Fazendo a sincera
Querido Papai Noel, eu fui uma criança insuportável em 2014. Repeti de ano, xinguei minha mãe, peguei no pinto do Rogerinho, empurrei minha avó da escada, bebi uma cerveja velha que tava na geladeira, amarrei bombinha no rabo do gato, derrubei molho na toalha de renda, dei pinho sol pro meu irmão beber, joguei sal de frutas no aquário, vendi a dentadura da minha tia, colei chiclete no cabelo da Melissa, cortei minha franja com uma faca, arranquei as penas de um passarinho, arrotei no meio da missa e ainda caguei nas calças quando estávamos comemorando o aniversário do papai. Tem como você não passar aqui em casa esse ano? Assim fica mais fácil acreditar que você não existe.
Beijos.
Juçara.
Quem ri por último?
A amizade entre Pedro e Belarmino nunca foi um mar-de-rosas. Todos sabiam que os dois não batiam bem das idéias, apesar de andarem sempre juntos. Quando não estavam dividindo uma cerveja e celebrando o ócio, certamente eram encontrados aos tapas, por conta de alguma jogada maliciosa na pelada ou carteado. Mais do mesmo e assim seguiam com suas vidas medíocres.
Certo dia, durante um churrasco na casa de Zé Rolinha, romperam de vez. Dessa vez, no entanto, não houve briga, nem pontapé. É que os dois estavam interessados pela mesma rapariga, Caroline, e descobriram isso quando ela, dengosa e matreira, determinou que só iria para os trâmites finais com aquele que lhe trouxesse o pratinho mais cheio de carne, além da garrafinha de Smirnoff Ice, é claro.
Belarmino, sempre mais ágil e bom de papo, saiu vitorioso: conseguiu asinha de frango, carne de porco, lingüiça e picanha, com um pouco de molho vinagrete. Carregou o bendito troféu de coxas roliças e cabelos cacheados para sua quitinete, onde prometeu realizar loucuras, aos brados, para quem quisesse ouvir. Pedro, desolado, afundou-se na bebida e tragou dois maços inteiros de cigarros. Perambulou sozinho e resmungão pelas ruas empoeiradas de Santíssimo até que, lá pelo meio da madrugada, decidiu ir para casa.
Na manhã seguinte, sofrendo dos terríveis efeitos da ressaca, Pedro acordou com o barulho das sirenes e o falatório do povo. Calçou as chinelas e debruçou na janela, de onde teve uma noção do inferno que ali havia sido instaurado. A rua estava um fervo, com polícia, ambulância e até mesmo reportagem. E o foco de todas as atenções era a maldita quitinete de Belarmino, onde todos acreditavam ser uma filial de Sodoma e Gomorra.
Curioso, vestiu uma camiseta amarrotada e foi atrás de alguma vizinha fuxiqueira. Naquela rua eram várias, que saberiam tim-tim por tim-tim do ocorrido, e ainda aumentariam um cadinho, só pra descontrair. E não deu noutra. Foi Dona Neide, viúva de militar e cega de um olho, que contou com riqueza de detalhes o que havia sucedido naquele casebre, depois da churrascada.
Ao que tudo indicava, Belarmino não deu no couro, e a biscate ficou enfezada. Houve quebra-quebra e muito xingamento. Caroline queria ser preenchida, e ameaçou jogar-se nos braços (e demais membros) de Pedro, que a idolatrava tanto quanto o concorrente, mas certamente colocaria as bolas na caçapa. Não restou sequer um bibelô de porcelana na estante para contar a história, ao passo que a rapariga ficou sem os dentes e com uma costela quebrada.
Ao ver seu desafeto algemado, vestindo apenas uma cuequinha puída, Pedro sorriu. E do sorriso fez-se uma gargalhada histérica e descontrolada. Ele foi ao chão, rolou de rir com as mãos na barriga e os olhos em lágrimas. Riu tanto que se engasgou, e só não sufocou por que Dona Neide o socorreu. No fim das contas, ninguém comeu ninguém, mas o churrasco do Zé Rolinha rola todo domingo.
Conversa de balcão
– Sabe duma coisa, Maurinho?
– Ahn..
– Vô dá um pé na bunda da Marcinha, aquela de Olaria!
– Ah, não fode!
– Tô falando sério!
– Mas ela é tão legal!
– É que ela não me completa, sei lá!
– Porra! Tem só duas semanas que vocês se conheceram, Lê!
– É, mas com duas semanas eu já tinha ido morar com a Jaque, tá ligado.
– E não deu certo, deu?
– Pois é… foram seis longas semanas… DR todo dia!
– Então. Tenta ficar com a Marcinha, ela é bacana! Cuida da garota.
– Não, já tá decidido! To afim duma outra aí, que conheci na boate lá em Copacabana.
– Você não é mole…
– Fazer o que né? Deus quis desse jeito!
– É sempre assim, Lê… Nem me surpreendo mais!
– Que foi, Mauro? Qual o grilo dessa vez?
– Você conhece uma buceta nova e depois fica nesse fogo no rabo!
– Respeito comigo, mano! Tá de zoa?
– Não… mas eu acho que você deveria investir mais nas suas relações.
– Tipo?
– Ah, sei lá! Tipo não se mudar pra casa delas logo de cara!
– Estereotipo demais, né?
– Tá passando um puta recibo de sapatão!
– Pô, achei que nem dava tanto na cara.
– Tá brincando? Tu é mais macho que eu, Leondra!
– Sifudê, Viadinho!
Nasce uma estrela caseira
A idéia surgiu quando Shirlem estava à beira de um colapso nervoso. Com seus três filhos encatarrados e o marido sentindo falta de ar, ela já havia tentado de tudo para desobstruir suas vias respiratórias – desde Vick Vaporub até reza braba – mas nada adiantava. Revirando sua bolsa em busca da carteira, a dona de casa esbarrou num Halls preto, fechadinho, e deu-se a epifania.
Numa panela de pressão, Shirlem colocou água para ferver e jogou 10 balas lá dentro, junto com um pacote de macarrão parafuso. A princípio, aquela mistura não parecia muito apetitosa, mas conforme foi engrossando, o vapor tomou conta da casa. Em poucos minutos, a mesa estava posta, e os quatro “pacientes” esperavam ansiosamente pela exótica sopa. Seria aquela a última alternativa, antes de partirem para um hospital.
O resultado foi melhor do que se esperava, e na manhã seguinte estavam todos recuperados. A notícia voou mais rápido que fofoca, e em poucos dias Shirlem estava no programa da Ana Maria Braga, explicando a receita caseira que a levou ao estrelato. O sucesso foi tanto, que as balas esgotaram em todo o país. O bairro de Cascadura ficou mundialmente famoso, e há quem diga que até a igreja já pensa em transforma-la em santa.
O poder corrompe
Luciano acordou com uma vontade inflamável de transgredir regras. Ao meio-dia, estava tenso, determinado a quebrar paradigmas. Sem escapatória, passou no mercado e comprou uma bandeja com quatro potes de flan. Comeu todos. Sozinho. Fez porque quis. Fez porque podia. E ainda matou uma vontade que nutria deste a primeira infância. O passo seguinte seria provar para sua mãe que ele era capaz de beber seis garrafinhas de Yakult sem morrer.
Sonsyanne
Sonsyanne descrevendo-se nas redes sociais: “Sou uma pessoa easygoing, down to earth e de gostos sofisticados. Aprecio good vibrations, indie rock e um bom vinho. Não suporto gente low-profile, sem identidade. Meu hype? Trendsetting! Me convide para sua festa e ela será um scandal! Sou VIP em qualquer lugar, Darling!”
Sonsyanne, na vida real, divide um conjugado com três amigas na Prado Júnior, onde dorme numa beliche de ferro. Ela tem espinhas no rosto, cabelo oleoso e usa o wi-fi aberto de um vizinho descuidado para fazer checkin em lugares bacanas, sem nunca ter posto o pé em qualquer um deles. Em algum momento da vida, ela não precisará mais passar a semana inteira economizando no almoço para pagar a entrada na balada. Os drinks, por enquanto, ela segue filando de quem dá confiança.
Tantas vezes eu soltei foguete…
O combinado era que os meninos levariam refrigerantes, enquanto as meninas ficariam encarregadas dos quitutes. A fogueira já estava queimando quando Julia chegou com o prato de cocadas brancas. Vestido de chita estampado em vermelho vivo, meia calça branca e chiquinhas em botão no cabelo cacheado, era a caipira mais bonita da rua. Ela cintilava, com seu sorriso tímido ( e ao mesmo tempo sapeca ). Foi eleita a noivinha da festa, e ganhou o direito de brincar três vezes seguidas na pescaria. Provou do quentão, dançou forró com seu primo e soltou estalinho com as crianças. Sentada num tronco, enquanto descansava as pernas, olhou para o céu e avistou tantos balões que chegou a ficar zonza. Estava feliz da vida, pois adorava festa da São João. Com Augusto, soltou rojão, foguete e buscapé. O cheiro de pólvora queimada, as bandeirinhas coloridas meneando com o vento, a canjica fervendo, o cheio da batata-doce sob a brasa… Tantas sensações, tantas lembranças da infância que se foi. Só faltava passar na barraca do beijo, pra completar a noite. Lá estava Pedro Augusto, seu muso desde os tempos de colegial. Quanta alegria! Quanta aflição até encostar seus lábios nos dele! Tanta era sua euforia, que pulou fogueira, dançou mais uma quadrilha e voltou pra casa sorrindo como criança inocente. Ah, que saudades do tempo em que se podia comer paçoca, milho cozido, pé-de-moleque e doce de abóbora sem culpa, sem medo de engordar. Só não dormiu tão bem porque quem fica muito perto do fogo acaba mijando na cama. Mas foi só virar o colchão que estava tudo resolvido.
Bonus track: Maria Bethânia “Foguete”
Frustradíssima
Quando se viu cercada pela família, Jordenny deu gritinhos de alegria. Era seu primeiro aniversário, e ela estava adorando toda aquela festa. Tinha cachorro-quente, algodão doce, pizza, pratinho do estrogonofe com bata palha e pasmem, nada de Dolly, só Coca-cola.
A rua Maragogi estava um furdunço, e até penetra tinha no quintal. Na hora dos parabéns, foi aquela confusão: “Não pode pegar o enfeite! Não pode pegar bala ainda! Não pode empurrar o coleguinha!” Muito grito, muito assobio, muita gente cantando ao mesmo tempo uma parte diferente da música.
Jordenny apagou a velinha e bateu palmas, sorrindo efusivamente. Quem não gostou nada foi Saruelly, sua irmã mais velha. A menina tinha quatro anos e achou um saco aquela bagunça. Não deu um sorriso sequer. Deixou todo mundo se refestelar, emburrada, e esperou. Quando todos foram para o lado de fora, estourar o balão de doces, ela voltou para mesa do bolo.
Arrumou como pôde o que sobrou, e cantou parabéns sozinha. Sem assobio, sem gritaria, sem Xuxa. Soprou a velinha já apagada, mas lá fundo tinha a esperança de que uma daquelas faíscas mágicas a acenderia novamente. Ledo engano. Nem fumaça saiu do pavio já negro e contorcido.
Ela suspirou e seus ombrinhos caíram.
Fabulosas Biografias Curtas [Fascículo 7 – Marcus]
Quando questionado sobre sua característica mais marcante, Marcus não titubeava: “eu sou macho e só mijo sentado”. Para ele, aquilo soava como algo transcendental, inimaginável entre os homens comuns. “Mulher alguma reclamará, jamais, que deixei pingar mijo no assento!” Sim… ele é um verdadeiro gentleman.
O batom vermelho
Larissa abriu sua caixinha de maquiagem e procurou pelo batom vermelho, aquele que deixava seus lábios mais carnudos. Ela tinha orgulho de ser a garota mais bonita da favela, e nem precisava de muito esforço para se manter como tal. Enquanto vestia a calça stretch que comprou na feirinha da Vila Cruzeiro, ela escutou o estrondo das primeiras batidas vindas do paredão de caixas acústicas. Um gostoso arrepio correu-lhe dos pés até as pontas dos cabelos. O Baile de Chatuba estava começando.
Pingou algumas gotas do seu perfume de alfazema na mão e depois espalhou pelo corpo. Olhou-se mais uma vez no espelho e espiou pela porta da frente, de onde podia ver o burburinho das pessoas que subiam para o baile. A beldade de pele negra bateu com vigor o portão de chapa enferrujada, e saiu sacudindo os cabelos besuntados com creme amaciante de jasmim selvagem.
Durante um bom tempo ela dançou sozinha, como se o baile fosse só seu. E sem duvida alguma, Larissa foi a sensação do baile. Rebolando até o chão, dando piruetas e jogando os cabelos, ela adubava a inveja das garotas menos favorecidas. De todos os homens que se aglomeraram à sua volta, nenhum era interessante o bastante, então ela continuou dançando, requebrando a cintura e sensualizando…
De repente, Larissa sentiu-se envolta por braços fortes e suados. Aquela respiração ofegante em sua nuca misturada ao cheiro de desodorante vagabundo… a fórmula secreta para umedecer sua calcinha. Ela nem sequer olhou para o rosto dele: entregou-se ao ritmo frenético e acabou numa viela escura. Deu um gole na latinha de Red Bull e sussurrou no ouvido do rapaz: – Me fode, porra!
…
Larissa abriu os olhos e viu o sol a pino. Estava deitada no meio do lixo, completamente nua. Colocou as mãos entre as pernas para tapar suas vergonhas, mas já era tarde… Várias crianças olhavam atônitas para a cena mais inusitada de suas vidinhas.
Quando uma garota aproximou-se perguntado se ela queria ajuda, Larissa balbuciou, ainda sob o efeito devastador daquela trepada:
– Meu batom tá borrado?