve fazer tanto estardalhaço por pouca merda, mas também sorriu ao imaginar a patética cena do patrão jogando fora sua cueca freada.
Rio porque te amo!
Como alguns podem não saber, já vou logo avisando que hoje é feriado aqui na Cidade Maravilhosa. São Pedro caprichou e o dia está pra lá de bonito, apesar dos temporais-flash-mob que caracterizam nosso verão-sauna-a-vapor surgirem do nada com uma ventania de dar medo. Os cariocas festejam seu padroeiro, São Sebastião, com muita praia, cerveja e churrascão na laje. A mulherada aproveita para deixar as crianças soltas, os marmanjos bebem até se transformarem no pião da casa própria e o moço do mate em galão fatura uns trocados em Ipanema. Pelo subúrbio, é o pagode e o funk que bombando nos porta-malas dos carros, enquanto as periguetes se exibem para os marmanjos sarados, dançando até o chão (chão,chão,chão). Tem ensaio na quadra da Portela, os jasmins perfumando as ruas e o sol ainda brilha até quase oito da noite. E depois, nada como fechar o dia de bobeira com a voz de Clara Nunes. Tem como não amar isso tudo?
Quem lucra com Harry Potter?
Beibe acordou cedo, passou creme hidratante nos cabelos, limpou a gaiola dos passarinhos, foi entregar umas fitas na locadora e deu com a porta na cara. Um aviso colado com fita gomada dava como encerradas as atividades daquele estabelecimento e, por conseguinte, quem ainda estivesse com filmes, poderia ficar com os mesmos. Aborrecida, acabou se arrependendo por não ter levado a coleção inteira do Alexandre Frota na Brasileiras, ao invés do maldito Harry Potter que seu sobrinho havia pedido. Pelo menos ela havia combinado de pagar na entrega…
Há uma vida lá fora
Arnaldo passava o dia em frente ao PC, reclamando da vida. Não tinha namorada, não tinha amigos de carne e osso, não recebia ligações antes de dormir e nem cozinhava para mais alguém que não ele próprio. Sua desculpa para tanto sempre era a falta de tempo, e então veio uma epifania em forma de biscoitinho da sorte: “Delete o Twitter, delete o Facebook, delete o Orkut, delete o Blogspot e tenha uma vida real, ou você morrerá sozinho”. Chocado, ele criou perfis fake em todas as redes para ser amigo de si mesmo. No momento, ele aguarda a confirmação de amizade do seu alterego no Formspring para fazer umas perguntinhas capciosas…
Uma tragédia em tópicos
– Demitiram a recepcionista por ter sido flagrada visitando sites obscenos.
– Um anuncio de emprego foi posto na internet e no portão da empresa.
– Oito meninas se candidataram: uma gaga, duas bilíngües, três gordinhas e outra linda.
– Deise foi escolhida pelo conjunto da obra, e começou no dia seguinte.
– A nova recepcionista não entendia de computador, mas sua beleza era algo surreal.
– O dono da empresa estava solteiro e a promoveu em menos de uma mês.
– Deise, além de recepcionista, agora também era secretária do patrão.
– Depois do estágio probatório, ele a beijou e levou para jantar.
– Namoraram escondidos por dois meses, até eles assumirem o romance.
– Franklin e a recepcionista ficaram noivos antes das férias e deram um baita festa.
– Ele tatuou o rosto da amada no abdome. Ela comprou um anel de ouro branco.
– O casal esbanjava sorrisos por onde passava, mas algo não parecia bem.
– A empresa abriu falência, e Deise prestou concurso para a Caixa Econômica Federal
– Franklin pensou em recomeçar a vida bem longe, mas Deise passou na prova..
– O namoro acabou em tom amargo, e para ele só restou a enorme tatuagem.
– Deise foi trabalhar como caixa, e seu ex-patrão passou a viver num cortiço.
– Ela se envolveu com alguns rapazes do banco, mas era muito tapada para eles.
– Franklin arrumou emprego como taxista, e muitas corridas foram pagas com sexo.
– Um ano se passou, e eles se reencontram ao acaso na fila do mercado.
– Ela já era tesoureira, e ele havia montado um ferro-velho.
– Deise o convidou para tomar uma cerveja, e ele pagou uma porção de salaminho.
– Ambos estavam desimpedidos, e acabaram transando numa viela.
– No dia seguinte ela o esnobou novamente, mas isso já não importava mais.
– Ele gozou dentro, e ela agora também tinha o maldito vírus do HPV.
– O ferro-velho de Franklin cresceu e ele colocou um anuncio no jornal.
– Vinte meninas se candidataram: três gagas, cinco bilíngües, onze gordinhas e uma linda.
Incinerando seus instintos
Ninguém consegue explicar ao certo como é que isso acontece, mas toda vez que Gláucia ouve algo do David Bowie, um espírito incendiário toma conta de seu corpo, tornando incontrolável a vontade de queimar alguma coisa. No último fim de semana, por exemplo, ela estava passeando pelo shopping quando “Absolute Beginners” começou a tocar em seu Ipod. Imediatamente, ela sacou um isqueiro da bolsa e tacou fogo em vários cabideiros da C&A. Confundida com uma fashionista revoltadinha da TV, acabou incitando um flash-mob de adolescentes, que saíram queimando tudo que viam pela frente com seus cigarrinhos mentolados. A menina só saiu do transe quando seus headphones saltaram do ouvido. Atônita, percebeu a merda que havia feito e saiu sem ser notada. Por segurança, ela deletou todas as músicas do camaleão e passou a ouvir Susan Boyle.
Só pega em quem acredita
Ao dar de cara com aquele enorme despacho em sua porta, Odorico regurgitou o café da manhã e ainda tropeçou na mangueira que enchia a piscina. Só não foi com a cara no chão porque se pendurou no fio da antena, que descia pela varanda enrolado num dos pilares. Indignado, não levou nem três segundos para supor que a responsável por aquela nojeira fora sua ex-namorada, Bernadette. O sol estava começando a banhar as ruas de mansinho, e os vizinhos que também saiam para trabalhar se espantavam com aquelas cabeças de bode e galinhas pretas que adornavam a macumba. Tomado pelo ódio, o rapaz ligou para a ex e foi chutando o despacho para fora de sua calçada quando, do nada, surgiu um carro desgovernado que o atingiu em cheio. Alguns conhecidos correram ao seu socorro, enquanto outros chamavam o corpo de bombeiros. Com um corte profundo na testa, fraturas expostas nas pernas e as tripas espalhadas pelas ferragens, Odorico repetia ao telefone: “Macumba só pega em quem acredita, sua idiota!!”