tenha um bom dia
São sete horas da manhã, e ele já está irritado. Na noite anterior, havia discutido com a esposa e isso atrapalhou seu sono. Acordou depois de um breve cochilo, tomou um banho rápido e mal teve tempo de fazer a barba. O ônibus chega abarrotado de gente e, por descuido, ele acaba pisando no pé de uma loira. Como não percebe o incidente, não pede desculpas, e ela começa a reclamar em voz alta, de modo que todos os passageiros o olhem atravessado. Sem graça, opta por ficar calado, já que isso só iria tornar o seu dia ainda mais desagradável. A dondoca, entretanto, segue reclamando por todo o caminho, e como o coletivo só faz encher, não há para onde correr. Ele pensa em se desculpar, mas isso a deixaria ainda mais cheia de pompa. Presos naquele engarrafamento infernal, sob um calor de rachar, o desconforto só aumenta a medida que o falatório prossegue. Sua irritação chega ao limite quando, enfim, ele resolve pisar repetidas vezes no pé da inconveniente reclamona, até tirar sangue. Agora sim, a capivara desbotada teria motivos para se lamuriar pelo resto do caminho, e ele finalmente conseguiria relaxar, esquecendo de todos os problemas que, até então, inflamavam sua mente perturbada.
o sabor
Primeiro dia de aula, depois da rotina desregrada das férias. Acordaram cedo, tomaram café da manhã e depois arrumaram a mochila. Na merendeira, um suco de uva e mirabel de morango serviriam para matar a fome no recreio. Dalva estava nervosa por reencontrar sua turminha, e por isso não conseguiu terminar o almoço. Seguiram pela rua de paralelepípedos, e o calor escaldante foi a desculpa de Eliane para fugir da dieta e inventar que deveriam tomar um sorvete. “Só para refrescar, Dalvinha”. A menina sorriu, e aceitou a oferta da mãe.
“O meu é sabor de coelho!”, pediu ao balconista. “Sabor de coelho? Esse não tem.” Diante da negativa, ela insistiu. “Quero o meu sabor de coelho!” Cruzou os braços, fez birra e franziu a testa. Impaciente, Eliane ameaçou ir embora quando a pirraça piorou. “Eu quero de coelho, eu quero de coelho, eu quero de coelho!” A menina esta irredutível quanto à sua escolha, e não demorou muito para começar a espernear-se pelo chão, batendo com a cabeça no pé da mãe. O rapaz até tentou esculpir um maldito coelho sobre a casquinha, mas não era exatamente aquilo que ela queria. “Isso não é de coelho!”
Desistiram do sorvete e Dalvinha ficou na escola, com semblante emburrado. Justo ela, que nunca fora dessas coisas, entrou com os bracinhos cruzados e uma “tromba” de meio metro. No caminho de volta, Eliane refletiu sobre o comportamento da infante e teve uma idéia. Passou no mercado, fez algumas compras e já chegou preparando o almoço. Quando a pequena voltou da escola, sob a tutela de Tia Izenilce, encontrou a mãe fatiando cenouras, com um sorriso rasgado no rosto. Seus olhos brilharam como estrelas, e ela exclamou, cintilante: “Mamãe, você conseguiu o sabor de coelho!”
“Então é isso? Cenoura é o tal sabor de coelho?” A menina acenou com a cabeça, afirmativa. “Vá tomar um banho, que você está fedendo a galinha. Tem um surpresa no forno pra você!” Dalvinha correu para a suíte, e quase esqueceu de enxaguar os cabelos, de tão entusiasmada. Sentiu um cheiro diferente vindo da copa, que a deixou com a boca cheia d’água e os dedos nervosos. Desceu as escadas em disparada e, então, deu de cara com uma das cenas mais grotescas e vis de sua vidinha. Em cima da mesa, um coelho assado, com a pele dourada, e uma cenoura cravada na boca.
Em estado de choque, ela sequer conseguiu chorar. Ficou parada, atônita, olhando para aquele bicho assado e fumegante. Eliane, desesperada, jamais poderia imaginar que a filha ficaria tão apavorada com o almoço. Sacudiu-a, abraçou-a e, por fim, jogou um copo de água gelada na cara da menina. Só isso para tira-la do transe. E então veio o pranto. Um choro que perdurou até a noitinha, quando Rogério chegou do trabalho. Foram seis semanas até que Dalvinha perdoasse a mãe. E mais alguns meses para esquecer que seu bichinho de estimação fora cruelmente levado ao forno, sem ao menos ter a chance de se despedir. Aquele trauma a tornaria, anos mais tarde, uma terrorista do Peta, onde seu maior feito fora o envenenamento de 700 pessoas num cruzeiro, ao servir carne de coelho com estricnina.
encontro macabro
Passava de meia-noite quando o telefone de Keyla tocou. Não foi propriamente um susto, pois seu irmão costumava ligar naquele horário, já que as tarifas para interurbanos ficavam mais baratas na madrugada, e podiam conversar sem se preocupar com a conta. Ela, que já estava pronta para dormir, atendeu a ligação em tom de alegria. Do outro lado da linha, entretanto, era seu namorado, Frediney, quem tinha novidades…
“Feliz sexta-feira 13!! Hoje é dia de maratona, madrugada adentro!! Tá preparada?!” – gritou ele, empolgadíssimo. “Já comprei dois hamburgões na Tia Célia e uma Coca de dois litros! Vem pra cá, gata! Agora!” Keyla olhou para camisola que vestia, para a cama pronta e o para edredon que a esquentaria. Pensou por alguns segundos e foi categórica: “Desculpa, gato. Agora não vai dar. Tenho prova logo cedo, e meu pai vai estranhar se eu sair na madruga. Mas a gente pode fazer a maratona à noitinha, ainda vai ser sexta-feira 13…”
Do outro lado da linha, um silêncio incômodo. Frediney havia criado a tradição de assistir a pelo menos dois filmes de terror na madrugada de uma sexta-feira 13, com muita comida, refrigerante e prevaricação. Mas a recusa de Keyla o deixou aborrecido. Aquela data era mais do que especial para ele, não havia justificativa plausível para se desmarcar. Absorto dentro de sua decepção, ele não se conteve: “Pois eu vou me besuntar com chantilly e bater punheta sozinho! Tá me ouvindo?!”
Aquele era o código para Keyla deixar de lado qualquer resistência de lado. Muito contrariada, ela bufou e acabou trocando de roupa. Como o namorado morava duas ruas abaixo, ela nem calçou o tênis, e foi de chinelo mesmo. Chegando lá, encontrou a porta destrancada, como sempre, e entrou. Numa cena típica de comédia pastelão, a moça o flagrou completamente nu, com a porta da geladeira aberta. “Se você acha que a gente ainda vai ver algum filme, pode ir voltando pra casa, Keyla. To bem sozinho, aqui!”
Aquele misto de frustração e raiva a deixou ainda mais excitada. Com seu jeitinho sacana e lépido, ela pulou para cima de Frediney e beijou-o com sofreguidão. Seus corpos entrelaçaram-se no chão da cozinha, derrubando cadeiras e potes de biscoito. Fizeram amor como aquela fosse a última vez e, de fato, era. O pai de Keyla – pastor de uma igreja evangélica e portador de distúrbio bipolar – a seguira até lá. Como a porta estava aberta, observou a tudo, sentindo o asco preso na garganta, e com um facão bem amolado, acabou com a raça dos safados.
Coberto de sangue, ele fez uma oração e depois destrinchou o casal, colocando-os dentro do freezer, em recipientes individuais, higienicamente lacrados. Lavou as mãos na pia do lavabo, limpou o facão com sabão em pasta, orou mais uma vez, e já ia saindo, quando avistou os dvds da série “Sexta-feira 13” sobre a mesinha da sala. Ao perceber do que se tratavam, murmurou para si mesmo, como um velho babão: “Mentirada da porra! Não sei como perdem tempo vendo essas bobagens…”
já que o teu silêncio é ensurdecedor
Quando vislumbrou o belo dia que se alastrava lá fora, vestiu uma camiseta, calçou um par de tênis e seguiu rumo ao parque de diversões. Pagou por um passaporte, comeu uma maçã-do-amor e brincou em tudo o que tinha direito, do carrossel à montanha-russa. Há anos não se sentia tão descompromissado, tão livre, tão bem consigo mesmo. Deixou o melhor para o final, como tudo em sua vida.
Sozinho na roda-gigante, ele apreciou o silêncio que fazia lá nas alturas. A ausência total de interferências, de opiniões, de críticas mal construídas e de qualquer outra distração. De cima, pôde vislumbrar o sol se pondo por trás das árvores que avolumavam o bosque, os passarinhos a mergulhar em suas copas, e até as primeiras estrelas que, valentemente, brigavam contra a luz do sol para espalhar seu brilho num céu ainda alaranjado. Sentia-se pleno. Sentia-se capaz de tudo. Sentia-se dono da própria verdade.
Mas quando a roda girou e ele novamente se aproximou do chão, todas aquelas sensações deram lugar a um desconforto insuportável. O barulho das máquinas, as crianças gritando, a música nauseante, os risinhos frouxos, a escória mundana, a terra batida que apodrecia por dentro e o lixo derramado por sobre a grama. Todas as sensações ruins e rasteiras estavam voltando, impulsionando a torna-lo alguém ordinário e mediócre. Um grito há muito sufocado em sua garganta quase escapou…
E então ele voltou para o alto. O vento fresco bateu em suas pernas. Sentiu o alívio percorrendo seu corpo, revigorando o que outrora quase se tornou um desespero… Mas passou! Não era mais nada. Só restou a paz e o silêncio. Aproveitou que o parque estava vazio e pediu para ficar lá no alto, até que não pudesse mais. E a noite caiu, e as estrelas estavam todas lá, brilhando freneticamente. enquanto debochavam de sua patética existência.
Uma Dama não comenta
Quando percebeu que as bandejas com carreirinhas de cocaína começaram a correr pelo salão, Reginaldo trincou os dentes. Estava numa fissura tão grande que começou a suar que nem mulher cabaço em véspera do casamento. Esse era um dos aperitivos mais disputados nos churrascos oferecidos por Djair, dono de todos os pontos de jogo do bicho daquela região. Waldiney, capataz do sítio, era quem tomava conta do pó enquanto o povo enlouquecia.
Rosalba, uma ruiva pra lá de esquisita, nutria um amor platônico por Reginaldo há alguns anos, e o fitava discretamente, lá de longe. Ela, que não era dada a usar drogas, fez vista grossa quando o viu avançando em direção ao pó. Seu amor era incondicional, e ela até o deixaria cheirar, de vez em quando, se um dia viessem a ficar juntos. Deu um gole em sua caipirinha e sorriu para Dona Fátima, esposa fiel e sincera de seu amado.
Quando o pagode começou a tocar e o anfitrião se distraiu, Waldiney chamou Reginaldo e Adevilson para dividir uma bandeja de pó no quintal dos fundos. Todos já estavam loucos demais, e o sol nem havia baixado. Rosalba seguiu o trio, disfarçando falar ao telefone. Sem Dona Fátima por perto, ela sentiu que poderia tirar uma casquinha daquele homem, com quem sonhara noites a fio.
Eles já estavam acabando com a primeira rodada quando a ruiva se aproximou, matreira que só. Reginaldo a avistou e, então, chamou para chegar mais perto. Fazendo-se de boba, ela fingia não saber do que se tratava. Mas ele insistiu e Rosalba correu a seu encontro. Ofereceram uma carreirinha, mas ela hesitou. Nunca tinha cheirado antes, e estava com cagaço de fazer alguma merda. Reginaldo insistiu mais uma vez e ela caiu de nariz na bandeja. Ela riu que nem criança quando eles tiravam as camisetas ensopadas de suor.
Depois de três rodadas, Rosalba já estava seminua, sendo agarrada por Waldiney e Reginaldo, enquanto Adevilson lambia o resto da poeira branca que ficara no saco plástico. Colocadíssima, ela pedia para que a chamassem de Dama, e que a deflorassem entre as bananeiras. Com olhos de pantera no cio, fez um strip-tease com o que lhe restava de roupas e perguntou o que eles estavam esperando.
Os cavalheiros atenderam prontamente seu pedido, e curraram-na inúmeras vezes, em diversas posições. Adevilson, com medo de ser flagrado pela mulher, acabou caindo fora da suruba, no miudinho. Completamente histérica, a Dama pediu para beber água de coco, para ficar mais saborosa. Reginaldo atendeu-a, prontamente, e então esbofeteou seu rosto. Ela ria, descontrolada. Depois, já cansados de tanta loucura, colocaram-na para fora da festa, pelo portão que dava para a rua do brejo.
Rosalba foi encontrada pela polícia perambulando pela pracinha, usando somente soutien e sandálias, completamente desorientada. Seus olhos pareciam não encontrar o horizonte, tampouco suas pernas seguima uma linha reta. Quando indagada sobre o que acontecera, ela só conseguia pedir por mais água de coco, pois estava se sentindo um pouco tonta. Na delegacia, ela só pedia para ser currada pelos seus novos cavalheiros, mas oficiais não eram chegados em barebacking, nem dupla penetração anal. Mas depois do expediente, quem sabe, uma chupetinha?
Texto livremente inspirado pelo video que você assiste aqui!!!
o fim
Chegou em casa às oito e quinze da manhã de um somingo, bêbada e desorientada. Adormeceu no sofá, pois não tinha forças sequer para tomar um banho. Quando Adriana pensara que o mundo não podia mais piorar, seu vizinho acendeu a churrasqueira, soltou os cachorros, colocou as caixas de som no quintal, chamou toda a familia e pôs Alcione pra cantar, bem alto. Isso, sim, era o fim! Ela só não se matou pois tinha feito escova de chocolate naquele fim de semana…
mulher, sempre mulher
Ela abriu o ferrolho e deixou que a brisa vinda do corredor empurrasse a porta, naturalmente. Só assim conseguia arejar o apartamento, de pequenas janelas e piso de tacos, alugado há tanto tempo que já sentia como sendo seu. Precisava respirar, pois sentia-se sufocada pelos pensamentos compulsivos, que reverberavam em sua cabeça, desde a briga que tiveram na noite passada.
Não conseguira dormir direito, fritou na cama como um bife na chapa, e acabou devorando um livro inteiro da Coleção Vagalume, sem pregar os olhos. Quando percebeu, já estava o sol raiando por detrás dos prédios, e sua rotina precisava recomeçar. Lavou o rosto, como se água fria lhe conferisse algum ânimo, soltando um longo suspiro. Ah, aquela briga… maldita lembrança que teimava em voltar…
Armou a tábua de passar roupas e ligou o ferro elétrico, que demorava cerca de dez minutos para esquentar. Pensou nas palavras ásperas que lhe foram ditas, e cerrou os punhos. Queria socar as paredes, mas não era dada à auto-flagelação. Desamarrotou uma bata para si, e uma blusa vermelha para ele, que ainda dormia. Pensou seriamente em deixar o tecido queimar, mas isso já seria sandice.
Ela já estava coando o café quando o viu despertar, esfregando as mãos nos olhos para tirar as remelas. Entreolharam-se, em silêncio, e assim permaneceram, até que ele saísse do banho, largando a toalha molhada sobre a cama, como protesto. Foi quando ela perguntou se queria manteiga no pão, recebendo uma negativa. O nó entalado na garganta parecia então crescer…
Quando já estavam no elevador, ele abriu mão de seu orgulho e abraçou-a. Não pediu desculpas, mas sorriu de um jeito sereno. Isso já era um grande avanço, para quem costumava ficar dias e dias com a cara fechada. Seus olhos marejaram, e ela segurou-o pela mão. Ainda não conseguia administrar sua mágoa, mas admitiu: – Olha, eu posso não ser completa como aquela mulher, mas sou muito digna! Se te pego batendo punheta pra vizinha mais uma vez, pode ter certeza que te castro na gilete, seu pervertido.
Despediram-se na portaria com um beijo contido, e seguiram em direções opostas. Ele, com ar sacana, sorria como quem tivesse ganhado na loteria. Ela, melancólica, soluçava consigo mesma, por saber que mesmo tendo seios roliços e cabelos compridos, jamais seria capaz de oferece-lo a sensação pavorosa que é discutir com uma mulher de verdade, quando esta tem plena consciência de que está coberta de razão e com as unhas bem feitas.
um dia quente
O sinal havia mudado do vermelho para o verde, mas algumas pessoas arriscaram atravessar, assim mesmo! Solange estava agachada, afivelando a sandália de couro, quando o avistou, do outro lado da rua. O coração quase lhe escapuliu goela afora. Ali estava o homem por quem fora apaixonada durante tantos anos. Cabelo engomado, barba bem feita, terno risca-de-giz e maleta de couro em punho… “Como ele está lindo, meu Deus!”, pensou a morena, agora ajeitando a alça do soutien.
Os olhares cruzaram-se e, então, veio um arrepio. Ela tentou disfarçar, chacoalhando os cabelos cacheados. Olhou para o sinal, depois de volta para o moço. Uma onda gélida percorreu sua espinha, e ela entrou em pânico ao lembrar que havia se esquecido de passar o baton. “E se ele me reconheceu? Eu fico horrorosa sem baton! Que merda!!”. Meteu a mão dentro da bolsa e vasculhou cada compartimento. Acabou encontrando uma amostra grátis, na cor rubro delírio, que foi de grande serventia.
Foi então que besuntou os lábios, rezando para que não estivesse se borrando. Precisava dar um jeito na vida e comprar um estojo decente de maquiagem. Algo de qualidade! “Sempre maltrapilha. Vai ver é por isso que estou há tanto tempo encalhada ”, criticou-se silenciosamente. Ao perceber que o sinal estava para fechar, ajeitou o cabelo mais uma vez, e fez cara de acaso. Como se acaso existisse, enfim…
“Quando ele estiver atravessando, vou dar-lhe um esbarrão e deixar cair todas as minhas coisas . Não tem como esse puto não me reconhecer!” calculou, perversa e matreira. Sinal vermelho, pisou firme na faixa de pedestres e pôs-se a marchar. Galopou, de tão empinada! Conforme o planejado, deu-se o esbarrão. Ombros se encontrando em branda violência, como que numa coreografia mal ensaiada. Para tornar o momento mais dramático, Solange foi ao chão.
O rapaz, com um ar preocupado, abaixou-se para ajuda-la. Solange fez um ar de desolação e comprimiu os olhos. Parecia sentir dor, mas era tudo teatro. Prontamente, ele segurou-a pela mão e sorriu. Educadíssimo, um verdadeiro cavalheiro a corteja-la. Naturalmente, a rapariga ficou ruborizada com aquele gesto, e sabe-se lá porque, danou a rir como uma louca. Escangalhou-se em uma gargalhada, colocando as mãos sobre a barriga!
Ela ria sem parar, até que começou a ficar vermelha. Estava visivelmente descontrolada, trêmula. Um pequeno tumulto formou-se ao redor do incidente. O rapaz começou a se assustar com a reação de Solange, que arregalou os olhos e ardeu em chamas. Pegou fogo, literalmente. Foi o primeiro caso de combustão espontânea ao ar livre testemunhado por algumas centenas de pessoas no Rio de Janeiro. Pelo menos ela morreu sem saber que Adaílton, a razão de seu afeto, havia casado com outro homem e estava na fila para adotar um pug estrábico da Micronésia.
Desejos… malditos sejam!
Tão logo despertou, Rosalha procurou pelo ombro do marido, como de costume, e tomou um susto. Ao seu lado, na cama, um enorme minotauro, com chifres compridos e pontiagudos, roncava profundamente. Apavorada, ela rezou para que mal algum lhe acontecesse, até o momento que ele despertou.
Ainda tonto, ele a abraçou, perguntado porque tremia tanto. Rosalha só soltou um gemido e, trêmula, apontou para o espelho no teto. Rômulo não se lembrava de terem ingerido alguma bebida exótica, ou droga alucinógena. Mas gostou da transformação. Sentia-se mais viril, robusto, cheio de vida.
Num estalo, Rosalha lembrou-se de terem visto uma estrela cadente, na noite anterior. Bêbada, ela desejou que o marido tivesse o vigor de um touro, sem perder o que tinha de melhor. Rômulo, excitado com a novidade, começou a acaricia-la quando, ao levantar o lençol, arregalou os olhos. Ele também lembrara do que havia pedido e, com ar de moleque, tentou se explicar:
– Pois é, querida… olha que engraçado! Lembra aquela vez que você sonhou que eu tava dando uns pegas na Roberta Close? Então…
Rosalha puxou o elástico da calcinha e ficou boba com o que viu. Num misto de asco e alegria, agarrou o marido e beijou-lhe. Se aquilo era um sonho, que fosse louco. Se fosse um mal passageiro, que ela aproveitasse enquanto havia tempo. Mas se fosse um efeito permanente, que marido pagasse por todos os seus pecados.
gerundismos
Aquela foi a primeira ligação que Analice recebeu no ano. Acordou com o telefone tocando e, sonolenta, nem percebeu tratar-se de um número restrito. Do outro lado da linha, uma voz feminina com sotaque carregado parecia cintilar.
– Bom dia! Aqui é Creidiane da Silveira, da editora Guanabarino. Com quem eu estou falando?
– Err… bom dia. É que eu estava dormindo…
– A senhora poderia estar me informando o seu nome, senhora?
– Senhora não, por favor… tenho só 25 anos… e meu nome é Analice.
– Pois bem, senhorita. Posso estar tomando cinco minutos de sua manhã?
– Já tomou dois. É melhor ser concisa… Creidilene, correto?
– Crediane da Silveira, da editora Guanabarino.
– Ok…
– A senhora sabe que a reforma ortográfica vai estar entrando em vigor a partir de hoje?
– Sim, eu sei…
– Pois a editora Guanabarino tem o orgulho de estar oferecendo algo de muito útil, que a senhora poderá estar adquirindo neste exato momento: a cartilha de re-alfabetização para adultos. Por apenas quarenta e nove dinheiros, a senhora poderá estar recebendo em casa não só a cartilha com todas as novas regras ortográficas, como um lindo estojo de crochê, na cor que mais estiver desejando.
– Creidilene, queri…
– Creidiane da Silveira, senhora. Da editora Guanabarino.
– Isso, Creidinane! Você, por acaso, já leu cartilha? Está por dentro de todas as novas regras?
– Senhora, as novas regras só vão estar entrando em vigor a partir de hoje, então…
– Então, já entraram. E eu ficaria muito contente se você parasse de usar o gerúndio comigo.
– Gerúndio? Senhora Analice, esta ligação está sendo gravada. Caso queira faz…
– Eu quero que você, Creidiane, pense duas vezes antes de oferecer essa maldita cartilha para mais alguém antes de se informar sobre a forma mais adequada de abord…
– Obrigada pela atenção, senhora Analice. Estaremos anotando suas sugestões para que possamos estar melhorando e ampliando a sua satisfação. Bom dia, e feliz ano novo. É o que vai estar desejando a editora Guanabarino, e todos os seus colaboradores.
Estupefata, Analice desligou o telefone e tentou dormir novamente. Mas aquela ligação a deixara um pouco desorientada e aborrecida. E por alguns minutos, ela desejou ardentemente que alguém tivesse a feliz idéia de tornar o gerundismo um crime hediondo.