Pular para o conteúdo

ela ama os sapinhos

julho 11, 2008

Mariana desenvolveu, de uma hora para a outra, um enorme fascínio por sapos. Tanto que, sem muita dificuldade, conseguiu catar um punhado de girinos no brejo que ficava atrás de seu colégio. Estudou qual seria o melhor ambiente para criá-los, e quanto tempo levariam até tornarem-se adultos. Colocou-os num pote de vidro, onde cresceram saudáveis e serelepes, até criarem patinhas, ganhando um aspecto levemente esverdeado, que lhes é comum. Ao perceber que já dispunha de pequenos sapinhos, a menina pegou o que considerava mais bonito e tirou do aquário. Acariciou o bicho até ter certeza de que era aquele mesmo, dando-lhe um beijo de tirar o fôlego. Com cuidado, ela colocou-o sobre a mesa de vidro e pôs-se a observá-lo. Passadas duas horas, o bicho permanecia inerte, piscando os olhinhos e respirando lentamente. A garota enfureceu-se, jogou o aquário improvisado no chão e pisou em todas as coisinhas verdes que saracoteavam pelo chão. Transtornada, vestiu-se e saiu de casa esbravejando. É que ela queria um príncipe encantado para acompanhá-la ao baile de formatura, mas só conseguiu ficar com um gosto estranho na boca e a mão suja de gosma.

carta de um moribundo

julho 4, 2008

Caros amigos,

Escrevo para dizer que os médicos trouxeram-me más notícias. Parece que o tratamento não surtiu o efeito esperado, e só me restam algumas poucas horas de vida. Na verdade, eles nem precisavam vir dizer nada, pois já sinto a alma descolando de minha carne, inclusive. É uma sensação ímpar, que só perde em intesidade para o boquete guloso de Melinda, que nos lê em cópia. Desculpe, Maurício, pela falta de respeito para com sua esposa, mas eu preciso deixar registrado aqui, para todo o sempre: foi a melhor mamada de minha vida. E só para não gerar conflitos desnecessários, garanto que foi antes de vocês se casarem, quando ela ainda curtia varar a noite na Lapa com nossa turma de faculdade.

Aproveito o gancho para pedir desculpas ao Paulo Ricardo, por ter me envolvido com sua esposa, durante aquele período em que você esteve fisicamente impossibilitado. Sei que isso irá doe rmuito em você, mas acredite: doeu bastante nela também. Foi a melhor solução para saciar os anseios de Regina, que estava a ponto de se entregar a qualquer indigente para ter um resquício de prazer. Se descobrirem, por ventura, que o caçulinha é meu filho, peçam para meu advogado incluí-lo no espólio. Sempre achei que o moleque tinha algo meu…

Cátia, minha linda. Esperei muito tempo para te contar, mas enfim: fui eu quem convenceu o Pedro Ernesto a te largar. Já não agüentava mais ouvir aquele chato reclamando de seu estilo de vida, de seu jeito solto, sua mente aberta, de seu brilho lascivo de flertar com homens de peito peludo e barba cerrada. Mesmo que você jure de pés juntos que ele era o homem de sua vida, saiba que o maldito não valia de nada. Um tremendo borra-botas, que deu o fora antes mesmo de confirmar todas as mentiras cabeludas que contei a teu respeito. E só para constar: sabes que sempre apreciei teus artesanatos?

Marcely, faz tempo que não nos falamos. É uma pena. Mas vou te dizer o motivo: você esqueceu de crescer. Já tens quase quarenta anos e ainda fala como se fosse uma garotinha de quinze, cheia de tatibitates e livros de auto-ajuda. Aposto que, desculpe-me antecipadamente, sequer encontrou alguém que fosse capaz de arrancar-te o cabaço. Estou certo, ou estou errado? Você é um ótima pessoa, querida, mas é preciso entender que o tempo passa. O tempo voa. E você acabou ficando para titia.

Igor, meu irmão. Espero que você seja muito feliz, depois de tanto esconder seus mais secretos anseios sexuais. Foi muito doloroso quando descobri que você se casou com aquele colombiano, sem ao menos me convidar para a cerimônia. Vocês dividiam aquele apartamento há, o que, nove anos? Espero que consigam mesmo adotar aquela criancinha que tanto querem. Seria ótimo termos alguém de outra etnia em nossa linhagem, apesar da vovó ser contra esse tipo de coisa. Mas ninguém vai saber mesmo, né? Viu só, como eu fui capaz de guardar seu segredo até o dia de minha morte?

E por último, mas não menos importante, Karen, minha querida esposa. Para você, não tenho nada importante a dizer, além do corriqueiro “ eu te amo”. Que deus te proteja da ira que causei a tudo e a todos. Perdoe se te deixo um fardo muito grande, mas sei que serás capaz de cobrir todas as divídas com suas atividades místicas e um pouco de força de vontade.

Sinto que já é hora, pessoal. Os dedos começam a fraquejar, e ainda preciso ir ao banheiro me permitir um último momento de prazer.

Vejo vocês em outra vida, onde seremos todos gatos rajados, catando espinhas de peixe numa lata de lixo. Como nos desenhos animados.

Roberto.

preto no branco

junho 16, 2008

Marcus Paolo era um rapaz de família rica e tradicional, nascido em berço de ouro. Morador de um luxuoso condomínio na Barra da Tijuca, gostava de freqüentar bailes funk no subúrbio, onde podia “misturar-se aos plebeus”, como dizia sua avó Hercília, recentemente acometida pela demência . E foi em plena quadra da Chatuba, na Penha, que ele conheceu Chandelle, uma negra estonteante, de curvas voluptuosas, olhos castanhos e cabelos anelados.

Eles trocaram olhares pela primeira vez na fila da Caipvodka, quando Chandelle pediu um “pau-na-coxa” com bastante leite condensado. Aquele flerte malicioso foi o suficiente para encorajar o rapaz a segurá-la pelo braço e sussurrar uma cantada batida ao pé do ouvido. Ela levou o dedo mindinho à boca e sorriu. Beijaram-se sofregamente numa viela escura, onde trocaram fluídos corporais à exaustão, e já estavam apaixonados antes do amanhecer.

Pela primeira vez em sua vida, Marcus estava sentindo o etéreo torpor de quem ama. Quis levar sua conquista para um lugar mais íntimo e reservado, onde poderiam entregar-se aos prazeres carnais até que seus corpos caíssem inertes, mas ela declinou: tinha de estudar para uma prova, tratar das madeixas e fazer manicure – tarefas que todas as meninas de família costumam deixar para os domingos, antes da missa vespertina. Ele, plangente, não insistiu, mas prometeu telefonar.

A garota, que morava no Rocha, teve sensações conflitantes no caminho de casa. Estava apaixonada por Marcus, isso era fato, mas tinha medo da reação do pai. É que Seu Agnaldo sempre fora totalmente contrário à idéia de miscigenação em sua família, e também detestava a burquesia emergente da Barra. Envolta em desesperança, Chandelle optou por não atender as ligações de Marcus Paolo, antes que seu coração fosse arrebatado por aquela paixão.

O rapaz, porém, não aceitou as escusas da amada, e bradou a plenos pulmões, que enfrentaria qualquer obstáculo para tê-la em seus braços novamente. Chandelle foi convencida de que valeria a pena enfrentar as rédeas tesas de seu pai para viver aquele amor, e marcou um encontro com Marcus Paolo para saciarem a saudade.

Passaram horas tramando um plano, para que o namoro fosse abençoado pelas famílias de ambos, mas nada parecia suficientemente perfeito. Ele cogitou fugir para outro país, mas a moça não achou a idéia atraente. “Tu podia tomar um banho de piche, para ficar preto também”, cantarolou Chandelle, e então Marcus deu um salto, com os olhos esbugalhados, precipitando-se contra o muro.

Exaltado, o rapaz pediu para que Chandelle o esperasse, em nome do amor que compartilhavam, pois uma grande idéia havia brotado em sua mente. Algo monumental, nunca antes visto nas histórias de amor. Comovida, ela consentiu e deu-lhe um beijo. Esperaria o tempo que fosse, para sacramentar definitivamente aquele amor. Marcus Paolo partiu, afirmando que voltaria com uma solução irrefutável, e que viveriam felizes para todo o sempre.

Duas semanas se passaram, sem que chegassem notícias do rapaz. Até que, num sábado de céu estrelado, Marcus Paolo tocou a campainha do apartamento de Chandelle, de surpresa. Ao abrir a porta, a moça tomou um susto e apavorou-se, soltando um grito de desespero, prontamente abafado pela boca do rapaz. Lá estava ele, completamente pintado de preto, com um sorriso escancarado no rosto, segurando um buquê de rosas amarelas.

A explicação veio em seguida, quando Chandelle recuperou-se, na medida do possível, daquele terrível susto. Ele ofereceu-lhe um pacote de balas e começou a contar como fora o processo de transformação. Valendo-se da fortuna inesgotável da qual sua família dispunha, Marcus Paolo contratou oito dos mais competentes tatuadores conhecidos, e seguiu para a clínica do pai, onde tomou uma anestesia geral e passou doze horas cobrindo o corpo com tinta preta. Todas as dobras, todas as mucosas, todas as entranhas. Tudo preto, em nome do amor contundente que sentia por aquela rapariga.

Depois de ouvir toda aquela fábula, Chandelle respirou fundo e olhou para a bizarra combinação da pele artificialmente escurecida com os cabelos naturalmente ruivos do rapaz. Sem ruminar, bateu com as mãos nos joelhos e pôs fim ao namoro, ali mesmo, na escadaria do prédio. Marcus, debulhando-se em lágrimas, não conseguia entender o que acabara de acontecer. Justificou-se, afirmando que fizera um verdadeiro sacrifício por ela, mas a negativa permaneceu incólume. “Só amor não basta”, murmurou ela, secamente, pedindo que o rapaz a deixasse em paz.

Desesperado, ele ficou gritando da rua: “Porque é que só o amor não basta? Porque é que só o amor não basta?”. Os vizinhos já estavam tacando-lhe tomates e ovos podres, quando ela respondeu: “O amor é igual ao capim, Marcus Paolo. Você planta, cuida, ele cresce e aí vem outra vaca e come”. Ninguém, nem mesmo a vizinha do 319, compreendeu o que ela quis dizer com aquilo, mas o rapaz sumiu dali, vencido pela vergonha.

Chandelle bateu a janela, fechou as cortinas, colocou um disco de Chico Buarque na vitrola, chorou até engasgar-se e morreu. Sua mãe encontrou uma bala soft entalada na garganta, mas algumas pessoas acreditam que tenha sido mandinga daquele escurinho a quem ela fez ingratidão. Não se sabe ao certo.

U-hu, Nova iguaçu

maio 28, 2008

No papel, a idéia parecia excelente. Quando saiu de sua vidinha medíocre em Nova Iguaçu, para tornar-se uma sub-celebridade instantânea, a moça de pernas roliças e cabelos quimicamente aloirados não tinha noção das surpresas que a vida tinha a sua espera. Dinheiro, sucesso, fama e glamour nunca chegam desacompanhados, todos deveriam saber disso.

Depois de aparecer peladona num ensaio fotográfico, onde conseguiu dinheiro suficiente para alugar um apartamento na Barra da Tijuca, a rapariga bem que tentou entrar para o ramo das artes cênicas, mas seus talentos não iam muito além do plano físico. Por isso mesmo, ela decidiu que estava na hora de dar uma repaginada na mais importante ferramenta de seu trabalho.

Procurou um dos tatuadores mais famosos da cidade e pediu-lhe uma rosa, vermelha como sangue, bem volumosa e de pétalas abundantes, para estampar a virilha. O desenho ficou lindo, exatamente como ela imaginava em seus mais íntimos devaneios e, entusiasmada, deu sinal verde para que sua pele fosse marcada com agulha e tinta. Ela sentiu muita dor, mas agüentou firme: afinal de contas, já sentira dores maiores para fins bem menos nobres.

Ao final de sessão, ainda inchada e ardida, a quase famosa olhou-se no espelho e um nó formou-se em sua garganta. A flor, que lhe parecia tão exuberante enquanto teoria, havia transformado-se num repolho avermelhado, irregular e troncho. Ela derramou algumas lágrimas, enquanto voltava para casa, envergonhada.

Seis meses depois, cansada de tentar se convencer de que tal aberração era uma rosa, ela decidiu partir para a ignorância. Sua assessora de imprensa convocou toda a mídia para cobrir a retirada da maldita tatuagem, a ser realizada numa clínica da Zona Sul. O tratamento sairia de graça, desde que ela conseguisse mobilizar várias mídias. Negócio da China.

A primeira sessão foi rápida, e o repolho só ficou levemente chamuscado. Ela precisaria de mais umas dez intervenções, para eliminar totalmente qualquer resquício de tinta em sua pele. Visivelmente decepcionada, a loira não se deixou esmaecer e prometeu convidar a imprensa para cobrir todo o processo.

Dizem que somente uma produtora de filmes eróticos mostrou interesse no assunto, sugerindo que a remoção da tatuagem poderia servir como pano de fundo para a gravação de um reality-pornô, onde a moça desempenharia, finalmente, o ofício de atriz.

respiro

maio 14, 2008

Eu entro no carro, molho o indicador com um pouco de saliva e tento adivinhar para o onde o vento sopra. Coloco um cd para tocar, giro a chave e piso no acelerador. Do piano que alguém tocou, ouço um punhado de notas tristes, daquelas que se juntam para formar uma canção melancólica. Não sei por que, mas fecho meus olhos para poder ouvir suas nuances com mais desvelo.

Da janela entra um vento indomável, arredio, que faz meus cabelos dançarem por sobre os ombros empoeirados, cansados demais por carregarem tantos fardos. Fecho meus olhos novamente e deixo que a sorte me guie até abri-los novamente. Se ela não existir, alegro-me em saber que, pelo menos, também não existe azar.

De meus olhos caem as primeiras das muitas lágrimas, que brotam involuntariamente, molham a pele e escorregam pela face, até morrerem nalgum pedaço amarrotado de minha camisa. Estranho essa sensação de tristeza, repentina e desmotivada, mas não me permito interrompe-la. Concedo aos meus sentimentos, mesmo aqueles mais irracionais, uma chance de se deixar extravasar.

Do alto de uma colina, avisto o moinho que me faz perder a concentração. Não é que eu a perca, na verdade. Só mudo de foco. Esqueço por alguns milésimos de segundos que estou guiando e me começo a me imaginar rolando por aquela grama verde, viva. Sinto sua textura nas pontas dos dedos, as gotas de orvalho, o cheiro de mato e o azul celeste contrastando com a alvura das poucas nuvens, que também seguem o caminho dos ventos.

segredos de um processo criativo

maio 7, 2008

Hermínio tinha um hábito estranho. Na verdade, ele gostava de escrever. Ganhava dinheiro com isso, inclusive. Complicado mesmo era seu processo criativo. Quando não tinha idéias muito originais e o papel continuava em branco, ele se travestia de Marjorie Estiano, abria um pacote de cheetos bolinha e dançava alguma balada melosa, bebericando um Martini extra-dry com apenas duas azeitonas. Assim nasceram sete de seus nove romances mais aclamados pela crítica especializada. Os outros dois foram da época em que ele ainda se empolgava com os leques do Locomia.

na trave

abril 29, 2008

O letreiro do Parque Shangai ilumina a antiga calçada de blocos, onde Velluma e Dennise fazem ponto, logo abaixo da Igreja da Penha. As duas já são donas daquela esquina há sete anos, onde nenhuma outra boneca pode sequer pensar em desfilar, a não ser que queira perder os dentes da boca e o silicone das tetas.

– E o Fenômeno, hein? Ficou sabendo? Levou três bonecas pro motel, Dennise!
– Tô bege, viado! Deu mil dinheiros pra cada uma ficar na caluda!
– É, mas a truqueira foi esperta e sacou o celular do bolso e gravou tu-do!
– Esperta demais, néam? Pena que não conseguiu os cinqüenta mil.
– Bem feito, pra deixar de ser olhuda! Eu teria pedido dois mil e tchau.
– Ah, Velluma! Não fode! Eu pediria vinte mil pra fazer aquele traste.
– Abafa, tá chegando um ali, oh…

O taxista baixa os faróis e vem parando, como quem quer dar uma espiada antes de partir para a conversa. As salta-poças se animam, e começam a exibir seus corpos, com movimentos ensaiados e lascivos. Velluma abre a blusa e deixa seu enorme par de maturis saltarem… Dennise abre os braços em forma de cruz, sacode violentamente a cabeça e dá um giro ao redor de si mesma. O homem parece não gostar do que vê e acelera.

– Ai, que ódio! Não suporto esse tipinho que só espia e dá no pé…
– hummmm… Até parece que tu faz coisa muito melhor aqui, cobrando trinta, vadia!
– Cobro trinta por caridade, ném! Se tiver carrão eu digo que é oitenta!
– É… não demora muito e tá carimbada, que nem Thelmara.
– Thelmara… é aquela que pegava o outro, lá da Vila Cruzeiro?
– A própria. Tá doce, agora.
– Deus-me-livre, Velluma! Essa tua boca é pior que esgoto!

Ao longe, elas podem ver dois rapazes bem aprumados vindo em sua direção. Dennise interrompe a falação e vira-se de costas, arriando vagarosamente a micro-saia jeans desfiada, que mais parece um cinto, de tão curta. Velluma dá um tapinha nas ancas e, abruptamente, começa a rebolar como uma louca, tal qual estivesse girando um bambolê. Eles fazem pouco caso e nem olham para as bonecas, que irritam-se toda vez que são ignoradas ao fazerem esse tipo de strip-tease para clientes em potencial.

– Merda, vai levar um tempão pra eu vestir isso de novo…
– Mas… falando sério! Porque ele catou aquela travesti? Tão feia!
– Tanta mulher dando mole pra ele, de graça…
– Pois é, por isso mesmo! Ele pode comer qualquer modelo, Dennise…
– Ah… Vai ver, ele tem medo de cair no golpe da camisinha furada.
– Isso a gente tem de bom, né? Não pega barriga nunca!
– Olha quem fala, néam? Parece que tá cheia de bicha!
– Tô cheia, mesmo, Dennise! Principalmente de você!

As duas param de tagarelar e dão início a mais uma sessão de retoques na maquiagem. Velluma confere se não tem nada lhe escapando pelas laterais, enquanto Dennise besunta o beiço com mais uma camada de batom vermelho. Esta é a hora em que os moradores da região agradecem à Nossa Senhora da Penha pelo silêncio, e tentam dormir. Mas a quietude não dura muito…

– Olha, vem um carrão! Tá parando.
– Ih, vai lá que esse eu já tracei. É todo seu, viado!
– Cobro quanto? Cinqüenta? Parece que tem grana…
– Trezentos, que esse pede tudo oque a mulher não tem pra oferecer!
– Ih, vou ter que abusar de inocência dele, então. Valeu, Velluma!
– Tchau, viado! Acaba com o estoque de cartucheiras!
– Beijo! Me liga!

Ao ouvir o sino soar quatro badaladas, Velluma resolve encerrar o expediente. Ela tira as sandálias e veste um par de havaianas, que ficam estrategicamente escondidas na grade do parque. Sozinha, a boneca pega o caminho de volta para casa levemente aborrecida, ao concluir que nunca terá um cliente tão famoso, por não estar no lugar certo, na hora certa. E então ela ouve a buzina de um carro, cujo motorista baixinho e marrento pergunta, meio que com a língua presa:

– E aí, parceiro?! Pode ser, ou tá difícil?

gafe acadêmica

abril 25, 2008

O professor estava falando sobre o alto teor de glicose encontrado no sêmen, quando uma caloura levantou o braço e perguntou:

– Se eu entendi bem, o senhor está dizendo que se encontra muita glicose no sêmen. Seria tanta quanto no açúcar?

– Sim. Respondeu o professor.

– Então por que o gosto não é doce?

Após um silêncio de estupefação, a classe toda arrebentou numa gargalhada. A pobre garota ficou roxa de vergonha assim que percebeu quão impensada foi sua pergunta. A resposta do professor, entretanto, foi clássica:

– O gosto não é doce porque as papilas gustativas que reconhecem o sabor doce encontram-se na ponta da língua e não no fundo da garganta…

Cupom de desconto

abril 18, 2008

Raquel entrou em casa tão apressada, que nem foi cumprimentar as tias, vindas de Paquetá. Subiu a escada tropeçando pelos degraus, o que deixou sua mãe com uma pulga atrás da orelha. Normalmente tão dócil e comunicativa, a moça nunca havia se comportado de modo tão estranho, desde o maldito incidente com o piercing no períneo.

“Será que a danada está metida com tóxico? Ouvi dizer que a juventude adora fumar essa coisa de cocaína”, disse uma das tias, em tom venenoso, enquanto mastigava uma empada de palmito com a boca semi-aberta, por conta de seu rotes frouxo. Logo em seguida, bebeu um copo quase inteiro de tubaína. “Tenho pavor de morrer entalada!”
“Deve ter cheirado esmalte com as coleginhas e ficou meio perturbada, só isso!”
, retrucou a outra, antes de dar mais um gole na cerveja. “Não demora muito, ela arruma um namorado e aquieta essa facho! A não ser que pegue barriga, né? Daí você já sabe…”

Espantada, Virgínia pediu licença e levantou-se. Sua inquietação só passaria quando soubesse o que acontecera com a filha. Polidamente, subiu dois lances de escadas até que as visitas a pudessem vê-la. Parou no patamar superior, limpando com a mão o suor de nervoso que já lhe escorria pela testa. “Se essa maldita que arrumou problema, vai ficar sem Internet até o Natal”

Trancada no banheiro, Raquel já esperava pela investida da mãe, que era das mais rigorosas. Precisava pensar em uma boa desculpa para ter entrado tão abruptamente em casa, sem soar ridícula, nem infantil. Arriou a calcinha, sentou-se no vaso sanitário e, como sempre lhe acontecia em momentos de ansiedade, descarregou sua tensão.

“Raquel, abra essa porta agora. Estou mandando, não estou pedindo!!!”, exclamou a mãe, já com as bochechas avermelhadas e as têmporas latejando. “Suas tias vieram de longe para nos visitar e você faz esse papelão, Raquel? Saia agora mesmo, sua cabeça-oca. Está me ouvindo, Raquel?”

Encurralada, a rapariga – que nem era tão novinha assim – não teve outra escolha, a não ser mentir. “Tô de chico, mãe. A calcinha tá ensopada de sangue, sorte que era preta.” Virgínia ficou aliviada. “Afinal de contas, que mulher nunca ficou menstruada no caminha de volta para casa, sem um tampão para segurar o fluxo?”, explicou para as visitas, já de volta a sala de estar.

O motivo para aquele comportamento estranho, entretanto, era bem pior do que elas poderiam imaginar. Raquel fora flagrada, a plena luz do dia, trocando o preço duma calça de couro na C&A. Ao ser abordada pelos seguranças, a mocinha se desesperou e saiu em disparada, derrubando um grupo de velhinhas que descia pela escada-rolante.

Ela bem que tentou esconder-se no setor de roupas infantis, entre os pijamas de flanela, mas foi cercada pelos sagazes moços que ofereciam o cartão de crédito sem anuidade e sem juros da loja. Rendida, chorou e esperneou, mas não houve negociação. Foi levada para uma salinha, onde dois brutamontes a esperavam, com os cintos desatados.

“Quer levar aquela calça com desconto, piranha azeda? Vai ter que dar pra nós!” Ameaçaram eles, já com as calças na altura dos joelhos. Assustada, Raquel implorou por um pouco de piedade, afirmando que pagaria o preço que fosse, para se livrar daquela situação. Só que eles estavam irredutíveis, e tiraram as cuecas. Nesse instante, a moça sentiu uma forte cólica e gritou. “Pelamordeus, não faz isso que eu me cago toda!!”

Surpresos, eles vestiram-se rapidamente e a dispensaram. De vez em quando, até curtiam judiar de pequenas ladras, que tinham o fetiche de serem pegas, mas a possibilidade de ocorrer aquele tipo de fétido incidente acabou com qualquer vontade de prosseguir com a “brincadeira”. Ela correu para casa suando frio, agradecendo aos céus por ter escapado ilesa daquele pesadelo.

Depois de aliviar-se, tomou um banho e trocou de roupa. Passou um batom vermelho nos lábios, e uma borrifada de perfume no cangote. Desceu as escadas como se nada tivesse acontecido, e deu um beijo nas tias. Raquel bem que tentou se controlar, mas não conseguiu. Pediu licença, e disse que precisava resolver um probleminha no shopping. “Viu só? Tá arrumando homem na rua?” Concluiu maliciosamente a tia.

Ela, que era conhecida pelo seu atrevimento, voltou à loja, pegou as mesmas calças que haviam lhe causado tanto problema e procurou pelos seguranças, que a haviam aterrorizado. Cínica, disse que gostaria de falar a sós com os dois, naquela mesma salinha, e que não estava para brincadeiras. Ela tirou a saia, arriou a calcinha e disse: “Agora que estou limpinha, vim buscar meu desconto. Mas andem logo com isso, que eu não tenho paciência pra homem que demora a gozar.”

Só delas

abril 16, 2008

Regina Lorraine era pobre, porém refinada. Gostava de ter tudo de bom e do melhor, desde que estivesse dentro de seu orçamento. Tanto que comprou um televisor CCE dos de vinte e nove polegadas no carnê e chamou as amigas para assistirem, todas juntas, ao último capítulo da novela das sete. Kreyce Kelle levou uma Cidra; Marilse comprou um pacote de salgadinhos Fofura sabor Presunto; Meiry apareceu com cinco cones de amendoim torradinho e Célia Cristina, sempre colocada, já chegou mamando uma garrafa de pinga. Depois de se esvairem em lágrimas, por conta das emoções folhetinescas, as amigas começaram a falar mal de seus namorados, maridos e amantes. Lá pelo comecinho da madrugada, estavam todas se enroscando pelo carpete, descobrindo os prazeres indizíveis que línguas e dedos podem provocar com um teve tilintar e uma boa coordenação motora…