Fé demais não cheira bem
Dona Jura é o tipo clássico de avó: adora uma missa, tricota durante a novela, acorda antes do sol nascer, adula os netinhos, caminha em volta do canal e ainda tem mania de doença. Daí que, neste domingo, depois de ouvir o sermão, acompanhar os batizados e fazer sua doação, ela resolveu se benzer. No que chegou à beira da pia onde estava a água benta, tomou um susto: estava repleta de larvas de mosquito e com uma pixação em vermelho, onde se lia: “cuidado com o berço da dengue.”
Revoltada com tamanha blasfêmia, tentou dar cabo da situação sem alarmar os outros fiéis. Saiu apressada, rumo ao mercadinho, onde compraria solução de cloro para esterelizar o recipiente, e removedor para apagar a blasfêmia. Como só tinha dinheiro para levar um deles, escolheu o que lhe parecia mais urgente. Ao retornar, porém, D. Jura deu de cara com as portas fechadas. Teria de esperar até o dia seguinte para cumprir com suas obrigações divinas? Não, claro que não!
Foi uma tortura, mas ela esperou (impacientemente) o anoitecer. E quando o breu tomou conta daquelas bandas, Dona Jura prosseguiu com sua missão, atirando uma pedra na janela da sacristia ( com todo o cuidado para não quebrar o vidro). Jogou mais uma. Duas, Cinco. O padre, assustado, desceu correndo para ver o que estava acontecendo lá fora. Escondida ao lado da grade, ela aproveitou um descuido do jovem para adentrar o santuário.
Em silêncio, a invasora aguardou mais um pouco e enfim se aproximou da pia blasfemada. Primeiro, trocou toda a água benta e rezou vinte terços. Depois, tirou da bolsa o removedor, e esfregou a pixação vigorosamente com a barra do próprio vestido. Por conta da escuridão,
Não tinha como saber se havia tirado tudo, então prosseguiu na função, até ser derrotada pelo cansaço. No dia seguinte, ao descer para abrir a igreja, o sacristão tomou um susto.
Dona Jura estava caída no mármore gelado, envolta no que parecia ser sangue, que também escorria da benzetório. As primeiras beatas que chegavam também se aterrorizaram, e não demoraram a imagina-la de pé sobre a pia para derramar seus pecados putrefatos na água benta. “Ela mijou sangue em Cristo! Ela mijou sangue em Cristo!”, repetiam como taradas. Meio tonta, a senhora despertou com a gritaria e deu um pulo.
Bem que ela tentou explicar o acontecido, mas o fervor das carolas a impediu de permanecer ali. Foi atirada rua afora como herege, e sacudida tal qual o Judas que é malhado no sábado de aleluia. Dona Jura tomou ódio daquela igreja, e de todos que a freqüentavam. E só de sacanagem, já que não poria mais os pés por ali, resolveu não contar que tinha deixado um balde explodindo de larvas atrás do confessionário.
O milagre que veio do oitavo andar
Adotado por um casal muito certinho, que fazia de tudo para vê-lo feliz e saudável, Alejandro quase não dava trabalho. Tratavam-no como uma verdadeiro reizinho, mimado até na hora do banho, com direito a patinho de borracha e shampoo do Mickey: “Cadê o neném? Cadê o neném?” repetiam insistentemente para que o pequeno soltasse um sorriso. Aquele seria seu primeiro Natal como membro de uma família, e apesar de não entender muita coisa, ele parecia excitado com toda a movimentação na casa que agora era também seu lar. Luzes piscando na varanda, cd natalino da Simone no shuffle, e uma mesa repleta de flores, frutas e comidas exóticas. “Papai Noel vai trazer presentes pro Alejandro? Vaaaaaaaaaaaaaaaaai” exclamava a mãe com sua voz estridente. Em apenas dois anos de vida, o menino nunca tivera tantas coisas à sua disposição, e isso o deixava compreensivelmente agitado.
Numa distração dos adultos, ele foi sozinho para a varanda na ilusão de que veria o tal Papai Noel chegar com seu trenó, mas acabou por prender a cabeça no gradil, e lá ficou choromingando. Do alto, ele só conseguia ver os apartamentos vizinhos e a garagem vazia, o que acabou por entretê-lo durante o tempo em que conseguiu manter-se acordado. Alucinados com os preparativos para a festa, os pais do menino nem se deram conta do seu sumiço: continuaram dourando o pernil e atochando cerejas no chester, ao passo que se empolgavam a cada refrão: “Então é nataaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal, e o que você feeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeez? Que seja feliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz queeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem, souber o que é o beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeim”
Com o barulho dos fogos, Alejandro despertou e ainda estava com a cabeça presa na grade. Esperneou um pouco, mas ninguém o ouviu. Não havia outra opção, a não ser esperar pele… neve? Sim, estava nevando no Grajaú. E o garoto ficou tão feliz com a novidade que conseguiu se soltar da grade, escapulindo pelo lado de fora. Moravam no oitavo andar, e lá estava ele, pendurado pela alça dos suspensórios, enquanto juntava flocos de neve na mãozinha, para mostrar aos pais. A vizinha bêbada do sétimo andar já estava pra lá de bagdá quando o viu ali, naquela situação desesperadora: “Caralho, ta nevando mesmo? E esse é o menino Jesus?!”
Com um cabo de vassoura, ela cutucou várias vezes na tentativa de traze-lo para dentro, mas o menino se contorcia com as cócegas. Encheu mais um copo de uísque e ficou pensando no que poderia fazer para tira-lo dali. Desacostumada com os rituais natalinos, acabou ligando para o porteiro: “O menino Jesus ta na minha varanda, mas eu não consigo fazer nada. Espero até meia noite pra tentar de novo?” O silêncio do outro da lado da linha não a convenceu, e com um banquinho, ela se arriscou sobre o gradil para apanha-lo. “Garoto maldito! Caiu do céu e ainda vem dar trabalho, mas tudo bem. É Natal e eu vou te ajudar”
O suspensório de Alejandro finalmente cedeu e a vizinha de baixo o levou para a sala. Passaram-se uns quinze minutos e a bêbada não parava de investiga-lo, na esperança de realizasse algum milagre ou passasse alguma mensagem de paz: “Como é que funciona isso de ser o menino Jesus? Só rola mágica depois da meia noite?”. Lembrou-se, então, da cesta que havia recebido como brinde da empresa, e a colocou sobre a mesinha. Remexeu um pouco da palha, amontoando-a nas bordas para que o menino se sentisse numa manjedoura. “Vai, transforma em vinho!” repetiu inúmeras vezes, apontando para o garrafão dágua. “Quero ver se você é fodão, mesmo.”
No andar de cima, os pais finalmente deram falta do menino e correram por todo o apartamento à sua procura. Desesperada, a mãe foi a varanda e começou a gritar por Alejandro: “Meu deus, está nevando? Cadê você, neném?” Ao ouvi-la desesperar-se, o menino sorriu e apontou para o alto, instigando a lucidez da vizinha. “Você quer voar, seu danado? Não vai me transformar nem um copinho de vinho? Bom… eu sabia que essa porra de milagre não era minha praia mesmo…” E com a pouca coordenação que ainda lhe restava, ela atirou Alejandro janela afora e gritou “Veio com defeito mesmo! Toma de volta que eu não quero mais não!”
Um rajada de vento jogou Alejandro nos braços de sua mãe adotiva, fazendo daquele Natal um verdadeiro milagre. Comemoraram com lágrimas e mais Simone, até adormecerem sobre o panetone. Meses depois, a vizinha alcoolatra estava saindo do elevador quando esbarrou na família abençoada. O menino sorriu e apontou para a latinha de cerveja que ela bebia. Não se sabe como, mas o líquido se transformou em mijo. Numa cusparada só, ela conjurou todas as maldições do mundo, sem nunca imaginar que o pequeno tinha, sim, poderes divinos. Ele cresceu e tornou-se um mártir do mundo moderno, mas isso é história pra se contar num outro momento.
O sapo, a cigana, a dona de casa e o fim do mundo
Ao puxar a mão antes que uma Cigana a tocasse, Cleydianna foi amaldiçoada. Naquela noite, quando preparava uma omelete para Rosivaldo, deu-se o inferno em sua vida. No que estalou o primeiro ovo na frigideira, ao invés de gema e clara, pulou um olho banhando em sangue lá de dentro. Do segundo ovo, eclodiu uma baba verde e fétida. E no que abriu o terceiro, encontrou um sapo a coaxar baixinho o seu nome. O pretendente, ressabiado, foi-se embora antes que a paquera terminasse em morte. Ela, descabelando-se, concluiu o inevitável: só podia ser mandinga da danada!
Histérica, notou que sua bunda começava a latejar, de tão inchada. Imediatamente, ligou para uma benzedeira 24h – indicação de sua prima Antônia, que foi curada de erisipela, coqueluche, torcicolo e oxiúros pela própria dita cuja. Em questão de minutos chegou a velha corcunda, cujo cheiro de arruda não deixava dúvidas: era batata, de tão certeira! Cleydianna pagou em espécie pelo trabalho de amarração, tamanho seu receio de transformar-se em babuíno. Queria ver o diabo que atazanava sua vida sair dali numa garrafa da aguardente, se possível: que assim fosse. Houve grito, houve medo, houve enxofre e deu-se a luz.
Livre do encanto, e ungida pela feitiçaria nordestina, Cleydianna voltou ao ponto de ônibus onde aquela Cigana tinha o costume de abordar os transeuntes. Com seu vestido pomposo, cheio de babados, rendas e fitas coloridas, lá estava ela: lendo um futuro incerto na palma das mãos alheias. Empunhando um crucifixo como quem comete a felação em pleno cio, a dona de casa rezou três ave marias e confrontou sua antagonista. Foi um bate-boca digno de novela mesmo, com direito a tapa na cara, mão no culote, xingamento censurado e dedos apontados tal qual espadas bem afiadas.
Não houve sangue por força do acaso, pois em seus olhos só se via morte. Os desaforos estavam começando a perder o foco quando, do alto de uma aroeira, caiu o sapo falante que nascera do ovo profano. Desta vez, entretanto, não foi o nome de Cleydianna que ele sussurrou, e sim uma profecia apocalíptica. Arrebatadas pela devastadora revelação, as rivais uniram-se em nome de algo maior: no dia seguinte foi inaugurada a Igreja Triangular do Cristo Ungido pelo Coachar.
Com fiéis vindos de todos os cantos da cidade, a Cigana pastora pregava um futuro de provações e esperanças vazias, enquanto a outra amamentava o sapo num altar improvisado. A congregação cresceu e disseminou-se, chegando a outros estados e até paises. Todos se acotovelavam nos cultos divinos, pois queriam ter a chance de tocar no anfíbio profeta. Os seguidores veneravam-no como um novo Cristo, e deliravam a cada novo coachar. A receita só desandou quando, por instinto, o bicho mijou na cara de Cleydianna. Tomada pelo ódio, e levemente embriagada, ela o eviscerou e fritou em banha fervente. Depois comeu suas patinhas em sinal de sacrifício.
Não demorou para que a notícia se espalhasse entre os fiéis. A Cigana, descontrolada, girava em torno de si mesma para evocar a alma do sapo. As ruas, tomadas por fanáticos religiosos, transformaram-se em praças de guerra. A turba enfurecida conseguiu arrombar as portas do templo sagrado e esquartejou Cleydianna (que sorriu em delírio ao ver o deus sapo num brejo paradisíaco) . Em questão de minutos, bombas explodiram em vários cantos do mundo. Vulcões explodiram, deixando o céu em chamas. O efeito dominó espalhou-se descontroladamente, consumindo a humanidade e extinguindo a própria existência. A profecia concretizou-se, mas os ciganos ainda dançavam sobre a lava fervente, em adoração eterna àquela que indiretamente fez da Terra o novo Sol.
Guerra (velada)
– Dri… sabe no que eu tava pensando antes de me deitar? ( ele chega animado, sorrindo )
– Não. Mas pode falar, eu já ia mesmo parar de ler esta revista. ( ela respira fundo )
– Ah, foi mal. Não percebi. ( ele abaixa a cabeça e se vira de costas )
– Pois é… ( ela volta o olhar para a revista )
– Vou escovar os dentes e ver se a janela está trancada. ( ele fala em tom de tristeza se faz de coitado )
– Fala, Eduardo! ( ela tenta ser paciente )
– Então, eu pensei em dar uma variada no n… ( ele é interrompido antes de terminar a frase )
– Pode ir parando por aí mesmo. ( é assim que ela o impede de falar qualquer coisa )
– Mas você nem sabe o que eu queria falar! ( ele tenta se defender )
– Nem precisa! A aliança já diz tudo, Eduardo! ( ela mostra o dedo, ajoelhada na cama )
– Hein? ( ele faz a mais canastrona cara de cu )
– Eu jamais faria algo tão sujo, seu louco! Tarado, pervertido! ( ela fica de pé, chutando o travesseiro )
– Dri, que porra é essa? ( ele fecha a janela para que os vizinhos não ouçam seus gritos )
– Só de você insinuar uma coisa dessas, já me sinto como uma puta barata! Imunda! ( ela está dando piti! )
– Mas… Dri? Eu só… Eu… ( ele sempre gagueja quando confrontado )
– Uma porca sem vergonha! É assim que você me vê?!? ( ela ameaça chorar )
– Pelamorde… ( ele começa a perder a paciência e leva as mãos à cabeça )
– Calaboca! Não achei minha dignidade no lixo, seu ogro! Estúpido! ( ela se desespera )
– Dri! Eu só queria propor da gente comer num restaurante japonês, amanhã! ( ele fala dois tons abaixo do normal )
– Ah, tá… Ao invés do rodízio de pizzas, então? ( ela parece aliviada )
– Isso! ( ele está aliviado )
– Beleza! De vez em quando é bom dar uma variada. ( ela conclui, mesmo preferindo o rodízio de pizzas )
Fear of the dark
Ouvir Siouxsie and the Banshees foi uma experiência que mudou a vida de Adamastor Eduardo. Aos treze anos, ele ficou encantado com o que viu no clipe da banda. Décadas depois de todo o buxixo gótico, o guri estava se achando vanguardista: passou cajal nos olhos, e carregou na sombra negra. Ao ver seu reflexo no espelho, orgulhou-se com a ousadia que exalava. Ensaiou trejeitos e olhares sorumbáticos antes de ganhar a rua, para não fazer vergonha.
Chegou no colégio vestido com roupas pretas, cantarolando estrofes tristes, e foi escorraçado pelos coleguinhas. Eles não estavam prontos para aquela transgressão e jogaram-no canal abaixo. No meio-tempo em que esteve a deriva, Adamastor foi imaginando qual musica faria daquilo um videoclipe sensacional. Seu corpo foi levado pela correnteza de merda até a represa, onde foi ajudado por um catador de lixo.
Devastado pela rejeição e cada vez mais obscuro, Adamô ( como sua turma passou a chama-lo, de forma jocosa ) foi se isolando do mundo, enclausurado dentro de seu sarcófago imaginário. Houve uma época em que ele se alimentava do próprio onanismo. Foi um período complicado para seus pais, que eram evangélicos e temiam tê-lo perdido para o sete-peles.
Meses depois, acidentalmente, Adamastor Edurado acabou ouvindo uma música do NXZero e outra avalanche transformou sua vida. Com a ajuda da banda larga, ele conheceu todas as bandas similares e xerocadas, decorou todas a letras melancólicas e, enfim, tornou-se um novo rapaz. No dia seguinte, reapareceu no colégio com seu novo visual e rapidamente conseguiu se entrosar com a galerinha.
A partir de então, Adamastor Eduardo era convidado para chorar nas baladas e se autoflagelar em pracinhas. Mesmo que assépticas, até paqueras começaram a rolar para aquele marmanjo de boca virgem. Seu único deslize, porém, foi o sorriso que abriu depois de beijar Darkelinne. Revoltada, a garota o esquartejou nos fundos de uma pastelaria, por considerar crime hediondo qualquer demonstração pública de felicidade. Esta, sim, tinha atitude ( e um preocupante desvio de conduta ).
Sozinha no escuro
A filha do maestro chegou em casa com os pés encarcados pela chuva. Tão logo tirou os sapatos, colocou para tocar um cd de funk e rodopiou pela sala. Sentia saudades dos tempos em que morava no subúrbio, onde as alegrias eram mais intensas, e as tristezas agridoces. Ela aproveitava aqueles momentos sozinha para relembrar o baile na favela, a cerveja gelada no copinho de plástico e o latido dos cachorros.
Seu pai ainda levaria duas horas para chegar em casa, e ela dançou com as luzes apagadas. Foi até o chão, com as mãos no joelho. O copo de vinho pedia para ser completo, depois de esvaziar duas vezes. A filha do maestro estava de pilequinho, e sentia uma felicidade abstrata correndo pelo seu corpo. Se pudesse, viveria aqueles instantes para sempre – só porque não tinha medo algum da solidão.
Louca!
Quando viram que Regina tinha começado a engatinhar pela boate, seus colegas confirmaram algo que já era quase certo: ela estava colocada. Era muita animação para um happy-hour em plena quarta-feira, onde só tocava Calypso e pagode. Foi um sufoco faze-la se levantar, e mais complicado ainda descobrir o que havia tomado para ficar tão louca, já que não era dada a esse tipo de coisa. Entre latidos e palavras incompreensíveis, ela cantou todo o repertório de Ney Matogrosso em shuffle, insinuando um strip tease. Em sua comanda, só doze tequilas e uma porção de batatas fritas. Tentaram leva-la embora, mas a pilhação era tanta que a mulher parecia um bagre ensaboado. Ameaçou se cagar todinha caso não a deixassem voltar para a pista de dança. O taxista, muito franco, sentenciou: “não quero ninguém vomitando no meu carro.” Não tinha jeito. Voltaram para a bagaça e deixaram-na se divertir até cair inerte. Foi uma das melhores noites de sua vida, que ela nem lembraria na manhã seguinte. Tudo porque ela misturou Yakult com Doritos escondida no banheiro da empresa, para não dividir com mais ninguém.
Following Fabrianne
Pior do que não ganhar nenhum ovo de páscoa, foi descobrir que ninguém sequer lembrou de deixar um gif animado com brilhos cintilantes em seus recados do Orkut. Fabrianne, apesar de acostumada com a solidão, não engoliu bem essa história de ser ignorada na internet. Sem dó, ela deletou todos seus contatos e resolveu se reinventar. Foi até a cozinha, deu uma olhada na despensa, abriu um pote de nutella, tirou toda a roupa, ligou a webcam e acessou o chat roulette. O ilusório escudo do anonimato serviu como catapulta. Em poucos minutos, Fabrianne ficou famosa no mundinho virtual, aparecendo nos trending topics de todo o mundo numa questão de duas horas. Com sua estupenda performance da coelhinha pervertida, ela ganhou uma legião de fãs e chegou aos milhares de recadinhos em todos os seus perfis em redes sociais. As pessoas aguardavam horas pela chance de observa-la, mesmo que só por alguns segundos, vertendo ovinhos de chocolate pelos mais variados orifícios de seu corpo rechonchudo.
Quem tem medo de palhaço?
Uma das coisas que Aline mais temia eram palhaços. Tudo por culpa do filme Poltergeist, que ela assistiu numa reprise do Corujão, quando era muito pequena. Estava sozinha em seu quarto, e ficou com medo de desligar a tv. O trauma foi tão grande, que ela burlou a tradição e não deixou que a primeira festinha de seu filho tivesse o circo como tema. O carnaval, inclusive, era motivo de muitas discussões: ela se mijava todinha ao ver um bate-bola pela rua. Alguns anos se passaram, e o moleque cresceu, alheio a estes distúrbios.
Certa noite, ela ouviu o pequeno falando sozinho na sala, e seguiu sorrateira pelo corredor, para ver o que estava acontecendo. Flagrou o filho tagarelando enquanto a tv só exibia estática. Estranhando aquela cena, perguntou com quem ele estava conversando e a resposta foi de assustar. “É a Carolaine, mamãe. Ela está me chamando para brincar!” Aline foi tomada pelo impulso, e gritando como uma desesperada, tacou fogo no televisor.
O menino, apavorado, correu para trás da cortina. O fogo lambeu por toda a estante, queimando livros, discos, badulaques e bibelôs. Os vizinhos, ouvindo a gritaria, bem que tentaram ajudar, mas não havia mais nada a ser feito. Quando Aline abriu a cortina para resgatar o pequeno, uma inesperada surpresa. Escondida e assustada, lá estava Carolaine, filha caçula dos vizinhos da frente. Mesmo tento perdido boa parte da sala de estar, a dona de casa respirou aliviada. Melhor ser vista como doida que ter uma casa mal assombrada.
Gula a gula
O dia amanhece. Pãozinho na chapa com manteiga e presunto defumado. Cafezinho com biscoitos de polvilho. Banana amassadinha com mel e aveia. Ovos com bacon e guaraná geladinho. Ufa! Será que a empregada já começou a preparar o almoço? Arroz a piemontesa com medalhão de filet mignon. Batata-frita. Salada de frutas. Vinho tinto. Bala de alcaçuz. Sanduíche de salaminho com cerveja mofando de tão gelada. Mesa posta, mesa vazia. Tremoços na tigelinha. Salgadinhos de milho. Sorvete de morango com calda de caramelo. Queijo gorgonzola em cubinhos com torradas ao azeite. Muito quente lá dentro, segue para a rua. Yogoberry extra grande com três toppings. Dois litros e meio de Coca-cola. Um filme na locadora, volta pra casa. Pipoca de microondas. Mais uma. Duas. Três. Uma caixa da caqui. Meio copo d’água. Cinco pacotinhos de amendoim japonês. Milho cozido lambuzado na manteiga. Pausa para o fio dental. Doce de leite. Pão de queijo com molho barbecue!!! Termina o filme e todos ouvem Clara Nunes. Mais cerveja mofando. Mariola. Azeitona. Macaxeira. Umbu, Acerola. Pinga. Farofa de dendê. Lá se foi o jantar. Quiabo na panela de barro. Limonada suíça. Queijo minas. Salpico de orégano. Cereja. Ameixa em calda. Mal estar. Sal de frutas. Queimação. Azia. Tonteira. E Marlene explode na frente dos filhos, vizinhos e parentes, sujando as paredes da sala num tom avermelhado que não orna com quase nada.