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Dicas Diárias para a Garota Moderna

novembro 22, 2010

Desde que ganhara um celular, em ocasião de seus dezoito anos, Claudinéia ficou toda besta. Era um aparelho sofisticado, com milhares de funções. Dentre os inúmeros jogos e aplicativos, ela já tinha um favorito: Dicas Diárias para a Garota Moderna. Tratava-se de um sistema randômico, com frases aleatórias sobre o que fazer para tornar o cotidiano um pouco menos entediante.

Todo dia, ao levantar-se, antes mesmo de escovar os dentes, ela lia sua “sorte” no maldito celular. Com o passar do tempo, o que deveria ser uma diversão foi transformando-se em dependência. A jovem sequer saia de casa antes de consultar as tais dicas, e se desesperava quando as previsões não eram lá muito positivas.

Certo dia, porém, algo inusitado apareceu na tela do aparelho. Era uma dica bem estanha, mas imperativa: “Saia de casa agora, completamente pelada e dê para o primeiro que encontrar. Você vai ficar rica duas horas depois” Sem titubear, Claudinéia disparou rua afora e se atracou com um vendedor de moringas.

Os dois trepavam como dois cães sem dono, num terreno baldio, quando três rapazinhos apareceram com um celular na função filmadora… Eles gravaram a libidinagem por trás de uma moita e já se divertiam com a repercussão que o video causaria depois de publicado no Facebook.

Cheia de carrapichos e mato nos cabelos, Claudinéia levantou-se meio desnorteada. Olhou para o homem nu e suado, sentindo nojo de ter se deixado deflorar por alguém tão rude e sem modos. Saiu cambaleando e voltou correndo para casa, morta de vergonha. Tomou um banho de duas horas, onde quase esfolou a pele de tanto esfregar-se.

Já refeita, correu para o celular em busca de instruções acerca da fortuna iminente. Só então caiu-lhe a ficha: aquela mensagem não fazia parte do aplicativo. Trata-se de um torpedo jocoso, enviado por seu vizinho tarado, e que fora lido por descuido. Uma semana depois, porém, Claudinéia se tornaria a nova celebridade virtual.

Seu vídeo pornô acabou bombando na internet. Recorde absoluto de acessos, com retweets até de artistas famosos. Agora ela era o assunto em todas as rodinhas, e todos achavam mais merecido o sucesso que alcançara. Claudinéia se viu dando entrevistas para o Tv Fama, para Datena e até para o RJ TV. No mês seguinte, foi capa da Playboy, e dois meses depois entrou para um reality show, de onde saiu vitoriosa e milionária.

OBS 1: A moral da história é bem simples: vergonha na cara não te leva a lugar algum.

OBS 2: Os garotos que publicaram o vídeo no YouTube tiveram suas contas canceladas.

OBS 3: O companheiro de cena preferiu o anonimato, mas ainda vende moringas e já deflorou mais três adolescentes no bairro.

Ratazanas sempre voltam

novembro 10, 2010

Donercília estava de joelhos, limpando o piso da casa nova, quando foi atacada por uma enorme ratazana, que surgira não se sabe de onde. Por sorte, acabou saindo ilesa do incidente, mas o susto foi tão grande que seus cabelos ficaram brancos, naquele exato momento. Ao ver seu reflexo num espelho, desesperou-se: tinha apenas 25 anos e agora parecia uma velha.

Com os dois filhos pequenos à tiracolo, Donercília correu para a UPA do Méier e relatou  o acontecido. A ratazana, em seu relato, parecia ter dois metros de altura… Um médico a examinou, fez várias perguntas e, enfim, constatou que tudo não passava de um estresse pós traumático. Em poucos meses, seus cabelos estariam normais outra vez… ela poderia dormir tranquilamente.

Mas não foi bem assim. O temor de que a ratazana pudesse retornar fez com que ela passasse as noites em claro. Algum tempo depois, Donercília começou a definhar: sua pele enrugou-se como um maracujá, os dentes caíram e, inevitavelmente, envelheceu a ponto de nem mais conseguir falar. Seu desespero era tanto que, toda noite, rezava pela chegada da morte.

Donercília passou cinco longos anos entreveda numa cama, até que a ratazana reapareceu. As duas se entreolharam fixamente por alguns minutos, e então veio o segundo ataque. Desta vez, porém, não fora a rata quem avançara contra sua presa. A moribunda, tomada por uma força imensurável, devorou a carne da roedora, e ainda lambeu os dedos. Depois caiu morta, com os olhos esbugalhados, já que a bicha havia comido arroz com chumbinho a tarde inteira e não queria ir para o inferno sozinha…

Sem sal

outubro 19, 2010

– Me passa o sal, Fefa?

– Por que? A comida está ruim, Clécio?

– Não, é que eu gosto de muito sal. Só isso.

– Pois então, a janta está sem gosto… né?!

– Ah, que nada! Tá uma delícia!

– Sei…

– To falando sério! Adorei o ensopado.

– Então não precisa mais do sal?

– Preciso, só de um pouco… pode ser?

– Isso só pode ser afronta! Afronta, Clécio! Afronta!!

– Fefa, que porra é essa? Se controla aí…

– Covarde! Passei o dia inteiro cozinhando!

– Mas…

– Chega! Pra mim acabou!

– Fernanda, pelamordedeus! Eu só ia dar uma pitadin…

– Não, Clécio. Não precisa se justificar! Está tudo acabado entre nós!

– Hã… você tá falando sério?

– Sim! Vou-me embora daqui!

– Fernanda… isso não é justo!

– Não?!? Então me diga: o que é justo?

– Dá pra servir a sobremesa antes de sair, pelo menos?

Tudo o que ela queria…

setembro 26, 2010

Roberta saiu do quarto soltando fogo pelas ventas, e olhando bem para o fronte de Sérgio, retrucou com a voz empostada: “Eu quero mais do que beijo na boca. Eu quero bem mais do que uma trepada antes de dormir. Eu quero muito mais do que viver feliz ao seu lado para o resto de minha vida! Sabe o que eu quero, na verdade? Eu quero aquela estante de mármore com prateleiras de vidro iluminadas por leds. A que nós vimos lá em Benfica! É isso que eu quero, Sérgio!” Logo em seguida, ela bateu a porta do banheiro e se trancou lá dentro, chorando copiosamente… foi uma pequena vitória!

O triste fim de uma celebridade virtual

setembro 24, 2010

Kelly estava há três dias sem postar em seu famoso blog. Uma repentina falta de criatividade acometera sua essência, e nada que tentasse escrever naquele período seria digno de publicação. O contador de visitas só fazia despencar, e uma profunda tristeza apertava-lhe mais ainda o peito. A estudante tentou se inspirar em filmes, jogando buraco com seu avô, comendo um podrão na pracinha do Méier, mas nada colaborava. Seus leitores já estavam revoltados com tanta demora, e daí veio o ato de desespero: sem ter com o que segurar a audiência, a guria acabou colocando uma foto onde aparecia nua, logo após sair do banho. Seu blog voltou a bombar em questão de segundos: ela recuperou o viço e também a vontade de escrever! O problema é que, devido à infeliz angulação, podia ser visto pelo espelho um enorme “marinheiro” boiando na privada. E assim ela passou do hype para o escárnio, como que num piscar de olhos.

Monólogos de Danúbia

setembro 20, 2010

“Oi, gente. Meu nome é Danúbia, e eu preciso confessar uma coisa pra vocês. De vez em quando, tipo fim de semana, sei lá… eu curto levar uns tapas na cara, sabe? Mulher que é mulher gosta de apanhar na cama. Se o cara for daquele tipo alto e tatuado então, pode me encher de porrada que eu adoro. Eu gozo feito uma zebra estrábica, chego a ficar até meio retardada e com as pernas bambas. Sério, gente. Não gente precisa ficar com essa cara de mula no cio. Vocês deveriam experimentar, qualquer dia. É até bom pros casais, porque estimula a criatividade! Mas enfim, esse foi o meu recado. Espero que tenham gostado”

Danúbia desce do altar e é retirada da igreja pelos párocos. Era domingo, dia de batismo, e ela bem que avisou não estar à vontade com toda aquela coisa de ser a madrinha da pequena Clarisse.

Puldos coloridos

setembro 15, 2010

– Alô? Posso falá com o Dôugra?

– Quem deseja?

– É a mãe de santo dele, Ranielle de Iansã.

– Só um momento, que eu vou chama-lo…

– Tá bom, vô esperar!

( Douglaaaaas!! Telefooooooooone! )

– Alô!

– Dôugra?

– Sou eu. Quem fala?

– É Ranielle, Dôugra! To apavorada!

– O que houve? Tá passando mal?

– Não! É a Sheiva, minha pulda!

– Pulda?

– A cachorra preta, aquela fofinha! Ela tá morrendo!

– Ah… sua poodle! ( risos )

– Isso! Fui pintar o cabelo dela de vermelho e agora a bicha tá espumando!

– Como assim? Você pintou o pêlo da cachorra?

– E agora, Dôugra? Tô chorando aqui! ( chuinfs )

– Leva a bicha pro veterinário! Agora!

– Mas o que é que o Magal tem com isso?

– Não to falando do viado, Ranielle! Leva a porra da cachorra, caralho!

– Ai, meu deus!! Não faz isso, comigo agora!!

– Que foi? Ela tá morrendo?

– Não, Dôugra. Você é que tá de ranho comigo! ( chuinfs )

– Ranielle, vou pegar meu carro e te levo pro veterinário!

– Tá bom! ( chuinfs )

– Enrola ela numa toalha e me espera no portão. To saindo de casa!

– Oh, Dôugra! Antes de sair…

– Fale!

– Traz um Free maço pra mim?

Katia Flávia

setembro 10, 2010

Ela se chama Kátia Flávia e, apesar de morar no Irajá, não é godiva alguma. Até completar dezoito anos, a moça sempre ouvia piadinhas por conta de seu nome. Ora, eram apenas pessoas ordinárias, fazendo alusões baratas à musa de Fausto Fawcet. Outrora, os inconvenientes perseguidores de rabos-de-saia, querendo saber se ela compartilhava algo a mais com a personagem da música, além da maldita alcunha.

Depois de tanto tempo, porém, ela deixou de odiar sua maldição de nascimento. A única bronca é quando levavam o assunto para além dos limites toleráveis, ultrapassando sua zona de conforto. Certa vez, ainda pré-adolescente, ela fora cercada pelos coleguinhas de rua, que insistiam em descobrir que tipo de calcinha estaria escondida por baixo daquele shorts de algodão estampado. Com certeza, ainda não era das comestíveis, mas algumas que usava, realmente tinham rendinhas.

Anos mais tarde, num reveillon em Copacabana, os primos bastardos vindos de Deodoro, tentavam convencê-la a roubar uma patrulha, quando tudo o que Kátia Flávia queria era assistir àquela famosa queima de fogos em paz, ao vivo, pela primeira vez na vida. Ela nunca imaginara que a vida fora do subúrbio pudesse ser tão fascinante, nem que um dia mandaria seu recado pelo rádio da polícia.

Seduzida e deslumbrada pelas novidades que descobrira na zona sul, a garota resolvera dar um basta na mediocridade em que sua vida sempre fora envolta. Se era para ser reconhecida e zombada por conta do nome escolhido na hora do parto, que fosse algo realmente extraordinário e digno de ser lembrado. E, naquele momento, ela sabia muito bem como conseguir chamar a atenção.

Foi numa festa-junina no pátio da igreja que ela apareceu, montada num cavalo branco, completamente nua e serena. Seus pais, envergonhados, fugiram pela tangente e esconderam-se dos olhares aterrorizados da comunidade. Kátia Flávia estava cavalgando por entre os fiéis, com os pêlos pubianos a mostra e uma inédita sensação de vitória. Conseguira calar a boca de todos, sem desferir um único golpe.

Com a chegada da polícia, ela sorriu maliciosamente e pediu para dar apenas algumas palavras antes de ser levada para a delegacia. Atônitos, um punhado de cidadãos e vizinhos reuniram-se à sua volta, na aflição de saber que diabos a teriam feito cometer tamanha loucura. Muito faceira, Kátia Flávia segurou o microfone, aproximou-o da boca e sussurrou: – Entra na minha caaaaaaaaaasa! Entra na minha viiiiiida! Mexe com minha estrutura, sara todas as feriiiiiiiiiiiidas!

O gambá da lotação

setembro 3, 2010

Jonatas era egoísta. E também tinha cecê. Para não dividir o banco do ônibus, ele sempre saia de casa sem desodorante. A tática era simples, e por isso mesmo infalível: ninguém sentava ao seu lado. Mas num certo dia apareceu aquela morena, com peitão e culotes. Era a mulher de seus sonhos: tinha cara de puta e jeitinho de secretária. Estrategicamente, o rapaz sacou o celular do bolso e pôs um pagode romântico para tocar.

De longe, a beldade cor-de-jambo deu um sorrisinho, aprovando a canção. E Jonatas retrucou, inclinando a cabeça. Já estavam em Ramos quando ele a convidou para ocupar o assento vago. Seu nome era Samanta, mas não levou nem dois minutos de prosa para que ela puxasse o sinal e saltasse do ônibus tão de repente. “Uma pena que o papo tenha sido tão curto…” pensou o fedido.

No dia seguinte, Samanta pegou o mesmo ônibus, mas o evitou a todo custo. O constrangimento se repetiu por toda a semana, até que o rapaz resolveu tomar satisfação: “ -É porque eu sou preto? É porque eu sou pobre que você não quer mais saber de mim?” A grande verdade é que apesar dos defeitos acima citados, Jonatas também era ingênuo. Muito sucinta, ela beijou o ombro e respondeu, com cara de nojo: “- É que você fede.”

Jonatas ficou fodido da vida com a resposta de Samanta. O ódio que sentira foi tanto, que saltou no ponto seguinte, esbaforido. Naquele dia nem foi pro trabalho, de tanto que suava. Voltou pra casa a pé e se enfiou debaixo do chuveiro. Tomou um banho de duas horas, gastou três sabonetes e continuou fedendo, da mesma forma. Resignado, ficou sem passar o maldito desodorante, mas sempre volta bem acomodado no ônibus lotado.

Via postal

setembro 1, 2010

Renata abriu a correspondência e ficou pálida. Dentro do envelope vermelho, um papel de carta decorado. Nele, havia cerca de quatro parágrafos bem escritos. Ela releu o conteúdo, e então foi até a despensa. De lá, voltou com um spray amarelo fluorescente e pichou toda a fachada de sua casa. Em letras  tortas, porém sinceras, ela desabafou: QUERO MAIS QUE MINHA BUNDA CRESÇA!