Do amor instantâneo
Dia dos namorados é uma data cruel. Muitos dizem que é uma invenção do comércio para vender mais, e não dão a mínima para essa bobagem. Já quem se importa, e não tem um cobertor de orelha a seu dispor, acaba curtindo a tremenda dor de cotovelo que é ver os casais apaixonados passeando de mãos dadas pelo shopping. Existem aqueles que fazem como Marlom, que se jogou na balada em busca de uma garota que o quisesse tirar daquele sufoco. Solteiro desde sempre, ele já não agüentava mais ter que dar de ombros e fazer muxoxo quando suas tias suadas perguntavam pela “esposa” e se haveria, afinal, um casamento.
Depois de fumar quase todo o maço de Marlboro vermelho, debruçado sobre o peitoril da janela de seu quarto, Marlom pegou o carro e saiu sem destino. Colocou para tocar um cd pirata do Skrillex, que comprou no viaduto de Madureira, já para chegar em ponto de bala. Não queria ir pra muito longe, pois naquela noite iria enfiar o pé na jaca, e se tudo desse errado, pelo menos não levaria séculos até voltar para casa. Acabou parando no Bar da Pomba Cida, que não tinha uma fama das melhores, mas pelo menos era garantia de uma boa trepada no motelzinho da esquina. Estacionou numa viela, deu uns tragos no último cigarro e já chegou no bar com a fúria de um touro no cio. Olhou para um lado, para o outro, fez um pouco de pose… Nenhuma das garotas, entretanto, mostrou interesse em retribuir seus charmes. Sem graça, ele achou melhor mudar de estratégia.
Parado num canto, bebendo seu uisquinho de procedência duvidosa, ele notou que alguém o observava. Como o bar estava escuro demais, tentou chegar mais perto da pista, para ver se enxergaria melhor aquela beldade. Deu mais alguns passos em sua direção e percebeu que ela estava com um riso frouxo, quase debochado. Paranóico e impulsivo, já ficou imaginando todos os motivos mais esdrúxulos para que ela estivesse achando tanta graça. Se houvesse bebido um pouco mais, era bem capaz de enfiar-lhe um tapa na cara, mas como já fora enquadrado na lei Maria da Penha, achou melhor segurar a onda. Quando chegou bem perto, sem pensar duas vezes, foi logo gritando com a mocinha, como um esquizofrênico: “Eu tenho amigos, tá?! Eu não vim sozinho, não! Eles só não chegaram ainda, mas já estão vindo! Estão virando a esquin…”
Com a mão tapando o sorriso largo, e os olhos arregalados, ela revelou que, na verdade, tinha o achado muito gracinha, e que estava justamente pensando num jeito de chegar junto, sem parecer vulgar ou oferecida demais… Sequer houve tempo para que se apresentassem direito. Marlom a agarrou pelo pescoço e então deram um beijo digno de cinema, com direito a perder o fôlego e ficar com um leve rubor nas bochechas. Enquanto se recompunham, ela revelou que seu nome era Juanita, e que também estava em busca de algo. Ficaram horas se acariciando, descobrindo detalhes apaixonantes sobre suas vidas e, como num passe de novela, talvez influenciados pelo desespero que a data causava, condenaram-se ao namoro. Ali mesmo, em meio aos drinks feitos com vodka Balalaika e a fumaça de Derby, que deixaria até suas roupas íntimas fedendo no dia seguinte…
Vida de adesivo
João era um cara sozinho. Não casou, não tinha amigos. Ele sequer cumprimentava os vizinhos. Saia de casa para trabalhar, e só abria a boca para falar o que fosse extremamente necessário. Até aí, estava tranquilo para ele. Não fazia a menor questão de interagir com outras pessoas. Ele só não queria que as pessoas o vissem como um pobre coitado, então tratou de comprar um daqueles adesivos de família feliz e colou no carro. Marido, esposa, três filhos meninos, um cachorro e dois gatos.
Sanelson e Cleudimara
Ao pé do ouvido de Sanelson, um sussurro: “És um negão de tirar o chapéu.” Cleudimara estava impossível naquela noite, de tão assanhada e foguenta. A mulata freqüentava o samba da viela desde sempre, mas nunca fora assim, tão exibida. Conseguiu chamar a atenção de todo mundo com o balançar de sua saia rodada, e ainda foi embora com seu muso de ébano, ostentado como um verdadeiro troféu.
Chegando em seu barraco, no morro do Cruzeiro, ela ofereceu mais uma cerveja. Era um lugar humilde, mas bem cuidado. Toalhinhas de renda ornamentavam a mesa e as barras das cortinas. Sobre o sofá, uma coleção de almofadas de pelúcia disputavam espaço com duas sacolas de roupa suja, que Cleudimara trouxera da Barra para lavar e passar. “Tá calor aqui, hein?” exclamou Sanelson, enquanto matava o resto da latinha e sacudia a camisa pela gola.
“Não seja por isso!” exclamou a mulata, num pulo, enquanto abria a porta da geladeira, girando o termostato ao máximo. “Não tem ar-condicionado mais porreta que o meu!” Eles riram e se beijaram, para logo depois se engalfinharem nus pelo colchão. Sanelson concedeu-lhe um minete vigoroso, que a fez revirar os olhos. Depois copularam como dois cães no cio e, por fim, fecharam a noite dormindo de conchinha, sob o lençol de bordas poídas.
A angústia que vem antes
Sempre que ficava nervosa, Gilcilene recorria ao potinho onde guardava sementes de girassol. Costume esse que herdou do pai, aliás. Mastiga-las, as sementes, era uma terapia, servia como válvula de escape para seus problemas mais urgentes. A sensação dos dentes triturando aquela massa fibrosa a excitava, de um jeito absurdamente transcendental. Aos poucos, o nervoso ia passando e ela voltava a si, toda trabalhada na lucidez. Não é sempre que se pode comer cachorro-quente numa dessas carrocinhas de rua sem passar mal depois. E a partir de então, ela pensou duas vezes antes de pensar demais. Jogou a calcinha no lixo e voltou para seu quarto, onde o namorado já esperava, aflito.
Panelaço
Joana bateu panela na varanda, mas bem rapidinho. Tinha marcado de pegar um cinema com o irmão, que conseguiu carteirinhas falsas para só pagarem meia-entrada.
Plínio não bateu panela porque é professor e, mesmo sem seguir qualquer corrente política, ainda não entende como as grandes massas podem aderir a essa balbúrdia, ao mesmo tempo que ignoraram completamente a luta dos educadores por melhores condições de trabalho.
A socialite Nadya Meneghitte Scarpa não conseguiu bater panela por que não sabia onde estavam guardadas, já que sua empregada havia ido embora sem deixa-las brilhando sobre o aparador da sala de estar, como é de costume nos dias de protesto.
Gumercino bateu panela, bateu boca com os vizinhos e, para aliviar a tensão, bateu punheta pensando na enteada de dezesseis anos, enquanto tomava um demorado banho quente, alheio aos avisos de racionamento.
Odete não tomou conhecimento do protesto. Onde ela mora, todos estão ralando muito para conseguir o que colocar dentro das panelas.
Daniel bateu panela, xingou os comunistas, proferiu desaforos aos que estenderam bandeiras vermelhas em suas varandas e depois acendeu um baseado, que comprou de um aviãozinho vindo direto da boca de fumo.
Adalgisa não bateu panela pois estava presa no trânsito, mas buzinou bastante e piscou os faróis do carro que comprou à vista, com o dinheiro dos impostos sonegados de sua pastelaria que usa trabalho análogo à escravidão.
Bruno só queria comer um churro de chocolate com granulado, mas acabou tendo o cordão roubado no arrastão da Praça Saens Pena, já que os pivetes aproveitaram a confusão para fazer arruaça e tocar o terror.
Você tem todo o direito de protestar, desde que entenda, acredite e tenha certeza de que a causa pela qual está se manifestando é digna. Só entenda que uma revolução, seja lá qual for, não se faz só com o barulho da sua varanda gourmet.
Do avesso
O cheiro do frango ao molho de ervilhas estava ótimo, mas Reinalda não agüentava mais sentar-se à mesa para jantar com o televisor ligado no último volume. Há anos que a família perdera o saudável hábito de conversar durante as refeições, e isso a devastava por dentro. Em protesto, a moça levantou-se e comeu de costas, segurando o prato contra a barriga. Como ninguém deu a mínima, ela resolveu apelar: abrindo a boca com ambas as mãos, ela foi virando-se do avesso. A princípio, deu um pouco de trabalho, mas depois que passaram os pulmões, ficou mais fácil. Tripas, órgãos e mucosas, tudo à mostra, e de nada adiantou. Ficou ali parada, carne viva pulsando, e a única que notou algo foi sua irmã mais nova, que parecia incomodada com as batidas do seu coração. “Shhhhhhhh” ela pediu, “Estamos vendo a novela!”
A vingança escorre perna abaixo
Cinco e quinze da manhã, de uma quarta-feira. O Rio de Janeiro fora praticamente submerso pela chuva, depois de meses na estiagem. Por todos os lados, eram valões transbordando, deslizamentos de encostas, caos no trânsito e um prefeito desequilibrado. Mirinda e Vanusa tentavam chegar a tempo no serviço, apesar disso parecer uma tarefa quase impossível.
– O povo da zona sul deve estar adorando essa coisa de fecharem o Rebolças, né?
– Porque, Mirinda?
– Ah, por que assim eles conseguem manter os pobres isolados do outro lado, Vanusa!
– Mas essa confusão ta atrapalhando eles também, garota! Muita gente trabalha no Centro, sabia?
– Pode até ser, mas escreve aí: eles estão a-do-ran-do!
– Humpf! Cospe no prato que tu come, Mirinda… Cospe!!!
– Sério, Vanusa! Esse povo é tudo cheio de merda…
– Então dá purgante pra eles. Daí não vão ter mais merda pra cagar!
– Nem vaso pra gente limpar!!! Genial essa tua idéia, biscate!
– Poisé, terminei o supletivo e fiquei toda inteligente!
– Hummmmm… metiiiiiida! Um dia também vou conseguir me formar, sua vadia!
– Foi Dona Vânia que pagou o curso. Ela te ofereceu também, lembra?
– Aquela piranha? Ela não me paga nem a passagem direito…
– Ah, mas tu é marrenta, mermo, né, Mirinda?
– Se eu aceitasse, iam querer que eu trabalhasse no fim-de-semana. Nem morta!!!
– Devia ter deixado esse orgulho de lado…
– Então, tava pensando aqui… Vou passar na farmácia pra comprar o bagulhinho, Vanusa…
– Para de fogo, garota. Que agonia é essa, hein? Quer ser mandada embora?
– Me deixa, lagartixa! Vou colocar purgante na água deles, sim! Você vai ver!
– Duvido, Mirinda! Tu é a maior cagona!
– Cagona é cacete… Quero ver quem é que vai ficar cheio de merda, agora…
E elas, depois de três horas num engarrafamento catastrófico, finalmente conseguiram chegar ao Jardim Botânico. Mirinda passou numa farmácia e pediu o purgante mais forte que eles tinham. Pagou em dinheiro, para não deixar pistas. Ao chegar no prédio onde trabalhava, derramou todo o conteúdo do vidrinho em garrafas de suco, filtros d´água e refrigerantes.
Após alguns dias, a chuva parou, o túnel reabriu e o sol voltou a brilhar, para a alegria geral dos desocupados. Mirinda, no entanto, foi demitida. Por conta de um misterioso surto de diarréia, a família para a qual ela trabalhava resolveu se mudar para a Europa. Levariam só Vanusa, que já arriscava algumas palavras em inglês e, em momento algum, recusou-se a lavar as privadas, durante aquele período tenebroso, onde todos quase viraram do avesso.
A beleza da ironia
Prova cabal de que a beleza não reside nos detalhes, e sim no conjunto, Adulênia era tida como horrorosa por todos que a conheciam. Seus cabelos ruivos despencavam em cachos pelos ombros, e os olhos azuis turquesa que herdara da avó materna, infelizmente, não ornavam com o todo. A rapariga bem que tentava dar um jeito naquela falta de harmonia, mas a verdade é que jamais ouvira um assovio de galanteio, mesmo que de um pedreiro estrábico. No fim das contas, era uma mulher triste e solitária, cujos únicos prazeres resolviam-se trancados dentro do quarto, longe dos olhos de reprovação que lhe eram reservados pela família.
Foi numa manhã de terça-feira que tudo mudou. Depois de passar a madrugada chorando sobre seu travesseiro, Adulênia foi derrubada pela exaustão. Não se sabe qual a receita da mandinga, ou se foi mesmo um milagre: o fato é que a moça despertou com uma forte dor na cabeça, e tão linda quanto uma princesa nórdica. A pele brilhava tal qual uma pérola, emoldurada por cabelos ondulados como o fogo, realçando seu olhar amendoado e cheio de vida. As curvas de seu corpo pareciam torneadas pelo mais talentoso escultor do período barroco, de tão sinuosas e perfeitas. Dizer que ela estava radiante seria blasfêmia. Adulênia experimentava um torpor quase orgástico.
Mas, como tudo na vida, há um preço alto a ser pago. Assim que despiu-se para entrar no banho, ela percebeu que também havia sido amaldiçoada. Da noite para o dia, Adulênia ganhou a beleza de mil mulheres, assim como o falo rijo e volumoso do mais fértil varão. Um pânico quase mortal a levou ao chão, onde permaneceu estática até ser encontrada pela mãe. Toda a beleza que exalara ao despertar foi substituída por um estado irrevogável de catatonia, que durou exatos cinqüenta minutos. Ao voltar a si, caiu no choro, e precisou ser consolada pelos braços curiosos de seus familiares.
Passado o susto, Adulênia resolveu procurar um especialista. Queria saber como poderia ter dormido horrenda para acordar travesti. Como era cética até o tutano, já tratou de excluir a hipótese de macumba ou feitiço. Aquilo não era obra do acaso, tampouco algo sobrenatural. Ao relatar tudo ao médico de plantão, recebeu uma careta interrogativa. Nunca antes fora testemunhado algo desse tipo, e ela seria a primeira pessoa no mundo a transmutar-se espontaneamente. Pelo menos, que se tenha registro. Nada que faça alguém se orgulhar, mas definitivamente era um diferencial.
Muito se falou, muito se cogitou. Mas nada trouxe de volta a sua paz de espírito. Depois de muito sofrer, Adulênia resolveu assumir sua condição de sexualidade ambivalente e mudou de atitude. Comprou alguns balangandãs nas lojinhas do Saara e passou três dias debruçada sobre a máquina de costura. Insistiu tanto que conseguiu apresentar-se no programa do Silvio Santos, onde ganhou com louvor o concurso de transformistas e ainda arrematou dinheiro suficiente para bancar o aluguel de um quarto-e-sala em Copacabana. Hoje, ela recebe assovios por onde passa, e ainda é chamada de gostosa. Só precisa perder o medo de trucar as bolas para ficar perfeita.
Cinco anos e muita razão
Diana: – Mãe, vou chupar uma bala! Tá? [ já abrindo o celofane ]
Jupira: – Nada disso, Diana! Isso não é hora! [ cabelo desgrenhado, acabou de acordar ]
Diana: – Mas, mãe… dentro de mim não tem hora! [ ela faz um muxoxo e inclina a cabeça ]
Jupira: – Não, não, e não! [ nascida em agosto, ela é leonina e imperativa ]
Diana: – Então… quando é que pode? [ a bala, desembrulhada, ameaça pular para a boca ]
Jupira: – Mais tarde! Agora, são seis e meia da manhã! [ Ela toma Activia e seu estômago é um reloginho ]
Diana: – Estômago não sabe que horas são, mãe! Dentro da barriga é tudo escuro. [ ela tem razão e acaba chupando a bala ]
Nada é tão fácil
Apagou as luzes da casa e correu para o segundo andar. Respirou fundo, olhou para seu próprio reflexo no espelho e soltou um suspiro. Aquele era o momento, não tinha mais como adiar. Tomou um punhado de analgésicos, bebeu uma caneca de rum e cortou-se com um estilete. Deitada sobre a cerâmica gelada do banheiro, Adélia ficou observando o sangue escoar de seus pulsos até o ralo, com uma estranha fascinação.
Já estava ficando assustadoramente inerte, quando lembrou que não havia redigido nenhum bilhete de despedida. Como poderia ter esquecido de escrever algo tão importante para uma ocasião como aquela? Esse deslize só reforçaria a tese de que ela era uma amadora no assunto. Foi então que começou a pensar no que escreveria para justificar o suicídio, se conseguisse alcançar o bloquinho de papel a tempo.
“É verdade, eu sempre pensei em me matar. Mas também, sempre me faltou coragem. Daí eu ficava lá, como uma verdadeira inútil, esfregando a gilette nos braços, lambendo a tomada, andando de salto alto na beira da laje… mas nunca tentei, porque não tinha colhões para isso. Uma cagona!! Só que dessa vez, foi! Finalmente eu consegui! Cortei os pulsos e vou sangrar até a morte, daí eu acabo. Não vai restar mais nada… Já era!!!”
Cinco minutos depois da trágica decisão, Adelia começou a entediar-se. Morrer não era tão fácil, quanto diziam. Estava demorando demais para o teto ficar preto, começar a girar e ela bater as botas. Indignada, olhou para o relógio e viu que já eram quase setes horas. Levantou-se, meteu o dedo garganta adentro e vomitou as pílulas. Passou um pouco de merthiolate nos cortes, cobriu-os com esparadrapos e lavou o sangue. Logo depois, telefonou para o namorado e marcou de tomarem um açaí na pracinha. Se ele perguntasse alguma coisa, diria que se machucou fritando um hamburguer ou depilando a virilha.