Planos Futuros
– Vou abrir um salão de beleza, tô cansada dessa vida!
– Ah, que maravilha! Já tem nome?
– Preciso pensar, quero algo inovador…
– “Algo Inovador”… é um nome ótimo, adorei!
– Deixa de ser idiota…
– Você que é um ridícula, sua biscate!
– Ai, me ajuda, amiga!
– Ta bom! Que tal “Transformação”?
– Que nem era no programa da Xuxa?
– Isso! Eu adorava!
– Eu também! Cheguei a fingir que era retardada para ir na gravação!
– Mentira?!?!
– Juro! Só que uma das paquitas descobriu e me colocou pra correr!
– Mas então, todo mundo vai pensar que você trabalhava no programa, olha que chique!
– Sei não… Será que já não tem algum com esse nome?
– Claro que não! Ninguém é inteligente o bastante pra pensar nisso!
– Então ta! Vai ficar super féchom quando escrever na placa!
– Caralho! “Transformação Féchom”!! Olha que escândalo!
– Adorei! Vai ser um sucesso, amiga!
– Posso ser sua sócia?
– Claro que pode!
– Adoro! To até tremendo, olha!
– Toma, bebe um copo de água com açúcar e para de palhaçada, que a gente tem um tanque de roupa pra bater e a Dona Márcia já ta pra voltar!
Pinto de Feira
Julia acordou. Moura continuou dormindo. Julia preparou o café. Moura tinha a cama toda pra si. Julia desceu e foi à padaria. Moura babou no travesseiro. Julia tentou acorda-lo. Moura levantou com birra. Julia esperou meia hora. Moura sentou-se à mesa. Julia colocou leite em seu café. Moura disse que preferia puro. Julia sorriu e trocou as xícaras. Moura pegou seu prato e foi assistir tv. Julia ficou magoada. Moura nem notou. Julia terminou o desjejum sozinha. Moura derramou café na almofada. Julia lavou a louça. Moura ligou o computador. Julia disse que ia a feira. Moura fez que nem ouviu. Julia trouxe frutas, legumes e um pinto vermelho. Moura entrou em pânico. Julia sabia que ele tem pavor de aves. Moura se trancou no banheiro. Julia deixou o pinto solto pela casa. Moura disse que mataria o bicho. Julia mandou ele tentar. Moura não teve coragem. Julia foi fazer as unhas. Moura adormeceu no piso gelado. Julia voltou tarde. Moura acordou com o piado do pinto. Julia estava com o bicho na mão. Moura teve outra crise de pânico. Julia caiu na gargalhada. Moura perguntou porque o pinto era vermelho. Julia disse que era de sangue. Moura se encolheu num canto. Julia jogou o pinto indefeso no marido. Moura teve um infarto. Julia achou que era trote. Moura não se movia mais. Julia entrou em desespero. Moura foi levado pela ambulância. Julia seguiu de carro. Moura ficou cinco dias no CTI. Julia jurou eu não foi proposital. Moura recebeu alta. Julia o levou para casa. Moura apontou para o banheiro. Julia foi conferir. O gato ficou com fome. Do pinto só sobraram suas penas tingidas. Julia pediu desculpas. Moura sorriu, dando-lhe um beijo. E eles viveram felizes para sempre.
Ação e reação
Enaide estava desnorteada. Fumou um maço de cigarros, deu algumas voltas no quarteirão e resolveu entrar na igreja para se confessar. Ajeitou a saia, puxando-a para baixo dos joelhos, prendeu o cabelo num coque e se ajoelhou.
– Meu perdoe, seu padre, mas eu pequei. É que ontem o Manel me bateu. E não foi uma tapa na cara, nem um soco na boca do estômago. Eu tomei foi uma vassourada na bunda, mesmo. Sem motivo nenhum, ele se revoltou e começou a me chamar de piranha imunda. No começo, eu até que gostei, achei excitante, pensei que a gente ia fazer alguma sacanagem bem pervertida na cama, você sabe… Engano meu, ele não queria meter em mim.
Na verdade, queria meter a porrada, mas eu não deixei. Saí correndo, que nem uma louca, quando ele me deu a terceira vassourada. O pior é que eu tinha acabado de passar henê nos cabelos, e a rua inteira me viu com o saco plástico de supermercado enfiado na cabeça. Foda-se todo mundo, quem manda no meu cu sou eu e ninguém tem nada com isso, sabe? Mas foi um horror…
Saí correndo até a casa da minha irmã, que não podia saber da briga, senão teria um infarte. Fiz a boba, disse que tava com saudades, e pedi um copo de Coca-cola, com gelo e limão. A coitada trouxe rapidinho, e ainda me ofereceu um pouco do biscoito champanhe. Só deus sabe o quanto eu fico louca quando como esse biscoitinho, molhado na Coca-cola… puta-que-me-pariu!
Aí, já tava bem tarde, voltei para casa, e o Manel tava deitado, sem camisa e com os pés sujos em cima da cama. Fui pro banheiro tirar o creme da cabeça, e liguei a televisão, para espairecer. Acabei dormindo no sofá, e só acordei de manhã cedo, com o filho-da-puta me pedindo para passar o café dele. Também não me fiz de rogada, mijei escondida num copo de geléia e misturei na água fervendo. Tomara que ele sinta o gosto do meu mijo, e se lembre que não sou saco de pancadas. Ai dele se me bater de novo. Nem imagina o que eu posso fazer com uma torta cremosa de chocolate… Enfim, foi isso! Eu tenho que fazer alguma penitência, seu padre?
Depois de rezar cinco terços, ela foi embora pra casa, leve como uma pluma. Ao que parece, nunca foi tão fácil pagar por um pecado e se livrar da culpa. Mas só por precaução, passou no mercado e comprou uma massa para bolo de chocolate. Nunca se sabe…
Atacado e varejo do amor
– Olha aqui essa promoção, benhê!
– Ih, lá vem merda…
– Se a gente comprar dois celulares no dia dos namorados, um pode falar com o outro de graça no orelhão, pro resto da vida!
– E qual a vantagem disso, Regina? O resto da vida vai demorar muito pra passar…
– É de graça, Renato!!! Não consegue entender?
– Ah, não… Ficar parado no orelhão, pegando friagem, só pra falar de graça…
– Mas essa é a graça de ser de graça! Eu posso ligar pro teu celular, direto do orelhão e não pago nada! Na-da!
– Mas nós já temos celular. O meu ta novinho, óh!
– imagina só: eu posso levar a cadeira de praia, sentar debaixo do orelhão e ficar hoooras falando contigo!
– Nada feito.
– Mas é promoção do dia dos namorados, só hoje!
– Cala a boca, Regina. Chega desse assunto! Já deu!
– Ah, é? Então eu vou lá, sozinha mesmo, comprar dois! Dois celulares!
– E vai dar o outro pra mim? É isso? Oh, que surpresa!
– Não, seu idiota. Vou dar pro primeiro que passar na minha frente. Em ambos os sentidos!
Nasce uma estrela
Joelma terminou de preparar o ensopadinho de lingüiça com batatas e resolveu acompanhar Holavo, seu marido, que iria assistir ao jogo do Flamengo no botequim da esquina, com alguns amigos. Não que ela gostasse de futebol, muito pelo contrário. A dona-de-casa se amarrava era no karaokê de lá. Como os clientes pagantes tinham o direito de cantar à vontade, ela nunca se fez de boba e sempre soltava a voz. Desde pequena ela tinha o sonho de ser famosa, e esse pequeno espetáculo já lhe bastava, tipo que um prêmio de consolação.
Como de costume, ninguém cantava, e Joelma seria a única a segurar o microfone. Quanta alegria: sua voz iria reverberar sozinha por toda a noite, ecoando por entre os gritos másculos daqueles que só conseguiam tirar os olhos do televisor CCE de vinte polegadas para pedir mais uma rodada de cerveja. Por mais de quarenta minutos, a empolgada cantora desafinou, gesticulou e se esgoelou, como que estivesse em sua turnê mundial. Triste foi interpretar seus maiores sucessos e não receber nem uma salva de palmas, a não ser o olhar de reprovação do marido, que a fuzilava com um leve menear de pálpebras. Mas ela era guerreira, cantaria mais uma canção. Se era para irritar, que fosse com aquela música da Tetê Espíndola, que todo mundo conhece e adora odiar.
Aparentemente, o jogo estava tão mais interessante, que nem mesmo o Holavo percebeu seus falsetes ensurdecedores. Isso deixou Joelma terrivelmente enraivecida, com um leve tremor nas têmporas. Depois de tantos meses ensaiando com sua banda imaginária, uma estrela de tamanha grandeza não se deixaria abalar pela falta de entusiasmo do público… Até que o Flamengo marcou um gol de placa, bem no último refrão da música. Joelma respirou fundo e deixou o microfone escorregar pela mão, segurando-o pelo fio. Visivelmente transtornada, ela começou a girar sua arma improvisada, como se fosse uma guerreira enlouquecida da idade média. Correu na direção do marido e o acertou em cheio, bem no meio das ventas. O microfone se despedaçou com o impacto, assim como a testa do infeliz se esvaiu em sangue. Ela sorriu com o canto da boca, jogou os cabelos, inclinou-se para a platéia e fez um gesto delicado com a mão, agradecendo pela atenção de todos.
Desacordado, o pobre senhor nem pode presenciar o fim do espetáculo, quando sua amada esposa destruiu todo o botequim num acesso de fúria, típico de rockstars. Testemunhas insistem em dizer que Joelma parecia ter incorporado um daqueles monstros gigantes de seriado japonês, gritando palavras desconexas e se descabelando como uma macaca vadia. A única coisa que ela poupou foi o aparelho de Karaokê, já que na semana seguinte ela iria retornar da clínica de reabilitação, com um novo repertório e visual repaginado.
De um lado para o outro
Um rato. Minha vila acordou em rebuliço por conta de um mero roedor. E eu ainda estava debaixo das cobertas, entregue aos braços de Morfeu, quando tudo começou. Primeiro, foi um grito agudo, vindo de uma das casas da frente. Depois, o furdunço se alastrou por todas as outras. Inclusive a minha.
Pulei da cama, esbaforida, desci as escadas e dei de cara com um dos meus primos, Pedro Henrique. Segurando uma enxada, ele batia debaixo dos móveis e bradava para tentar afugentar o bicho que, segundo minha mãe, havia entrado por debaixo da porta. Ele só interrompeu sua caçada ao me notar, completamente apavorada, na porta da cozinha.
Ofegante e coberto de suor, ele me fitou com um misto de admiração e espanto. Perguntei o que estava acontecendo e ele só fez um gesto, tímido, apontando em minha direção. Percebi, então, que minha camisola havia escorregado, deixando um dos seios a mostra. Com um movimento rápido, puxei a alcinha e corei.
Ele sempre demonstrou um certo apreço por mim, isso lá é verdade. Quando me via chegar do colégio, corria de onde estivesse e se agarrava às minhas pernas. Com o passar dos anos, no entanto, essa adoração acabou ganhando outros rumos. Pedro Henrique passou a me admirar de longe, sem muitas palavras.
Mas naquele momento, senti algo diferente, um arrepio… Não era mais um garotinho, e sim um homem feito. Notei seus braços fortes, o peito peludo… E o maldito rato, aproveitando nosso descuido, escapou por trás da estante, coberto de poeira. Minha prima Crislane, ao avistar a peste, entrou em pânico e subiu no sofá.
Os gritos histéricos nos despertaram do transe, e Pedro Henrique foi atrás do bicho, munido com sua enxada e um jeito levemente desengonçado. Pensei em algumas imoralidades e, de tão excitada, acabei elevando, consideravelmente, a umidade relativa do ar. Corri para a janela e fiquei acompanhando o desenrolar de tamanha confusão.
Lá fora, parecia que uma guerra havia sido instaurada. Crianças e cachorros corriam, de um lado para o outro, enquanto mulheres se penduravam pelos varais. Se houvessem armas, até tiros seriam disparados. Mas Pedro Henrique salvou o dia num único golpe. Acertou o bicho, em cheio, na cabeça.
Orgulhoso e todo sorridente, ele veio me exibir seu troféu: o corpo inerte do rato e a enxada marcada de sangue. Aquela cena me enojou, e toda a excitação que percorria o meu corpo desapareceu. Minhas tias e primas o aplaudiam com furor, mas para mim, o encanto havia acabado. Pedro Henrique, notando meu descontentamento e sentindo-se um verdadeiro herói, resolveu mostrar o homem que se tornara:
– Agora mostra o outro peitinho, vai?!
Reality Contos: Alguém Viu Meu Calypso?
Eles são feios, formam um casal pra lá de bizarro, suas músicas não tem nenhuma originalidade, e já faz algum tempo que coisas sinistras andam acontecendo com eles. Parece que há mesmo uma maldição na vida de Joelma e Chimbinha, donos do furacão conhecido com o Banda Calypso.
Primeiro foi o boato dum bebê, que teria nascido lá no nordeste, com três olhos e dentes afiados como os do capeta. Segundo as enfermeiras, ao abrir o terceiro olho, ele teria dito que uma catástrofe aconteceria numa apresentação da Banda. Resultado: dos 30.000 ingressos, só 2.000 foram vendidos. A produção, sem outra alternativa, teria distribuído o restante dos ingressos para a população, mas só 12.000 pessoas compareceram ao espetáculo. O mais engraçado é que, durante o espetáculo [sic], uma falha no gerador teria causado desespero e correria, já que o povo pensava se tratar da concretização da profecia demoníaca.
Depois veio o pai de Joelma alegando que a filha o teria abandonado depois de fazer sucesso. Mais clichê, impossível. Quase todos os artistas já tiveram que agüentar a reclamação de algum parente mais pobre e interesseiro, que só sabe comer cocrete de carne-seca e guaraná convenção. Segundo a cantora, o pai nunca foi lá muito chegado. É lógeco que não seria agora que ele desfrutaria de alguma mordomia, às custas da filha…
Pouco mais tarde, seu ônibus cor-de-rosa pegou fogo, enquanto eles se apresentavam para uma platéia suada e catinguenta. Ninguém saiu ferido, mas também não foi excluída a hipótese de sabotagem. Sim, eles acreditam que são invejados por gente como Ivete Sangalo, Daniela Mercury e os Rebeldes…
Há algumas semanas, Joelma teria cancelado três shows consecutivos, depois de descobrir uma colônia de verrugas encravadas em sua genitália. A assessoria da banda nega esse tipo de nojeira, mas a recepcionista do consultório ginecológico teria provas de que realmente houve o procedimento de cauterização íntima no púbis da rebolativa cantora. Existe, rumores de que um fã teria comprado vestígios da operação, que mais lembram pedaços de couve-flor em conserva.
E a última tragédia foi a morte do dançarino, que teria caído da varandinha de um hotel, espontaneamente, ao tentar se refrescar um pouco. O problema é que ninguém, a não ser Ariclê Perez, se joga do sétimo andar por vontade própria. Alguns disseram que foi assassinato, outros diziam que ele estava drogadinho, mas uma dançarina resolveu quebrar o silêncio e revelou que o defunto havia discutido com ela minutos antes, por causa de uma possível transmissão de herpes zoster. Ao saber do babado, Joelma teria virado para a dançarina e dito: Você está de-mi-tchi-dam! Mas esse assunto ainda vai dar muito pano pra manga franziada, com estampas levemente florais em motivos folclóricos.
Na minha úmida e humilde opinião, seria prudente verificar se não há um cemitério indígena debaixo do terreno onde eles construíram sua elegantíssima mansão em estilo mediterrâneo. Isso porque colocar a culpa em macumba, bruxaria, olho-gordo ou simplesmente azar, saiu de moda desde o incidente com a Mara Maravilha.
Cem por cento aos teus pés
Jéssica estava desolada. Numa única semana havia perdido o emprego, o noivo e o capítulo final da novela. Foram lágrimas tão profusas que quase escorriam pelas ladeiras do Cachambi. Um verdadeiro drama. Na vitrola, Jane Duboc cantando repetidas vezes a mesma música, embalando a tristeza e ecoando por todo o quarteirão.
Numa manhã nublada, junto com a correspondência, Jéssica encontrou o panfleto de uma mãe-de-santo. Muito conhecida naquela região, Dalcira de Inhansã era garantia de um trabalho bem feito. Já havia curado umbigueira de recém-nascido, casamento desfeito e até mesmo perna cotó. Era tão competente e sofisticada que aceitava pagamento em cartão de crédito e realizava, inclusive, consultas online.
Num primeiro momento, Jéssica fez que nem tinha lido tal anúncio. Nunca foi de acreditar em macumba, não seria agora, em pleno desespero, que iria. Olhou para o porta-retratos e viu a face de seu homem… Bateu então uma coceira nas ventas, que acabou por lhe mudar idéias. Empolgada, colocou um vestido bem justo e lambuzou os lábios com batom vermelho. Já estava até vendo: sairia do terreiro de braços dados com o ex-futuro-noivo.
Tão perto era, que foi a caminhar. Deixava o vento atravessar os cabelos crespos e balançava as ancas, sentindo-se tremendamente sedutora. Pegaria aquele homem pelo colarinho e faria misérias, com a certeza de que, agora, ele não poderia lhe escapar. Chegou na porta do terreiro e viu uma enorme placa, com o desenho quase abstrato de uma negra envolta em panos brancos, onde se lia:
Traz o homem amado de volta em até três dias
100% aos seus pés e de mais ninguém
Consultas 24h por dia
Aceitamos cheque, cartão de crédito e vale refeição
Depois de aguardar duas horas e meia, tendo lido um romance de banca quase inteiro, finalmente foi recebida pela velha negra. Colocou sobre a mesa uma foto de seu homem, uma cueca usada, meias suadas e até uns fios de cabelo que haviam ficado presos na escova. Pediu a Dalcira que o trouxesse de volta naquele mesmo dia, custasse o que for.
A mãe-de-santo, girando os olhos e fumando um cigarro de palha, disse que não precisava de nada daquilo. Gemeu algumas palavras desconexas, arregalou os olhos e perguntou se ela só o queria de volta. Jéssica respondeu que sim! Isso era tudo que ela queria, naquele momento.
– Mas você quer, digamos, 100% aos teus pés? Pra não ser de mais ninguém?
O corpo de Jéssica tremeu em uníssono. Um sorriso quase lhe rompeu as bochechas, e ela assentiu com a cabeça, freneticamente, batendo as palmas das mãos e sacolejando as pernas. O que poderia ser melhor do que, além de ter o homem de volta em menos de três dias? Tê-lo cem por cento aos seus pés, loucamente apaixonado, pedindo beijos e chamegos!
Com seu consentimento, a negra velha começou os trabalhos. Voltou a gemer, com os olhos em turbilhão, e repentinamente, interrompeu. Disse, com os ombros balançando, que era preciso fazer a oferta, senão o trabalho não teria garantias. Jéssica tirou uma nota de dez e colocou sobre a bancada. Mas os espíritos recusaram. Aquilo ali não curava nem mal cheiro de fimose, quem dirá amor desfeito.
Depois de muito negociar, fechou o trabalho em setecentos dinheiros, parcelados em cinco vezes no crédito, com juros do cartão. Para ser tão caro, pensou ela, deve ser batata! E a mãe-de-santo anunciou, enfim, que estava feito. Aquele homem seria dela, novamente e para todo o sempre. Cem por cento aos seus pés. E de mais ninguém.
Agradecendo efusivamente, Jéssica deixou o terreiro e, para seu espanto, o avistou. Era demais para ser verdade… Do outro lado da rua, comendo um churrasquinho misto, lá estava ele! Vestindo a mesma camiseta surrada com estampa militar e os shorts vermelhos, que ressaltavam suas coxas robustas. E aquele rosto, com marcas de espinhas e o cavanhaque mal desenhado…
– Severino, meu cabra-macho! Olheuaqui, toda sua!
Ao ouvir tamanho escândalo, o homem pôs-se a correr e, apavorado, foi violentamente atingido por um caminhão de lixo, que vinha na contra-mão. O impacto fez com que seu corpo ricocheteasse e caísse bem na frente de Jéssica, inerte, sem vida. Ela berrou, e voltou correndo para o terreiro.
– Ele morreu! Ele morreu aos meus pés, caralho! Não era isso que eu queria!
A velha nem chegou a tirar o cigarro da boca e sorriu. Do sorriso, formou-se uma gargalhada. Ela colocava as mãos na barriga e sacolejava. As meninas que a ajudavam também sorriam, matreiras. Jéssica, revoltada, não conseguia entender a graça naquilo.
– Não pediu ele de volta, cem por cento aos teus pés?! Então, vai dizer que o trabalho não foi feito? Ele não pode ser de mais ninguém…
Jéssica parou por alguns segundos, raciocinou e acabou concordando com aquela lógica. Limpou as lágrimas, agradeceu a atenção e pediu desculpas por qualquer inconveniência. Agora, só precisaria dar um jeito de arrumar emprego e comprar um videocassete, para gravar as novelas. Voltou para casa, saltitante, chupando um sacolé de leite-condensado. Tirou o vestido, colocou um compacto do Menudo para tocar e dançou, alegremente, madrugada adentro.
Tudo a seu tempo
Eu ponho o pé na rua e noto que esqueci o celular em cima da cama. É nisso que dá sair às pressas, sem tempo pra tomar café da manhã e nem escovar os dentes. Preciso tirar o cadeado do portão, abrir o ferrolho, subir três lances de escada, destrancar a porta do meu apartamento e pegar o maldito telefone lá no quarto. Até cogito deixá-lo em casa, mas não… Vai que acontece alguma coisa? Não quero nem pensar na hipótese!
Perco quase dez minutos com essa brincadeira, e provavelmente, o ônibus das seis e quinze. Se eu corresse… Bem… Quase nunca chego atrasado no serviço, então resolvo me dar ao luxo, somente hoje, de não sair destrambelhado pelas ruas. Pego o próximo coletivo, com calma, sem correria. Melhor assim, não fico suado e ainda consigo comprar um sanduíche para forrar o estômago.
Até pensei na possibilidade de morar no Centro do Rio, num daqueles conjugados, perto da empresa. Só que eu estou enraizado no subúrbio. Nasci aqui, sempre morei neste bairro. Sei o nome de todas as ruas, dos vizinhos e até dos seus cachorros. Não sei se conseguiria me acostumar com outro lugar, onde as pessoas se trombam nos elevadores e fazem de conta que nada aconteceu.
Desço a ladeira com calma, respirando o ar gelado da manhã. Ouço o canto de canários, melros e bem-te-vis. Uma sensação de alívio me percorre todo o corpo, e quase interrompo a caminhada para admirar tudo isso. Sempre passo tão apressado por aqui que nem tinha percebido quão magníficas e cheias de vida estão as árvores de minha rua. Suas copas, volumosas, juntam-se em arcos perfeitos, emoldurando a perspectiva como que num quadro impressionista. E pensar que meus amigos insistem dizer que não há árvores no subúrbio…
O ônibus demora a passar, e como eu já suspeitava, chega lotado. Que saco! Se eu tivesse conseguido sair no horário de sempre, viajaria sentado, conversando com aquela belíssima morena que, a qualquer momento, aceitaria meu convite para jantar. Mas não, o trajeto leva o dobro do tempo previsto, por conta de um acidente na seletiva. Meu atraso ganha, então, proporções cada vez mais catastróficas!
Ao entrar no escritório, tento não dar muita bandeira e passar despercebido. Chego mudo, caminho em linha reta até minha sala, e sinto o patrão me fuzilando com os olhos. Aquele maldito não admite atrasos, nem desculpas. Só fica lá, esparramado em sua cadeira, ditando ordens desconexas e cobrando serviços inexistentes. Qualquer dia dou-lhe uma resposta torta, e ele vai ver só o que é bom…
O sanduíche, que eu esperava comer durante a viagem, acabou esfriando. E quem ouvisse, poderia jurar que meu estômago estava urrando de fome. Utilizo, então, um recurso muito difundido dentre os nerds, que varam a madrugada de frente para o computador: perfuro o papel laminado com a lapiseira e coloco meu lanche para esquentar no calor do monitor. É demorado e ridículo, eu sei, mas funciona.
Num certo dia, já pensei em fazer essa experiência com líquidos, também. Café, para ser mais exato. Só que para não levar tanto tempo e agilizar o processo, eu derramaria o conteúdo pelas frestas de onde sai o calor, deixando-o passar pelo tubo de imagem e outros componentes. Daí era só esperar cair pela parte de baixo, com o copinho estrategicamente posicionado. É claro que nunca colocaria essa idéia em prática, a menos que estivesse disposto a ser demitido por destruição de patrimônio alheio…
Dou início ao meu expediente, cuidando de alguns assuntos pessoais e jogando no lixo alguns memorandos inúteis. Confiro meus e-mails, atualizo o blog e depois leio alguns sites de notícias. E nesse exato momento, sinto uma flechada no peito. Uma dor lancinante que me derruba da cadeira, caindo aos prantos no piso acarpetado. Tudo por conta de uma daquelas notícias que lemos diariamente, mas não damos a menor trela. Só que, hoje, é diferente…
O tal acidente na pista de descida para o Centro envolveu o ônibus das seis e quinze. Aquele mesmo, que eu perdi por conta do celular. Não dizem detalhes do que teria causado tamanha desgraça, mas houve vítimas fatais. Meus olhos ficam marejados, e me dou conta de que poderia estar envolvido na tragédia.
Tranco a porta, e permito que as lágrimas rolem pelo meu rosto. Entro em desespero, sinto a garganta sufocar e quase perco os sentidos. Qualquer pessoa ficaria aliviada ao pensar que, por um descuido, escapara de uma fatalidade. Mas eu não… Eu deveria estar naquele ônibus. Eu deveria ter morrido, e escapei ileso. Por um bom tempo, fico encolhido num canto, soluçando…
Alguns minutos se passam e eu consigo me acalmar. Dou um gole no café, recomponho-me. Até tento retomar o trabalho, mas aquela sensação de angústia me corrói a alma. Invento uma desculpa qualquer e peço dispensa para o resto do dia. O rosto inchado e os olhos vermelhos me servem de álibi. Ninguém se atreve a questionar meus motivos.
Volto para casa, com uma forte dor de cabeça e um tanto desorientado. Tomo um banho quente e me acomodo na varanda, onde acendo um cigarro e deixo a mente esmaecer. Tento me convencer de que foi um milagre, um presságio que me salvou da morte certa. Jogo a bituca com um peteleco, e procuro o maço. Minhas mãos trêmulas mal conseguem segurar o isqueiro. E então, meu coração dispara.
A morena, meu Deus!! Como pude me esquecer da morena? Teria escapado ilesa? Ela, que sempre embarcava no segundo ponto depois do meu. Mas que merda! Levei semanas para conseguir superar minha timidez e trocar algumas palavras. E se ela morreu? Não, ela não pode ter morrido. Talvez alguns arranhões, nada demais.
Numa certa altura, dou-me conta de que não adianta especular. É melhor cair na cama e dormir, até a manhã seguinte. Isso mesmo! Tomo um calmante, desses que derrubam até elefante, e me enfio debaixo das cobertas. E pensar que eu sequer sei o nome daquela mulher…
Ajusto o despertador para vinte minutos antes do habitual. Não posso perder o ônibus das seis e quinze, quero estar lá bem antes disso. A ansiedade vai se diluindo, e eu fico sonolento. Meus olhos parecem estar cobertos de areia e começo a afundar no travesseiro. Ouço o som da minha respiração aumentando gradativamente, transformando-se num ronco leve. Vem à minha cabeça a imagem daquela morena entrando no ônibus dizendo, toda sorridente, que adoraria jantar comigo. E então durmo…