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A vida no paraíso dos artistas

maio 15, 2012

Conto originalmente publicado em 2006, noutro lugar…

O dia está lindo e calmo no paraíso, como sempre foi e sempre será. Lá não há favelas, nem trânsito, nem tempo e nem espaço. Tudo é delicadamente colorido, lembrando de longe os nossos tons pastéis, com um levefog ao fundo e várias almas vestidas de branco. Paulo Gracindo prepara as festividades de boas vindas para um velho amigo de profissão, que há pouco bateu as botas e está prestes a chegar ao céu.

Ariclê Perez, elegantemente sentada numa turmalina gigante, tenta explicar para Dina Sfatt os motivos que a levaram ao suicídio. A amiga, com seu eterno ar de superioridade, retruca pela milésima vez que ainda não era sua hora de deixar os palcos, dando mais uma tragada em seu cigarro mentolado com filtro de algodão egípcio. Muito franca, Dina reprova a atitude impensada que é o suicídio, comparando-a com as prostitutas mancas que viu na Somália enquanto gravava uma cena pitoresca de alguma novela das oito, que nunca foi exibida devido aos altos custos de produção.

Perto dali, Rômulo Arantes avista um homem rolando colina abaixo. Robusto e aventureiro, o rapaz corre ao auxílio daquele que, por muitos anos, foi um de seus maiores ídolos. Raul Cortez chega ao paraíso meio confuso, mas nem de longe parece inconformado com sua atual situação. Os dois sentam-se embaixo de uma pitangueira para falar sobre amenidades, enquanto o recém chegado se acostuma com a atmosfera rarefeita e úmida daquele paraíso imaculado. Descamisado e com suor escorrendo por todos os poros, Rômulo conta ao novo amigo que tem se dado muito bem por aquelas bandas. Em seguida, convida-o a conhecer as redondezas e rever velhos amigos.

Dina apaga seu cigarro na casca de um caramujo fluorescente, e anuncia a chegada de mais um colega ao paraíso dos artistas. Ariclê, que sempre teve sonhos eróticos onde era furiosamente currada por Raul, não se contém ao reencontra-lo perto do riacho azul, onde Yara Amaral boia nua, imóvel, coberta apenas por um xale de seda com estampa em motivos florais. O mais novo desencarnado abraça a atriz com carinho, perguntando se sua viagem ao paraíso havia sido turbulenta.

-Imagina, foi tão boa quanto qualquer novela do Maneco.

-Hmmm… Então receio informa-la que a nova não está lá grandes coisas.

-Ah, pros infernos. Aqui tem Sky, fico vendo Desperate Housewives, então.

Paulo Gracindo chega dando pulinhos de alegria, oferecendo ao amigo um drink feito com o néctar de frutas já extintas no planeta Terra. Ao seu lado, Ivon Cury bate palminhas, pouco ligando se alguém vai falar mal de seus novos trejeitos de sexualidade duvidosa. Ao se deparar com tanta liberdade, ele não fez a pudica e se jogou na libertinagem, participando das concorridíssimas surubas promovidas por Sandra Bréa, às beiras das salinas incomensuráveis.

Depois de cumprimentar todos os amigos daquela pitoresca vila celestial, Raul Cortez demonstra um certo desconforto ao ver Yara tão sozinha ao menear quase imperceptível daquele riacho. Ariclê diz que, segundo Elis Regina, ela sempre se manteve naquele estado catatônico, talvez pelo trauma de morrer afogada no Bateau Mouche em pleno reveillón.

-Se pelo menos tivesse sido no dia da Proclamação da República, a coitada conseguiria superar toda essa dor…

-Pois é, Ariclê. Mas tem gente aqui que fez a passagem de forma mais hedionda.

-Você quer dizer Daniella Perez, né, Raul?

-Essa serve. Por onde anda?

-Sumiu. Depois que se envolveu com Rômulo Arantes, nunca mais foi a mesma.

-Sério? Achei que fosse uma moça centrada, Ariclê.

-Era, até ver seu novo amor imortal comendo a Sandra Bréa de frango-assado.

-Uuuuuuuuugh…

-Pois é, uuuuugh.

-E a Elis, por que não está aqui a desfrutar de tanta beleza?

-Foi lá na Terra incorporar em Maria Rita. Só assim a moça consegue cantar bem.

-Ahhhh… então é por isso que eu reconhecia alguns gestos…

-Então. A coitada tem que descer toda vez que a maldita da Maria Rita marca um show.

-Ela não desiste nunca, né? Sempre acha um jeito de brilhar no palco.

-Isso e a vontade de dar um teço no pó, né, Raul? Ela disse que a filha herdou alguns hábitos nasais, mas eu não sou fofoqueira e não quero falar sobre assuntos familiares.

-Verdade, verdade. Agora me diga, quem você acha que sobe depois de mim?

-Essa é difícil, hein? Eu apostei com a Dona Zica que seria a Dercy, mas parece que a velha não sobe por nada desse mundo.

-Ah, talvez ela tenha lugar reservado no inferno. Brincadeira, viu, Ariclê?

-Raul, querido, o inferno é a Terra. Não te contaram isso?

-Faz sentido. Muito sentido.

-Enfim, Dona Zica acha que o Alexandre Frota sobe em breve. Quer dar um palpite?

-Ai, Ariclê… Sei lá, sabe? Vou chutar em alguém bem improvável… Regina Duarte.

-Ihhh… Essa ainda tem muito karma pra queimar lá embaixo.

-Tem sim. O cabelo dela está terrível, e a interpretação anda exagerada.

-Sempre foi, né? Hahahahahahah.

-Hohohohohohoh. Nós somos tão venenosos, Ariclê. Será que devíamos mesmo estar no céu?

-Ou é aqui ou é numa novela do SBT. Só existem essas opções.

-Não seja ridícula, criatura. Esqueceu-se que a Bandeirantes voltou a investir na dramaturgia?

-É mesmo, que gafe. Hahahahahahahaha. Que delícia conversar com você. Acho que até mijei um pouquinho aqui na calcinha.

Os dois seguem jogando conversa fora, alheios a tudo que se desenrola aqui na terra do enxofre e das secreções vaginais contaminadas, enquanto Yara Amaral continua inerte, Sandra Bréa brinca de pião-da-casa-própria com os Trapalhões, Rômulo Arantes tenta impedir que Dina Sfatt apedreje Roberto Marinho, que a atormenta com a idéia de que eles estão na ilha de Lost e Daniella Perez se veste de cisne para seduzir Lauro Corona, sem muito sucesso.

Mariana

maio 2, 2012

Mariana estava se sentindo desolada com aquela vidinha meia-boca que levava. Casa-trabalho-faculdade. Todo dia a mesma coisa. Seus dias já não eram mais tão coloridos, desde que o namorado mudou-se para Macaé. Estava tudo esmaecido, sem graça alguma. Ela precisava de um agito, esbarrar um monte de gente, sentir o cheiro de calor humano…

Quinze minutos depois, a moça estava fervendo numa danceteria do Centro da cidade. Suas amigas de faculdade sempre iam para lá, mas Mariana nunca estava com saco. Toda sexta-feira, qualquer mulher podia entrar gratuitamente e beber à vontade. Era exatamente o que ela precisava: ficar sozinha no meio da bagunça com uma taça de martini na mão, fazendo charme e torcendo para levar uma cantada.

Um jovem bem afeiçoado se aproximou de Mariana, lá pelas tantas, com um papo furado mais batido que bife em casa de pobre. Ela não curtia esse tipo de abordagem, mas a fase de abstinência total estava mudando um pouco de seus conceitos. A moça pensou e repensou. Já de pilequinho, calculou as probabilidades de seu namorado descobrir qualquer pequeno deslize e chegou a uma conclusão:

– Me leva pro motel agora, filho da puta. Quero ser enrabada a noite toda!

Seu pedido foi tomado como ordem. Em poucos minutos estavam subindo para uma suíte na rua Gomes Freire.  Mariana sequer perguntou o nome do rapaz, isso pouco importava. O que ela queria eram orgasmos múltiplos, queria ouvir palavrões, queria levar tapa na cara e ser chamada de puta.

Mariana conseguiu o que estava precisando. Foi penetrada pelo garanhão durante todo o tempo que passaram naquele quarto de motel, e no fim das contas, havia perdido a consciência de seus atos. Foi sodomizada por um homem que nunca mais veria novamente, e ainda assim se sentia realizada. Uma nova realidade se mostrava para ela, que há tempos ansiava por alguma emoção em sua vida.

Na semana seguinte ela terminou o namoro, saiu de casa e largou a faculdade. Sem destino, pegou carona com inúmeros caminhoneiros, e sem nenhuma vergonha na cara, retribuiu os favores com prolongadas transas nas boléias. Há quem diga que ela desapareceu na fronteira com o Paraquai, mas suas gargalhadas ainda podem ser ouvidas em um prostíbulo de Caxias do Sul, onde ela deixou escrito, em um dos reservados do banheiro feminino:

A vida é muito mais do que uma coleção de momentos. Faça valer cada segundo de sua insignificante existência, pois no inferno não existe Serviço de Atendimento ao Cliente!

Ronalda e Maurício

abril 29, 2012

Ronalda tinha uma gráfica. Maurício vendia hot-dogs. Ronalda saiu com fome do trabalho. Mauricio caprichou no sanduíche. Ronalda sorriu ao pagar. Mauricio agradeceu a preferência. Ronalda voltou no dia seguinte. Mauricio não cobrou o hot-dog. Ronalda o convidou para uma balada. Mauricio marcou para sexta-feira. Ronalda chegou meia hora adiantada. Mauricio apareceu quinze minutos atrasado. Ronalda tomou três drinks antes de criar coragem. Mauricio bebeu uma água tônica e a beijou. Ronalda o convidou para passar a noite. Mauricio pagou o táxi. Ronalda estava apaixonada. Mauricio não cabia dentro de si. Ronalda esperou dois meses para propor namoro. Mauricio levou dois segundos para aceitar. Ronalda comprou uma toalha nova. Mauricio deixou a escova de dentes no armário. Ronalda preferia assistir futebol aos domingos. Mauricio preferia jogar paciência no computador. Ronalda quis comprar um aquário. Mauricio tinha medo de peixes. Ronalda convidou pra morar junto. Mauricio se mudou na semana seguinte. Ronalda cuidava das finanças domésticas. Mauricio preparava o jantar. Ronalda se deitava mais cedo. Mauricio já chegava excitado na cama. Ronalda pedia para ir com cuidado. Mauricio deixava a parceiro se satisfazer primeiro. Ronalda acordava mais cedo. Mauricio deixava para sair um pouco mais tarde. Ronalda viajou a negócios. Mauricio ficou duas semanas sozinho. Ronalda se esqueceu de telefonar. Mauricio se sentiu deprimido. Ronalda chegou em casa e encontrou um bilhete. Mauricio havia partido. Ronalda tentou reatar o relacionamento. Mauricio não aceitou as desculpas. Ronalda deu de ombros e partiu para outra. Mauricio comprou uma revista pornô e se acabou na punheta.

Dia de Faxina

abril 13, 2012

Organizei todos os projetos, confirmei as reuniões do dia seguinte e, como já não tinha mais nada pendente,  saí mais cedo da empresa para almoçar com a Dona Graça, que trabalha lá em casa há um bom tempo, e praticamente faz parte da família. Sua comida é algo indescritível, e qualquer desculpa é válida para apreciá-la ainda quentinha, recém saída do fogo .

Cheguei com uma garrafinha de Coca-Cola, e antes que pudesse abrir a boca, Dona Graça  alertou: “Tá sabendo que isso dá câncer, né, Seu Felipe?”  Olhei para a garrafa, sorrindo,  e respondi que “Se desse mesmo, eu já teria morrido”.  Indignada, ela jogou o pano de prato no ombro e me desafiou: “Mata aos poucos! Principalmente se estiver sem gás.”

De fato, o finzinho da garrafa já não estava lá essas coisas, mas como não podia perder a piada, retornei o desafio: “Então vou beber bem rápido, que não sobra nada pra ficar sem gás!” Mais rápida que um puma, Dona Graça arrancou a garrafa de minha mão e correu para a cozinha, resmungando algo, bem baixinho. Eu caí na gargalhada, e desviei para deixar a mochila no sofá.

Já sentindo o aroma de bife acebolado se espalhando pela casa, voltei para a copa e me servi. Ao abrir a geladeira, só guaraná natural e limonada. Achei estranho, pois tinha certeza de ter deixado uma Coca gelando ontem à noite. Dona Graça continuava resmungando, então achei melhor comer antes de perguntar sobre o paradeiro do meu refrigerante.

Já estava na última garfada quando a vi passando em direção ao banheiro, com uma esponja e a garrafa de Coca-cola pela metade. Intrigado, dei um tempo e fui atrás daquela senhorinha abusada. Abri a porta do banheiro bem devagarinho, e vi que Dona Graça estava de quatro, esfregando o piso: “Quer que eu limpe o mármore com Sapóleo? Eu é que não vou passar duas horas esfregando essa porcaria!”

“Então tudo não passava de uma pirraça, por eu ter esquecido de comprar seus produtos de limpeza, Dona Graça?” Ela se levantou num pulo, e meio que gaguejando, tentou se explicar: “Nada disso! Só estou cuidando para que você não pegue uma doença. E todo mundo sabe que é melhor usar Coca-cola pra limpar os mármores! Fica tudo branquinho, e num piscar de olhos! ”

Não tinha como passar mais do dois minutos aborrecido com aquela figura, então encerrei o assunto. Dali em diante, passei a comprar Coca-cola para bebermos, e também para limpar os mármores.  Dona Graça só faltava pular de alegria, e até brindou, quando eu disse que “Se morrermos por conta disso, pelo menos foi uma vida gostosa, gelada e cheia de gás!”

Em um relacionamento confuso, com chantilly e senhas roubadas

março 30, 2012

Sidneuza estava com o corpo besuntado de chantilly quando o telefone apitou. O apartamento tinha dois quartos, mas um deles era usado como depósito de tranqueiras. Era uma notificação do Facebook, avisando sobre alguma atividade de seu namorado. Naquele dia, eles completavam três anos de namoro, e ela faria uma surpresinha apimentada. A cozinha tinha uma enorme bancada, onde Sidneuza se deitou para aplicar o chantilly. Ela era esperta, e o incluiu como melhor amigo: assim saberia em tempo real tudo o que ele faz na rede social. Moravam juntos, mesmo que a mãe dela não gostasse muito dessa relação sem a benção de um padre. Era uma alteração de status, dizendo que Woldiney mudou de “em um relacionamento sério com” para “solteiro”. O chantilly já estava começando a escorrer. Ela ficou furiosa. Dizem que não é seguro usar computadores públicos, caso você precise digitar alguma senha pessoal. Ela nem se deu o trabalho de telefonar. Existem pessoas que podem se aproveitar de uma distração para invadir sua conta e fazer algumas besteiras. Sidneuza queimou tudo que era dele, e o excluiu de seus contatos. Havia chantilly por toda a casa, uma conta hackeada e um rapaz apaixonado, que acabara de comprar um diamante para pedi-la em casamento.  O banheiro não era lá essas coisas, mas o chuveiro deixava a água bem quentinha. Woldiney deu de cara na porta trancada, e nunca soube o que a fez desistir de tudo. O hacker nem sempre muda sua senha. Naquela noite, o status de Sidneuza mudou. Ainda tem metade da lata de chantilly na geladeira, e alguns morangos frescos também.

Uma obra inacabada

março 9, 2012

Herculano passou dez anos escrevendo contos eróticos para a revista “Big Man Internacional”, que nunca foram publicados. Colecionador alucinado, não perdia uma edição que fosse, na vã esperança de ver seu nome estampado nas páginas ilustradas que a recheavam. Comprava, inclusive, os fascículos especiais, onde só se exibiam jovens senhoras,  devidamente depiladas.

Apesar da óbvia repulsa que seu material parecia causar nos redatores da revista, ele não desistia. Incontáveis noites em claro, e centenas de cadernos pautados foram gastos, mas ele enfim conseguiu… a equipe entrou em contato, solicitando a confirmação de seus dados. Herculano só faltou soltar fogos no terraço e estourar uma Sidra Cereser.

É de se estranhar que o conto selecionado tenha sido um dos menos inspirados, dentre toda sua obra pornográfica. Havia naqueles garranchos uma certa tristeza, com pinceladas de melancolia – ao passo que também havia muita perversão no modo em que o coito era descrito. Carnal, suado, cuspido. Herculano era um gênio no que diz respeito à putaria, cujo talento fora repetidamente triturado.

Sim, Herculano só enviava seus manuscritos. Não houve cópia, nem arquivo. Quando o exemplar de março chegou às bancas, o corpo teso daquele homem tarado foi enterrado no cemitério de Irajá. Sofreu uma parada cardíaca, coisa fulminante. Jamais viu a ilustração grotesca que escolheram para estampar seu derradeiro conto.

Fato é que a publicação foi um estouro! Um sucesso de vendas, justamente por conta daquela história escrita com caneta Bic preta. Herculano foi aclamado pelos leitores, e imortalizado por toda a crítica literária. E se pudessem ler tudo o que ele escrevera nos anos anteriores, enquanto tinha força para bater uma punheta para cada modelo da revista? Ah, se pudessem ter lido…

Uma salada carnavalesca

fevereiro 25, 2012
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Jandira pegou herpes de Valdemar, que se separou de Hercília, que é irmã de Adamastor. Este foi preso por mijar na rua, depois de ser encorajado por Selma, que é prima de Haroldo. Este é sobrinho de Joaquina, que sofreu um derrame após a empolgação na Bandinha de Ipanema. Quem a socorreu foi José Paulo, que é amante de André Rubens, cuja mãe se chama Dagmar. Esta última já foi casada três vezes, mas só amou de verdade o safado do Sérgio. Este, que trabalha como taxista para manter a família, já teve um affair com a mesma Jandira, que começou este conto com uma infecção moderada  e desde então nunca  foi vista mais gorda…

Toda a saga de Edileusa

fevereiro 10, 2012

Edileusa nasceu em Realengo, e lá se tornou mulher. Só que chegou um momento em que ela cansou de ser suburbana. Uma das metas para 2012 foi mudar de vida: dras-ti-ca-men-te. Juntou seus paninhos de bunda, alugou uma cama num quartinho de espelunca na Zona Sul e deu o pontapé inicial para a grande virada.

Trabalhava como caixa numa loja de departamentos, o que lhe rendia um salário mixuruca.  Almoçava uma marmita requentada de macarrão com salsichas, todo santo dia. Nas horas vagas, Edileusa passava roupas para fora, e assim foi juntando uma graninha. Pouco a pouco, a crioula foi se soltando e fez novas amizades.

Bate perna pra cá, bate perna pra lá. Um jeitinho no cabelo, manicure e a mágica acontece. Três meses de muito sufoco, e acabou trocando de emprego: agora venderia doces na bomboniere da boate, onde o salário era três vezes maior. Indicação de Charli, uma travesti de 57 anos que jurava ter seios naturais como os de Rogéria: “Tudo hormônio, bebê. Pode apertar!”.

Edileusa aprendeu a fumar, e foi apresentada aos restaurantes japoneses. Já não ouvia mais pagode, e aposentou definitivamente o henê. Comprou um vestidinho na Osklen, sentiu um enorme orgulho de si e bateu o martelo: “É essa a vida mesmo que eu quero!”

Com um visual totalmente repaginado, beirando o hipster e arranhando no que se chama de descolado, Edileusa trocou até de nome: agora queria ser chamada de Naomi. Aprendeu inglês com a mesma rapidez que esqueceu de Realengo. Rendeu-se aos encantos de um moreno jambo e desabafou: “Tô namorando o milionário árabe, Charli!”

A festa de despedida foi exclusiva para a turminha bacana, e a família sequer foi informada do enlace.  Sem olhar para trás, partiu rumo a Dubai, onde seria dona de uma pequena ilha, com shopping particular e cinco praias paradisíacas. Edileusa, finalmente, estava vivendo tudo  que tanto sonhara.

Não houve nenhuma reviravolta, tampouco desastre natural em sua história. Edileusa não teve filhos mutantes, nem explodiu num cruzamento. Ela continuou curtindo e ostentando toda aquela riqueza, porque nem todo mundo que deseja deixar de lado suas origens precisa, necessariamente, ser poupado de um final feliz.

Um email vazado

janeiro 20, 2012

( Conto escrito em maio de 2005, nunca antes publicado )

De: daniela.c@aol.com
Para: jpdiniz@veloxmail.com.br

Assunto: Agora, fudeu!

Mensagem:
Estou de saco cheio, João Paulo. Aquela palhaçada de casamento foi longe demais, sabe? Se eu queria mesmo era ficar com você, não deveria ter me sujeitado a ir para a cama com aquele palerma horroroso. Só ele mesmo para acreditar que eu sentia algum tesão. Toda vez que ele pedia para eu chupar aquela piquinha com fimose, eu sentia nojo de mim mesma. Na verdade, eu me sentia como uma prostituta. Mas sabe como é, tudo tem seu preço. Meu cachê aumentou em cerca de quinhentos por cento desde que começamos a namorar, eu não podia perder a chance de tornar esse índice ainda maior. Era tudo ou nada, eu tinha que me sujeitar a esse sacrifício.

No começo até que estava fácil, era só tomar uma droga qualquer e trepar com ele, que no dia seguinte eu nem me lembrava do que tínhamos feito. E como aquele corno treina mais do que fica em casa, era tranqüilo para mim. O foda é que, num descuido meu, o cara meteu sem camisinha e gozou dentro. Fiquei grávida, e sem saber o que pensar. Concordo que ter um filho de jogador de futebol e se divorciar logo depois é como ganhar na loteria, só que o prêmio viria em parcelas mensais, e ainda teria a pestinha me atrapalhando a vida. Não pensei duas vezes e liguei para minha amiga, aquela da Globo, e perguntei o que ela tinha tomado para exterminar com o verminho. Foi tiro e queda, no dia seguinte eu mijei sangue e estava tudo resolvido.

O foda é que o corno descobriu tudo, inclusive o nosso affair, e resolveu me botar para fora de casa. Acredita que ele teve a audácia de insinuar que o bebê era seu? Fiquei caladinha, só esperando ele acabar de dar escândalo para eu começar o meu. Nem falei muito, na verdade. Só destruí tudo que vi pela frente, e deixei aquele filho-da-puta sem nada. Já que eu não teria direito a carregar nada, me senti no direito de não deixar nada para aquele mongolóide.

Aí, estou eu aqui, linda e magra, assistindo minha novela sentada no sofá, quando vejo o meu nome sendo repetido a cada cinco segundos no Tv Fama. Os demônios já sabem de todos os detalhes da separação, das cláusulas do contrato pré-nupcial e do nosso namorico, em Veneza. Mas deixa estar, já chamei Ivete e Maria da Graça para virem aqui fazer um trabalho bem pesado praquela Luiza Mel. O Clô disse que pode dar uma ajudinha também, se for preciso.

Bom, eu cansei de digitar, meu querido. Tenho que pensar numa boa forma de despistar os repórteres para nos encontrarmos novamente. Estou precisando sentir um homem de verdade, pulsando dentro de mim. Só não quero saber de viajar de helicóptero, por que nesse assunto você é pé frio. Fique com Deus, um beijo.
Da sua eterna Dani.

Diário de uma modelo gulosa

janeiro 10, 2012

“Querido diário…

Eu pequei. Nada tão grave quanto matar alguém, nem tão simples quanto me masturbar pensando naquele novo padre, moreno e barbudo, que veio aqui para nossa paróquia na semana passada. Cometi o pecado da gula, e devorei uma torta de chocolate meio amargo, sozinha. Engoli inteira, como se aquilo fosse água. Eu nem estava com fome, nem estava ansiosa. Foi maldição do capeta, mesmo.
Acho que hoje vou me ajoelhar no milho e tentar me redimir de tanta podridão. Nem quando eu dava o cu para meu tio Everaldo eu me sentia tão suja. Quer dizer, exceto nos dias em que eu acabava cagando no pau dele. Hoje eu sei que isso é um incidente inevitável, mas na época achava que era culpa minha. Aliás, não há ninguém que de o cu mais gostoso do que eu, posso garantir!
Mas já estou fugindo do assunto, como de costume. Sou uma vaca, mesmo. Deveria nascer de novo como verme de estrume, ou então galinha preta. Eu ficaria bem na encruzilhada, com a tigela de barro cheia de farofa.
Talvez eu deva mesmo sofrer. Paguei uma verdadeira fortuna em cirurgias plásticas, personal-trainners, nutricionistas… Tudo isso para que? Acabei comendo uma maldita torta, inteirinha, sem pestanejar. Acho melhor sumir desse mundo, viver sozinha numa ilha deserta, ou então… não sei… Acho que deveria entrar para o circo. Será que eles ainda estão precisando de elefantas, hoje em dia?
Bom, por hoje é só. Preciso ir até a agência, pegar o endereço de onde vou fazer as fotos para a nova campanha da Ellus. Meu agente disse que eu sou a protagonista do ensaio, mas depois de tudo que fiz… sei lá, sabe…”