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verde pra quê?

abril 25, 2009

Tinha uma lagarta na salada. Verde. Verdinha.Verdinhazinha, de tão pequenina. Maria Lúcia, com seus quatro anos de idade, achou graça, mas não fez alarde. Comeu os tomates cereja, a cenoura ralada, o pepino fatiado, mas ficou com nojinho da alface. É que, para ela, a lagarta fazia parte da folhagem. E por mais que sua mãe tenha insistido, ela não arregou. Deixou tudo no prato, e fez até birra. Não queria que jogassem fora sua lagartinha, e ficou chocada quando o pai, num ato de extrema gula, puxou para si o pratinho, regou as folhas com vinagre e comeu com gosto. Por essas e outras, a pequena tomou ódio de vegans quando mocinha, e sempre pede churrasco mal passado, com bastante sangue no prato quando vai numa churrascaria. Nada de traumas, só uma questão de paladar apurado, mesmo.

praga bumerangue

abril 15, 2009

Elas podiam não ser melhores amigas, mas cumprimentavam-se educadamente. Apesar de morarem na mesma rua, Marcinha e Natalie quase nunca participavam de uma mesma rodinha de conversas. Seus horários não batiam, coisa normal, e ainda assim havia simpatia entre elas. Isso já bastava, até a festinha no quintal de Heloísa.

Sem saber que Natalie era secretamente apaixonada por Ítalo, Marcinha o chamou para uma confraternização a dois, perto dos jasmins. A loira o beijou furiosamente, pois estava recém-separada e fogosa. Sua sede de homem chamou atenção de todos que estavam na festa, e foi assunto pra mais de uma semana.

Quem não gostou nada disso foi Natalie, que por estar intrinsecamente envolvida com macumba, rogou uma praga na pegadeira. Se Ítalo não era dela, não seria de mais ninguém. E assim foi feito! Quando Marcinha se despiu para o garanhão, deu falta de dois pequenos detalhes: seus mamilos haviam desparecido!

Ítalo, que estava meio bêbado, acariciou suas nádegas e tomou um susto. Lá estavam os mamilos! E foi um escândalo, que não tinha mais fim. Marcinha chorou, correu para o pronto-socorro, mas ninguém tinha explicação para o ocorrido. Ensandecida, foi taxada de louca e internada num sanatório.

Natalie, fazendo-se por desentendida, foi se mostrar caridosa para o abandonado rapaz. Tanto fez, que conseguiu conquista-lo. E três semanas depois, estavam namorando como dois pombinhos apaixonados. Mas a sombra de Marcinha jamais sairia de sua vida, pois como toda mandinga tem volta, ela acordou com a boca entre as pernas. E sua vida nunca mais foi a mesma…

bah

abril 11, 2009

Estava tão desestimulado que, sem motivo aparente, resolveu cortar sozinho os próprios cabelos. Pegou a máquina que usava para a manutenção da barba e deu um trato no visual. Ajeitou os óculos, tirou uma foto, e pôs-se a admirar a novidade. Foi ao mercado, comprou umas biritas, chocolate e uma escova de dentes extra-macia. No caminho de volta, deu boa noite para um estranho e ganhou um sorriso de volta. Tem horas que é bom saber que nem todo mundo vive de caretas.

Já em casa, ligou o ar-condicionado, passou a madrugada inteira assistindo a filmes bacanas, ficou de pilequinho e acabou com as caixas de bombons. Uma sensação de alegria corria por seu corpo, como há tempos não sentia. E ao contrário do que sempre fazia, não ligou para ninguém. Nem mandou torpedos. Ficou sozinho curtindo um pouco a própria companhia, e foi tão bom quanto jamais pensou que seria.

No dia seguinte, acordou com um pouco de ressaca. Mas evitou o mau-humor. Calçou um par de tênis que só usava em ocasiões especiais, pegou a rua e caminhou até a beira do riacho. Lá, debaixo de uma amendoeira, ficou observando os sabiás que davam rasantes de uma árvore para a outra, sem pensar nas horas. Tirou do bolso uma barrinha de cereais, a qual saboreou como um manjar dos deuses. Estava tão feliz, mas tão feliz, que acabou sentindo saudades daquele vazio no peito de outrora.

Voltou pra casa descalço, deu um bico num cachorro, xingou a vizinha por ter molhado sua calçada. Bebeu o resto de vodka que deixara no congelador, se encheu de salgadinhos gordurosos e rasgou todas as fotos que ilustravam o mural de seu quarto. Tamanha amargura o fez enxergar que ficar sozinho pode ser bacana, mas o bom mesmo seria ter com quem dividir a culpa por aquele maldito chocolate.

Desconforto

abril 1, 2009

“Suco ou resfresco?” – perguntou Tabatha, escorando-se na porta do quarto. As luzes avermelhadas faziam jus ao preço do motel – mercado de carne viva em putrefação contínua. Estava nua em pêlo, com a depilação cuidadosamente em dia, refletida no espelho da parede oposta a jacuzzi. Calçando um scarpin branco, a prostituta balançava o tornozelo com um quê de nervosismo. Na mesa de centro, um maço de cigarros mentolados perdia-se em meio a revistas de pornografia com as páginas coladas pelo esperma de homens solitários. Ela estava ansiosa, mexia toda hora nos cabelos recentemente tingidos de um vermelho amargo. O ventilador de teto não estava funcionando muito bem, e o calor começava a ganhar todo o quarto.

Passou a mão na mesa, mas não deixou o maço cair. Jogou no chão propositalmente, fazendo cara de nojo. “Destesto gente que fuma, sabia?” – exclamou quem tivesse uma meia suada na boca. “Eu quero mais de você!” – gritou com escândalo. “Faça-me sentir como uma rainha! Agora, seu puto!”– exclamava com os olhos arregalados, antes de virar-se para o frigobar. Pegou o jarro com refresco de caju e deixou entornar pelo piso de tacos. Alguns já estavam soltos, outros estavam mofados, mas ela não se importava com nada disso. Tabatha olhou para a cama e sentiu pena de si. Não precisava passar por aquilo para viver, mas também não resistia ao desejo de se entregar a um estranho por míseros cruzeiros. Sentiu vontade de chorar, mas isso borraria toda a maquilagem. Não houve lágrima alguma, mas também não houve sorriso. Tomaram suco mesmo, e partiram para mais uma rodada. Dessa vez, com ela por cima.

alivio imediato?

março 24, 2009

Cátia olhou para um lado, olhou para o outro, fez-se de distraída e arriou a calcinha. Deu uma mijada que escorreu até o asfalto, e então soltou um suspiro de alívio. Depois de se recompor, abriu a bolsa, retocou o gloss e tocou a campainha. Era a primeira vez que jantaria na casa dos sogros, e achou deselegante chegar já pedindo para usar o toillete. Ela só não imaginava que eles tinham um sistema de vigilância flagrando seu momento de alivio…

março 16, 2009

Como não tinha muito o que fazer, Merinha acordava às 5 da manhã para lavar a calçada com mangueira e desinfetante. Depois, comprava duas dúzias de pãezinhos da segunda fornada, que a segundo a própria eram mais crocantes, para distribuir em sua vila. Mais tarde, lá pelas oito, ela ia para o ponto final do ônibus Piabetá-Penha organizar a fila, pois as pessoas cismavam em ficar atravancando a passagem de quem queria pegar a condução para Caxias. Antes do almoço, já cansada e com as têmporas suadas, ajudava sua prima a limpar o quintal, já que os cachorros espalhavam merda por todos os cantos. À tardinha, ela lavava e estendia as roupas de Dona Cosmerinda, que fora atropelada por um bonde e estava impossibilitada de andar. E quando o sol estava se pondo, ela voltava para o ponto de ônibus, para ajudar novamente a organizar a turba. Ao final do dia, ela sentia terríveis dores nas pernas, e sempre que ia ao médico, não sabia explicar o porquê de tanto cansaço. Antes de dormir, tomava um chá de camomila para aliviar a tensão e ter bons sonhos. Esta era sua vida, até a noite em que se engasgou comendo tremoços em conserva, enquanto assistia ao programa da Hebe. Há quem diga que foi uma morte triste, mas ela já estava habituada à solidão.

Precipitação

março 10, 2009

Gustavo não queria ir, mas acabou aceitando o convite por insistência de sua mãe. O rapaz ficava pouco a vontade de ir a praia, pois odiava usar sunga. Achava que todas as meninas iriam ficar reparando, e nisso desencadeava-se todo um processo de auto-sabotagem. Mas naquele domingo, ele decidiu ser maduro, não iria ligar para esse tipo de bobagem. Tirou a bermuda, levantou os braços, alongou o corpo e notou que um grupinho de adolescentes ria em sua direção. Certo de que elas estavam tirando sarro de seu volume, lembrou de uma frase de Paulo César Pereio e atirou: “Homem não precisa ter pau grande, não, tá?!? Tem que saber fazer a cara de quem tem pau grande! Isso sim!!” Sentiu-se glorioso, bateu no peito e sentiu-se o homem mais viril de todo o planeta. As meninas, entretanto, ficaram apavoradas com sua reação e o chamaram de grosseiro, pois só estavam rindo da churrasqueira que alguns sem-noção montavam na barraca ao lado.

Respire fundo

março 4, 2009

Heleyne trabalhava numa lotérica em Irajá, e era daquelas pessoas certinhas. Sempre lembrava dos aniversários de todos os colegas de trabalho, e sempre comia no mesmo restaurante. Não roia as unhas, não repetia a mesma roupa e nem se atrasava para seus compromissos. Estava solteira por opção, já que não era dada a relacionamentos furtivos. Naquele dia, porém, ela estava entediada consigo mesma. Sentia uma vontade incontrolável de burlar as próprias regras. Daí, sem mais nem menos, resolveu pegar o elevador, que àquela horas estava sempre cheio, e soltou um peido. Aquela transgressão foi tão libertadora que ela relaxou. Descobrira um prazer tão simples que nunca mais teve momentos de aborecimento.

multimarcas

fevereiro 26, 2009

Célio tem um computador 486, curte cachaça de botequim, usa sunga de mercado, ouve qualquer cd que compra no camelô, come podrão na esquina, calça chinelos Katina Surf, bebe cerveja Cintra, usa desodorante Barla, veste Citycol e brinda o reveillon com Sidra Cereser, sem dar a mínima para o que vão pensar a seu respeito…

Joanna escreve num machintosh estiloso, saboreia cachaça artesanal, usa biquíni da Salinas, aprecia coleções de música clássica, lancha no Outback, calça Manolos, bebe chope da Devassa, usa botox como antipraspirante, veste Osklen, e só brinda com Moët Chandon, pois ela preza pela sofisticação para se manter em dia com o glamour.

Os dois se conheceram num bloco de carnaval, onde trocaram beijos como loucos e partiram para um motel na Viera Souto. Banho na hidro, língua no mamilo, fôlego se esvaindo. Ela pediu que ele usasse os preservativos que trouxera de uma viagem a Europa, mas a qualidade não foi suficiente para agüentar o tesão. Em setembro nasceu Jackelinne, que precisou alternar entre fraldas Pampers e outras genéricas porque em tempos de crise não se pode dar tanto valor a merda.

Fé na folia

fevereiro 20, 2009

Quando seus pais anunciaram que toda a família iria passar o carnaval num retiro evangélico, Thaís murchou. Mesmo tendo sido criada sob as rigorosas imposições da igreja, a moça gostava de cair nos blocos, sambar, suar e entregar-se à lascívia que rola solta na festa pagã. Tudo isso na encolha, logicamente. Ninguém poderia saber que ela, moça devota e comportada, escapava na surdina da noite para se vulgarizar com desconhecidos.

No culto daquela noite, ela não orou. Tudo parecia estar perdido, até que sua avó caiu doente, acometida por uma pneumonia que a deixou de repouso absoluto, bem na semana que antecede o carnaval. Tão alta era sua febre, que a velha começou a ter delírios, onde a neta se esfregava compulsivamente em criaturas demoníacas. Cogitou-se, então, adiar a viagem, para que ela fosse internada.

Foi aí que a mente fervilhante de Thaís entrou em ação. Como sempre fora muito prestativa e afável, ofereceu-se para cuidar da avó, enquanto a família poderia fugir dos pecados carnais que os incultos cometeriam naqueles dias infernais. Se a coroa piorasse, Thais ligaria para avisar e eles voltariam. Simples assim. Mas todos tinham certeza de que as orações de fé e devoção da netinha favorita surtiriam efeito.

Sem desconfiar de nada, a familia partiu ao encontro da paz. Thaís, por outro lado, cuidou apressadamente da avó e caiu na pista. Com um shortinho jeans que mais parecia um cinto, jogou-se na depravação e se entregou aos mais impuros dos homens. Beijou na boca, mostrou os seios, sambou até não mais conseguir se manter de pé. Voltou para casa trocando os passos, com um chupão no pescoço e a virilha em chamas.

No dia seguinte, acordou com uma puta ressaca, mas um coquetel de cápsulas estimulantes e sucos a trouxe de volta à vida. O mesmo não poderia ser feito por sua avó, que estava caída no chão, estatelada, dura que nem pedra, mortinha. A velha deve ter tentado ir ao banheiro e não agüentou voltar para a cama, no que desfaleceu. Assustada, Thaís nem tocou no corpo, e correu para o telefone. Chegou a digitar alguns números, quando ouviu o bloco chegando, ao longe. Desligou o aparelho e pensou, por alguns instantes.

Naquele dia, ela teve a certeza de que sua alma pertenceria mesmo ao inferno, por toda a eternidade. Como não havia mais nada a fazer pela velha, colocou-a de volta na cama, ligou o ar-condicionado no máximo e voltou para o ritmo frenético da bagunça. O frio manteria o corpo longe da putrefação, enquanto Thais aproveitaria aqueles dias de festa sem culpa alguma atazanando suas idéias. E ela pulou o carnaval como uma desvairada. Cometeu indecências e se perdeu na luxuria retumbante.

Na quarta-feira de cinzas, exausta, ela acordou ao meio-dia em ponto. Estava tão desidratada, que bebeu uma coca-cola de dois litros sozinha, soltando um longo arroto. Como não haveria mais bagunça pelas ruas, nem blocos ali por perto, ligou para o pai e avisou sobre o falecimento da avó. Sorriu um pouco, por ter curtido a vida sem amarras. E depois chorou, também, pois nem todo folião é de ferro.