quase no picadeiro
Foram cinco anos de muita ralação, onde esforços sobre-humanos, dezenas de noites em claro e relações pessoais estremecidas culminaram na sua colação de grau. Glécia não podia acreditar que, depois de tantos apertos e uma caderneta de poupança zerada, finalmente poderia exercer a profissão de jornalista, almejada desde a mais tenra infância, por influência de Lois Lane e seus cabelos esvoaçantes.
De tão empenhada, alguns anos mais tarde, conseguiu uma indicação para trabalhar como editora de um telejornal. Estava bem perto de atingir seu próximo sonho na escala evolutiva: dirigir uma equipe talentosa e levar ao mundo a informação nua e crua, sem maquiagem e sem exageros apelativos. Glécia queria ser referência, queria ser lembrada daqui a cinqüenta anos por seus incríveis feitos e dedicação total à verdade. Mas um balde d’água desmanchou suas mechas em escova egípcia.
Ao chegar à redação, nesta última sexta-feira, ela se deparou com uma boneca gigante, andando de um lado para o outro, falando como uma maritaca no cio, dando ordens a torto e a direito. Sem entender o motivo do furdunço, foi entrando sorrateira. A loira, de botas brancas e batom rosa, sorriu e apresentou-se como a nova editora-chefe. Não por menos, era afilhada de uns dos diretores da emissora e, como diploma não era mais problema, achou que já estava na hora de fazer seu debut.
Atordoada, Glécia trancou-se em sua sala e chorou. Caiu no pranto como uma criança perdida no supermercado, chegou a soluçar de tanta raiva. Ficou imaginando a cena onde aquela criatura enorme e rotunda, bêbada num almoço de Natal, revelava seus anseios de lidar com jornalismo, notícias e fofocas… E o padrinho tarado, com suas pelancas e rugas de sobra, emocionado de tanto prosecco, oferecia uma vaga de alta responsabilidade, no intuito de impressionar a família e, quem sabe, se fartar naquelas carnes.
Sem mais o que esperar, Glécia juntou seus trapos, esvaziou as gavetas, despediu-se do porteiro e ganhou a rua. Não quis lutar contra a afilhada, não pediu demissão e não deu mais notícias. Resistiu aos impulsos que a diziam para enfiar a caneta tinteiro no pescoço da maldita e seguiu pra rodoviária, onde tomou o primeiro ônibus que tinha lugar vago e ar-condicionado. Foi embora para Araçatuba do Norte, onde arrumou um bico num circo mambembe. Pelo menos assim, e só assim, ela saberia que de palhaça só tinha a cara.
Bonus track: KoRn “Clown”
a falta que você me faz
Ontem à noite, Maria Cristina estava impossível. Chegou do colégio eufórica, com uma energia própria de criança que começa a desvendar o seu lugar no mundo. Corria pela casa, agitadíssima, contando as novidades que permeavam seus pensamentos mais festivos. Eu, na medida do possível, tentava prestar atenção, enquanto organizava a papelada daquele processo que vem, aos poucos, me tirando a lucidez.
Passado algum tempo, a menina foi se acalmando, e eu pude me concentrar melhor. Sozinha, Maria Cristina colocou um disco para tocar, e pegou um pacote de rosquinhas com leite. Ela adorava sentar-se com o pai no chão da sala, onde devoravam guloseimas enquanto ouviam canções antigas. Talvez ela esteja aprendendo a superar sua ausência, não sei ao certo. Agora compreendo, e sinto, a falta que ele nos faz.
Lá pelas tantas, ela largou tudo para vir me abraçar, sem soltar um pio. Senti seu coraçãozinho batendo retumbante, estava emocionada. Com um sorriso inimitável estampado no rosto, me chamou para “brincar de sonhar”. Perguntei se já estava com sono, afinal eram quase dez horas. Mas não. Ela queria mesmo que eu fosse para o quarto, onde sonharíamos acordadas até não mais poder. Tentei negociar, mas não tive sucesso. Só pedi alguns segundos para guardar as pastas em minha bolsa, e lá estava ela, aflita, já vestindo seu pijama de flanela.
Assim que entrei no quarto, ela me perguntou o que eu faria se nossa casa amanhecesse repleta de cãezinhos. E daí começou a tagarelar, imaginando-os rolando pelo carpete, latindo e rosnando para nosso gato rajado, que já idoso, não suportaria tamanho furdunço. Depois, ela imaginou um enorme chafariz de chocolate no jardim, onde passaríamos horas nos lambuzando. Com os olhos fechados, Maria Cristina lambia os dedos e batia as pernas, como quem estivesse mesmo deliciando-se com tudo aquilo.
Do nada, ela me questionou se não estava achando graça na brincadeira. Afinal, se fosse para brincar sozinha, conversaria com suas bonecas. Pode ser que a pequena tenha notado meu distanciamento, atendo-me só a ouvir suas mirabolantes viagens… A verdade é que não conseguia parar de pensar em Ernesto, depois de vê-la sentada com os biscoitos. Aquele hábito era tão deles, e só de me lembrar de toda a rispidez que nos envolveu até a última vez que nos falamos… acabei desmoronando.
Ao notar minha tristeza, Maria Cristina teve a sagacidade de não se deixar levar pela maré, e me perguntou se também sonhara com ele, seu pai, à beira da tal fonte. Eu respondi que sim, com a cabeça, e ela contou que ele estava vestido de branco, todo sujo de chocolate. Justamente o que ele foi comprar naquela noite, quando ensaiava um pedido de desculpas. Mas era eu quem devia ter de me perdoar. Por tê-lo forçado a sentir-se culpado. Por tê-lo feito sair e não mais voltar. Por ter causado em minha filha uma falta que jamais poderá ser substituída…
Com inumeráveis e indescritíveis sensações correndo pelo meu corpo, resolvi cair de cabeça naquele jogo. Sonhei que nós três vivíamos numa colina forrada de margaridas e arbustos, com cães, gatos e renas vivendo livres e dóceis. Tínhamos um poço, de onde era possível puxar baldes e mais baldes de morangos, e uma amendoeira gigante fazendo sombra no gramado. Não precisávamos de dinheiro, nem de televisão, e ao entardecer, ganhávamos asas, para voarmos sobre um lago tão azul quanto céu.
Maria Cristina me interrompeu, bruscamente, dizendo que eu passara dos limites. Ela até compreende que eu sonhe em voar, mas viver sem televisão seria imperdoável. A pequena cruzou os braços e fez bico, afirmando com veemência que a brincadeira havia acabado. Quem diria… tão pequena e já estava viciada na mídia do escândalo. Sem potencializar o assunto, voltei a falar de Ernesto… depois de muito custo, um sorriso brotou novamente em seu rostinho angelical. E então mergulhamos os três, novamente, naquele mar de chocolate, até adormecermos e sonharmos, de fato, com uma vida que infelizmente não voltaremos a ter.
Bonus track: Greg Laswell “Girls Just Wanna Have Fun”
diário de um suicida
Querido diário…
Hoje eu resolvi me matar. Mas como não tenho nenhum amigo, nem parentes próximos, cabe a você comunicar a todos que minha vida foi uma merda. Quero que saiba, acima de tudo, que essa cambada de filhos-da-puta é culpada por minha miséria. Me largaram sozinho, comendo sardinha com maionese estragada, aqui em Itaguaí. Agora vão se fuder, todos eles. Fui numa funerária e encomendei tudo que eles tinham de mais caro, com direito a caixão revestido de veludo e o caralho. Como o defunto não pode assinar cheque, dei o nome de quem mais me fodeu para pagar a conta, minha mãe. A piranha não me liga há três anos.
Quanto ao método que escolhi para dar fim aos meus dias, não foi difícil. Decidi tomar chumbinho, aquele veneno que mata rato, e qualquer camelô vende, debaixo dos viadutos. Comprei dois potes, e vou misturar com as sardinhas, logo mais.
E para não dizerem no meu enterro que só fui um estorvo, deixo para meu irmão mais novo, o Kaikinho, minha coleção da revista Playboy. Ele está com treze anos, vai fazer bom uso delas.
Só para terminar, gostaria de deixar bem claro que nunca fui a favor da guerra no golfo, nunca debochei do Papa, nunca ri da cara da Ruth Lemos, tampouco chamei o Jô Soares de otário. Admito ter feito piada com a morte da filha da Glória Perez, mas isso todo mundo fez. E como todo homem que honra seus próprios colhões, juro que nunca mais vou escrever diário na minha vida… Literalmente.
Com rancor,
Cleverson
X
germano turbinado
Germano estava almoçando quando teve um súbito mal estar e desmaiou sobre o prato de acelga ao alho e óleo com molho de tomates-cereja. Ao se refazer do susto, ainda com o rosto sujo de azeite, ele teve uma epifania. Depois de anos sentindo-se culpado por não dar vazão aos seus desejos conflituosos, iria colocar peitinhos de silicone e assumir sua maior tara. Procurou uma clínica de estética, expôs sua vontade e jogou um maço de dinheiro sobre a mesa. Na semana seguinte já estava turbinado, exibindo aos quatro ventos seus novos amigos. Passava horas se namorando de frente ao espelho, passando os dedos ao redor dos mamilos, delirando com a sensação de ter um belo par de melões. Não que ele esperasse que alguém ficasse excitado com aquilo, mas o prazer de bater punheta para o resto da vida olhando para os próprios seios era o bastante para que finalmente atingisse o nirvana…
um papo entre amigas
– O Renato me convidou pra jantar hoje.
– Sério, Jéssica? Aquele gato da expedição?!
– O danado! E ainda veio com a camisa aberta!
– Ele adora exibir os pelinhos do peito, né?
– Só pra me deixar ainda mais aflita…
– E aí, você vai aceitar?
– Claro, Cleidiane! Combinamos um rodízio, ali na Vila da Penha.
– Ah… rodízio?! Isso é coisa de pobre!
– E eu, por acaso, sou rica?
– Não, mas podia marcar naquele japonês, perto do shopping…
– É… lá é mega romântico, mesmo.
– Hmmm… Já tá nessa vibe, Jéssica?
– Não é isso… mas vai que ele está afim de me dar uns beijos…
– Então beija logo! Nem janta, corre logo pro motel!
– Não. Motel só depois de uns três encontros.
– Daí ele cata outra que não regula tanto a passarinha e…
– Azar o dele! Não saio dando assim, tão fácil, Cleidiane!
– Isso foi uma indireta?
– Hein?
– Estou perguntando se isso foi uma indireta, Jéssica!
– Não… mas você, hein? Vive na paranóia!
– Sei lá… Vai ver, você não aprova meu estilo de vida.
– Não tenho nada contra… cada um com o seu!
– Tá, vou acreditar! Se fazendo de cocota, toda apaixonadinha…
– Ih, olha o chilique! Tá espinhosa porque?
– Então, é que eu andei pensando… não, esquece!
– Agora conta! Vai, solta logo!
– É que eu, sei lá… tô assim…
– Conta, Cleidiane… O que foi?
– Eu to fazendo análise…
– Sério? Tá acontecendo alguma coisa, amiga?
– Tipo, você não conta pra ninguém o que eu vou dizer aqui…
– Aham… claro!
– Eu to saindo com uma garota. Mas tá foda!
– Peraí! Você tá ficando com mulher, Cleidiane?!?
– Isso, grita mais alto que até o encarregado vai ficar sabendo, sua vaca…
– Mas você gosta tanto de homem, porque agora…
– Porque deu vontade! Pronto, foi isso!
– E você já olhou pra mim com… sei lá, esse tipo de…
– Já, várias vezes! Mas relaxa…
– Não, tá tranqüilo. Conta mais.
– Ah, eu meio que acho uma gracinha quando você ajeita o cabelo atrás da orelha…
– É… tenho essa mania, desde criança.
– E aquela sua blusinha com estampa de gatinho… fica bem legal.
– Ai, to sem graça… mas, assim… fico lisonjeada!
– Vamos naquele rodízio, depois do trabalho? Eu pago!
– Legal. Deixa só eu avisar pro Renato que eu tô de chico… sabe como é…
o valor de cada um
Acordar às quatro da madrugada não era problema para Dona Celina. Pegar um ônibus em Austin para estar em Copacabana ao clarear do dia já havia se tornado um hábito. Ela adorava trabalhar para a família Vianna pois sentia-se valorizada e respeitada. Estava sempre com um sorriso no rosto, mesmo que tivesse desentupindo a fossa da cozinha. Os cães eram adoráveis, e as crianças muito respeitadoras. Seus pratos eram deliciosos, com aquele gostinho de tempero da roça, e muito elogiados nas festas. Mas, num sábado, tudo isso chegou ao fim. Ela caiu do oitavo andar, enquanto limpava as janelas. Apavorada com o acontecido, sua patroa ficou inconsolável. Quem, afinal, iria preparar o jantar naquela noite?
não sobrou nada?
Quando ela ergueu seu rosto, as lágrimas despencaram. Segurava os dedos com força, esmagando-os uns contra os outros. Sua respiração ofegante crescia em direção ao sufocamento. Já não havia mais tempo para dizer o quanto se arrependera, não havia mais tempo para lutar pelo que perdeu. Tanto orgulho a impediu de dizer as três palavras que quase lhe escapavam pela boca afora, naqueles últimos meses. Três palavras que poderiam ter mudado o rumo de toda sua vida, se tivessem ao menos sido proferidas. Estava tudo acabado. Seu mundo ruíra, e aquela música não parava de tocar em seus pensamentos. Ela chorava em silêncio, desamparada, enquanto a tarde caia lá fora, e até as folhas das arvores iam embora com o vento. Não havia mais nada, além da dor. Nada além do céu alaranjado, e do frio. Porque era tão difícil sentir aquelas três palavras?
Bonus track: Greg Laswell – “Off I Go”
o triste fim do gato rajado
Tinha um gato morto na caixa d’água. Mas ninguém sabia. Todos reclamavam da fedentina que tomou conta do quintal, mas não suspeitavam de que, lá dentro, o bichano estava em decomposição. Procuraram em todos os cantos, mas não descobriram de onde vinha aquele cheiro horrível de coisa podre. E daí começaram as acusações. A troca de farpas. Os insultos. Cada um com o seu cada um. Só que ninguém arredou pé. Criticaram-se, xingaram-se, violentaram-se, mas não descobriram o corpo do bicho boiando na água. A velha surda só gritava coisas aleatórias, a loira manca apontava pra vizinha de cima, e esta dava de ombros, como quem não tivesse nada a ver com o furdunço. Os dedos apontavam para tudo que é lado, mas não era de ninguém a culpa pelo fedor. Só do gato. Que foi curioso e caiu na água. Ele morreu afogado, porque não sabia nadar. E lá estava: inchado, verde, despedaçando-se. Ele só queria ser acariciado. Ele só sabia ser pajeado. Mas ninguém vive de elogios e afagos. Foram semanas até que o encontrassem, mas aí já não tinha mais jeito. Haviam bebido daquela água e, agora, cada um carregava dentro si um pouco do bichano. Finalmente ele conseguiu o que tanto queria. Ser de todos. E não ser mais nada…
Tchubleck-tchublin
Pablo trabalhava como estivador, e nunca tivera um relacionamento estável. Talvez muitos pensassem que a vida fora cruel com o rapaz, mas não era bem assim. Forte e destemido, tinha na solidão um porto seguro. O pouco dinheiro que recebia era muito bem gasto no prostíbulo, onde ele encontrava a paz nos braços de Jacke. Aquela morena de pele jambo e olhos rasgados, cujo culote de belas curvas ostentava inúmeros elogios, era uma mulher delicada. Dentre os muitos talentos da rapariga, alguns indizíveis, a arte de expelir bolhas flutuantes pelo orifício conjugal posterior quando excitada, era o mais inusitado.
Não fazia muito desde que ela se tornara uma atração concorridíssima entre os mais assíduos freqüentadores do local. Era franzina, logo que chegou, mas rapidamente ornou-se com sinuosas melenas de cabelos artificiais. Com o tempo, foi ganhando corpo, e que corpo exibia com toda sua brejeirice. Os seios rijos apontavam em direção ao paraíso, ao qual ela conseguia levar seus clientes com eficácia, sem jamais falhar. Algo, entretanto, era unicamente seu: o amor que mantinha oculto por Pablo, a quem destinava grande parte de sua estima. Os outros clientes não a faziam sorrir, nem vibrar.
Por ele, Jacke borbulhava tanto que o quartinho fétido do puteiro ganhava ares lúdicos de contos fantasiosos. E como ela tinha prazer em soltar aquelas bolhas multicoloridas, toda vez que Pablo a possuía. Uma verdadeira profusão de sensações, as quais sequer temos nomes para descreve-las. A sintonia era tamanha que em dada noite eles resolveram mudar o rumo de seus destinos. Fugiram juntos, bosque adentro, rumo ao subúrbio mais longínquo, onde jamais seriam encontrados ou perseguidos. E pelo caminho, lá se foram mais e mais bolhinhas, que se confundiram com o brilho soturno dos vagalumes até subirem às estrelas, onde tudo é eterno.
bacon, pra que te quero?
Tão logo ficou sabendo da pandemia que vinha do México, D. Rabicolina cintilou. Depois de anos sofrendo em vésperas de festividades cristãs, ela finalmente teria como se vingar pela morte do marido. Estava tão contente que serviu o dobro de lavagem para todo mundo. Na primeira ameaça de temporal, colocou todos os filhotes para fora do chiqueiro e deixou que brincassem à vontade. Poderiam esparramar-se debaixo da chuva, rolar pela lama gelada o quanto quisessem. Que eles ao menos pegassem uma gripe bem forte, para exterminar de uma vez por toda com a humanidade. “Nosso nome é legião, porque somos muitos” – repetia incessantemente. Já que a síndrome da vaca louca, nem a gripe aviária conseguiram chegar a tanto, que os porcos tivessem essa glória. Pela honra de todos os toucinhos que foram torrados em vão… Uma pena que, naquela madrugada, ao ver toda a vara dormindo espalhada pelo quintal, um grupo de lobos tenha se fartado silenciosamente com tão lúdico banquete.