A fábula do farelo de milho
Cinco pintinhos tentavam atravessar uma rua movimentada, sob sol escaldante, sem que sua mãe soubesse. Estavam ansiosos e trêmulos, pois não conseguiam chegar à calçada do outro lado, onde um sabiá teria dito haver farelo de milho em abundância e sombras refrescantes.
Numa hora, passavam ônibus. Noutra, eram malditos carros turbinados. Os bichinhos estavam quase desistindo de aventurar-se quando, por alguns instantes, a rua se acalmou. Desesperadamente, quatro deles tomaram coragem e correram o máximo que puderam, para chegar naquele paraíso.
Um dos pintinhos, mas esquio e desengonçado, teve tanto medo que congelou. Ficou de longe, entristecido, só observando os irmãos esparramando-se no farelo. Eles rolavam, batiam as asinhas e pareciam gargalhar, como se tivessem ouvido a piada mais engraçada do mundo.
Cabisbaixo e envergonhado, o pequenino decidiu voltar para o galinheiro. Encontraria alimento e calor suficientes, sob as asas da mãe, para superar aquele trauma. E esperaria, ao lado dela, pelo retorno dos irmãos, que àquela hora deveriam estar quase estourando, de tanto comer.
Era uma distância considerável, para uma caminhada solitária. Mas o pintinho desgarrado prosseguiu, mesmo com todo aquele calor. Foi pensando na vida, ruminando idéias. E lá pelas tantas, quando já estava quase a perder de vista a festança, ele deu meia-volta.
Retornou ao mesmo lugar de onde havia partido, e pôs-se a esperar pelos irmãos. Não importaria quanto tempo se passasse, ele permaneceria ali, para seguir ao lado deles ao conforto de seu lar. E já estava quase anoitecendo, quando os fanfarrões atravessaram de volta, visivelmente esturricados.
Os quatro pintinhos, surpreenderam-se ao encontrá-lo ali esperando seu retorno. Fizeram uma nova festa, pulando de alegria, cambaleantes e inchados. O pequeno, calado, só os ouvia vangloriar-se da comilança. Nunca antes tinham visto tanto farelo de milho, e estavam excitadíssimos.
E depois de tanto piar, ciscar e cagar a caminho de casa, os pintinhos festeiros finalmente perguntaram o que fizera o irmão mais novo esperar, por tanto tempo, sob aquele calor infernal, se não teve coragem de seguir até o outro lado. Ele, revirando os olhos, apontou para um gato rajado que espreitava em cima de um muro e respondeu com um muxoxo:
– Eu não comi o farelo de milho? Tudo bem! Eu não participei da festa? Tranqüilo! Mas se se vocês acham que eu seria engolido sozinho por aquele gato maldito, estão tremendamente enganados! Podem ir se adiantando na minha frente, que eu faço questão de assistir a esse espetáculo e manter minha fama de covarde, seus pela-saco!
redescoberta
Eles passaram o domingo todo em função das crianças. Levaram-nas ao zoológico, ao parquinho de diversões e até num rodízio de pizzas. Voltaram para casa exaustos, e depois de colocar a prole para “recarregar as pilhas”, foram para o quarto, assistiram um pouco de tv e transaram, como era de costume nos fins de semana.
– Posso te perguntar uma coisa, Renato?
– Claro, minha Jujubinha!
– Porque é você não me chupa mais?
– Ahhh… como assim?
– É, isso mesmo! Porque você nunca mais me chupou, lá embaixo?
– Ah, Ju… Você não é mulher pra se fazer essas coisas.
– Sério??! Você agora tem nojo de mim?
– Não, amor.
– Então, o que é?
– É que eu acho meio desrespeitoso fazer isso com a mãe dos meus filhos!
– Não coloca a culpa nas crianças, Renato!
– Tuuuudo bem…
– Tudo bem, uma ova! Eu quero ser chupada!
– Querida, fala baixo, as crianças vão ouvir…
– Não fode, Renato! Eu estou falando sério aqui!
– Jura? Pensei que fosse pegadinha do malandro…
– Pois eu te digo: tu vai ter que me chupar!
– Não chupo, não senhora! Ainda mais assim, toda gozada.
– Ah, mas chupa sim, seu viado! Olha aqui!
– Para com isso, Juliana. Deita na cama!
– Vai, mete a língua e me chupa, porra!
– Tira essa pepeca da minha cara, Juliana!
– Pepeca? Você chamou minha vagina de pepeca?
– É.. pepeca!
E aquele apelido, tão inusitado e débil, causou uma crise de risos no casal. Em quinze anos de casamento, eles nunca se divertiram tanto quanto naquela noite. Ficaram horas rolando na cama, namorando como dois adolescentes, redescobrindo os prazeres que, há tempos, não se permitiam por acharem que já estavam velhos demais para brincar.
Seduções e tentações
Ao abrir a porta de casa, já senti seu cheiro, levemente adocicado, espalhando-se por todos os cômodos. Larguei minha mochila num canto e procurei-a, avidamente. Não estava na cozinha, nem na copa, mas encontrei-a repousando, na penumbra da ante-sala. Levantei o fino tecido que a cobria e apreciei sua beleza, por alguns segundos. Mesmo no escuro, suas curvas sinuosas exibiam um brilho dourado, irresistível, convidativo. Toquei-a cuidadosamente, e deslizei meus dedos ávidos por toda sua extensão. Parei por alguns instantes, com a respiração quase ofegante, e me afastei. Admirei-a de longe, mas não me contive. Ela me seduzia de uma forma que jamais pude explicar, por si só. Acabei introduzindo meus dedos em sua fenda úmida e senti calor que emanava de seu interior. Friccionei-os suavemente, sentindo sua textura avermelhada e macia. Permaneci nessa função por mais algum tempo, e então levei-os à boca. Aquele sabor forte e único percorria, agora, todas as terminações nervosas de minha língua, causando reações inconscientes por todo meu corpo. Foi então que os instintos superaram qualquer raciocínio, e devorei-a como um tarado, até desabar, exausto, no empoeirado carpete verde. Adormeci ali mesmo, ao seu lado, só despertando não sei quanto tempo depois, sob o olhar reprovativo de minha esposa. Ela havia feito aquela torta de amoras sob encomenda de Dona Mirtes, que havia pago antecipado e aguardava, impaciente, a entrega no portão. Sem outra alternativa, tirei um galo* da carteira e mandei a velha comprar qualquer coisa no Mundial.
*um galo = cinquenta dinheiros
Pelo menos
Otaviano deixou o bigode crescer, pois ouviu dizer que estava na moda. Deu uma pesquisada na Internet, conferiu todas as revistas de estilo que estavam nas bancas e esperou duas semanas para que o visual ficasse perfeito.
Naquela sexta-feira, enfim, iria para a balada, na maldade de pegar dezenas de garotas. Foi de moto, para causar mais impressão e chegar arregaçando. E tão logo tirou o capacete, ouviu o povo a gargalhar. Não era exatamente aquela reação que Otaviano esperava.
Guerreiro, entrou na boate assim mesmo, e foi logo pedindo uma cerveja. Chegou em várias garotas, meãs nenhuma dava trela. Muitas, na verdade, riam de seu bigode, perguntando se ele era mexicano, ou algo que o valesse. Bebeu mais, para não desanimar.
Quase no fim da festa, conheceu Valkíria, uma morena alta, de cabelos longos e negros e voz grave. Ela fora a única a elogiar seu bigode, e mostrou-se a fim de algo mais. Finalmente, conseguira desencalhar e tascou-lhe um beijo. Foram para a casa dela, em Bento Ribeiro, e tiveram uma noite selvagem.
Na manhã seguinte, com uma ressaca infernal, ele pôde apreciar melhor sua caça. E o que Otaviano viu, não era nada agradável. Sua, até então musa, ostentava um pênis debaixo da espessa pentelheira, que lhe causou ânsias de vômito. Aproveitando que ela estava completamente apagada, fugiu sem deixar pistas.
E assim que chegou em casa, empunhando um aparelho de barbear, tirou fora aquele maldito bigode. Não satisfeito, raspou também a cabeça. Jogou fora todas as revistas, roupas descoladas e bens materiais. Enrolou-se num lençol, isolou-se do mundo e virou hare-krishna. Suicidou-se dois dias depois, pois esqueceu de colocar para gravar a final do Big Brother.
Tudo pelo descarrego
Dona Cleise é convidada a subir no altar, para dar seu testemunho. Os fiéis a aplaudem, efusivamente, como uma estrela de cienma. A dona de casa sorri e acena, tapando o sorriso logo em seguida. Com certa dificuldade, ela consegue chegar ao microfone e, envergonhada, começa a falar.
“É que ontem eu cheguei em casa e peguei meu filho batendo punheta, Pastor Edimilso. E tava na Globo, passando filmes de erotismo! Sabe aqueles, que tem sexo mas não aparece a xereca, nem o piru? Então… Os dois se lambendo lá na tv e o Everlindon nervoso, possuído pelo demônio, corrompido pela luxúria, com o pinto na mão. Mandei ele colocar no culto, para louvar ao senhor, e o danado nem me respondeu. Continuou lá, com o bicho pra fora. Daí eu não agüentei, né? Sentei do lado dele, comecei uma fogueira forte de oração e fiquei vendo, também. Não demorou cinco minutos pra sentir o diabo se espalhando nas minhas entranhas, uma coisa que veio me subindo pelo estombago, só Jesus, mesmo pra acudir! Aí me deu um suadeiro, Everlindson também se tremendo todo e pá! Caí no chão, tendo um trimilique, e o menino também. Eu fiquei um tempinho parada, sentindo uma coisa boa, que me vinha do ventre, e tive a certeza de que o bicho ruim tinha saído de mim. Minha filha mais velha disse que isso se chama orgasmo, mas eu nunca ouvi falar dessas coisas. Só sei que Jesus, filho do meu Senhor, glória, aleluia, me livrou do capeta!”
E ela é aplaudida de pé, por toda a igreja. Centenas de fiéis aclamando sua coragem, com furor iningualável, gritando palavras de fé e louvor. Ela se despediu com um aceno tímido, e misturou-se entre os demais, para que o culto prosseguisse. Na verdade, Dona Cleise mal podia esperar para chegar em casa e, sem que ninguém percebesse, sentir o demônio ser expulso mais uma vez.
Um amor de família
Marcio e Marcela eram primos, e moravam na mesma vila, à beira de um córrego. Apesar de terem sido criados como irmãos, os instintos falaram mais alto e eles acabaram se bolinando, sempre enfurnados em cantos escuros, trocando carinhos e fluidos corporais. “Vai nascer filho torto”, alertava o avô Belarmino.
Aos treze, ela engravidou do primo e a família teve seu primeiro grande susto, que fora batizado de Marcilio. O guri tinha uma cabeça absurdamente desproporcional em relação ao corpo, mas foi amado como uma criança normal. “Esse aí vai pensar duas vezes, antes de se meter em problemas”, dizia o avô Guadalupe.
O bebê nem desmamou e a safada já estava prenhe, novamente. Nove meses se passaram e eles tiveram uma filha, Marcelina. Diferentemente do irmão, ela não tinha uma cabeçorra, mas nasceu com um par de olhos sobressalentes. “Ela verá a vida com outros olhos”, dizia a tia Cosmerinda.
Por conta de uma inconseqüente gozada nas coxas, Marcantônio veio ao mundo um ano depois dos nascimento da irmã. Esmirrado e prematuro, tinha uma cauda peluda brotando no fim da coluna vertebral. Cresceu saudável, e tornou-se um diabinho. “Quando faz merda, vem com esse rabo entre as pernas”, exclamava uma vizinha embriagada.
Os rebentos já estavam grandinhos quando Marcela embarrigou, mais uma vez. O casal, que já havia conseguido se acostumar com as estranhezas de sua prole, não sabia por qual novidade deveriam esperar. Dessa vez, seriam quíntuplos. Cinco chances de trazer ao mundo outra aberração… e não deu outra.
Marcelle, Marcus, Marcondes e Marcirenne nasceram acoplados, em forma de ciranda. Tanto que, para mamarem, era preciso revezar as tetas, de dois em dois. Agenor foi o único sortudo, que veio ao mundo sem deficiência alguma. Talvez por isso tenha sido agraciado com um nome diferente. “O patinho feio tornar-se-ia, então, um lindo cisne, de penas sedosas e brilhantes”, lia a mãe, para sua prole.
Vinte anos se passaram, e todos conviveram bem com suas esquisitices. Marcio e Marcela finalmente se casaram, ao fundarem a Igreja Hexagonal do Amanhã Vindouro. Marcílio abriu uma fábrica de chapéus, Marcelina era dona de um consultório oftalmológico, Marcantônio tornou-se gerente de uma pet-shop e os quatro siameses inauguraram um centro espírita.
Só Agenor que, por sentir-se excluído daquela família bizonha, não agüentou a pressão. Jogou-se da ponte e caiu de cabeça numa pedra. Ficou paraplégico e meio abobalhado, mas não morreu. E depois de tanto suplício, enfim, encontrou seu lugar dentre seus entes. E todos quase foram felizes para sempre, se os siameses não tivessem resolvido começar tudo de novo…
Raspas e restos
Hercilia enlouqueceu, de uma hora para a outra, sem motivo aparente. A mulher que, antes, era uma profissional dedicada e eficaz, transformou-se numa maltrapilha desequilibrada. Deixou de tomar banho, escovar os dentes e lavar os cabelos. Andava pelas ruas completamente desgrenhada, comendo restos de comida e rolando na lama.
Uma semana se passou, e ela já não voltava mais para casa. Um mês depois, não lembrava mais do próprio nome, e já havia perdido suas roupas. A família deixou de procurá-la, passados seis meses do desaparecimento. Completamente alheia ao mundo ao seu redor, Hercilia vivia num aterro sanitário, nua, com um bando de urubus.
Passou semanas observando o turbilhão de aves negras revoando vertiginosamente sobre pedaços de carniça, alimentando-se de restos e lixo, quando avistou, no meio de uma pilha de entulhos, um long-play do Benito Di Paula. Foi aí que ela recobrou a lucidez e deu-se conta do estado em que se encontrava. Aterrorizada, saiu em disparada, tropeçando na carcaça de um cavalo.
Os urubus, de quem tanto cuidou durante todo aquele período, não pestanejaram. Formaram uma imensa nuvem negra, rodopiante, e comeram-na, juntamente com os restos do animal. Levaram apenas alguns minutos para que eles se dissipassem. Não sobrou nada, a não ser o disco. Mas ela ficará para sempre em suas lembranças, como o melhor banquete que já tiveram.
Compartilhando sonhos
Eduarda esperou a chuva parar e, só então, saiu de casa. Calçando galochas de borracha, pulou por sobre as poças d’água que se multiplicavam pela rua, até chegar a padaria do quarteirão de baixo. Estudou cuidadosamente a vitrine de doces, onde expunham bombas de chocolate, mil-folhas de caramelo e enormes brigadeiros.
Certeira, escolheu um sonho de creme com bastante recheio e pediu que fosse embrulhado para viagem. Observou, aguardando pacientemente, a meticulosidade da mocinha ao envolver o doce num filme plástico, que depois seria colocado dentro de uma embalagem colorida.
Ela pagou com um punhado de moedas, como de costume, pois odiava andar com a bolsa tilintando. Guardou o embrulho no largo bolso de seu blusão de moleton, e pulou para a calçada. E então retornou pelo mesmo caminho, tomando cuidado para não se sujar com a lama que era atirada nos transeuntes pelos estrupícios motoristas.
Subiu as escadas levemente afoita e, ao abrir a porta da sala, viu que o namorado continuava tirando seu cochilo no sofá. Ela sentou-se no tapete e pôs-se a observá-lo. Acariciou seu rosto, com cuidado, até que ele despertasse. Sonolento, o rapaz custou a abrir os olhos, mas quando o fez, ilustrou-se com um largo sorriso.
Os dois namoraram por longos minutos, sem dizer uma palavra sequer. Ainda em silêncio, Eduarda desatou o barbante e descobriu o doce, que dividiram até lamber os dedos. Mais tarde voltou a chover, e eles compartilharam outros sonhos… mas quem fez a festa foram as formigas, que devoraram o papel melado no chão frio da sala.
Samba, suor e orgasmos
Thamires vestiu um biquini dourado, espalhou purpurina pelo corpo, prendeu o cabelo com uma flor de plástico e misturou um rivotril no refresco de acerola que serviu para as crianças. Saiu de casa escondida de Oséias, pela porta dos fundos, e caiu no samba. De um bloco no Cachambi, seguiu para o Méier, passando depois por Quintino e Madureira.
Rebolou no colo de desconhecidos, refrescou-se com o suor alheio e subiu numa banca de jornal. Lá do alto, colocou os seios para fora e exibiu os mamilos rosados. Fazia tudo isso com cara de desejo, como se fosse uma cachorra no cio, lambendo os beiços e alisando-se com devassidão. O povo gritava em uníssono: “Safada! Gostosa! Putona”. E isso a excitava cada vez mais.
Pouco antes do sol se pôr, a jovem tarada voltou para casa, morta de cansaço. Pulou o muro da vizinha, arrancou uma toalha do varal e tomou banho de mangueira no quintal. Encontrou o marido dormindo no sofá, e as crianças caídas pela casa. Subiu para seu quarto, colocou um vestido azul, prendeu o cabelo em coque e enfiou uma bíblia debaixo do braço.
Cutucou Oséias, até acordá-lo. Dissimulada, fingiu ter passado o dia inteiro no culto e ainda o repreendeu por deixar as crianças dormirem no piso gelado de cerâmica. Ele tentou retrucar, mas ela estava fora de si, dizendo que nem podia louvar ao senhor em paz. O casal discutiu fervorosamente, e Thamires saiu de casa enfurecida, alegando que precisava de um tempo para se recompor.
Naquela noite, a morena fez a festa. Arrancou o vestido e revelou estar vestindo um conjuntinho amarelo de lycra. Tomou um ônibus e, sem rumo, acabou em Copacabana, na porta da boate Help. Bebeu somente duas doses de pinga e já se jogou no colo da galera. Participou de uma orgia com dois ingleses, que a convidaram para morar em Londres.
Thamires foi vendida como escrava sexual para um magnata libanês, adepto do vouyerismo e dono de uma rede internacional de jogos de azar. Diariamente, ela é obrigada a manter relações com inúmeros homens mascarados, que a tratam como uma das mais desprezíveis criaturas. Ela finge sofrer e chora, mas a verdade é que nunca teve tantos orgasmos em sua vida.
Vingança birolha
Sete anos de idade, um metro e vinte de altura, cabelos ruivos, bochechas sardentas e uma arma na mão. Cansado de ser diariamente zombado pelos coleguinhas de classe por ter um elevadíssimo grau de estrabismo, Pedrinho sacou o três-oitão da merendeira e meteu uma bala na testa da professora Isenilce. Bem no meio da testa, entre os olhos. Dessa forma, ele daria cabo de seus rivais sem ser repreendido por aquela magricela esganiçada, com peitinhos de azeitona.
Rogério, um negrinho parrudo e metido a besta, foi sua segunda vítima. Levou uma bala no peito, quando tentava despistar Pedrinho ao criar uma nuvem com pó de giz. Depois foi a vez de Raquel, uma loirinha de olhos azuis e bochechas rosadas. Essa levou chumbo naquela boca cheia de dentes, porque não parava de gritar, pedindo por socorro. Calou-se num segundo, e caiu morta, enquanto o resto das crianças fugia desesperadamente pelo corredor.
Geremias foi encurralado no cantinho do pensamento, onde eram colocadas de castigo as crianças mais arteiras. Pedrinho abriu dois buracos em sua cabeça de cabeleira cacheada, para que os pensamentos pudessem ganhar asas e voar. O menino, tomado pelo ódio, estava dando sentido real a velhas metáforas, e adorando tudo aquilo. Foi quando deu de cara com o diretor Ernesto, segurando uma maldita vara de laranjeira.
Ao ver aquela varinha tilintando em sua direção, o menino não teve outra alternativa: mirou na barriga do velho e puxou o gatilho. Ouviu-se, então, apenas um clique… Silêncio… Não havia mais balas no revolver. Ele havia desperdiçado muita munição com a maldita professora. O diretor aproximou-se, levantou a varinha e Pedrinho se mijou todo. Acordou com a cama molhada e, ao notar tamanho vexame, aborreceu-se. Como se não bastasse continuar sendo zarolho, agora também teria fama de mijão.