De Cachambi para o mundo
Antes de qualquer coisa, leia o conto “Do ralo pra panela”, publicado originalmente em agosto de 2009.
Pouco mais de dois anos se passaram, e a casa com o muro de tijolinhos no bairro do Cachambi ficou conhecida por todo o Brasil. As lagostas continuavam brotando ininterruptamente pelo ralo da área de serviço, e Dona Eneida, agora famosa, foi entrevistada pelo Fantástico. Logo, ensinou receitas no programa de Ana Maria Braga, participou de debates com Sonia Abrão, foi convidada para a Dança dos Famosos e até fez ponta num vídeo de Luan Santana.
Fanáticos religiosos disputavam a calçada com jornalistas e biólogos, que imploravam pela chance de investigar a causa daquele estranho fenômeno. Com os negócios a todo vapor, sua família achou melhor não mais vender as quentinhas para a comunidade, e então passaram a fornecer lagostas somente para criadouros e restaurantes finos da zona sul. Depois que o dinheiro lhe subiu à cabeça, Dona Eneida ficou besta e resolveu se mudar para um triplex, deixando sua empregada como responsável pela coleta dos crustáceos.
A vizinhança, acostumada com a popularização da iguaria, não recebeu muito bem aquela notícia. Houve até um princípio de tumulto, quando a família deixava o local sob escolta da polícia militar. É que a lagosta à milanesa com creme de trufas, prato mais disputado do menu, costumava ser oferecida justamente naquele dia. Alheia a tudo isso, Dona Eneida, já circulando pelas páginas da alta sociedade do Leblon, ostentava enormes brincos de diamantes e só queria viver de caviar e Veuve Clicquot Ponsardin.
Naquela quinta-feira, o telefone tocou bem cedo. Era Rosália, informando que nenhuma lagosta havia aparecido desde a noite anterior. Sem muito alarde, Dona Eneida mandou que sossegassem por um tempo, já que as bichas deveriam estar tendo algum revés para chegar até o ralo. Passaram-se quinze dias, e a situação permanecia inalterada. O milagre desaparecera de repente, tal qual foi sua chegada. Quebrou-se todo o quintal e ninguém conseguiu explicar para onde elas foram, nem de onde haviam surgido.
Deprimida e endividada, Dona Eneida precisou voltar para o Cachambi, onde não foi recebida com sorrisos, nem boas vindas. Todos os vizinhos viraram-lhe as caras, e só alguns poucos beatos ajoelharam-se aos seus pés, talvez por não saberem sobre o desaparecimento das lagostas divinas. Do ralo, na área de serviço, agora só escapava um cheiro azedo de esgoto e uma horda de baratas cascudas. Mais nada.
Dona Eneida, uma vez mais, não tinha a menor idéia do que preparar para o almoço, já que nos últimos tempos havia se habituado com pratos requintados e champagne. Seu marido, completamente transtornado, cavava dia e noite atrás das lagostas, enquanto o caçula resolvera ir embora, envergonhado por ser pobre outra vez. Macarronada? Omelete? Bife com batata-frita? Purê de berinjela? Salpicão? A outrora madame voltou a ser dona de casa, e mais do que nunca, suburbana.
Wonderson e Jomélia
Wonderson até que era um cara bem paciente. Um ano depois de se casar com Jomélia, ele resolveu reclamar de seus dotes culinários: “Eu não sinto o gosto de amor nesse seu arroz. Nem no feijão, que fede a meia suada. Você nunca conseguiu fazer um jantar saboroso como os que só minha mãe sabe preparar. Desculpe, meu amor, mas eu precisava desabafar! Tava entalado na garganta, junto com as espinhas do peixe de domingo!”
Com lágrimas nos olhos, a esposa pegou Wonderson pelo braço e o levou até a porta. Suas mãos trêmulas destrancaram-na e, balbuciando bem baixinho, Jomélia também desabafou: “Eu não sinto o cheiro de amor em você. Nem na tua virilha, que fede a queijo mofado. Você nunca conseguiu me fazer gozar, como o dono da quitanda. Desculpe, rapaz, mas eu precisava desabafar! Tava entalado na garganta, bem no comecinho, onde teu pau nunca conseguiu alcançar!”
Por um novo sentido de vida
Crissiane não sabia ler, nem escrever. Cresceu burra, pois seus pais eram ignorantes. Nunca foi ao dentista, e já lhe restavam poucos dentes na boca, ainda que apodrecidos. Andava capengando da perna esquerda, e seus olhos estavam sempre cheios de remelas. Nunca namorou, nem sequer deu um beijo na boca de um rapaz. Só assistia as novelas da tv Record, e freqüentava fervorosamente a Igreja Universal do Reino de Deus. O pouco dinheiro que ganhava lavando o chão da igreja era entregue no dízimo: “Com muito orgulho, sim senhor”.
Numa noite de sábado, Crissiane saiu apressada para o culto na Catedral da Fé, pegou o ônibus errado e acabou parando na Lapa. Saltou da condução muito cabreira, estranhando toda aquela muvuca em meio aos prédios antigos e canteiros gramados. Assustada com toda aquela gente louca, que bebia e se esfregava numa libidinagem sem tamanho, ela saiu correndo com as mãos no ouvido, clamando pela salvação divina. Sem perceber um buraco na calçada, caiu de boca nas pedras portuguesas e desmaiou.
Amparada por um travesti, que comia seu hot-dog na esquina da rua do Lavradio, Crissiane começou a chorar compulsivamente. Sua nova amiga deu-lhe um gole de Fanta Laranja e a levou para um pequeno prostíbulo na rua do Riachuelo, onde poderia se recompor do baque. De banho tomado e com o sangue estancado, Crissiane adormeceu numa cama humilde, cedida por dona Eronilda, a cafetina. A crente sonhou que estava voando, cada vez mais alto, e então deu um mergulho de cabeça no mar. Acordou molhadinha, de tanto que mijou na cama.
O fim de semana passou, e ninguém mais viu Crissiane nos cultos. Seus pais entraram em desespero, com uma semana de sumiço. A moça foi dada como morta depois de um mês, já que não deu as caras na comunidade onde morava. Agora atendendo pelo nome de Karynne, ela trabalhava como faxineira do puteiro, limpando porra de lençóis, catando camisinhas do chão e ajudando as travestis a se produzirem para a noitada. A moça nunca foi tão feliz, e se deus quiser, na próxima vida ela voltará homem, só para também poder se vestir de mulher e comer o cu de geral.
Coisas da vida após a vida
Adelaide conheceu bem o que é o preconceito. Depois de morrer asfixiada pelo marido, passou três dias enterrada e voltou à vida como zumbi. No começo foi complicado: ela não se lembrava de muitas coisas e ficou perambulando pelas ruas até se ser reconhecida por uma vizinha. Houve muita resistência por parte de sua família em aceita-la de volta, já que fedia a carniça e soltava pedacinhos de si mesma por onde quer que fosse.
Com o tempo, porém, a morta-viva foi voltando à rotina. Divorciou-se de Olavo depois de coloca-lo na cadeia, retomou os estudos, fez as unhas e até adotou um gatinho preto. Seus filhos ainda sentiam um certo nojinho de andar ao seu lado, já que volta e meia um dos olhos cismava em saltar da órbita. A ex-defunta até que achava graça, e começou a fazer mais vezes esse truque, só para pagar de descolada.
Certa noite, Adelaide resolveu pegar um cineminha. Comprou um balde de pipoca, refrigerante light e drops de anis. Estava se acomodando em sua poltrona quando uma gorda reclamou do mau cheiro. Com receio de que as lágrimas corroessem ainda mais o seu rosto, Adelaide saiu de fininho e voltou para casa. Apesar de estar recobrando as memórias e apresentar um certo cuidado com o visual, a zumbi ainda temia a rejeição.
Passava tantas noites em claro que não demorou muito para se viciar em salas de bate-papo na internet. A conversa fluía muito bem, até Adelaide confessar que já havia passado desta para uma melhor. Foram tantas decepções, que resolveu entrar num fórum de taras bizarras. Surpreendentemente, conheceu um necrofilo que morava no mesmo quarteirão e ambos apaixonaram-se perdidamente depois do segundo encontro.
Daí foram domingos inteiros debaixo dos edredons, transas de outro mundo, horas e horas de telefonemas melosos e intermináveis e-mails com poesias apaixonadas. O necrófilo foi o primeira a dizer “eu te amo”, e Adelaide só ficou chateada por não ter mais como morrer de amores por ele, por motivos óbvios. Ambos viveram felizes até o dia em que ela, distraída, foi colocar um bolo no forno e acabou cremada. Coisas da vida após a vida.
Sobre amores impossíveis
#1
Laura e Joseph não dormiam mais na mesma cama, mas precisavam manter as aparências. Todo domingo, como num ritual automático, acordavam no mesmo horário e levavam as crianças para a primeira missa da Igreja da Penha. Ao final, sorriam para todos e fingiam ser felizes, mesmo sabendo que nunca mais trocariam carinhos ou palavras doces. Passariam a vida fazendo de conta que era tudo perfeito, e assim foi.
#2
Enquanto o mundo explodia lá fora, Noel e Benjamin rolavam pela cama, rindo de suas coisinhas mais bobas. O lençol nem cobria mais o colchão, de tanto que se engalfinhavam, de um lado para o outro. Seus beijos apaixonados denunciavam uma paixão quase lúdica, mesmo que os dois precisassem voltar para suas esposas depois de terminado o período do motel.
#3
Silvia e Elaine eram amigas desde que nasceram, sendo criadas como irmãs. Cresceram juntas, e sabiam guardar seus próprios segredos. Numa noite chuvosa de sábado, Elaine beijou sua amiga e foi expulsa do apartamento aos socos e chutes. Ficaram seis meses sem se falar, e só reataram a amizade com a condição de enterrar o assunto sob uma fina camada de açúcar mascavo.
#4
Rogéria e Renato começaram a namorar muito cedo, assim como veio a gravidez de seu primeiro filho. E como tudo em suas vidas era precoce, a separação chegou antes mesmo do parto. Mesmo não estando juntos, mantinham relações sexuais regularmente, só para não perder o vínculo, e não traumatizar o bebê.
#5
Jorge amava Priscilla, que amava Leandro, que amava Bianca, que amava Alessandro, que amava Lauro. Este último não amava ninguém, porque só tinha tempo para curtição. O pobre rapaz morreu um ano antes de Bianca se casar com Leandro, que volta-e-meia participava de um ménage com seu melhor amigo Jorge e Priscilla, atual esposa de Alessandro, que pegou chato de um travesti chamado Tânia Belvedere.
Carlinne e a verdade
Depois de uma noite inteira de zoação, trilhas quilométricas do mais puro padê, fotos bacanudas para o Tumblr, putaria soft lesbo à beira do ouvido, beijos em línguas anônimas e uma bebedeira descontrolada pela Vila da Penha, Carlinne descobriu a mais irônica das verdades: enquanto você paga para colocar cachaça dentro do corpo, o vômito continua sendo gratuito.
Direitos trabalhistas
A puta liga para o cafetão e desabafa, toda manhosa:
– Não quero mais dar o cu, Mircio. Vou fazer greve de fome!
– Ah, não faz a senegalesa, Velluma. Já não basta o Garotinho?*
– To falando sério, Mircio! Esse negócio de dar a bunda ta acabando comigo!
– O que você sente, princesa? Conta pro tio!
-Eu fico com prisão de ventre, toda inchada!
– Melhor assim, que não caga no pau dos clientes.
– Seu grosso!
– Sua preguiçosa!
Ela desliga e toma, escondida, uma tigela de sopa de repolho antes de ir pro trabalho.
*Este microconto foi escrito há exatos cinco anos, na ocasião da greve de fome do infame ex-governador do Rio.
De uma profundidade…
– Tá sabendo que não vende mais cachorro-quente no trailer da Tia Dalcira?
– Cara, que merda! É sério isso?!
– Uhum! Seríssimo!
– E agora?
– Não sei… vamos ter que fazer em casa. Sei lá…
– Poxa, fiquei triste com isso.
– Era o melhor cachorro-quente de Olaria.
– Ah… mas a vida não se resume a cachorro-quente!
– Lógico! Podemos comer um X-tudo!
– Você paga?
– Pago sim.
– Então vambora, que eu to com fome.
– E ainda tem gente que fala mal de nós dois…
– Pôrrah…
Morde e assopra
Clodomir estava chateado com a esposa e resolveu sair para dar uma volta. A mulata andava enchendo-lhe a paciência com reclamações e bate-bocas, tudo por conta de uma babaquice que rolou no sábado. Sem mais paciência para agüentar aquele disse-me-disse, ele preferia ficar calado a discutir. Daí pegou uma kombi e foi para Saracuruna, visitar sua mãe.
Parou num buteco para comprar um Hollywood vermelho, e acabou tomando duas doses de cachaça. Depois de abrir o maço, pegou um cigarro, virou-o de ponta cabeça, fez um pedido com os olhos fechados e só depois acendeu um outro. Ele não podia fumar em casa, por causa da bronquite da filha caçula, Leydivânia.
Quando chegou no portão da casa, bateu palmas e aguardou. A mãe agora tinha uma criação de poodles, que não eram nada amigáveis. Olhou para uma placa pendurada no muro, onde se lia: “Se vende lindos filhotes de puldos”. Deu um sorriso discreto, imaginando a ignorância da própria mãe ao escrever aquilo.
A velha mancava de um perna, e demorou um pouco para prender a matilha. Não tinha mais ninguém em casa para ajudar, e Clodomir não era muito amigo dos bichos. “- Por mim, matava todos e faria uns espetinhos pra vender. É mais doce que carne de gato”, dizia ele toda vez que chegava lá.
A mãe abriu o portão, inexpresiva, e sem dizer uma palavra sequer. Ele entrou, percebendo a estranheza da situação. Quando tentou abraçá-la, levou um tapa estalado na cara. A velha não estava com cara de muitos amigos. E parecia ter motivos para ter feito aquilo com clodomir.
– Caralho, mãe. Que porra é essa? Tá me estranhando, ou o quê?
– A Greisse já me ligou contando tudo, filhodaputa.
– Aquela preta maldita… devia ter ficado de boca fechada…
– Como você teve coragem de fazer aquilo, Clodomir?
– Pô, mãe… Não quero fala disso com a senhora, tá ligada?
– Mas o quê você fez foi maldade. Sabe disso, né, pilantra?
– Achei que ela ia gostar, caralho. Não tenho culpa
– Você tem noção do que fez?
– Ah… Não fode!
– Não fode, mesmo! Quem mandou abrir a boceta da mulher e assoprar dentro? Agora ela tá peidando pela racha, Clodomir.
E nem mesmo na casa de sua mãe ele te vê descanso. Ouviu mais de duas horas de sermões antes de ser convencido a voltar para casa e se humilhar, pedindo desculpas à esposa, que àquela altura já estava um pouco mais desinchada.
O Inquérito de Carla
– Glaucio, eu por acaso tenho cara de retardada?
– Não.
– E jeito de retardada?
– Também não…
– Meu corte de cabelo, parece de retardada?
– Não, Carla…
– Ai, Glaucio… tá foda, hein?
– Me diz, qual é o grilo?
– Porra, me chamaram de retardada no trabalho!
– Ok, isso acontece. Mas é só um jeito de falar…
– Não era, não. Eu sei que não era… Foi bem claro: re-tar-da-da!
– Bom… oque você teria feito para te tratarem assim?
– Ah, sei lá.. eu meio que mijei nas calças quando o chefe contou uma piada, nada demais.
– Foi só uma molhadinha, ou mijou gostoso?
– Glaaaaaucio!
– Responde. Molhou ou não molhou o chão?
– Molhou… mas eu limpei tudo dep…
– Retardada! Hahahahahahaha