Toda a culpa
Valéria nunca repetiu de ano. Passou em primeiro lugar na UFRJ. Formou-se em Arquitetura com louvor. Arrumou um bom emprego. Fez mestrado e doutorado. Foi promovida várias vezes. Mudou-se do subúrbio para a zona sul. Enriqueceu. Comprou uma casa enorme. Casou-se. Teve três filhos. Quando conquistou tudo aquilo que desejava, ela percebeu que não era feliz.
Por conta de todo o sucesso que teve na vida, Valéria se culpava. É como se houvesse uma balança gigante, onde todos os seus êxitos fossem responsáveis pela crescente miséria que a cercava. Toda vez que comia uma lagosta, por exemplo, ela tinha certeza de que uma criança morreria de fome.
A arquiteta sentia tanta vergonha por ter dinheiro e conforto, que decidiu virar o jogo. Quando ouviu dizer que o índice de assaltos cresceu no Aterro do Flamengo, ela se encheu de jóias e correu em direção aos meliantes. Isso acabou tornando-se um hábito, e hoje ela até agradece ao ser assaltada.
O sonho de Valéria é ser morta e degolada por um desses pivetes. Só assim, ela saberá que foi devidamente punida por ter sido uma pessoa exemplar e correta.
Procrastinação
Adelaide teve um arroubo de inspiração e escreveu um livro inteiro em apenas oito horas. É claro que ainda precisava passar o corretor ortográfico e fazer uns floreios, mas seu próximo best seller estava ali, prontinho para ser lido e ovacionado. Só que, além de talentosa, ela também era a rainha da procrastinação. Tudo o que precisava fazer era anexar a porra do arquivo e mandar para seu revisor, mas preferiu ficar assistindo um reality show dublado sobre pessoas com desprezíveis descompassos mentais. Deixou para outro dia, mais outro, mais dez, um mês, passou um ano e nada.
No réveillon de 2014, Adelaide resmungava sobre a falta de dinheiro e oportunidades…
Pedra de marimba
Dezembro chegou e Marli ficou azeda. Ela odeia festividades, e o Natal, em particular, causa-lhe ânsias de vômito! Passar pelas casas enfeitadas com pisca-pisca, neve de isopor e renas nos telhados foi o limite: jogou-se na frente de um ônibus. Gritos, correria, pânico. Afastem-se todos! Ela não morreu, nem sofreu um arranhão! Foi salva por um homem chamado Jesus, que a empurrou para a calçada. É milagre! É milagre! É… milagre mesmo? Apesar do nome, da barba e das boas intenções, o rapaz não transformava água em vinho. E já que não iria rolar a bendita cachaça, Marli continuou mais cética que uma pedra de marimba.
Para tudo, um limite!
Jorginho vestiu a saia da mãe e não sentiu nada estranho. Cobriu-se de joias, passou perfume, besuntou os lábios com batom e enfeitou o cabelo com presilhas: tudo de boa. Arrematou o visual com uma blusinha de renda, e justamente quando estava fazendo selfies com seu smartphone, foi flagrado pela irmã mais velha. Tremeu na base, ficou com medo da bronca e quando já estava quase jurando que faria de tudo para que ela não contasse nada para os pais… ganhou um sorriso. Tamires era gente boa, e deu bons conselhos para o menino. De tudo, só não admitiria que o caçula fosse parar no programa da Luciana Gimenez fazendo dublagem de Valesca Popozuda. Isso, jamais!
Bateu!
Acendeu um cigarro, o último do maço, e sentiu que já era hora de parar de fumar. Bateu uma saudade. Colocou um disco da Gal Costa na vitrola e, só de calcinha, dançou pela casa. Bateu uma vontade louca de estar na boate. As luzes estavam todas apagadas, deixou só um abajur para quebrar a penumbra. Bateu uma vontade de trepar. Lá pela terceira música, o cigarro acabou. Bateu um bode. Só tinha um gole de vodka no freezer, que desceu suave pela garganta. Bateu um calorzinho. Tomou um banho gelado, para acalmar o fogo, e foi pra cama. Bateu o relógio da igreja, já era meia-noite.
Valéria Cristina Paralelas
Acordou abafada, com a cara enfiada no travesseiro. “Fofo demais”. Só que ela odeia travesseiro fofo demais. Não tem nenhum desses em casa, então é certo de que deve estar no quarto de outro alguém. Janelas fechadas, cortinas grossas, só um filete de luz e mais nada. “Onde estou?” – pergunta-se, um tanto zonza, enquanto tateia a cama e… um corpo quente. “Mas quem é? Estou na casa dele?”
Joana consegue escapar sem acordar a pessoa. Não sabe quem é, já que não se lembra do que ter saído de casa na noite anterior. Estourou uma bacia de pipoca, colocou um filme de zumbis pra rodar, tomou banho, masturbou-se e acordou aqui. Procura por um interruptor, pensando na estranheza da situação: “Muito estranho. Será que peguei o tal do sonambulismo da minha tia? Era só o que me faltava!”
Click
Ele tem o peito peludo, braços fortes, tatuagem de carpa, cabelos encaracolados e também tem barba. É um cara bonito, mas ela não tem a menor noção de quem seja: “Pelo menos trepei bem. Espero que sim. Ou… Será não que trepei?” Sim, sua caixinha está ardendo de leve. A noite foi boa. “Mas onde o conheci? Devo ter bebido… Ou foi Boa Noite, Cinderela?” Sem saber como proceder numa situação como essa, ela o cutucou.
“Bom dia, tudo bem?”
“Porra, Cristina! Hoje é domingo, vamos dormir mais um pouco, vai? As crianças nem acordaram ainda, caralho!”
“Cri-an-ças.? Do-min-go? Por-ra? Cris-ti-na?” Seu nome é Valéria, não tem filhos, e hoje deveria ser quinta-feira. Provavelmente trata-se de um sonho, e ela volta para a cama, num provável estado de choque. “Vou acordar e tudo vai voltar a normal. É só um sonho maluco, Valéria. Dorme, que tudo passa.” Repetiu o mantra até, de fato, adormecer.
“Mãe! Hoje já é amanhã?” Valéria acorda com o interrogatório de uma linda e estridente menina de olhos azuis. Como os seus olhos azuis. O homem do sonho entra no quarto, ainda sem camisa, e abre as cortinas. “Não é aqui que eu moro. E eu não sou Cristina! O que está acontecendo?” Ela berra e assusta a própria filha. “Está louca, Cristina? Que história é essa de Valéria? Levanta e vai lá falar com a garota, saiu desembestada pro quintal…”
“Eu sou Valéria! Eu sou Valéria! Eu sou Valéria! Eu sou Valéria, né?” perguntou-se diante do espelho. Não era pra ser um sonho? Não era pra acabar depois de acordar? Tudo tão estranho, e de repente ela se vê à vontade, remexendo o armário de uma mulher que ela não deveria ser. “Será que eu acordei numa realidade paralela? Quem é Valéria?”
Ela encontra a filha chorando, meio assustada. “Está tudo bem, meu amor. Mamãe teve um sonho esquisito, foi só isso. Vamos tomar café?” Naquela manhã tinha torradinha com geleia de morango, sua favorita. Tomou dois copos de suco de laranja e uma xícara de café. Hoje eles vão almoçar fora, e ela já nem sente mais tanto estranhamento. “Espero que a tal da Cristina não deixe de pagar minhas contas. O aluguel vence amanhã.”
Nádegas ao vento
Dez horas da manhã, e Moniselle já não tinha mais nada para fazer no trabalho. Carimbou processos, arquivou pastas, jogou paciência, limpou o teclado, lixou as unhas, arrancou os pelinhos da xurreia e até passou trote para seu ex-marido. Estava tão sozinha naquele setor, que resolveu xerocar suas nádegas. O enquadramento ficou tão lindo e poético que ela gastou uma resma de papel fazendo cópias. Ao meio-dia ela abriu a janela e atirou tudo ao vento, só pelo desfrute de ter sua bunda achatada fazendo a alegria da galera na hora do almoço.
Minpresta?
Se tem uma coisa que Geferson detesta é quando pedem algo emprestado. Ele sua frio, pensa duas vezes, mas não sabe dizer “Não”. Tem muito medo de ser visto como egoísta. E, nisso, já se foram dezenas de discos, livros, cds, fitas de vídeo, dvds, revistas de mulher pelada, canetas, calças, bonés, apontadores, borrachas e… dinheiro.
Ele sente raiva de si, sente uma vontade incontrolável de cobrar tudo de volta, sente uma invejinha danada de quem consegue ser tão cara de pau. Respira fundo. Não quer ser alvo de fofoca. Tornou-se tão resignado e obediente, que já guarda uma parte do salário para empréstimos, compra tudo em dobro, no caso de alguém pedir.
Geferson acredita na lei do retorno, e sabe que um dia será recompensado por todas as suas boas ações. Pode ser até numa outra vida, na próxima encarnação. Ele não liga. O importante é não dar motivos para que falem mal dele. Coitado.
Aliviada
Genise estava meio sorumbática, com o pensamento perdido lá na missa de sétimo dia da bezerra malhadinha. Tinha brigado com o marido, que chegou em casa com a gola da camisa manchada de batom. A discussão seguiu madrugada adentro, e ficou combinado que ele dormiria no sofá. Sair da cama já foi complicado, imagine fazer a maquiagem enquanto os olhos debulham em lágrimas? Mas ela foi trabalhar, mesmo assim, e tentou engolir o choro. Tinha uma planilha complicadíssima para se distrair, e algumas vidas extras no Candy Crush para extravasar o ódio. Daí apareceu Moselle, sua melhor amiga, com uma carreirinha de padê.
A morena titubeou, chegou a recusar, mas voltou atrás e deu um teco. Ficou louca, louquíssima, alucicrazy, gozou com o atrito entre a saia e as pernas, passou a ver tudo em raios-x, passeou numa montanha-russa imaginária e, para deixar tudo ainda melhor, teve uma diarreia homérica. Para quem nunca havia se drogado, até que não foi tão ruim: Genise esqueceu completamente a traição do marido, e acabou tirando um peso de vinte toneladas dos ombros. Foda foi explicar porque estava toda cagada no posto de trabalho.
Parágrafos Soltos de Contos Inacabados [Pt 03]
[…] por conta das rosquinhas, tanto que jogou tudo para o alto e deixou o refeitório.
Visivelmente transtornado, ele seguiu até o banheiro, onde se trancou. Bufando, deu pra falar sozinho: “Donnuts, esses vermes nunca vão comer donnuts de verdade”. Concluiu que estavam todos com inveja de sua viagem para São Paulo, e que jamais entenderiam seu desejo de ir embora dessa província, já que nunca vão muito além de Cascadura.
Recomposto, ele secou o rosto com papel toalha e voltou para a repartição […]