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Carência Psicótica

julho 10, 2011

Três dias

– Luiz Otávio… Quero te dizer uma coisa.

– Pode falar, Maria Regina.

– Eu te amo!

– Ah, que bom! Eu também te adoro!

 

Sete dias

– Eu te amo, Luiz Otávio. Amo muito!

– E eu adoro estar com você, minha linda!

– Eu te amo… Eu te amo, entendeu?

– Entendi, claro. Errr…

 

Vinte dias

– Você sabe que eu te amo, né?

– Sei, sim, Maria Regina.

– Mas é amor de verdade, sabe?

– Sei, é claro!

– Você não me ama?

 

45 dias

– Porque você não diz que me ama, Luiz Otávio?

– Eu te ado…

– Adora porra nenhuma! Você tem que me amar!

– Maria Regina, eu…

– Me ama? Diz? Você me ama?

 

46 dias

– Eu te amo, Luiz Otávio.

– Ai, que saco! Não começa com isso, Maria Regina.

– Você não me ama mais?

– Nunca te amei, pra falar a verdade!

– Você não quer mais ser meu namorado?

 

48 dias

– Você me deletou do Facebook, Luiz Otávio?

– Sim, Maria Regina. Deletei!

– Mas não vamos nem ser amigos?

– Acho melhor não…

– Eu te odeio, seu bosta!

 

50 dias

– Luiz Otávio, espero que você não guarde rancor.

– O que eu fiz… foi por amor, sabe?

– Posso te dizer uma coisa?

– Sempre achei lindo o Cemitério de Inhaúma.

Amor em Festa de São João

julho 7, 2011

Elaine foi numa dessas festinhas de São João e conheceu um charmoso rapaz, chamado Estevão. Começaram a se conhecer na barraquinha de canjica. Trocaram sorrisos enquanto esperavam pelo salsichão. Ele tocou em sua mão depois de comprarem algodão-doce. Abraçaram-se calorosamente quando ele ganhou um ursinho de pelúcia na pescaria. Rolou um carinho mais quente quando tomaram as caipivodcas. E o primeiro beijo estalou depois de comerem um milho cozido carregado na manteiga… Daí ela ficou com nojinho ao ver que ele tinha sabugo preso entre os dentes, e tudo acabou com o estouro dos traques.

A apressada de Cascadura

julho 3, 2011

O despertador não tocou, e aquele era seu primeiro dia no trabalho. Meire só teve tempo de tirar o moletom e vestir qualquer coisa que tateou na penumbra do quarto. Saiu apressada e nem tomou banho. Só deu uma disfarçada no visual, para não dizerem que era desleixada. Devorou uma coxinha com catupiry de forma animalesca, antes de pegar a kombi na praça de Cascadura, e quase acabou se entalando com um ossinho de galinha. Ao chegar no Valqueire, saltou tão desesperada que nem viu a motocicleta, que vinha cortando pelo meio-fio. Ensangüentada e agonizando no asfalto, sua única preocupação era no que pensariam as pessoas quando percebessem que ela havia morrido usando uma calcinha velha e frouxa.

Eles sozinhos

julho 1, 2011

Aquela cartinha de amor que Ela deixara sobre a pia do banheiro não surtiu efeito. Ele leu, dobrou cuidadosamente e a devolveu para dentro do envelope. Sabia que Ela o esperava na cama, mas preferiu dar ouvidos à pirraça. Ela adormecera nua, exibindo num dos seios a tatuagem de um sagrado coração em chamas. Eles brigaram por alguma bobagem, e depois ficaram o dia inteiro sem se falar. Com uma lata de cerveja na mão, Ele ligou o a tv da sala e colocou pra rodar um dvd do King Kong. Assistiu até aos extras, e acabou dormindo no sofá. No dia seguinte, Ela não estava mais lá. Deixou outra cartinha, só que sem amor. Ser trocada por um macaco no meio da madrugada não foi nada fácil. E enquanto Ele alimentava seu orgulho besta, acreditando estar com a razão, ela foi desfilar seu corpo esguio e tatuado em outros subúrbios. Ou talvez… outras cidades?

O queijo do vizinho

junho 25, 2011

Depois de um dia inteiro batendo pernas pelo Centro, o casal de feirantes entrou num motelzinho fuleiro, para dar uma aliviada na tensão. Quando Fabíula tirou a calcinha, subiu aquele pavoroso cheiro de rato morto. Ela rebolava em seu colo, toda se querendo, mas estava gripada, e então só Roberval sentia a catinga azeda que empesteava todo o quarto. Como era um cara discreto, foi disfarçando e a jogou dentro da hidro, àquela hora já cheia de espuma. Com cuidado, esfregou-lhe vigorosamente os baixos fuditórios, antes de voltarem para a cama. Fabíula estava fogosa, e revigorada. A sacanagem voltou a esquentar, e ele forçou a cabeça da namorada para baixo, na esperança de receber um guloso bolagato. De sopetão, ela olha furiosa para o marmanjo e aponta-lhe o dedo: “Se eu quisesse queijo, Roberval, teria pedido para irmos ao festival de fondue! Seu porco!”

Moral da história? As pessoas continuam se incomodando só com a grama do vizinho…

Da paciência

junho 20, 2011

Jobson trabalhava numa firma de advocacia, mas por falta do que fazer, passava horas e horas jogando paciência no computador. Tanto praticou, que acabou tornado-se um ás no jogo. Ficou tão empolgado que comprou um iPad. Agora, além do trabalho, também jogava no ônibus, durante o jantar, sentado no vaso, deitado na cama… O que era um passatempo se transformou em vício, e sua mulher resolveu reclamar. Como nada surtia efeito, ela tomou o tablet de suas mãos e acabou levando uma bifa no meio das ventas. Sim, naquela noite Jobson perdeu ambas as paciências.

O fim da inocência

junho 16, 2011

Fabrícia ficou toda orgulhosa de ter entrado na puberdade. Quando os pentelhos fininhos e aloirados finalmente avolumaram-se, ela fez questão de mostrar para a família que já era mocinha. Não importava o lugar, se houvesse uma tia ou um primo de bobeira, lá estava a garota arriando a calcinha com estampa de bichinhos. Tudo estava muito bom até ela mostrar a novidade para Rubão, seu primo mais bronco, e descobrir que o nome daquilo era boceta. Dali em diante, ficou com vergonha até de usar biquíni, e assim nascia mais uma recatada moradora da Tijuca.

Microdramas # 3

junho 10, 2011

#3 – Foi só chegar o inverno que Domênica danou a reclamar no ouvido de Olímpio, com quem era casada há quase sessenta anos. Uma hora eram as pernas que lhe doíam, noutra era a artrite que lhe acabava com as mãos. De manhã se queixava dos dentes moles, à tarde resmungava das vistas cansadas e a noite vinham os uivos de dor. No domingo à noite, tossindo mais que um cachorro molhado, ela infernizou a vida do marido: “Faça alguma coisa, seu imprestável! Já não agüento mais esse frio!” Com uma panela de óleo fervente em mãos, ele resolveu todos os seus problemas. Livrou-se das lamúrias daquela velha chata e ainda teria mais espaço sob os edredons.

Tatuagem

junho 8, 2011

“Olá, Riwston. Tudo bem?

 Já que não nos falamos faz oito semanas, achei que seria inapropriado telefonar. Relutei muito em te escrever este e-mail, pois estava muito insegura quanto à sua reação. Mas  como sequei uma garrafa quase inteira de vinho e o corretor ortográfico do Word está no automático, aproveito a coragem de minha embriagues para te solicitar, encarecidamente, que entre em contato.

 Não estou te pedindo para reatar, longe disso! Nem quero discutir a relação, ou exigir de volta alguma coisa ( apesar de eu ter deixado meus dvds do Roque Santeiro contigo ). Só quero que você me ajude, Riwston, a pagar pela remoção daquela maldita tatuagem que fiz na minha coxa. Eu sei que você, em momento algum, pediu para que eu eternizasse sua cara entre minhas pernas, mas é que… bom, você sabe…

 Estava chegando o dia dos namorados, aquela sua foto era mesmo linda… E entre te dar um presente muquirana ou algo pra toda a vida, acabei ouvindo a Marinalva, que me deu tanta força, dizendo conhecer um tatuador fodão lá do Méier… acabei agindo por impulso. Gastei toda a minha rescisão com aquela tatuagem. Pois é, eu sei… me fudi!

 Eu nunca imaginei que o resultado fosse ficar tão pavoroso, a ponto de culminar com a nossa separação. Nos primeiros dias, eu te juro, fiquei escorregando nua pelo parapeito da escada, para ver se esfregando as coxas na cerâmica, aquela maldição sumiria. Mas não sumiu, e ainda fiquei assada, a ponto de não poder vestir calças jeans por duas semanas. Foi humilhante ter de explicar isso para o meu chefe, Riwston…

 Bom, vou aguardar uma resposta sua.

Se quiser fazer algo no domingo, sei lá… me liga!

 Beijos

Glendy”

Microdramas

maio 27, 2011

#1 – Juliana passou pelo churrasquinho da esquina e não resistiu: foi pedindo espetos e mais espetos de coração. Comeu tanto que ficou enjoada. Ao chegar em casa, deu-se conta de que havia sido responsável, mesmo que indiretamente, pela morte de mais de cem galinhas. Abraçada ao marido, chorou copiosamente de arrependimento: “Se ao menos eu tivesse pedido queijo coalho…”

#2 –  Érica foi promovida no trabalho, e decidiu romper com Eduardo, com o discurso intempestivo de que não poderia ser mais vista com um pixador. Na manhã seguinte, seu nome estava escrito em vermelho por todos os muros do bairro, sempre acompanhado do mais chulos palavrões conhecidos.