O recado
Cristiane chegou em casa com uma tromba sem tamanho. Subiu as escadas batendo forte com os pés, para fazer barulho e chamar atenção. Depois de cinco minutos, desceu carrancuda, mas já com uma roupa limpa. Sem muita cerimônia, reuniu a família e deu um recado:
– A partir de hoje, está proibido comer repolho nessa porra dessa casa! Se eu pegar alguém peidando aqui dentro, eu vou mandar tomar bem no meio do olho do cu! E tenho dito!
E da mesma forma que chegou, ela se foi. Bateu a porta e ganhou a rua. Seus pais providenciaram que um chaveiro trocasse o miolo da fechadura naquela mesma noite, e Cristiane passou a viver pelas ruas, onde costuma ser vista dando dicas de nutrição para transeuntes distraídos.
Romantismo
Leonídia sentou-se na calçada, acendeu um cigarro e pôs-se a esperar pelo marido. Não demorou muito para que ele chegasse, com um buquê de rosas vermelhas nas mãos. Ela, então, arreganhou um sorriso do tamanho do mundo, por Rodrigo ter lembrado de seu quinto aniversário de casamento. Trocaram beijos, abraços e juras de amor, até enojarem os vizinhos com tanta melação. Jantaram à luz de velas, conversaram apaixonadamente e depois foram dormir. No dia seguinte, ela acordou mais cedo. Preparou um café da manhã todo especial, arrumou a roupa de Rodrigo e voltou para a cama. Beijaram-se, acariciaram-se e ela confessou que estava na hora de terem um filho. Rodrigo saiu para trabalhar e não voltou mais. Leonídia pensa, até hoje, que ele a abandonou por causa do bafo matinal.
Sobremesa canibalista
A vida de Dulcinéia era bem ordinária, porém pacata. O marido levantava às 4 da manhã, pois trabalhava como cobrador numa empresa de ônibus da zona oeste. Ela tinha quatro filhos pequenos, cujo desempenho escolar não era lá dos melhores. Sua única desavença era com Rosália, a vizinha gorda que morava num sobrado do outro lado da rua, e que vivia debochando de sua família e de seu cotidiano insosso. Para aliviar a tensão e dar uma mudada na rotina, a dona de casa gostava de experimentar receitas diferentes que encontrava pela internet.
O bolo com sementes de papoula e alcaravia que Dulcinéia preparou estava cheirando tão bem que ela precisou colocá-lo sobre o telhado da lavanderia para arrefecer ( e também para que as crianças não o devorassem antes da hora). Daí tocou o telefone, os infantes fizeram o dever de casa, tomaram banho, depois todos jantaram, começou a novela, e então foram dormir. Esquecido lá fora, o tabuleiro foi regado com sereno de uma madrugada inteira, cozinhando ao luar.
Pela manhã, quando as pestinhas perguntaram pela tão inusitada sobremesa, Dulcinéia lembrou-se de tê-la deixado ao relento. Estava tão ocupada com o preparo do desjejum que nem percebeu a trupe escapando de fininho para devorar o bolo. O que ela não sabia é que as sementes haviam brotado sob a tutela da lua cheia. Como que por encanto, os ramos foram subindo em espiral, formando um caule resistente e com muita folhagem. As crianças, atônitas, assistiam àquela estranha metamorfose com um misto de espanto e prazer.
A medida que os primeiros raios de sol foram banhando o bolo, as raízes já robustas e espinhosas, espalharam-se para além do tabuleiro, tomando conta de todo o telhado. Etelvino, com seus sete anos, foi o primeiro a se render a curiosidade: pegou uma escada e subiu, para ver mais de perto o fascinante espetáculo. Os brotos acabaram dando origem a uma faminta planta canibal, que rosnava ferozmente lá do alto. Uma a uma, as crianças foram degustadas, e não sobrou nem um ossinho para contar a história. Jupira, a caçula, ainda teve a chance de gritar, chamando a atenção da mãe.
Ao ouvir o desespero de sua filha, Dulcinéia correu até a varanda, para deparar-se com a monstruosidade que se sacodia sobre o telhado. Em trinta e cinco anos de vida, a dona de casa nunca vira nada tão nojento, e acabou desmaiando sobre o tapete de lycra trançada. O gosto de sangue aferiu ainda mais fome àquela criatura horrenda, que parecia indócil. Tentáculos robustos e incadescentes começaram a brotar de seu caule, descendo aos cachos em direção à mãe dos pequenos aperitivos, devorados pouco antes. Com a fome de mil jumentos, a planta canibal içou-a pelas pernas e começou a arrasta-la em direção ao telhado…
Lentamente, o corpo de Dulcinéia foi suspenso, até que sua cabeça bateu na calha que rodeava o telhado. Ela acordou meio desnorteada, e enfim deu-se conta do horror que havia acontecido a sua familia. Tomada por um ódio de leoa africana, ela se livrou dos tentáculos e correu até a cozinha, onde agarrou o primeiro facão que encontrou sobre a bancada. Fora de si, ela pulou para cima do telhado e começou a picar aquela aberração esverdeada, em busca de seus filhos. Foram momentos desesperadores até que conseguisse enfim, dar cabo daquela coisa.
As crianças, felizmente, não chegaram a ser totalmente consumidas pelo ácido estomacal da nefasta criatura. Foram rolando telhado abaixo, e então seguiram correndo para o quintal, onde arrancaram as roupas e tomaram um demorado banho de mangueira. Dulcinéia, aliviada, pediu para que os pestinhas ficassem na caluda, e não contassem nada para ninguém, inclusive o pai. Depois, já refeita do susto e com a janta pronta, ela aproveitou o tempo livre para anotar num papel de carta a receita daquele bolo e a entregou para Rosália, com ótimas recomendações.
Problemas conjugais de conjugação verbal
Marido: – Queria te fazer uma surpresa!
Esposa: – Não quer mais?
Marido: – Hã?!
Esposa: – Você disse que “queria fazer uma surpresa”.
Marido: – Isso!
Esposa: – E agora não quer mais?
Marido: – Ah, vai pro inferno!
Esposa: – Vai na frente que eu preciso descolorir o buço, amor.
TPM, chiclete e vingança
Ercília estava a caminho do trabalho, num ônibus lotado que trafegava pela Avenida Brasil rumo ao centro da cidade. Era quarta-feira, dia de fechamento, e ela acabara de entrar na TPM. Todos os dias, ela se sentava no mesmo lugar, já que sempre era a primeira e embarcar. Ao seu lado, havia uma mulher de cabelos desgrenhados, cujo perfume faria enjoar o mais rústicos dos estivadores. Seu nome era Hélvia, e ela não tinha motivo nenhum para ter levantado da cama tão cedo. Houve um discreto cruzamento de olhares entre elas, e a viagem continuou. Num dado momento, Hélvia tirou da boca um chiclete mastigado e ofereceu para Ercília, com um sorriso pueril e sacana emoldurando o rosto. A gerente de RH recusou prontamente a oferta, fazendo uma caretinha discreta. A perturbada, então, começou a reclamar:
“Não quer o meu chiclete porque, sua doida?!? Tá achando que eu fiz macumba pra você perder os dentes, não tá?! Acha que eu não to te entendendo? Pois saiba que eu sou duquesa! Duquesa de Padre Miguel e comigo ninguém mexe! Tá falando o que de mim aí atrás? Hã… Não! Não sou maluca porra nenhuma, não fala isso! Eu não sou maluca! Esse chiclete eu ganhei do espírito santo, tá ungido no sangue dele! E o anjinho Gabriel foi quem mandou eu dar na boca dessa vaca, mas ela tá rejeitando! Ela não quer o chiclete do santíssimo! Vou chamar quem pra resolver essa parada? O capitão Nascimento? A Márcia? A Claudette Troiano?!? Não! Eu vou chamar é o Jorge, que me come de quatro no ferro velho e tem fama de brigão! Ela sim vai dar um jeito nessa sirigaita de uma figa! Tá me ouvindo? Não quer esse chiclete? Mesmo? Olha que eu vou engolir essa porra e o negócio vai ficar feio pro teu lado! Ah, se vai…”
A ladainha repercutiu até a Central, onde Ercília saltou junto com a maioria dos passageiros. Apesar de toda aquela loucura, a aflição que nutria desde a hora em que acordou havia sumido. Nada de TPM, ou preocupação com o fechamento das metas. Ela chegou a sorrir, quando viu uma garotinha vendendo chicletes no farol. Acabou comprando um pacote, que devorou enquanto subia a rua de seu escritório. Hélvia continuou no ônibus até o ponto final, onde optou por fazer todo o itinerário de volta. Refez o trajeto durante todo o dia, até que se cansou da viagem e resolveu saltar. Já estava quase pisando na calçada quando teve a idéia de deixar uma surpresinha para Ercília. Tirou da boca o chiclete e colou no banco cativo de Ercília, torcendo para que ela ficasse feliz com a surpresa. Depois saiu saltitante, cantarolando um pagode do grupo Molejo.
Quase uma Afrodite
Gerusa estava com tanto fogo na buceta que besuntou com batom vermelho seus beiços já carnudos. Ela queria dar close, ser vista, sentir-se desejada e beber um chope na Lapa. Não foi a toa que escolheu um decote bem indecente, de onde poderia exibir sem nenhum pudor os soutiens de bojo que comprara na revistinha da Avon para turbinar as tetas. Só faltava borrifar um perfuminho de alfazema e pegar o 497 na Praça das Nações.
Saltou do ônibus ajeitando a flor de plástico que prendera na juba cacheada, para dar um charme kitch e provocador na composição. Gerusa não era uma mulher bonita, mas tinha seus truques. Seguiu sorrindo para os homens, quase devassa, exalando uma inconfundível descontração. Ela costumava dizer, depois de umas cervejinhas, que se não fosse tão magra, desbancaria muitas putas e muitos travestis.
Ela chegou nos arcos esbarrando ( intencionalmente ) num grupo de rapazes. Bateu papo, jogou charme, resvalou a mão no volume que um deles ostentava sob o jeans surrado e saiu correndo, toda assanhada. Gerusa aprontou muito, beijou várias bocas, fez xixi atrás de uma Kombi. Ficou com vários meninos na escadaria do Selaron e até deixou rolar um clima com uma rastafari, só para dar um tapa no catiripapo que ela fumava.
Um princípio de incêndio se deu quando o pipoqueiro a confundiu com Marisa Monte. Se havia uma coisa que Gerusa não admitia era ser confundida com aquela cantora: até concordava que não era nenhuma modelo / manequim, mas ser comparada com aquela mulher horrorosa foi a gota d’água. Acabou afogando as mágoas numa garrafa de Pitu, e acordou no gramado da Lapa com a calcinha arriada até o joelho.
Meio desorientada, verificou se estava tudo em ordem com sua teimosinha e com o toba: nada tão ardido que não agüentasse a viagem de volta para casa. Depois de recompor-se, deu uma ajeitada nos cabelos, passou mais batom para arrematar o visual e contou os trocados para, então, pegar um busão até a Central. Ela sentia-se tão viva que até cogitou a possibilidade de voltar sem nada por baixo na noite de sábado.
Para @brommelia, @humberto_silva, @mari_pimenta81 e todas as Compulses.
Açucarada
Diclécio e Davina conheceram-se debaixo de uma marquise, na Tijuca. Estavam ali por conta da forte tormenta que chegara de supetão no fim da tarde. Todos foram pegos desprevenidos, já estavam a caminho de casa quando a Avenida Maracanã transbordou. Os dois permaneceram ali tempo o suficiente para se apaixonarem. E então marcaram de se encontrar no dia seguinte.
Era uma quinta-feira, e novamente prometia chover. Diclécio estava empolgado com o seu primeiro encontro com a encantadora recepcionista de consultório dentário. Para tanto, comprou uma nova gravata e caprichou no perfume. Não demorou para chegar um torpedo de Davina, desmarcando o jantar por conta da chuva que já caia forte pros lados do Grajaú. Eles suspirou e respondeu com educação.
Telefonaram-se à noite, e trocaram carícias. Com a voz trêmula, a jovem de cabelos tingidos pediu desculpas pela falta, ao passo que revelou ter uma enorme dificuldade em sair de casa nos dias chuvosos. Muito polido, Diclécio a tranqüilizou, afirmando que jamais a deixaria ser lavada pela tempestade, se lhe fosse dada a chance de estar mais vezes ao seu lado. E naquela madrugada, esgotaram-se os créditos de ambos, que àquela altura já se amavam.
O dia amanheceu encoberto, mas as nuvens foram se dissipando com o passar das horas. Davina sentiu-se à vontade e deu uma nova chance ao amor, marcando um novo encontro com seu galante admirador. Já era noite quando se avistaram, um de cada lado da rua. Ela estava de vestido branco, e ele empunhava um buquê de lírios. Diclécio sorriu e ela corou as maçãs do rosto.
Nisso surgiu um carro pipa desgovernado, que ao capotar deixou vazar boa parte de sua carga. Davina, quem diria, foi atingida em cheio pela tromba d’água e entrou em pânico. Ao vê-la se desesperar, Diclécio partiu em seu socorro, mas já não havia mais o que fazer. Ela era feita de açúcar, e por isso seu medo de chuva. Derreteu-se pelo meio-fio uma jovem incomum, deixando apenas as roupas e os sapatos.
E Diclécio, que havia jurado amar Davina até o fim de suas vidas, num piscar de olhos perdera tudo com o que mais sonhara. Naquele momento, ele não pensava em mais nada, e sequer hesitou em jogar-se ao chão para sorve-la do asfalto, doce como uma laranjada, até a última gota.
Virtualmente amigável
Estrodêmia passou a noite em claro, montando uma apresentação em power-point para comemorar o dia do amigo. Primeiro, catou fotos de filhotes, flores e crianças fofas pela internet. Depois, escolheu escreveu um longo texto, repleto de referências e citações, onde enaltecia o valor de uma verdadeira amizade. Pacientemente, encaminhou a mensagem com o arquivo anexado para todos os seus contatos: um a um, para que o e-mail não fosse confundido com spam pelos servidores alheios. Feliz da vida, ela recebeu a primeira resposta: era um deles que havia retornado, por estar com a caixa de entrada muito cheia.
Depois mais dois. Sete. Oito, vinte e cinco, cinqüenta e três. Ela não se deu por vencida e , mesmo com os olhos despencando de sono, continuou à espera de que alguém retribuísse o carinho. Deu meio dia, três horas da tarde, nove da noite… ninguém se prestou a respondê-la. Já havia passado uma semana, e Estrodênia não recebera um telefonema sequer. Ela chorou, como sempre, debulhando-se em lágrimas sobre os travesseiros. Lá pelas tantas, lembrou-se de uma macumba pesada que aprendera com sua antiga colega de quarto e rogou uma praga: toda vez que alguém ignorasse um e-mail com apresentação em power-point, automaticamente perderia um amigo. E assim surgiu todo o conceito do Twitter.
Pela Janela
Coloquei a cabeça para fora do peitoril e vi o escândalo que ela aprontava lá na rua. Toda descabelada, vestindo apenas uma camisolinha de algodão, Guaraciara chegava a espumar pela boca. Descalça, ela surgia por entre os arbustos e se agarrava aos transeuntes, vociferando palavras desconexas enquanto os sacudia pelos ombros. E a doida apontava para minha janela, sem perceber que eu, atônito, observava àquilo tudo com um certo pavor.
Algumas pessoas sequer conseguiam entender o que ela dizia, tamanho seu estado de perturbação. Batia com a cabeça na amendoeira e se pendurava nas grades de ferro que cercam a portaria do prédio, como se tivesse incorporando a macaca . Uma senhora chegou, inclusive, a empurrá-la contra a banca de jornal. Mas Guaraciara nem se intimidou. Ficou até mais enlouquecida e desavergonhada: arrancou sua calcinha suada e esfregou na cara de Josué, dono do salão de cabeleireiros aqui de baixo.
Os vizinhos devem ter pensado que eu traí a maldita, ou coisa do gênero. Nada disso. Só fiz um comentário levemente malicioso a respeito de seus seios. Nada demais, só que eles estão, de fato, meio caidinhos. E a maluca, que não consegue receber uma crítica sem perder o controle, acabou surtando. Descobri que ela riscou todos os meus discos do Caetano e me rogou uma praga com batom vermelho na parede do banheiro. Mas tudo bem… ela quem vai limpar tudo mesmo…
Lá de fora…
No dia em que completou 15 anos, Venise foi chamada para uma conversa reservada com seus pais. Ela já estava crescida, preparando-se para o vestibular, e pensou que eles queriam falar sobre sexo e preservativos. De início ratearam, quase desistiram. Depois foram preparando o terreno até despejarem, de sopetão, tudo aquilo que sempre temeram revelar sobre suas origens: “Nós somos alienígenas, minha filha. Viemos dos confins do universo em busca de novos alimentos e um estilo de vida mais ameno!”
Para quem crescera no bairro de Vila Isabel, estudando num colégio para normalistas, a idéia de ser alienígena já era algo bem familiar. Venise sempre se sentira diferente das coleguinhas, e nunca conseguiu entender o que tanto viam de bom na baile funk que rolava na quadra do Salgueiro. A jovem meio que tentou debochar do assunto, mas eles reiteraram: “Não temos anteninhas, nem caudas pontiagudas, mas estamos longe de sermos terráqueos”
Por alguns instantes, Venise permaneceu estática. Seus pais explicaram que a nave onde estavam caiu em uma clareira da floresta da Tijuca, onde passaram dezesseis anos vivendo em uma gruta. O casal assimilou tudo o que pôde da vida terrena.alimentando-se com o cérebro de pessoas que se perdiam na mata. Depois aproveitaram-se da clarividência para enriquecerem às custas da loteria. “E se vocês ficaram tão ricos, porque é que não fomos morar na Barra, ou no Leblon?” questionou a adolescente.
A conversa transformou-se em discussão, e depois de duas horas descambou para a briga. Com toda a razão, Venise determinou que a festa de sábado fosse cancelada. Saiu batendo a porta, e foi para a rua. Deus algumas voltas no quarteirão, ruminou toda aquela balburdia, comeu um salgadinho com refresco no boteco da esquina e então voltou para casa. Só que não havia mais ninguém lá. Todos haviam saído, inclusive seu irmão. E pregado na geladeira, um bilhete revelava: “Tem feijão congelado no freezer. Favor não descongelar”
Venise fora abandonada, e passou vários meses ao relento. Catou latinhas, fez faxina, e distribuiu filipetas, até que finalmente conseguiu um emprego fixo como assistente num trailer de podrão, debaixo do viaduto de Cascadura. Foi numa madrugada fria de julho que ela conheceu Emésio, com quem acabou se envolvendo e, posteriormente, dividindo um barraco em Madureira. Ela jamais tocou naquele assunto interplanetário com ele, até a noite de seu vigésimo primeiro aniversário…
Estavam todos na laje do casal, queimando uma carne na churrasqueira improvisada, quando um objeto iluminado surgiu no céu. Venise congelou, e Emésio percebeu que havia algo de errado com sua esposa. Enquanto todos observavam os fascinantes movimentos do Óvni, ele a carregou para o fundo do quintal, onde havia uma bananeira e um banco de paus. Como que num transe, a moça só voltou a si quando levou um balde de água fria na cabeça. Por sorte, ela usava um conjunto de lycra que impediu sua nudez de ser exposta.
Quando perceberam, a nave que há pouco estava a milhas de distância, agora sobrevoava a favela, girando lentamente sobre o barraco. Venise, muito comovida, acabou juntando coragem para revelar a Emésio sobre sua misteriosa origem extra-terrena. Foi um momento comovente, mas que terminou de forma inesperada. Desnorteado, ele não segurou a onda e saiu correndo, para sumir no meio do mato. A jovem, que não tinha mais a quem recorrer, resolveu então se entregar. “Se eles voltaram para me resgatar, aceitarei meu destino sem resistir e nem reclamar.”
Uma fenda se abriu e, de dentro da nave, seus pais acenaram. Os vizinhos, emocionados, testemunharam o contato imediato que se formou entre a jovem e os visitantes. Com os olhos marejados e a maquiláge borrada, Venise acenou de volta e disse que iria com eles para onde quer que fosse o seu planeta natal. Mas não foi por isso que eles voltaram. Para surpresa de todos, eles estavam atrás de outra coisa: “Venise, sua filha da puta! Cadê a porra do feijão que eu deixei no freezer, caralho?”
“Porra… eu comi tudo! Vocês sumiram, e eu acabei passando fome!” respondeu a jovem. Houve um instante de tensão, onde reinou o silêncio. Cachorros latiam descontroladamente pela favela, e a polícia ameaçava subir. Os traficantes se encarregaram de coloca-los para correr, e logo depois foi retomado o contato: “Nós estamos muito decepcionados, Venise! Ao que tudo indica, você tomou gosto mesmo pela humanidade…” E a nave partiu, na velocidade da luz. Venise, que jamais se deu por derrotada, bateu palmas para o alto e determinou: “Coloca mais carne na brasa que eu vou mandar descer mais duas caixas de Skol.”
E a vida seguiu na favela, onde o samba ainda ecoava com o alvorecer…