Caldo-de-cana com pastel de carne
– Teu beijo tem gosto de caldo-de-cana.
– Daqueles de feira?
– Sim, daqueles que você ganha quando compra um pastel.
– Então o meu beijo é geladinho?
– Não, seu beijo me deixa tinindo!
– E o pastel?
– Ah, pastel eu gosto “pelando”.
– E qual é o seu preferido?!
– De carne.
– Hmmm…
– O que foi?
– A minha carne é de carnaval, sabia?
– Garota… não atiça! Desse jeito eu vou querer te c…
– Faz de mim o teu pastel de feira!
– E vem o caldo-de-cana grátis?
Acabou a bagunça
Por alguns minutos, Ariadne hesitou comentar sobre o ocorrido. Ficou sentada no sofá, enquanto os outros deixavam a sala. Um clima pesado tomou conta da casa, e ela enrolando as pontas dos cabelos com os dedos. Nitidamente nervosa, desligou o televisor e atirou o controle remoto na poltrona ao lado. Levou algum tempo, mas acabou se levantando. Pegou uma caixa na despensa, e subiu para o quarto, melancólica.
Despiu-se lentamente, já chorando. Dobrou a camisa, depois o shorts e a bandana. Juntou as revistas, jornais e cds. Pegou também a bandeira que estava pregada à porta e colocou tudo dentro da caixa. Já com um nó rasgando a garganta, vedou-a com fita crepe e depois passou duas camadas reforçadas de plástico. Prendeu tudo com algumas voltas de fio de nylon e então seguiu para o quintal.
Com uma pá, Ariadne abriu um buraco grande o bastante para que coubesse a caixa. Ajoelhou-se diante da terra e, lá no fundo, depositou a caixa. Reservou algum tempo para controlar as emoções e se recompor. Já estava para tapar o buraco com a terra quando se lembrou de um pequeno detalhe. Correu até a sala e voltou com a maldita vuvuzela na mão. Atirou-a lá embaixo e acabou de enterrar tudo aquilo. Em quatro anos ela pode tirar tudo de lá, mas por hoje, vai fazer uma macumba de amarração para o Felipe Melo*.
*Sem comentários
Como os nossos (desesperados) pais…
– Tá acabando a novela e Pedro Ivo ainda não voltou… Ai, meu deus!
– Relaxa, Soraya. O menino foi ao cinema com os amigos. Já deve estar chegando.
– Sim, mas isso já tem… quase cinco horas! Quase cinco horas, Roberto!
– Vai ver é um daqueles filmes intermináveis, tipo o “Senhor da Pedra Filosofal”.
– É o “Senhor dos Anéis”, Roberto. E esse aí já acabou!
– Bom… Eles devem ter ido na lanchonete, ou no trailer da Dona Zilma. Fica tranquila.
– Roberto, ele é nosso filho! E já está tarde!
– Tá bom! Liga pra ele então, Soraya.
– Me dá o seu telefone, o meu já acabou com os créditos.
– De tanto ligar pro garoto?
– Roberto…
– Calma, Soraya! Toma logo! Tá chamando…
– …
– …
– Ele não atendeu, Roberto! Caiu na caixa postal!
– Soraya, relaxa! Pedro Ivo não é nenhuma criança. Ele ligaria se…
– Se… se ele estivesse morrendo?!? Ai, meu deus! Meu filhinho!
– Calma! Ele não está morrendo! Para de escândalo, Soraya!
– Não tá chamando, Roberto! Caiu direto na gravação!
– Tenta de novo!
– Não atende, não chama, não acontece nada! Nosso filho morreu!
– Que isso, mulher! Dá aqui! Deixa eu tentar!
– ( chuinf )
– Tá caindo direto na gravação… que merda!
– MEU PEDRO IVO MORREU! MORREU, ROBERTO!!
– Não! Não pode! Meu garotão, não!!!
– Tenta mais, Roberto! Tenta de novo! Liga…
( Trrrrrrrrrrrrrrrrimm… Trrrrrrrrrrrrrrrim… )
– Hein? Atende! Atende!
– Alô?!? Pedro Ivo?
– É ele, Roberto? Só me diga isso!!! É o nosso filho?!?
– Sou eu mesmo. Isso… o pai do Pedro Ivo.
– Ai! Me acode! Tô passando mal!
– Tá bom, tá bom… eu aviso!
– O que aconteceu com o nosso bebê, Roberto? Fala logo!
– Era a mãe do Olavo. Nosso filho…
– MORREU?!?!? O NOSSO FILHO MORREU?!?
– Não, ele acabou dormindo por lá e não ouviu o celular tocando.
– Esse delinqüente ainda me mata de susto! Filho da puta!
– É você que tá dizendo…
– Não fode, Roberto! Vamos lá na Dona Zilma que eu quero um cachorro-quente!
Mojo
Zélia tirou da bolsa um drops de menta, daqueles que são vendidos nos cinemas. Ficou na dúvida se deveria, ou não, esperar nua debaixo dos lençois, pois o ar condicionado estava ligado no máximo. Chupou duas balas antes de Evailson sair do banho, e resolveu deixar para que ele mesmo a despisse. Primeiro com os olhos, depois com as mãos rudes de estivador. Matreira, ficou só de corset, rolando pelo carpete, tal qual uma gata no cio – na verdade, havia bebido duas doses de absinto antes de sair de casa, mas não chegou a contar isso ao seu companheiro de concupiscência para não desvirtuar o clima de sacanagem que envolvia toda a situação. Depois do divorcio, passou alguns anos sem se relacionar com outros homens e estava sentindo-se enferrujada. Cultivou uma paixão solitária por si mesma, e passou a escrever uma série de contos eróticos, os quais publicava com enorme sucesso numa revista feminina ( e por muitas vezes “ista”).
Estava sem boas idéias naquela semana, e os prazos começavam a ficar mais curtos. Não tinha nada de muito interessante para ser enviado ao editor dentre os textos que mantinha reservados numa caixa vermelha, à beira da escrivaninha. Aqueles, mais intimistas e rebuscados, só sairiam dali anos mais tarde, numa compilação de obras inéditas: pois sim, ela planejava publicar seus escritos num livro de lombada quadrada e ganhar muito dinheiro com as vendas. Naquele momento, entretanto, ela precisava urgentemente de um plot. E a melhor solução foi vive-lo. Seria uma aventura erótica, com pinceladas de romantismo e clima de entrega total. Sabe-se lá como, a partir desse escopo rascunhado numa folha solta de caderno, Zélia foi parar no cais do porto, calçando escarpin vermelho e uma vontade uterina de ser brutalmente preenchida por alguém que jamais esbarraria ao acaso.
Ele estava debruçado sobre um container, com a camiseta encharcada de suor. Não demorou muito para que Zélia o abordasse: fingiu estar perdida e até forçou algumas lágrimas. Apresentou-se como Terezinha, e forjou toda uma vida fictícia para embasar sua aventura. Apesar de bruto, Evailson era um homem que sabia como fazer uma mulher feliz, e tinha fama de envolve-las somente com o olhar. Foi só ela dar brecha que o brutamontes roubou-lhe um beijo. E dali para o motel, foram a pé. Um muquifo, se comparado aos que a madame costumava freqüentar em seus flertes de outrora. Naquele momento, entretanto, era mais do que apropriado. Ela provou o gosto de seu beijo suburbano, regozijou com sua pegada firme, gozou litros de tensão acumulada e ainda recuperou seu mojo perdido.
Um causo futebolístico
O prólogo:
Todos no escritório estavam em polvorosa com o próximo jogo da nossa seleção na Copa do Mundo. Bandeirinhas do Brasil em todas as mesas, tiaras com anteninhas verdes e amarelas adornando as cabeças das telefonistas, e vários uniformes de seleção canarinho por baixo dos jalecos e paletós.
O causo:
Glauce debruçou seu corpo sinuosamente sobre a mesa do chefe, de modo que os seios roliços quase saltaram do decote. Adamastor tentou não encara-los, mas o efeito era hipnótico: sentia uma vontade animalesca de mordê-los, queria sugar todo seu néctar e regozijar da intumescência resultante. Com seu jeitinho faceiro, ela seguiu o ritual de encantamento falando em tom aveludado, dando pequenos rodeios até finalmente chegar aonde queria: “Sabe o que é, Seu Adamastor? Eu bem queria que você me liberasse mais cedo pra ver o jogo do Brasil em casa, na sexta-feira. Posso?”
Ele sorriu, consentindo, sem emitir um grunhido. Naquela manhã, mesmo sendo avesso a concessões, o empresário não teve como recusar tal pedido. Pediu, apenas, que Glauce fechasse a porta. A estagiária, por sua vez, bateu um bolão. Ao sair da sala, ela ajeitou o vestido e saiu saracoteando pelo escritório, com um muxoxo discreto estampando a bochecha.
O epílogo:
Sem ter sequer tocado em seus baixos fuditórios, Adamastor imaginou os quinze minutos que passaria dentro daquela garota se não fosse uma reles subordinada, e então deu uma das gozadas mais espetaculares de sua vida. No fim das contas, a partida não acabou em zero-a-zero.
Da timidez
Quando Diego estava terminando de desabotoar o vestido, Isis teve um troço. Saiu correndo e trancou-se no banheiro da suíte. Houve uma intensa negociação até que ela abrisse a porta, com o véu a tapar os seios de bicos rosados. Estava com a maquiagem muito borrada, tantas foram as lágrimas que derramara no clamor do momento. Ela se desculpou, mas estava muito envergonhada. Era a primeira vez em sua vida que estava tirando a roupa assim, por amor, e isso a constrangia profundamente. O noivo, muito apaixonado, compreendeu suas lamúrias e prometeu respeita-la até que chegasse o momento certo.
Voltaram da lua de mel sem consumar a relação: isso não gerou qualquer rusga em suas vidas e só fez aumentar o amor que sentiam um pelo outro. Em seguida, foram retomando a rotina e depois de três semanas ela ainda mantinha suas reservas. Diego não conseguira sequer tocar as coxas da esposa, mas explodia em felicidade. Isis, por sua vez, voltou ao batente como modelo-vivo na faculdade de belas artes da federal, onde ficava nua em pêlo e posava para os alunos da turma de desenho artístico, sem a menor inibição. Ironias da vida.
A volta de Milena
Milena tirou os óculos escuros e os apoiou sobre a mesinha que ficava ao lado da porta. Um forte cheiro de mofo estapeou seu rosto, como se a culpasse pelos vários anos que passou longe daquela casa. Visivelmente desorientada, ela tentou alcançar o interruptor, na vã esperança de acabar com o breu. A esta altura, porém, já imaginava que a energia elétrica ainda não fora religada, desde a última vez em que lá esteve.
Ao subir as escadas, tentou pisar com cuidado para que os degraus não a traíssem. A cada passo, a madeira rangia dolorosamente. No andar superior, apesar de tudo, Milena ainda poderia se recolher até o dia seguinte. A cama fedia a pano sujo, estava úmida – mas ainda era um abrigo. O único que lhe restava. E naquela mala estavam todos os seus pertences, além de algumas mudas de roupas. Não havia mais brincos de ouro, nem broches cravejados de diamantes.
Ela chorou copiosamente, madrugada adentro. E aquele pranto embalou seu sono. Foi até tranqüila sua primeira noite no subúrbio, onde jurou nunca mais voltar. Milena já não se lembrava mais dos passarinhos aninhando-se à beira da janela com o alvorecer. O sol foi invadindo o quarto, e revelando os porta-retratos pendurados nas paredes. A mulher de hoje se viu nua, suburbana, encrespada. Com urgente violência, abriu as janelas do sobrado e berrou: “Eu sou rica! Eu sou ricaaaaaaaaaaaa! Eu-sou-riicaaaaaaaaaaaaaa!!!”
Depois veio o sossego. Um profundo e inebriante sossego. Milena podia estar falida, mas tinha alma de gente rica. Jamais comeria risoles: mesmo que fosse preciso morrer de fome, nunca mais iria trocar uma refeição por salgadinhos. Ela estava, sim, de volta ao subúrbio, só que dessa vez com classe. Bateu três carreirinhas de padê e curtiu o entardecer sentada na varanda. “Eu sou rica! Eu sou rica!” gargalhou sozinha, enquanto esfregava o dedo na gengiva.
Crônica de um vampiro suburbano
A pedido de sua filha mais nova, Astolfo remarcou o churrasco de sábado para o finalzinho da tarde. Bem acima do peso e com cabelos tingidos de preto, Gabrielle aproveitaria a ocasião para apresentar seu namorado, que por razões dispersas só poderia chegar à noite para a festa. Sua mãe, sempre amável e prestativa, mostrou-se positivamente inflamada com a chegada do genro: apressou os quitutes da sobremesa e encomendou mais dois quilos de alcatra.
– Papai, este é o Lupicínio, meu namorado.
Apesar de já ter passado por isso antes, Astolfo precisou segurar a respiração por alguns segundos. Sua vontade era esmagar o calhorda, mas pelo bem de todos e felicidade geral da família, ele seguraria sua fúria. O rapaz era franzino, branco como uma vela, vestia preto e ainda tinha um ar sorumbático. E como se isso já não fosse o bastante, o frangote ainda respondia a tudo e forma evasiva.
– Diga-me, Lupicío… você não é um desses malditos vampiros, né?
Gabrielle sentiu o rosto congelar… Nunca imaginou que seu pai seria capaz de questiona-lo sobre esse tipo de coisa. E ainda pior, na frente de toda a família. Houve um certo constrangimento, pois o rapaz olhava de soslaio para todos ao invés de manifestar qualquer tipo de reação. Depois de alguns instantes, a gordinha resolveu esclarecer tudo de uma vez e dar continuidade à festa.
– Imagina, pai! Ele não é vamp…
– Sim, eu sou um vampiro, Sr. Astolfo. Algum problema nisso?
– Não, de forma alguma! Desde que não chupe minha filha! Que fique bem claro!
Merlise, no papel de anfitriã, precisou intervir a favor do marido. Deu um beijo no genro, segurou-lhe as mãos e abençoou o enlace dos jovens. E ainda completou, afirmando que Astolfo também nutria grande estima por quem sua filha tivesse tamanho amor. Lupicínio mostrou-se tranqüilo e agradeceu pela cortesia, levantando um copo de vinho.
– Um brinde a Gabrielle, Dona Merlise e ao Sr, Astolfo pelo banquete!
Sentaram-se todos à mesa, e deu-se a comilança. Uns não sabiam dizer se vampiros podiam comer, outros achavam que o alho da farofa acabaria com o maldito. Astolfo desejava, bem lá dentro, que o genro se entalasse com uma asinha de frango. Havia um misto de sensações, algo entre a admiração e o horror entre os convidados. Lupicínio mostrou-se tão humano quanto qualquer um ali, servindo seu prato com bastante carne mal passada.
– O alho está na medida certa, uma delícia! É, de longe, uma das melhores refeições que já tive!
E a gordinha respirou aliviada, percebendo que vários mitos a respeito dos vampiros eram por demais fantasiosos. Ele podia beber o que quisesse, comer como qualquer um, vestir-se da maneira que melhor expressasse seu estilo e ainda gostava de alho. Gabrielle só não sabia que, infelizmente, eles ainda eram vulneráveis a prata. Ao pegar a bandeja onde estavam os corações de frango, Lupicínio explodiu num piscar de olhos. Suas cinzas espalharam-se sobre todos, e Astolfo sorriu. Bendito o dia em que deixou Merlise comprar aquela maldita prataria na Mesbla!
Casa, Carinho e Coca-Cola
Não tenho o hábito de postar videos aqui no blog, mas este aqui é realmente muito digno de nossa atenção. Como bem disse meu amigo Rafael Carregal, bem que poderia ser um conto do Suburbanismos em forma de poesia: daqueles bem cafonas e sem noção. Esta obra de arte, destemida e sem vergonha, foi lançada por Gabriel Colombo em seu canal do You Tube. E eu dedico essa primorosa peça a todos os meus leitores, que não se humilham por terem feito crediário na Insinuante.
Depois da vida
Lucrécia não via nada demais em ter mandado empalhar o marido. Robson morreu jovem, dormindo, com a pele intacta e um semblante calmo – seria um pecado deixa-lo apodrecer na solidão de uma cova. Gastou uma fortuna para deixa-lo sorrindo para todo o sempre, mas o resultado acabou sendo recompensador. Em tardes ensolaradas de outono, os olhos de vidro chegavam a ganhar vida! Era um espanto de tão reais…
Os parentes e amigos foram, aos poucos, desaparecendo de lá. Mas Lucrecia, por outro lado, sentia-se muito bem acompanhada pelo defunto, que vivia sentado na cadeira de balanço, sem incomodar ou reclamar da vida. Robson não ficava doente, não a maltratava, não chegava mais bêbado em casa. Agora os dois podiam assistir as novelas, um ao lado do outro, sem brigar pelo controle remoto.
Passaram-se alguns anos e, finalmente, Lucrecia também acabou sendo empalhada. Seu último desejo foi registrado em cartório, e ai de quem resolvesse não seguir à risca. Ela queria passar a eternidade ao lado de Robson, e assim foi feito. Toda o dinheiro, já que não havia herdeiros, serviu para garantir-lhes o além-vida. E até hoje eles desfrutam juntos da bela vista que se tem daquele sobradinho no alto do bairro de Maria da Graça.