Pedagógica
Gumercino fez um desenho horripilante para apresentar na aula de artes, mas tinha uma pequena dúvida ortográfica. Batendo firme com os calcanhares, seguiu, até a sala de costura, onde inqueriu a mãe com aquele ar insuportável de criança superdotada:
– Mãe, como se escreve halloween?
A mãe tirou os olhos do tecido, franziu o cenho e deu uma bufada. Girando a agulha ao redor dos dedos, ela balançou a cabeça, piscou os olhos e, assentindo, respondeu:
– Dia das bruxas, querido.
Cosme, Damião, querosene e tupperware
Neste ano, Catiana preferiu não correr atrás de doce. Justo ela, que sempre amou essa coisa de Cosme e Damião, declinou todos os convites e rejeitou os saquinhos que lhe ofereceram pela rua. Como faria quinze anos na semana seguinte, a menina precisou fechar a boca para caber no vestido. Ela resistiu o quanto pôde, mas acabou sucumbindo à tentação: no meio da madrugada, pegou o pote do irmão e devorou tudo o que tinha dentro.
No dia da festa, como já era de se esperar, a jovem não coube no modelito. Logo, afundou-se em depressão e a única alternativa seria cancelar a festa. Seus pais bem que tentaram abafar o escândalo, mas a notícia espalhou-se por todos os lados. Logo começaram a chegar insultos pelo facebook, pelo twitter e até pelo whatsapp. Ao cair da noite, ouviram um spray e lá estava um xingamento dos mais baixos, em garrafais letras vermelhas, pegando todo o muro.
Houve quem jogasse ovos e até tomates podres em sua casa. Choveu pedra, cascalho e tijolo, até chegar a patrulhinha. O alvoroço persistiu e o povo clamava por uma declaração, já que a Hildinha ouviu dizer que encomendaram 5000 salgadinhos. Os pais de Catiana, trêmulos e assustados, foram escoltados até a calçada, onde falaram sobre o drama que acometera a vida da jovem. Por mais detalhistas e sinceras que fossem as desculpas, não houve acordo: o povo queria a boca livre.
Ao ouvir todo o falatório, por entre as frestas das cortinas de macramê, Catiana surtou. Ela saiu correndo rua abaixo, usando o vestido com saia de tule, gritando como uma puta sem religião, até esbarrar numa lata de querosene e, logo mais à frente, uma guimba de cigarro. Inflamou-se. Correu mais um pouco e tombou. Fedendo a churrasco esquecido na grelha e coberta de fuligem, não lhe restava muito tempo de vida.
A menina já estava mais pra lá do que pra cá, quando foi questionada por Dona Idalina sobre seu último desejo. Catiana balbuciou algumas palavras soltas e morreu. Dona Odete, que tinha cento e setenta quilos de pouca vergonha, fez questão de gritar: “A menina queria a festa assim mesmo! Manda abrir o salão, minha gente! É a festa da menina morta!”
Todos beberam e comeram , até arrotarem alho e coentro. Foi um verdadeiro festival de horrores, onde mulheres desesperadas entupiam suas tupperwares com doces e salgadinhos, homens carregavam engradados de Cintra nos ombros e crianças remelentas regurgitavam Coca-cola morna. No fim das contas, Catiana passou de protagonista a mera figurante. Uma pena… antes tivesse corrido mesmo corrido atrás de doce. Assim mataria a vontade, o vestido teria servido e este conto se resumiria a um mero parágrafo.
A paz que vem do escondidinho
Dagoberto já estava de saco cheio do casamento, mas não tinha coragem de pedir o divórcio. Ter que sair de casa, comprar nova mobília, pagar pensão: era muito trabalho. Se ao menos a esposa arrumasse um amante e sumisse do mapa… mas nem isso. Como não havia outro jeito, ele apelou.
Deise chegou do trabalho xingando até as plantas, e não queria ver o marido nem fantasiado de Murilo Benício. Surpresa: ela deparou-se com a mesa posta, velas acesas e Kenny G no cd player. Sem entender o porquê de tamanha palhaçada, acabou encontrando Dagoberto na cozinha, com uma travessa quentinha na mão.
Engolindo todo seu azedume, Deise sentou-se à mesa e ficou observando o marido servir o jantar. Sem trocarem mais do que cinco palavras, abriram um vinho e se serviram. Dagoberto estava sorridente, enquanto ela tentava descobrir do que era feito o escondidinho. Deise, enfim, retomou o diálogo: “Tem camarão nessa porra, seu filhadaputa?!”
Pois bem: a megera tinha alergia a camarões. Como ela não perguntou do que era feito, Dagoberto também não se atreveu a dizer. Ele ficou observando a esposa inchar, até perder os sentidos. Não demorou mais do cinco minutos para ela bater as botas. Se alguém perguntasse, ele diria que ela trouxe o escondidinho da rua.
Dagoberto, enfim, encontrou a paz num caderninho de culinária.
Microdrama da resignação
Palmerina morou por quase oitenta anos em Olaria, numa casinha antiga que pertencera aos seus avós. As paredes já estavam esfarelando, o forro do teto foi tomado por cupins e os tacos do piso dançavam entre suas frestas. Apesar da aparente decadência e do cheiro de mofo, foi ali que a cansada senhora criou seus filhos, recebeu os netos durante as férias e segurou a mão de Jorge, seu marido, até o último suspiro. Era, portanto, um lar feliz.
Num domingo qualquer, sem ter o que fazer, Palmerina telefonou para um desses programas televisivos e foi contemplada com um elegantíssimo apartamento no Leblon, com despesas e taxas inclusas, até o dia de bater as botas. Educadamente, ela declinou do prêmio, e se explicou: “Aqui em Olaria, eu já sei que o lixeiro passa na terça, na quinta e no sábado. Isso basta. Tem como trocar pela batedeira? É que eu faço bolo pra fora.”
Microdrama da infidelidade
Ao descobrir que estava sendo traída pelo marido, Jocasta não derramou uma lagrima sequer. Em vez disso, ela preparou uma sabonete esfoliaste para ele, com lascas de gilete e sementes de aroeira. Ela, que nunca que foi muito boa em dividir suas coisas, aprendeu que a vingança é um prato que se come salpicado com bastante pimenta.
O amor, segundo Rosália
“O contrário de amor não é ódio, é indiferença. Se você odeia, é porque ainda se importa. E se você ainda se importa, é porque você pode, sem nenhuma sombra de dúvida, voltar a amar”.
Maldita inspiração, que vinha de repente, nas horas mais ingratas… Só depois de postar estas lindas palavras em seu Twitter, é que Rosália percebeu ter sujado todo o teclado com gordura de frango-frito, pois esquecera de chupar os dedos. Sim, mesmo sendo um poço de sabedoria, ela achava um desperdício perder aquele restinho de sabor num guardanapo qualquer.
O Drama de Falsiane [ Epílogo ]
Evertom era casado, e pai de dois filhos pequenos. Só embarcou naquela aventura por achar que conseguiria uma trepada sem compromisso e poderia chegar em casa mais leve. Ao perceber que os rapazes do reboque já estavam ali, espiando tudo na surdina, saiu do carro sem se despedir, nem dizer tchau.
Amanda conseguiu que seu carro fosse rebocado até a Tijuca, mas amargou a vergonha de ser abandonada duas vezes numa mesma noite. Até tentou flertar com os rapazes do reboque, para ver se recuperava o prejuízo, mas voltou para casa sozinha e com o tesão acumulado. Teve que se contentar com os canais pornôs e com o miojo sabor galinha-caipira que encontrara no fundo do armário.
Regina dobrou o plantão e comeu a canjica que sobrara da festa junina. Não há nada de interessante em sua vida, além dos fatos supracitados.
Falsianeriu tanto da peça que pregara em Amanda, que acabou engolindo de mal jeito o chiclete. Entalou e ficou lá, sozinha em sua baia, estrebuchando até perder os sentidos. Em seu enterro, a mãe chorava muito, e pediu perdão por tê-la batizado com um nome tão feio. Dali, todos seguiram para o rodízio de pizza, e tudo teria acabado bem, se o garçom não tivesse informado previamente que não estavam trabalhando com cartão de crédito naquela semana…
O Drama de Falsiane [ Episódio Derradeiro ]
Falsiane, a atendente nervosinha da Belvedere Seguros, acabou atrapalhando a trepada de Amanda. Justo quando ela conseguira catar um homem com jeito de macho, digno de fazê-la aceitar até mesmo um namoro… Deveria ser a tal lei de Murphy, fazendo valer sua fama de maldita.
-Senhora Amanda, eu preciso falar em particular com a Senhora.
-Algo relativo ao reboque, eles já estão chegando?
-Na verdade, eu gostaria de falar sobre o rapaz que a Senhora levou para dentro do carro.
– Falsiane, como assim??
-Shhhhh… calaboca!
-Tudo bem, me desculpa. Como você sabe que tem alguém comigo aqui dentro?
-Então, dexocontá. Eu tenho um tumor no cérebro, do tamanho de uma macadâmia.
-E?
-Eu consigo ver o que nossos assegurados fazem enquanto aguardam o reboque. Não é tecnologia, é feitiçaria!
-Não fode! Vai dizer que você pode me descrever como que ele é? Surpreenda-me.
-Moreno, parrudo, cavanhaque de malandro, eu diria que é instrutor de educação física…
-Como assim?! Você deve ser atendente do inferno, só pode ser…
-Pense bem… Se fizer pirraça eu não vou estar liberando o reboque para a Senhora.
-Tudo bem. O que você quer de mim?
-Bom… você pode ser minha amiga. Passar a mão nos meus cabelos… Mas só no sentido de crescimento. Se fizer no sentido contrário, meus olhos pulam das órbitas e eu fico cega.
-Ah, tá bôua? Que doideira!
-É sério. Eu tenho olho de peixe e lábios leporinos. Fora esse dom de ver os clientes…
-Meus deus, Falsiane… estou até me sentindo culpada por ter brincado com seu nome.
– Não tem problema, senhora. Todos debocham e riem do meu drama.
– Ai, fiquei mal agora… Desculpa, desculpa, desculpa!
– Não se preocupe. O tumor não permite que eu tenha ressentimentos. Não tenho raiva da senhora.
– E o que posso fazer para te ajudar? Já tem um médico, dinheiro… alguma coisa?!
– Eu só tenho alguns dias de vida, senhora. É por isso que estou aqui, pagando meu karma.
– E a empresa está te dando algum apoio?
– Não, senhora. Eles me mantém acorrentada a uma girafa, e só posso comer lavagem.
-Isso é pegadinha, né? Só pode ser? Cadê os moços do reboque?
-Pois não. Eles já estão aí, só que ficaram com receio de interromper a Senhora o e o rapaz que está dentro do carro. Eles pediram para eu ligar, de modo que vocês possam se recompor e o serviço possa estar sendo feito. Posso ajuda-la em mais alguma coisa, Senhora?
– Filha da p…
– A Belvedere Seguros agradece a preferência. Boa noite, Senhora.
O Drama de Falsiane [ Episódio Intermediário ]
Amanda ligou novamente. O rapaz já estava começando a mostrar sinais de desconforto, pois a bateria do iphone estava para acabar. Do outro lado da linha, Falsiane atendeu mais uma vez. O enguiço do carro já não era mais um problema. Nem o frio que lhes renderia dor na garganta. O que fazia a língua de Amanda coçar e dar cambalhotas era aquele nome, tão exótico e inapropriado.
Justo ela, debochada que era, não valia o lubrificante que facilitava seu onanismo solitária de toda manhã. Amanda bem que tentou puxar assunto, fazer a moça descontrair, mas nada funcionou. Ela era do tipo séria, que não daria mole para bandido e nem esticaria a mão pra pobre. Amanda ficou ali de palhaçada, sem perceber que o bonitão foi embora sem dizer tchau.
Alheia ao dramalhão mexicano que se desenrolava concomitantemente, Falsiane acabou por transferir a ligação para uma outra atendente, bem mais simpática, chamada Regina. Muito competente e eficaz, a menina soube resolver a situação em apenas dois olhos piscados, informando que o serviço solicitado chegaria em cerca de quarenta minutos. Amanda acreditou nela, e então se deu conta de que fora largada.
A loirinha ainda tentou ir atrás do moço, mas passou um moreno sarado que a fez parar e refletir acerca da situação. Instintivamente, ela deu um grito bem desesperado e pediu para ele voltar – o moreno, não o branquelo com quem estivera há poucos minutos. Seu nome era Evertom, com M de minotauro. E sim, ele a desejava. Seu olhar levemente estrábico e o cheiro de suor a faziam sentir o colo do útero contorcendo.
Evertom estava voltando da academia, onde trabalhava como instrutor de musculação. Amanda explicou toda a situação, e ele compadeceu de seu sofrimento. Não demorou muito para ela aplicar antiqüíssimo truque da mão boba na perna do morenão. Tiro-e-queda. Ele disse que poderia ajudar, e que gostaria de tentar uma coisinha no carro.
Depois de abrir o capô, verificar a válvulas e cabos, Evertom afirmou que não poderia fazer muita coisa a não ser acompanha-la até a chegada do reboque. Como estava frio, Amanda sugeriu que entrassem no carro, já imaginando a cena de seus lábios indo de encontro aos dele. Foi exatamente neste instante que o telefone tocou…
– Oi, aqui é a Falsiane da Belevedere Seguros. Posso estar falando com você, senhora?
O Drama de Falsiane [ Episódio Primeiro ]
Após um cineminha com a pipoca, beijo na boca e mão boba, o carro de Amanda decidiu que não sairia do lugar. Justo na madrugada mais fria do ano, nas imediações do Méier, onde ninguém poderia ajuda-la naquela altura da madrugada. Ironicamente, ela estava sem casaco, bem longe de casa, e o seu acompanhante parecia mais interessado em jogar Angry Birds no iphone. A única alternativa seria ligar para a seguradora…
-Belvedere Seguros, Falsiane falando, senhora. Em que posso ajudar, senhora?
-Falsiane?
-Isso mesmo, senhora. Em que posso ajudar, senhora?
-Só um momento… [pausa para não rir ao telefone]
-Senhora, está tudo bem com a senhora?
-Sim, Falsiane. [risos descontrolados] Quer dizer, não está nada bem.
-Senhora, qual o nome da senhora?
-Meu nome é…
-Sim?
-Que tipo de mãe põe o nome da filha de Falsiane?
-Como, senhora? Não entendi a pergunta, poderia repeti-la, senhora?
-Tipassim, seu nome é Falsiane mesmo ou é sacanagem com a minha cara?
-Desculpe, senhora. Vou passa-lo para outra atendente.
-Mas Falsi, peraê…
[tu-tu-tu-tu…]