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Enquanto isso, em Madureira…

outubro 20, 2011

Leonídea andava pelas ruas de Madureira, debaixo daquele sol de 42°C, protegida pela sombrinha florida que comprara na subida do viaduto por cinco dinheiros. Estava à procura das miudezas multicoloridas com as quais produzia suas bijus, quando avistou na porta das Lojas Americanas uma figura de seu passado.

– Everaldo, é você?

– Leonídia?!

– Não acredito!! Há quantos séculos que… Você tá bem?

– Estou ótimo! Nossa, você não mudou nada!

– Ah, para com isso… Não nos vemos desde… sei lá!

– Desde a gravação do último capítulo de Fera Radical. Novembro de 1988.

– Não acredito! Isso tudo?! Como você lembra?

– Bom, você sabe… foi meu último trabalho como figurante.

– Ai, Everaldo. Não lembro mesmo! Porque nos distanciamos?

– Bom, você estava com o Thales Pan Chacon, e eu…

– Gente, o Thales! Ele era um fofo.

– Morreu, né?

– Não sei. Perdi contato com ele…

– Morreu. Faz um bom tempo, Leonídea.

– Que pena… Mas diga lá, casou?

– Na verdade, não. Passei esse tempo todo pulando de galho em galho.

– Seu galinha! Aposto que deixou vários corações quebrados…

– Leonídea, eu te amava. Quer dizer, eu ainda te amo! Cara, que isso…

– Everaldo, como assim?

-É isso! Te amo! Quero você!

– Mas… Já passou tanto tempo? Como pode?

– Não sei. Só quero ter a chance de te conhecer novamente. Pode ser?

– Everaldo, eu sou casada. Tenho três filhos e uma casa pra pagar.

– Larga tudo. Vem comigo.

-Não dá… Você não se declarou naquela época, e eu…

– Vem comigo? Vamos sumir e recuperar o tempo perdido?

– Ai, Everaldo…

– Quer que eu abra a camisa? Lembro muito bem de você fitando meu peito peludo.

– Foda-se tudo! Quer saber, Everaldo? Vamos ali pro Omaha Hotel…

– Agora mesmo. Vou te fazer sentir como a Malu Mader!

– Me faz gozar como uma cachorra, que já tá de bom tamanho!

Leonídea largou a família na semana seguinte, sem dar explicações, e foi morar em Realengo com Everaldo. Agora com os cabelos curtos e tingidos de castanho, ela tem uma enorme tatuagem fechando as costas e  recruta jovens para fazer figuração em novelas e seriados. Enquanto isso, ele fica em casa, ouvindo a trilha internacional da novela que os  juntou novamente, vinte e três anos depois…

Bebês em Sachês

outubro 10, 2011

Quando Rosane passou pela banca de jornal, quase teve um troço. Finalmente encontrara o disputadíssimo primeiro fascículo de “Bebês em sachês”. A coitada já havia rodado por Madureira, Quintino e Cascadura, mas precisou caminhar até Bento Ribeiro para, finalmente, garantir a perninha direita do neném.

Para quem não podia engravidar, aquela novidade caiu do céu como uma bênção. O preço era mais salgado que bacalhau, mas o sonho de ter seu próprio filho, por si só, valia qualquer sacrifício. Já na primeira edição, ela aprendeu a identificar a diferença entre o choro de fome e o choro de birra.

Semana após semana, ela comprou religiosamente todos os fascículos. Cada nova parte do bebê deveria ser reservada, até que todos os sachês estivessem disponíveis. Por conta de uma apendicite perfurada, Rosane acabou perdendo o sachê que continha o bracinho esquerdo, que acabou esgotando em todo o Rio de Janeiro.

Foram dezenas de ligações para a editora, súplicas em fóruns do Facebook, campanhas em correntes de email e até macumba. Rosane ficou sem o bracinho, mas não desistiu do bebê: comprou até a última semana, e resolveu arriscar. “Afinal, tanta gente consegue viver com bem menos”, filosofou no Twitter.

Daí, o grande dia havia chegado. A mistura de todo aquele pozinho seria imersa numa bacia de alumínio, com água morna e três gotas de sangue da futura mamãe… e mais quatro do papai? Como aquele era seu projeto solo, Rosane imaginou que aquilo também não faria falta e foi adiante.

Depois de seguir (quase) todas as etapas descritas no último fascículo, Rosane cobriu a bacia com uma toalha quente e colocou um cd da Alcione pra tocar. Estava ansiosa para ver a carinha de seu futuro rebento, mas deveria aguardar três horas até o “parto”. Para aguentar isso tudo, tinha um pack de cerveja Polar mofando no refrigerador.

Rosane acabou pegando no sono, e só acordou no dia seguinte. Afoita, correu até a bacia, para finalmente ter nos braços o seu tão sonhado bebê. Com lágrimas nos olhos, ela começou a levantar cuidadosamente a toalha. Suas mãos tremiam de nervoso, mas lá estava ela… Imperfeita, porém amada.

Aquela bolinha de carne, disforme e inerte, acompanhou Rosane até seus últimos dias. Obediente como uma pedra, nunca fizera pirraça. Uma pena que a mãe, acometida pela demência, a tenha confundido com uma peça de alcatra. Foi um domingo delicioso ao lado da churrasqueira, com suas amigas de jogatina.

Rock in Fossa: o festival segundo Tacilene

outubro 2, 2011

Eu comprei os ingressos para todos os dias do Rock in Rio na primeira pré-venda, quando ninguém sabia sequer quem iria tocar no festival.  Acompanhei  a escalação de cada banda com o furor uterino de uma pervertida, e chorei  ao saber que os Red Hot Chili Peppers fechariam a noite de sábado. Enfrentei o sol de mil desertos para retirar meus convites, e até pedi demissão, para ter como acompanhar tudo sem me preocupar em justificar as faltas. Um semana antes, já comecei a deixar tudo organizado: mochilas, roupas e listas de compras para cada dia. Seria meu primeiro festival de rock, se eu não tivesse essa mania horrorosa de tomar conta da vida de meus ex-namorados pelo Facebook.  Acabei descobrindo o Robinho também estaria lá todos os dias, e fiquei em casa só para ter como acompanhar suas postagens. Não é que eu estava certa? Ele conheceu uma loirinha de olhos azuis e já me superou. Um absurdo, gente! Um absurdo!

Groselha e Jubarte ( ou um amor que não tem nome )

setembro 24, 2011

Groselha e Jubarte tinham uma relação puramente sexual. Sem amor, sem paixão, sem carinho e sem amizade. Só se encontravam para trepar, e aquele acordo fora sacramentado sobre o lençol ressecado e poido da cama do motel Alphaville, próximo da estação de Ramos.

Num desses encontros, depois de ter esgarçado todas as suas mucosas reprodutivas, Groselha sentiu aquela vontade louca de ser possuída pelo orifício conjugal do olho cego. O problema é que eles já estavam sem lubrificante, e o cuspe, por si só, não seria o bastante.

Daí o varão foi até a mesinha da copa procurar algo que pudesse ajudar naquele momento de tensão. Encontrou um sache de manteiga, e depois de pensar por dois milésimos de segundo, concluiu que mal não poderia fazer.

Com o vai-e-vem intenso e a fricção constante, foi subindo um cheiro de bife acebolado, que o deixou enlouquecido. Comeu-a com a fome de mil nômades, e caiu desmaiado. Acordou com o toque do telefone, avisando sobre o final do período.

Qual não foi sua surpresa de Jubarte, ao descobrir que, realmente, havia comido a amante. Ao pé da letra mesmo, como um canibal. Um frio correu pela sua espinha, e ele soltou um arroto azedo. Saiu do quarto de fininho e deu de ombros. Pelo menos não teria que gastar dinheiro com almoço.

Por cima do muro

setembro 20, 2011

As folhas caídas da mangueira forrando o quintal. O ninho de bem-te-vis nas travessas do telheiro. O cheiro de goiaba vermelha madura. E então o barulho da sandália rasteira sobre o chão de terra batida. As pedrinhas estalavam com o atrito da sola, enquanto Elisabete balançava o corpo para estender as roupas no varal de arame. Na vitrola, um disco de Marisa Monte, o único que tinha, dava o tom daquela tarde alaranjada em Irajá.

Zélia havia posto água para ferver, enquanto aguardava Everaldo voltar com o pão. Entre os refrões de “Não é fácil”, brotou do bule o cheiro de café. A dona de casa ficou debruçada sobre o muro, pitando um cigarro, para ouvir melhor a música. Eram vizinhas, e compartilhavam sensações. Elisabete abriu-lhe um sorriso e, depois de colocar a última calcinha para secar, permitiu-se um dedo de prosa.

Falaram mal da vizinhança inteira, lamentaram a alta no preço do tomate, trocaram receitas, fofocaram mais um pouco e depois pediram perdão a Deus pelas indiscrições. Elisabete pediu licença para rezar o terço, pois já passava das seis, e Zélia foi abrir o portão para o marido. Uma serviu arroz, com feijão, bife e batatas fritas no jantar. A outra preparou um Miojo de galinha caipira.

Naquela noite, enquanto tomava banho, Zélia ficou pensando na amizade que acabara de nascer, e fez um roteiro mental do que usaria como pretexto, na tarde do dia seguinte, para puxar assunto com Elisabete. Esta, já deitada, pensava numa canção envolvente para chamar a atenção da vizinha, por quem se apaixonara no momento em que viu aquele belo par de mamilos por baixo da blusinha estampada de viscose.

A cara do pai

setembro 3, 2011

Eucrísia Maria embarrigou de um pedreiro cigano, cujo nome ninguém sabe. Ele fez uma gambiarra em seu telhado, e ela pagou com uma noite de sexo inconsequente, regada a cachaça, cerveja e azeite de oliva. Tudo culpa dos pelinhos crespos, que escapavam da camisa do rapaz e a tiraram do sério. Nove meses depois, a rapariga trouxe ao mundo um belo tijolo maciço, pesando quase três quilos. “É a cara do pai”, repetia enfeitiçada, enquanto as enfermeiras e o obstetra pensavam numa forma plausível de explicar mais um absurdo causo suburbano.

Mas tá um calor, né?

agosto 30, 2011

Pleno inverno. O calor estava ensurdecedor, lá pras bandas de Bangu. Tinha fila pra entrar no shopping, só pra poder tirar uma casquinha do ar-condicionado. Quem há pouco reclamava do frio, agora reclama do sol que frita ovos nos capôs dos carros. Jéssica, que era malandra e sabia dar nó até em rabo de gato, não pensou duas vezes: colocou um OB no congelador e, duas horas depois, sentiu o alívio refrescante que precisava para encarar mais um dia de trabalho, no posto de gasolina à beira da Avenida Brasil.

Elogios

agosto 28, 2011

Como você é bonita…

Oh, que nada… Você devia ver minhas celulites.

Como você é radiante…

Oh, que nada… Você devia ver minhas estrias.

Como você é elegante…

Oh, que nada… Você devia ver minhas cicatrizes.

Como você é fina…

Oh, que nada… Você devia ver minhas frieiras.

Como você é inteligente…

Oh, que nada… Você devia ver minhas verrugas genitais.

Como você é adorável…

Oh, que nada… Você devia ver minhas hemorróidas.

Como você é fantástica…

Oh, que nada… Você devia ver minhas tripas cheias de merda.

Como você é franca…

Oh, que nada… Você devia ver minhas tetas caídas.

Como você é ridícula…

Obrigada, querido. Eu também te amo. Vamos pedir a conta?

Um, dois… três?

agosto 26, 2011

No último sábado, Fernanda e Renata resolveram causar. Vestiram suas roupas hype do tempo da vovó, passaram sebo nos cabelos e seguiram para a Lapa. Aproveitaram que o Dj Marlboro estava animando o povo marrom com seu funk de raiz e se atracaram, ali mesmo, no meio do público.

Beijo na boca, mão na barata. Beijo no peito, mão na bunda. Beijo na nuca, mão nas tetas. O povo acrílico olhava para o espetáculo explícito de lesbianismo, achando que aquilo só existia na novela. Beijo na boca, mão na barata. Beijo no peito, mão na bunda. Beijo na nuca, mão nas tetas.

Alheio a tudo isso, um amigo do casal, teoricamente acostumado com relações homoeróticas, esfregava freneticamente os cabelos das meninas, fazendo mais volume em seus dreadlocks ensebados. Lêndeas e piolhos felizes saltitavam de uma cabeça para a outra, enquanto ele tentava, sem sucesso, fazer parte daqueles beijos.

Cuidado com elas…

agosto 24, 2011

Raquel entrou em casa que nem um foguete rumo a Saturno, nem foi cumprimentar as tias que acabavam de chegar de Paquetá. Subiu as escadas tropeçando nos degraus, o que deixou sua mãe com uma pulga atrás da orelha. Normalmente tão dócil e comunicativa, a menina nunca havia se comportado de modo tão estranho.

Será que a menina está metida com tóxico?”, disse uma das tias mais venonosas. Espantada, a mãe pediu licença e levantou-se, subindo elegantemente as escadas, atrás da filha. Parou no patamar para dar um suspiro, limpando com a mão o suor que já lhe escorria pela testa. Seu rosto exibia um semblante de preocupação, igual a qualquer outra mãe.

Trancada no seu quarto, Raquel já esperava pela investida de sua mãe, irriquieta. Precisava pensar em uma boa desculpa para ter entrado tão abruptamente em casa, sem soar ridícula nem infantil. Arriou a calcinha preta e sentou-se no vaso sanitário, como sempre acontecia em momentos de ansiedade.

Menina, abra essa porta agora. Estou mandando, não estou pedindo!!!“, exclamou a mãe, já com as bochechas avermelhadas. “Suas tias vieram de longe para nos visitar e você faz esse papelão, Raquel? Saia agora e me mostre essa cabeça oca. Está me ouvindo, Raquel?

Encurralada, a menina – que nem era tão novinha assim – não teve outra escolha, a não ser mentir. “Tô de chico, mãe. A calcinha tá ensopada de sangue, sorte que era preta.” A mãe ficou aliviada, afinal. Qual mulher nunca havia ficado menstruada no caminha de volta para casa, sem um tampão para segurar a enxurrada?

Raquel ficou aliviada ao ouvir a mãe descendo as escadas, e despedindo-se das tias curiosas. Respirou fundo e soltou um sopro de alívio. Tirou cuidadosamente a camiseta preta e surrada que vestia, colocando-se entre dois grandes espelhos. Com suavidade, foi girando o corpo de modo que pudesse ver suas costas.

Death Is The Standard Breach For A Complex Prize*

Seus olhos encheram-se de lágrimas ao ver aquelas letras góticas, tatuadas com tinta preta em seu corpo alvo e franzino. Era a primeira tatuagem que ela conseguia fazer, com o dinheiro juntado durante meses a fio. Toda orgulhosa, pegou sua digicam e tirou várias fotos, publicando logo em seguida no seu blog.

Na mesma noite, Raquel ligou para Robissom, seu namorado, pedindo que ele fosse até sua casa para ver a novidade. O rapaz era um humilde ajudante de pedreiro, que mal sabia escrever o próprio nome. A mãe da menina não conseguia entender como duas pessoas tão distintas poderiam se apaixonar daquele jeito. E foi ela quem atendeu à porta, deixando-o subir até o quarto da filha.

Raquel nem teve tempo de sorrir, e Robissom já foi esmurrando sua cara. “Mulé minha não é vagabunda, não. Tatuági é coisa de piranha, vai tomá no cu!!!” Horrorizada, a mãe subiu as escadas munida de um rodo. Quando chegou no quarto, encontrou a filha se debatendo em espasmo, toda ensangüentada. Robissom, apavorado, tentou se justificar: “Ela pediu, Dona Geni. Ela pediu por isso! Olhuquê ela fez nas costa!

Muito nervosa, a mãe virou o corpo da filha, para saber o que havia de tão terrível ali. Ficou mais branca que louça sanitária quando viu aquela violação no corpo da filha, e levantou-se, completamente muda. Suas mãos tremiam, e seus olhos vagarosamente encontraram os de Robisson. Num movimento brusco e inesperado, Dona Geni perfurou a têmpora do rapaz com o rodo, derrubando-o morto no carpete.

Mãe e filha se uniram para dar um sumiço no corpo do rapaz, que foi enterrado no jardim dos fundos. Dois dias depois, Raquel [desdentada e mancando] levou Dona Geni até o estúdio do tatuador. Em menos de uma hora, a pacata senhora exibia as costas desnudas para a filha, onde se lia em letras garrafais:

Me Chama De Nazaré Tedesco

*Trecho extraído da canção “Hexagram”, dos Deftones.