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E lá se foi o Carnaval…

março 12, 2011

Depois de se conhecerem sob o torpor do Carnaval, Valmor e Vilma decidiram agendar uma noite romântica, para quando a ressaca não mais fizesse parte de seus corpos. Encontraram-se na sexta-feira, em frente ao Odeon, com sorrisos e alguns escárnios: já sem as fantasias com as quais atracaram-se no calor escaldante da Sapucaí, a atração parecia amplificar-se. Compartilharam idéias, sonhos e pequenas perversões enquanto o garçom servia uma salada de rúcula com patinhas de caranguejo. Dali, seguiram para um motelzinho de quinta na Gomes Freire, onde finalmente flagaram-se nus e esbaforidos. Entre beijos e chupões, o rapaz perguntou: – Você gosta de putaria? E ela respondeu: – Adoro. O clima esquentou. No que as paredes tremeram, a cama parecia flutuar e Valmor, sôfrego, inqueriu novamente a moça: – Posso te chamar de Mãe quando estiver comendo teu rabo? E assim acabou-se um amor póstumo pela própria origem, já que teria morrido, de qualquer forma, ao meio-dia da quarta-feira de cinzas.

Entre tapas e bolas

março 1, 2011

Noite de núpcias, com chuva e vapor quente subindo do asfalto. Estavam deitados na cama, levemente embriagados, depois da festa de casamento. Edmundo olhou para Cristina e, ao vislumbrar seu sorriso mole, deu-se conta de que aquela boca já havia beijado outros homens, aquela vagina já havia sido deflorada por outros homens, e aquele amor já havia sido declarado a outros homens.

Num rompante de fúria, deu-lhe um tapa na cara. Chamou-a de vagabunda, piranha, sirigaita! E deu mais um tapa, agora estalado. Sem compreender tal violência, Cristina fugiu pela porta e procurou abrigo no saguão do motel. Magoada, ligou para a polícia a prestou queixa. Depois vieram as sirenes, as perguntas e a vergonha. Vestida de noiva, naquela chuva abafada, com lama nos pés e um casamento desfeito, a moça finalmente chorou.

Mas, não… Cristina jamais deixaria sua história acabar assim, como que num folhetim escrito aos garranchos. Recomposta, decidiu retirar as queixas, dispersou a multidão e chamou Edmundo de volta ao quarto. Em dois instantes, já estava completamente nua e rebolativa. Ofereceu-se para o marido ao som de um pagode antigo do Raça Negra, que escapulia do radio e fazia fervilhar as lembranças daquele romance nascido num churrasco comunitário.

E quando o camundongo  finalmente mordeu o queijo que repousava na ratoeira, ela mostrou-lhe do que era capaz uma garota nascida e criada em Irajá, com remorso no coração e sem nada a perder: arrancou-lhe os ovos com os próprios dentes, ganhando ares de vampira pornográfica. E como se não bastasse vê-lo contorcendo de dor, Cristina ainda aumentou o rádio para sambar a vitória sobre o sangue que derramara no carpete.

Este causo ficou conhecido como o “Ataque da Noiva Sangrenta no Motel Oklahoma”, que acabou se transformando em roteiro de filme e, quem diria, até concorreu em Cannes. Edmundo nunca mais foi visto, e há quem diga que morreu de desgosto. Cristina, por outro lado, continua bem viva: é beijada por vários homens, tem a vagina deflorada quando bem quer e se declara para qualquer um que a trate como princesa.

O vício de Glória

fevereiro 26, 2011

Glória gostava de comer creme dental, desde a mais remota infância. Tanto que, já crescida e casada, ela comprava vários tubos escondida do marido, para se deliciar durante as monótonas e solitárias horas do dia em que passava sozinha em casa, depois que sua empresa de quentinha foi à falência.

O lado positivo desse estranho vício era que ela mantinha o hálito fresco por mais tempo e, por conseguinte, alimentava sua fama de mulher asseada. Todos os vizinhos, parentes e amigos elogiavam seu eterno frescor bucal. Uma mentira deslavada, já que a atriz detestava escovar os dentes.

Certa noite, depois de se esbaldar com três tubos de Tandy sabor morango, Glória acompanhou Tarcísio num programinha light. Foram prestigiar a festinha de Lília em seu novo apartamento, na Cinelândia. Por medida de economia, o casal dividiu um táxi com Emilinha e Rogéria, que elogiavam repetidamente o novo milk-shake de morango do Bob’s.

Ao chegar ao apartamento, para não se sentir tão nervosa dentre tantas pessoas bacanudas, Glória bebeu algumas taças de espumante. O que ela queria mesmo era socar um tubo de Colgate goela abaixo, mas como a ocasião não permitia, ela achou mais adequado fazer a linha descolada. Um brilho a mais em seus olhos ligeiramente amendoados não seria tão perceptível, tal qual a última plástica para levantar os seios…

Uma apresentadora de TV, cujo ânus foi cirurgicamente amputado devido ao excesso de relações sexuais sem lubrificação (e que preferiu não ser identificada), puxou conversa com a célebre empresária, enquanto cuspia a barquete de pepino num guardanapo de pano. Glória, que tinha pavor de legumes, tremeu dos pés à cabeça e pediu outra taça de espumante. Mais outra. E mais outra. Sem querer, ficou de pilequinho e um pouco abobada.

Tarcísio notou algo de diferente no semblante de sua amada, que voltava do banheiro com um olhar meio paranóico, no exato momento em que Watuzi contava suas aventuras pela relva venezuelana. Glória começou a arrotar bolhinhas de sabão na cara dos garçons, rindo muito e chacoalhando os seios como se fosse uma caloura do Silvio Santos. Em dado momento, ela empurrou a apresentadora de TV para cima de uma copeira e agarrou-se nas melenas artificiais de uma travesti. O caos ganhava vida…

Lília, que gargalhava escandalosamente na varanda por causa de uma piada indecente de Orlandinho, achou a cena lastimável e resolveu interceder. Com a fúria da viúva Porcina, pegou a colega pela peruca e a arrasou até o para-peito da ventilada varandinha. Imperativa e quase beirando a histeria, ela exigia que a colega de carteado ruminasse todo o champagne que havia bebido. Enquanto isso, Rogéria soltava um peido molhado, por conta da empada de ricota que ficara levemente azeda.

Tarcísio, atordoado pelo comportamento arredio da Glória, achou melhor retira-la da festa e esquecer tamanho vexame. Chorando muito e toda babada, com o vestido banhado em vômito colorido, Glória resolveu assumir que estava tendo uma overdose de creme dental. Segundo ela, Lília tinha um irresistível estoque daquelas iguarias no armarinho debaixo do lavatório, e a tentação foi maior do que poderia suportar.

Ao ser atendida em um moderníssimo hospital de Copacabana, Glória pediu para que os médicos não deixassem o assunto vazar na mídia, já que ela não gostaria de envolver seu nome em um escândalo tão inapropriado. Rogéria só ficou sabendo do ocorrido pela boca da travesti descabelada, logo depois de compartilharem duas carreirinhas de pó no banheiro. Sem perder tempo, ela contou tudo, com riqueza de detalhes, em seu blog na internet.

Glória decidiu que vai esperar a virada da lua, antes de procurar uma mãe-de-santo e encomendar um trabalho de amarração para todos aqueles que estavam na festa. Seu ódio é tão grande que a renomada empresária nem sentiu os efeitos devastadores da abstinência de creme dental. Ainda hoje, persistem os buxixos sobre quem seria a dona da calcinha suja encontrada na bandeja de camarões, mas isso já é outra história.

Maternal demais…

fevereiro 24, 2011

Fúlvia estava deitada no sofá, comendo seu Doritos com patê de azeitona preta, quando sentiu o líquido amniótico vazar por entre as pernas e inundar as almofadas. Esbaforida, a mulher correu até o quarto, derrapou no tapete em forma de margarida e deu com o nariz na cabeceira da cama. Com sangue escorrendo pela cara, ela se olhou no espelho e riu da própria desgraça. Estava parecendo uma atriz mequetrefe em filme de terror com baixo orçamento. Limpou a sujeira, pegou o telefone e chamou um táxi. Chegou no hospital a tempo de ver o final da novela, último capitulo. O mocinho morreu e a vagabunda da bandida fugiu para o México. O trabalho de parto começou bem, mas lá pelas tantas uma das enfermeiras desmaiou, carregando consigo a quase mamãe para fora da maca. Correndo contra o tempo, o obstetra acabou trazendo a criança ao mundo ali mesmo, no piso gelado da sala de parto. Era um menino, com um belo pênis fimótico e um saco escrotal enrugado. Com o nariz sangrando, Fúlvia pediu para ver a criança, e um lenço de papel. Depois de confirmar que o recém nascido tinha os vinte dedinhos intactos, não era aleijado e estava respirando plenamente, a enfermeira o entregou para a mãe. Ao olhar atentamente para o bebê que tinha em seus braços, a mulher deu suspiro e, tomada por uma fúria apocalíptica, o arremessou pela vidraça, dando uma gargalhada diabólica logo em seguida. Percebendo que toda a equipe médica estava aterrorizada com sua reação, Fúlvia fez questão de deixar tudo em pratos limpos, enquanto limpava mais um pouco do sangue que lhe escorria do nariz até o lábio.

– É o seguinte, pessoal. Esse filhodaputinha passou nove meses dormindo, bebendo, comendo e gagando dentro de mim. E justamente quando tem a oportunidade de me agradecer por isso tudo, vem me mostrar a língua? Vai tomar no cu! Zuni longe, mesmo!

A saga de Bia

fevereiro 22, 2011

Bia tinha onze anos quando tomou seu primeiro porre, ao ingerir aquelas bebidinhas de puta que tem sabor de frutas críticas. Dançou o Tchan, se jogou no colo de todo mundo, vomitou na aniversariante e ainda se recuperou a tempo de cantar Legião Urbana no videokê. Os amiguinhos usaram e abusaram de sua demência momentânea e meteram-lhe os dedos buceta adentro, ela nem ligou.

Aos catorze, foi passar o Carnaval em Búzios, com a irmã mais velha e seus amigos de faculdade. A mãe pediu para que meninas e meninos dormissem em quartos separados, preocupada com a inocência virginal da caçula, tão cocota que era. Mal sabia a coitada que a suruba já estava armada, e que justamente a pequena estava encarregada de verificar a paudurecência dos garanhões.

Já com dezoito anos, legalmente livre para dar a bunda a qualquer homem que desejasse, Bia se tornou lésbica. Decidiu assim, do nada. Estava dando um trato nervoso na teimosinha e achou que o orgasmo obtido de modo manual era bem mais intenso e higiênico. Entrou numa comunidade GLS no Orkut e arrumou uma namoradinha cotó em menos de uma semana.

Hoje, aos vinte e um anos, Bia trabalha como promotora de eventos para uma grande rede de supermercados, assessorada por uma equipe altamente treinada para servir e proteger os ricos e famosos da fome, do ostracismo e da macumba braba de Marlene Mattos. Mais do que lésbica, ela se define imprescindível. Já não bebe mais nada que seja nacional, e ainda nutre uma mágoa agridoce pela namoradinha cotó, que a largou para viver na eterna abstinência, junto aos monges trapistas de Realengo.

Cadê as joaninhas?

fevereiro 20, 2011

Humberto: – Mãe, porque as joaninhas estão sumindo do nosso jardim? [ semblante triste ]

Clara Maria: – Não sei, Humberto! Talvez elas tenham se mudado! [ aponta para o oeste ]

Humberto: – Mas, mãe… tem que haver um motivo! [ indignado, ele despedaça um rosa ]

Clara Maria: – Acho que elas sentem falta dos Los Hermanos! [ a resposta escapole, sem fazer o menor sentido ]

Humberto: – Eu odeio Los Hermanos… [ há uma certa preocupação em sua voz ]

Clara Maria: – Mas você ama as joaninhas… [ e tem início a chantagem ]

Humberto: – Então… eles precisam tocar para as joaninhas voltarem? [ os olhinhos brilham ]

Clara Maria: – Com certeza! Los Hermanos precisam voltar a tocar!  [ e ela então cantarola algumas estrofes ]

Humberto: Ok! Mas só o primeiro disco. [ e talvez o segundo ]

Clara Maria: – Você vai ver… elas vão voltar lindíssimas! [ sorrindo, como uma boba ]

Humberto: – Pelo menos, elas não gostam de Claudia Leitte… Ufa! [ alivio ]

Microconto dedicado ao Humberto

Aconteceu na vida real

fevereiro 18, 2011

Hoje pela manhã, no ônibus, uma emperequetada mulher gritava com um senhor levemente embriagado:

– Vai, filhodaputa! Coloca a mão na minha bunda de novo se tu é hômi!
– Mas eu nem encostei na sióra! Quequéisso!
– Encostou sim e apertou minha bunda que eu senti! Tarado!
– Ah, meudeus. Não fiz nada c’a sióra! Tô quéto indo trabalhá!
– Então porque a sua mão ficou esse tempão parada no meu bolso de trás? Hein? Hein?
– Farfavô, né? S’eu tivesse c’a mão no seu bolso era pra rôbar a carteira, porque bunda mêrmo não tem quase aí.

Vida e morte de uma bichinha deslumbrada

fevereiro 17, 2011

Era uma vez, uma bichinha delicada e magrela, oriunda da Vila Cruzeiro. Depois de muito ralar como atendente do McDonalds, teve a sorte de ficar endinheirada e foi morar num super apartamento na rua Farme de Amoedo. Um ano depois, já tinha um escritório de decoração no Cartier Ipanema, e era amiga das vinhadas mais influentes da noite carioca. Só usava as roupas que viessem da Europa, e nunca comia em restaurante a quilo. Apesar disso tudo, seu maior sonho era se tornar heterossexual. Cansada de ter que dar para homens estúpidos e afetados, a coisinha fez um pedido antes de assoprar as velinhas do seu bolo de aniversário: no próximo carnaval, não seria mais gay e comeria muitas bucetas. Diante desta situação, Deus resolveu intervir e quebrou seu juramento de jamais falar diretamente com um ser humano.

– Oh, sua bicha pintosa! Venha cá!
– Ai, meu deus!?!? É você mesmo?!?!
– Não, sua a Madonna disfarçada. Que bicha mais burra…
– Caralho, cadê minha câmera? Preciso mostrar esse momento prazamiga!
– Esqueça isso, seu fotolog acabou de ser desativado.
– Nãoooooooooooooooooooo!!!
– Sim, eu desativei. Se quer tanto ser heterossexual, tem que desistir dessas coisas.
– Mas, mas…
– Quieto, caralho! Ouça o que tenho para falar!
– Mas o fotolog é tudo na minha vida…
– É disso mesmo que quero tratar. Você tem tudo na vida, é bem sucedido, tem dinheiro sobrando e amigos drogados ao seu redor. Por que abrir mão disso tudo para comer buceta?
– É que eu não quero mais dar o cu. Cansei, sabe?
– Não seria mais prático come-los, então?
– Ai, sabe que nem pensei nessa possibilidade… Será que eu posso trocar?
– Não. Agora já está feito, bicha. Você é um heterossexual.
– Mas eu não sinto nenhuma diferença. Isso é normal?
– Você só pediu para mudar de orientação sexual, não tenho culpa.
– Só que eu ainda dou pinta! Olha só, to desmunhecando!!
– Foda-se. Quem mandou fazer um pedido tão vago?
– Que inferno!
– Esse não é meu departamento, desculpe. Boa sorte com as bucetas!

Aos prantos, a bichinha heterossexual se jogou no chão e começou a bater com a cabeça no degrau de mármore da escada, até que sentiu uma outra presença.

– Quer fazer um acordo?
– Puta-que-me-pariu!!! Paula Abdul?
– Não, vinhado. Eu sou o capeta!!
– Mas você se parece com ela… que foda!
– Pois é, foi ela quem quis assim. Mas isso não é do seu interesse.
– Que porra é essa de acordo?
– Então… Eu posso fazer com que você volte a ser viado, e ainda por cima, ativo comedor. O que acha?
– Mas… o que eu teria que te dar em troca?
– Tudo que tem. Menos o fotolog e os amigos drogados. Lá no inferno estamos cheios disso! Parece uma epidemia, sabe?
– Fechado, fechado!!! Onde eu assino?
– No balcão da Insinuante, seu estúpido.

A bichinha acordou numa quitinete em Belford Roxo, ao lado de uma travesti monoteta e cercado por bonecas Barbie sem cabeça. Desesperado, ele tentou ligar para seus amigos, mas nenhum deles retornou o toquezinho no celular. Ao vasculhar o quartinho, deu-se conta de que não havia computador, e concluiu que nem Fotolog teria mais. Sem outra opção, ele resolveu se matar, ingerindo todos os frascos de esmalte que encontrou pela frente. Só poupou o Colorama Rebu, porque era edição limitada…

Filosofia de Orelhão

fevereiro 9, 2011

– Eu te amo, Rosivaldo!

– Então, prova!

– Tira a camisa!

– ??

– Tira a camisa, Rosivaldo!

– Tá bom, to tirando…

– Agora, fecha os olhos e levanta os braços…

– Não quer que eu baixe as calças, gostosa?

– ( slurrrp )

– Que porra é essa?!?

– Uma prova de amor, ué!

– Lamber meu suvaco, Adalgisa?

– Eu li isso no orelhão, e achei que…

– Ah, deixa de ser nojenta! Vai lavar essa boca!

– Mas o seu suvaco é limpinho…

– Porca!

Chora, pierrot

fevereiro 7, 2011

Com o olhar pedido no horizonte turvo e cinzento, Dona Genuína batia em seu pandeiro num compasso triste. Testemunhara, atônita, o incêndio que lambeu os barracões na Cidade do Samba. Por dentro, sim, estava devastada. Meses de trabalho destruídos pelo fogo, que parecia faminto, vivo, desesperado. Tudo aconteceu em menos de três horas. E sua Portela, como ficaria? Tomou um ônibus de volta para Vista Alegre e enxugou com uma toalhinha as lágrimas que, teimosas, não paravam de cair-lhe pelo queixo. Mas nem todo carnaval tem seu fim…