Parágrafos Soltos de Contos Inacabados [Pt 02]
[…] não conseguia dormir, tamanho o arrependimento por ter escolhido fazer a cerimônia no sítio de sua prima.
A noite passou em branco, assim com sua grinalda. Brendy fritou na cama, e não havia rivotril nesse mundo que a acalmasse. O resultado de uma madrugada mal dormida foi um par de olheiras azuladas e um certo descontrole emocional. Ela fez cabelo, unha e maquiagem, tomou dois goles de Sidra Cereser, mas nada diminuía a ansiedade.
Colocar o vestido foi a gota d’água. Tomada por um desespero fulminante, a jovem correu para o quintal e começou a desenhar sóis sorridentes na terra encharcada – como havia ensinado sua avó, nas tardes chuvosas de férias. Atônito, o noivo assistiu ao surto histérico junto aos convidados, que aproveitavam a distração para roubar uns docinhos.
Dona Herculina olhou para o céu, na esperança de que a simpatia fizesse efeito, mas acabou se distraindo com uma goiaba madura que pendia do galho mais alto […]
Parágrafos Soltos de Contos Inacabados [Pt 01]
[…] e admito que, depois daquele papo, até poderia pensar em algo mais sério.
Nem termino o que estava falando e Catarina vira-se, com seus olhos verdes e feiticeiros apontando para o teto. Sem muita firula, ela pergunta se pode usar minha escova de dentes. Fico atônito, e meu rosto gela. Mesmo trepando sem camisinha, gozando dentro e chupando seu rabo com uma assustadora frequência, não me sinto à vontade de dividir algo tão íntimo, tão meu, quanto a porra da escova de dentes.
Ela não lida bem com a recusa e sai batendo com os calcanhares no piso de tábuas corridas […]
Suburbanismos #001
Capriel e Rosiclair
Carregando uma prancheta, um bloco de A3 e seu estojo de desenho, Capriel chegou em casa suando frio. Rosiclair, a empregada, estava limpando o rejunte do piso da sala quando foi abordada pelo jovem, que tinha na voz um tremor impaciente.
– Tira a roupa, Rosiclair.
– Oi?
– Tira a roupa, que eu vou te desenhar!
– Menino, você tá louco? Sou paga para limpar a casa e…
– Tira-a-porra-da-roupa, Rosiclair! Não vou repetir outra vez!
– Mas pra quê isso? Tá drogado, é? Vou ligar agora mesmo para a sua…
– Não mete minha mãe no meio! Tira essa camiseta, anda!
– Ou o quê? Vai me jogar pela varanda?
– É urgente, Rosiclair! Preciso entregar esse trabalho na faculdade…
– Ah, porque não falou antes? Você quer que eu “pouse” pra você?
– Quem pousa é avião. Você só vai ficar quietinha e pelada, Rosiclair.
– Ui, tá nervosinho!
– Tira a cal-ci-nha!
– Não, a calcinha fica! Não quero que você fique aí me desejando…
– Rosiclair, eu não te desejaria nem que fosse a última buceta desse mundo!
– Ah, é? Então não vai desenhar porra nenhuma!
– Olha só, eu preciso entregar esse desenho hoje, senão fico reprovado em desenho anatômico!
– Então pede com educação!
– Você poderia, por favor, tirar a calcinha e fazer uma pose.
– Tá. E como você quer que eu “seje”?
– Sensual sem ser vulgar.
– Dedinho na boca?
– Pode ser. Mas fecha essas pernas, que tem um bife saindo aí de você.
– Ih, tá de onda comigo?
– Não, Rosiclair. Agora fica caladinha pra eu terminar isso rápido.
– Tá legal. Vou Ficar quieta.
Dez minutos depois, Capriel suspirou. Não parecia feliz com o resultado, e tentou novamente. Rosiclair permaneceu quietinha, tossindo vez ou outra, mas por puro nervosismo. O garoto revirou o estojo, amassou a folha em que havia desenhado e jogou no lixo. A empregada, atônita, quebrou o silêncio.
– Que porra é essa? Vai jogar no lixo?
– Não ficou bom!
– Mas sou eu, pelada, Capriel! As pessoas vão saber!
– Só se revirarem o lixo, né? Agora muda a pose, olha ali para o lustre!
– Não! Eu quero ver esse desenho! Me dá essa lata de lixo…
– Por favor, Rosiclair. Volta pra poltrona!
– De jeito nenhum! Acabou a palhaçada, Capriel!
– Impressão minha ou sua calcinha tá com uma freada?
– O qu…
– Toda cagada! Que horror, Rosiclair!
– Foi um acidente! Só tinha açaí com banana e…
– Vou ligar, a-go-rinha, pra minha mãe! Ela vai adorar saber que v…
Tomada pela fúria de duzentas ratazanas no cio, Rosiclair voou para cima de Capriel, derrubando-o sobre da banqueta. Com a mesma agilidade que limpava o limo nos azulejos do banheiro, ela conseguiu imobilizá-lo e sentou em sua cara.
– Sente o cheiro desse rabo sujo, seu filho da puta! Passei anos lavando suas roupas de cama, seu punheteiro! Ficavam tão duras que eu podia quebrar! Que-brar!! Agora vem tirar onda com a minha cara? Não pediu para me ver pelada? Agora você aprende a ser homem.
E naquele dia, Capriel não só perdeu a virgindade como também fez o melhor desenho de sua vida. Ele e a empregada começaram a namorar em segredo, e sua única exigência era que ela estivesse sempre com aquele mesmo ranço de bunda. O amor tem disso, e ninguém pode julgar.
Sardinhas em lata
Mesmo acordando muito cedo, Glauce não consegue pegar assento vazio no metrô. E olha que ela mora na Pavuna, no começo da tripa. O centro do vagão tem espaço folgado para ir de pé, é só uma questão de jeito, mas ela, assim como todo mundo, prefere passar aperto. Se espreme e empurra quem estiver pela frente para ficar prostrada na porta. Não pede licença, e distribui cotoveladas em qualquer um que encostar demais. Bufa. Suspira. Murmura xingamentos sujos. A cada estação, um novo resmungo. Tudo isso para saltar em Botafogo, última estação. Daí as lamúrias se estendem por todo o dia, até a hora de voltar para casa, onde acontece a mesmíssima coisa. Ela poderia ir para o meio, mas fica na porta, assim como os demais, reclamando da lotação.
Rafael acorda cedo, muito cedo, mais cedo do que precisa. Sabe que o metrô vai estar cheio, e por isso sai de casa meia hora antes do que seria necessário. Ele embarca na estação Del Castilho, onde os vagões já estão abarrotados. É um monte de gente espremida nas portas, enquanto o centro do vagão está visivelmente vazio. Um monte de gente que só vai saltar na última estação, mas insiste em bloquear a passagem. Tudo o que ele queria era passar pela turba para chegar ao meio da composição, mas “com licença” ou “por favor” parecem não ter significado algum. Tem dias em que ele pensa em explicar um pouco de lógica para aquelas pessoas, mas daí chega a Carioca e ele precisa saltar. Ele não passa o dia reclamando disso, mas sabe que vai passar por tudo de novo. Daqui a pouco.
A porra toda e um pratinho de batata frita
Destruir a porra toda: esse era o sonho de Hobson. Sua namorada, Jocélia, terminou por Whatsapp. Furioso, jogou no Google e descobriu que poderia fazer napalm em casa. Depois que a namorada o largou por um pagodeiro, ele perdeu a alegria de viver. Agora, só precisa de isopor e gasolina. A maldita o trocou por um gordinho barbudo que toca pandeiro. O fogo gerado pelo napalm é quase impossível de ser apagado. Hobson raspou a cabeça com gilete. Jocélia confirmou presença num evento pelo Facebook. Duas garrafas seriam o suficiente. Ela postou uma foto com o cara suado, e parecia feliz na roda de Samba que rolava em Olaria. Com o coração partido, o jovem ateou fogo no tecido que pendia do gargalo. Alguém puxou um samba de Noel Rosa. Hobson adorava “Fita Amarela”. Jocélia tinha lágrimas nos olhos. Hobson sabia que ela pensou nele. Apagou o fogo, e o napalm foi pro ralo. Jocélia saiu para comprar um pratinho de batata-frita, e Hobson perguntou se ela queria um sachê de maionese. O pagode continuou comendo solto. Eles entenderam que o amor acabou, mas a batatinha estava uma delícia.
Não, eu não sou sapatão
É sempre assim: você não fez nada demais, mas aparece alguém insinuando alguma gracinha. As pessoas querem fazer refresco com néctar de pedra, e um dia o feijão acaba passando do ponto. Um telefonema para a mãe foi motivo de revolta para Themis.
– Oi, mãe. Recebei sua mensagem. Tá tudo bem?
– Sim, tudo bem. Vi seu facebook e fiquei preocupada.
– Com que? Não vida nada estranho.
– Ah, tem um negócio estranho que você colocou lá…
– É vírus?
– Não, é uma foto.
– Foto? Com quem?
– Filha, me diga uma coisa. Só entre a gente…
– Que foi, mãe?
– Você é sapatão?
– Oi?
– Você gosta de mulher? Transa com alguma?
– Mãe! Eu não sou sapatão!
– Você enfia essa boca no suvaco de cobra, Themis?
– Mãe! Que absurdo! Para com isso!
– Você gota de buçaralha, né? Pode confiar, não julgo!
-Ai, meu deus… era o que me faltava!
– Mas, filha, eu te conheço…
– Então a senhora me pariu errado. Eu gosto é de homem.
– Sei não… pra mim você é sapatão.
– Tchau, mãe!
– Tchau, meu amor. Manda um beijo pra sua namorada.
Cansada de responder sempre às mesmas insinuações, Themis fez um cartaz e foi para o protesto na Rio Branco: “NÃO, EU NÃO SOU SAPATÃO”. Fez o maior sucesso. Beijou mais de quinze moços descamisados, e ainda levou um para casa. Depois de transarem, ele perguntou se ela era toparia participar de uma surubinha no fim de semana, com uma amiga bi. Themis começou a pensar que existe uma conspiração contra sua heterossexualidade. Por via das dúvidas, ela marcou depilação para sexta-feira.
Tu tu tu tu tu…
Rossana telefonou para Brendelson, Precisava conversar sobre ontem. Não especificamente sobre o que foi dito, mas pelo que ficou nas entrelinhas. Acendeu um cigarro enquanto ouvia o sinal de ocupado. Queria deixar tudo bem claro, tudo explicadinho. Mas “tu-tu-tu” não era legal. A noite passou em claro, os pensamentos estavam caóticos e… a porra do absorvente vazou. Merda! Ela vai ter que trocar. O telefone não toca, o cara não responde. Pelo menos não engravidou de um traste. O cigarro queima no cinzeiro, enquanto ela sobe a calcinha. Daí ela vê que ele acabou de postar uma foto no Instagram, lá do Norte Shopping. Só é o tempo de agarrar uma bolsa, jogar um boné sobre a juba e correr até a calçada, o 623 já está vindo. “Vai dar tempo”, ela pensa. O telefone toca, mas e da Tim. Não, ela não quer a porra do plano Infinity. Não agora.
Notas sobre um cachorro-quente
Rufino não tinha salvação: todo dia, pela manhã, comia cachorro-quente na carrocinha que ficava na esquina da Rua da Conceição com a Assembleia. Por melhor que fosse o café preparado pela sua esposa, o sujeito preferia sair em jejum só para se esbaldar naquele molho de cebola, pimentão e tomate. Nem ligava muito pra salsicha ou linguiça, só pensava naquele molho que fermentava o dia inteiro no tabuleiro, cujo cheiro acabava -logicamente- impregnando sua roupa.
Com o tempo, o pessoal do escritório começou a achar que Rufino desconhecia a existência do desodorante, já que o vaporzinho deixava um cheiro azedo, muito similar ao cecê. Primeiro, vieram as piadinhas. Depois, as indiretas. A coisa foi ganhando tamanho até que se descontrolou. A fofoca chegou no ouvido do supervisor, que fez questão de contar para o coordenador. Não demorou muito e Rufino recebeu um email da menina do RH.
Ao saber da sua fama de fedido, Rufino fez um escarcéu na empresa. Foi esfregando a manga da camisa no nariz de todo mundo, e depois mostrou os sovacos, convocando a quem quisesse inspecioná-los, em busca de mal cheiro. Ele bem que tentou explicar que era tudo por causa do sagrado cachorro-quente que comia no café da manhã, mas cadê que alguém acreditava?
Acabou perdendo a razão e se demitiu. Saiu de lá sem nada. Desceu as escadas bufando, com a camisa ensopada de suor. Estava com tanta raiva que não viu outra saída além de se entupir de cachorro-quente. Pediu um. Dois. Quatro. “Pode colocar mais molho”, repetia. Deixou cair na roupa, esfregou pelo corpo, passou na cara, no cabelo, rolou no chão e riu de tudo, já que no final das contas ele tinha certeza de que o problema não era cecê. Sim, aquele homem sabia apreciar a vida com simplicidade.
Tudo de novo
Tenitra acorda cedo, todos os dias. Toma banho gelado, pois dizem que deixa a pele mais sedosa. Passa creme no corpo, no cabelo e no rosto. Não toma café, mas prepara vitamina de banana com maçã e mamão. Não deixa faltar, um dia sequer.
Assiste o Bom Dia Rio antes de sair de casa, e nos intervalos vai arrumando a bolsa. Lixa de unha, esmalte, carregador, corretivo, batom, barrinha de cereal, pente, lenço de papel, um par de calcinhas limpas, meia calça. “É bom estar preparada para tudo” – repete como um mantra, enquanto ajeita tudo nas intermináveis repartições.
Sai de casa no mesmo horário, um ou dois minutos de diferença. Pega o ônibus na esquina de baixo, sempre tem lugar para sentar. Se consegue ficar na janelinha, vai até cochilando até o Centro. Salta na Rio Branco, e caminha até o prédio, onde entra pelo subsolo. Troca a roupa pelo uniforme, deixa tudo trancado no armário enferrujado e trabalha no piloto automático.
Às cinco em ponto já está batendo o cartão. Dez minutos depois pega a fila do ônibus. Engarrafamento, freadas, sacode um tanto, e chega em casa. Cansada, toma um banho quente, ignorando a regrinha de pele sedosa. Daí prepara um miojo, serve um copo de Coca-Cola, janta no sofá, assiste a novela das sete.
Ela bem que tenta ver um filme, mas adormece antes da estória engatar. Acorda no meio da madrugada, apavorada, e percebe que perdeu boa parte do que resta do seu dia dormindo. Sem outra opção, vira pro lado, adormece, e no dia seguinte começa tudo de novo.
