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DR da fidelidade eterna

junho 1, 2010

– Jorge…

– Oi!

– O que é isso, Jorge?

– É a minha camisa. Tá muito suada?

– Está imunda, Jorge. Tem baton nela!

– Como assim… não tem nada aí!

– Tem baton, e é dos vagabundos! Você tá andando com mulher rampeira!

– Deixa de maluquice, Cleudinéia! Volta aqui pra cama!

– Maluquice é se atracar por aí com mulher fedida! Aposto que foi na Lapa!

– Mas eu não… estive na Lapa! Vim direto pra cá!

– Você é casado! Lembre-se disso!

– Eu sei muito bem disso, não precisa ficar lembrando!

– Não devia.. ai, meu deus… que pesadelo, Jorge! Como você foi capaz?!

– Para de show, mulher. Volta aqui pra cama!

– Você já esteve com ela hoje, não é? Devem ter trepado e…

– Não, Claudinéia. Eu não estive com ninguém hoje. Que saco!

– Jura?

– Pela alma das minhas filhas!

– E como elas estão?

– Com a minha esposa. Em casa. Me esperando para jantar.

– Promete que eu serei a sua única namoradinha?

– Prometo.

– Ai, que fofo! É por isso que eu te amo!

– Então, tá acabando o período…

– Dá tempo pra mais uma? Quero de quatro agora!

– Demorou.

Felicidade no chilique

maio 31, 2010

Leonídia só descobriu que havia saído de casa sem calcinha quando notou um tarado no metrô babando litros em sua direção. Irritada, levantou aos berros. Rogou-lhe uma praga e saltou logo na primeira estação. Fez um escarcéu, chamou os seguranças, rodou a baiana. Depois foi embora, toda matreira.

Estava feliz da vida por ter dado chilique, e ainda saiu como a rainha da cocada preta. Pela primeira vez em muitos anos Leonídia se sentiu gostosa. Sorriu para um mendigo, deu beijo no vizinho, e dormiu que era só sorrisos. No dia seguinte, saiu de casa sem calcinha. Dessa vez, propositalmente.

Literalmente perdidos

maio 24, 2010

Ao sair correndo do trabalho, Eduardo esqueceu a pen drive onde havia salvo os arquivos com o último episódio de Lost. Ele só se deu conta disso já em casa, quando abriu a mochila e encontrou o case vazio. Daí bateu um desespero, porque demoraria horas para conseguir baixar tudo novamente e o risco de ser atingido por uma rajada de spoilers era mais do que certo. Arrependeu-se amargamente de não ter assistido pelo streaming, ao vivo, mas sua namorada iria passar a noite por lê e odiava seriados.

Desorientado, ele colocou o torrent para baixar em força total. Dez minutos e nada. 5Kbs era um tapa na cara, de tão vergonhoso! Levaria a madrugada inteira só para ter a primeira parte, e não era possível assistir pela metade sem enlouquecer. Tentou fazer o download direto, mas a rede estava congestionada. Determinado, pegou o carro e voltou para a empresa, na esperança de alguém estar fazendo hora extra. Eram quase trinta quilômetros até Guadalupe, mas valia o risco.

Ainda havia uma luz acesa, e ele respirou aliviado. Deu uma desculpa qualquer ao segurança, subiu até sua sala e pegou a maldita pen drive que deixou espetada na usb. Quando estava saindo, deu de cara com o encarregado de produção. O sujeito curtia se gabar das horas extras que fazia pela empresa, e resolveu pegar Eduardo para um desabafo. Foram vinte minutos intermináveis, que ele jamais perdoaria. Conseguiu escapar inventando um compromisso e desceu as escadas como um foguete.

Não havia aberto emails, nem facebook, nem twitter naquele dia. Só queria escapar de tudo para assistir, em paz, a conclusão da série que o afligiu durante quase sete anos. Cinqüenta minutos num engarrafamento e enfim chegou em casa. Os downloads, como já previa, estavam definhando… Sorriu de leve ao concluir que o sacrifício de resgatar a pen drive não fora em vão. Preparou uma bacia de pipocas, abriu um coca-cola de 2 litros, ligou o ar-condicionado e apertou o play.

Quase duas horas depois, ele desligou tudo e foi se deitar. Não escovou os dentes, nem tomou banho. Ficou remoendo o episódio por toda a madrugada, quando quase chegou a pensar que tudo se tratara de um sonho. Mas aí tocou o despertador e ele se deu conta que já estava na hora de voltar para o trabalho. Eduardo não quis entrar em nenhum fórum ou comunidade para comentar. Estava de luto. E com uma sensação detestável de que fora feito de palhaço por todos aqueles anos…

DR Chata

maio 23, 2010

Eles acabaram de trepar e, ainda ofegante, Patrícia Regina começou uma DR.

Ela: – Você me ama, Arnaldo?

Ele: – Claro que amo!

Ela: – Quanto?

Ele: – Muito, Patrícia!

Ela: – E quanto é muito?

Ele: – É mais que pouco, com certeza!

Ela: – Um dia esse muito pode se transformar em pouco?

Ele: – Tipo… agora mesmo? Pode ser?

DR Capilar

maio 18, 2010

Ela: – Arnaldo, você prefere o meu cabelo assim… ou assim, oh?

Ele: – Ah, lindona. De qualquer jeito você fica ótima!

Ela: – Mas você nem olhou, mô! Só fica aí nesse videogame!

Ele: – Não preciso olhar! Já sei que tá ótimo assim!

Ela: – Ai, que ódio de vocês… homens! Humpf!

Ele: – Ah, deixa disso, Paty! É só seu cabelo…

Ela: – Aposto que se eu aparecesse aqui toda careca, você nem iria notar!

Ele: – Bobagem… você é linda! E é isso que importa.

Dez minutos depois

Ela: – Mô, olha agora. Sou bonita?

Ele: – Hã? Peraí um minutinho, que eu to quase vencendo…

Ela: – Mô… dá uma olhada!

Ele: – O qu… Patrícia Regina! O que você fez?!?

Ela: – Raspei bem careca! Não sou linda de qualquer jeito?

Ele: – Mas não precisav… Meu deus!

Ela: – Então…

Eu sou o tatu nervoso

maio 13, 2010

Há algum tempo, Alzira vinha se incomodando com uma pulga atrás da orelha. E todo dia, a praga afirmava veemente que Carlinhos, seu marido, a estava traindo. Ela vasculhou suas coisas, a conta de telefone, papeizinhos nos bolsos e até agenda do celular. Não encontrou nada e se resignou, até o dia em que viu na Ana Maria Braga um jeito infalível de pegar o gatuno no pulo.

Naquela noite, a esposa enciumada aproveitou que seu companheiro estava explodindo de dor de cabeça e deu duas cápsulas de advil para aliviar o mal estar. Carlinhos capotou em menos de três tempos, e Alzira colocou em prática o que aprendeu. No que ele começou a roncar, a danada se acocorou na cama e aproximou-se do ouvido dele. Com a voz sussurrada, ela começou uma sabatina.

– Você está me traindo? Tem alguma amante? Ela te ama? Porque eu não sou bastante para você? O que mais quer de mim? Nosso sexo não é bom? Você pensa em mim quando se masturba no banheiro?

Carlinhos começou a revirar na cama, incomodado. Mas Alzira insistiu ainda mais, repetindo as mesmas coisas, sem parar em seu ouvido.  Talvez tenha sido por acaso, ou o remédio que acabou acionando algum gatilho do inconsciente… mas como ele era chegado num deboche, começou a responde-la com respostas pra lá de absurdas.

– Eu sou o Tatu! E eu entro em tudo que é buraco! Eu sou o tatu nervoso! E se encontro um buraco quentinho é lá dentro que eu me meto mesmo!

Alzira fez uma cara de nojo e saiu puta do quarto. Dormiu sozinha no sofá, para não precisar nem olhar na cara do safado na manhã seguinte. Se ainda havia alguma dúvida de que ele tinha um caso, agora estava confirmado. Magoada, ela juntou suas coisas e sumiu sem deixar rastro. Carlinhos acordou meio atordoado, com uma sensação estranha de que havia feito merda.

– Alzira? Cadê você, mulher?

Ele só foi descobrir o que aconteceu cinco meses depois, ao receber um telefonema desesperado de sua mãe. Dona Judite ligou para dizer que Alzira estava na tv, dando um depoimento para Ana Maria Braga.  Ela ficou com fama da chifruda, e o tal “tatu” passou a ser disputado a tapa pela mulherada do bairro. Pode até ser que Carlinhos não a tenha traído realmente, mas pra que desmentir, se estava tão bom daquele jeito?

A festa da debutante

maio 11, 2010

O salão se encheu daquela fumaça de gelo seco. As luzes baixaram… e a voz de Celine Dion começou a ecoar. Os arranjos florais conferiam uma atmosfera romântica à festa. Os convidados ficaram de pé, e a debutante surgiu por entre as cortinas de cetim que beiravam o mezanino. Sorridente, Josefa ia descendo a escada-caracol com seu bouquet de margaridas silvestres em mãos. Flashes, fotografias e muita emoção. Nos olhos de seus pais, lágrimas furtivas e um orgulho que não cabia dentro de si.

Daí a sandália engatou num dos degraus e a jovem rolou escada abaixo. Houve um princípio de tumulto, e todos correram em sua direção. Dona Hercília foi pisoteada pelos garçons, mas já não sentia as pernas mesmo. Tentando conter os dentes que caiam da boca com uma das mãos, Josefa se desesperou ao perceber que estava coberta de sangue. Gritaria, desespero e risadinhas incontidas dos colegas mais descolados. A debutante chorava, mas não era pela dor daquele momento. Suas lágrimas, na verdade,  debulhavam pelo que já deveriam estar falando do incidente no twitter. Um tragédia dos tempos modernos.

Cuidado com os spoilers

maio 7, 2010

Edevaldo não tinha o costume de cultivar amizades, mas sua lista de contatos virtuais era impressionante. Poucos eram os que ainda andavam ao seu lado no dia a dia, tamanha sua mania de soar imprescindível e desagradável. Curiosamente, o rapaz parecia ter um certo prazer em afastar as pessoas de sua vida. E um dos métodos mais efetivos de se tornar insuportável é soltando spoilers de seriados na internet. Daí, sem o menor pingo de remorso, ele conseguiu o roteiro do último episódio de Lost e contou tudo no Twitter.  Três dias depois, sua cabeça foi encontrada num canteiro da Avenida Meriti, com um sapo enfiado na boca. Estranho mesmo é que, apesar de morto, Edevaldo ainda parecia sorrir.

Desejos umbilicais

maio 5, 2010

– Olá, gente. Meu nome é Dulcinísia e hoje tive desejo de beber da água que brotava duma fenda no asfalto. Ajoelhei no meio de rua, segurei o cabelo e matei minha sede. As pessoas passavam me olhando como uma louca, mas foi a água mais abençoada que já bebi.

– Eu sou Adelaide, e meu desejo mais estranho foi uma vontade incontrolável de beber o suor de meu cunhado. Ele chegou do futebol, pingando pelos braços. Não me contive, e pedi para lamber o que ia escorrendo, sem nojo algum. O maior problema foi explicar para minha irmã que eu não estava tarada nele.

– Oi, sou a Denise. Engravidei há sete semanas, e anteontem tive meu primeiro desejo, quando estava colocando ração pros gatos. Não sei porque, mas misturei num litro de leite e acabei com o pacote. Estou com azia até agora, mas meu filho vai nascer perfeito!

– Me chamo Zenilda, estou grávida pela terceira vez, e sempre bate aquela vontadinha de chupar manga frita. Peço pro meu enteado descascar ela todinha, cortar em fatias e colocar na frigideira junto com fatias bem fininhas de bacon. Quando a mistura fica bem cheirosa, ele estala um ovo e me serve. Toda noite é a mesma coisa, e eu acho ótimo!

– Bom, eu sou Macélia. Estou de 7 meses, e meu desejo mais recorrente é de comer o cocozinho do meu afilhado, Pedrenrique. Toda vez que ele caga, um irmão tem ordens de guardar a fraldinha, que eu coloco no microondas por um minuto e como de colherinha, tal qual uma mousse. NO começo me chamaram de louca, mas eu saboreio com tanta vontade que agora eles nem… gente! Que é que houve, meninas? Voltem aqui! Ainda não acabei meu depoimento!

O sabor de Pamæla Nipples

abril 30, 2010

O escritório de advocacia vinha consumindo as energias de Helen Patrícia. Foram tantas reuniões, audiências e assembléias, que ela sucumbiu a depressão. Não queria mais saber de nada, e estava cada vez mais tornando-se um mero receptáculo de esperma para o marido. Seu último resquício de prazer, ao fim do dia, era abrir o Outloook e encontrar um montante de correios urgentes para responder. A única coisa que ela ainda conseguia fazer bem era seu trabalho.

Certa madrugada, enquanto resolvia pendências administrativas em casa, recebeu um e-mail pessoal e indecente de seu ex-namorado. Algo inusitado, já que estava casa há cerca de seis anos com Avelino. Começou a ler, mas preferiu parar antes que a pilha de processos a consumisse viva. Apesar de atarefada, ela ficou com aquela coceirinha atrás da orelha… e largou tudo para ler o que ele tinha a dizer. Era tanta putaria, que ao quinto parágrafo, ela teve o orgasmo mais intenso de sua vida.

Aquela chama de outrora, entretanto, não ardeu mais que cinco minutos. Mesmo se tornando cada vez mais frígida, Helen Patrícia ainda nutria Avelino o mais profundo amor, e jamais seria capaz de trai-lo. Mas aquela sensação de gozar sem sequer tocar o próprio sexo… ah, aquela sensação a incitou a ler e escrever suas próprias perversões, no meio da noite, quando podia se deleitar com os prazeres solitários mais devassos que já experimentara. Seus dedos batiam nas teclas e as palavras pareciam masturba-la.

Daí, para criar um blog assinado por um pseudônimo, não demorou nem uma semana. Toda noite, depois de chegar do escritório e concluir suas tarefas domésticas, Helen Patrícia se transformava em Pamæla Nipples. De tão excitantes que eram seus contos, a advogada se contorcia em devaneios orgásticos, na escuridão de seu escritório. Não era raro adormecer seminua, com as pernas arreganhadas sobre os braços da cadeira acolchoada, como que se incorporasse realmente a personagem.

Na manhã seguinte, Helen Patrícia acordou com uma sensação estranha, um zumbido intermitente na cabeça. Como de costume, tomou duas aspirinas e deixou a água quente do chuveiro fazer o resto do trabalho. Já no escritório, despachou uma dezena de processos e sentiu outra vertigem, desta vez mais forte e vigorosa. Tudo começou a rodar, e as paredes tornaram-se espirais. Quando se deu conta, ela estava só de calcinha, xerocando os mamilos na frente de dois estagiários imberbes e intumescidos. Ficou tão desesperada que apagou de vez.

Avelino, que acompanhara em silêncio a depressão da esposa, foi pego de surpresa quando, naquela noite de terça-feira, Pamæla Nipples o aguardava de espartilho no balanço do condomínio. Pálido como uma vela, tentou cobri-la com seu blaser, carregando-a para dentro de casa. Helen Patrícia, que nunca havia comentado sobre seus contos pervertidos,  estava embriagada e desinibida demais: O alter ego lascivo tomara posse de seu corpo, e agora clamava por sexo.

Com o fogo de mil prostitutas ardendo dentro de seu corpo, a mulher realizou todas as fantasias do marido, que ainda não conseguia entender o motivo de tamanha transformação. Mas como estava bom para ambos, ele que não iria cometer a burrice de instaurar um interrogatório naquele momento. Treparam na sala, na cozinha, debaixo da escada, cobertos de chantilly, na banheira, dentro do carro, de ponta-cabeça, na beira da piscina, em pensamento, sobre a mesa de jantar, invertendo papéis, na frente dos cachorros, sem lubrificante e então Pamæla conseguiu compilar material suficiente para lançar um livro de contos eróticos.

O sucesso foi tão estrondoso que Pamæla Nipples, aos poucos, acabou esmaecendo a existência de Helen Patrícia. Com a promessa de um segundo livro ainda mais picante e tórrido, ela agora tinha energia de sobra para curtir a vida. Ao lado de Avelino, correu o mundo e saboreou todas as vertentes sexuais já inventadas. Foi convidada para assinar uma coluna na Marie Claire e ainda ganhou um programa de tv. Aquela mulher viveu na intensidade máxima, até o dia em que resolveu se matar, só para provar a si mesma que a morte, sim, era o mais absurdo dos orgasmos.