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Jantar para dois

outubro 16, 2007

Foi tudo muito rápido, simples e prazeroso. Liguei o forno, coloquei as empadinhas para assar, e dei uma ajeitada no cabelo. Como já tinha tomado banho, achei melhor não arriscar e me vesti, logo de uma vez. Se ele chegasse antes da hora marcada, já me encontraria pronta, e isso sempre causa uma boa impressão. Acendi algumas velas aromatizantes, pus um cd de jazz para tocar e me sentei, confortavelmente, no sofá. Assisti a novela das sete, o jornal, uma outra novela e quando despertei, já não tinha mais nada na tv. Dormi ali, esparramada, esperando aquele idiota chegar. Quando estava prestes a jogar os aperitivos no lixo, inebriada de sono, ele tocou a campainha. Kleber estava bêbado, sujo e havia esquecido o nosso aniversário de noivado. Mal conseguia desculpar-se, de tanto que a língua enrolava. Ao questionar por onde ele havia andado, notei uma marca de batom vermelho em seu colarinho. Tanto que nem hesitei: com a faca de pão, abri um rombo em seu peito e arranquei todos os órgãos vitais. Com um ódio quase visceral, segurei-o pelos cabelos e perguntei:

– Você tem noção de quantas horas eu tenho que ficar debruçada no tanque, esfregando uma mancha dessas pra porra da camisa ficar impecável novamente, seu maldito?

Sobre o tempo

outubro 10, 2007

– Não vai dar mais pra gente continuar, Marcelo.

Debruçada sobre o peitoril da janela, Gabriele observava os carros passando pela Avenida Edgard Romero, totalmente apática, com o olhar perdido. O sol, já estava se pondo, deixando o céu e seu rosto com um tom alaranjado. Abriu a mochila, tirou um maço e acendeu o cigarro; precisava urgentemente de um trago. Atirou o palito com um peteleco e acompanhou sua trajetória, até atingir a calçada. Deu uma longa baforada e sentiu a nicotina impregnando sua corrente sanguínea. Calçou a sandália e arrumou o cabelo em rabo-de-cavalo. Aos poucos, foi sentindo-se mais relaxada e, só então, conseguiu desabafar.

– Ainda não vestiu a porra da cueca, Marcelo? Esse motel é caro, e a gente vai acabar tendo que pagar outro período, seu lesado.

O dilema da cauda de dinossauro

outubro 4, 2007

Com um pouco de dificuldade, Douglas conseguiu amarrar o fitilho que prendia o cacho de balões infláveis ao redor de sua afilada barriga. Apertou o nó, e deu um rodopio, pra certificar-se de que estava bem justo. Saltou em galope, correu um pouco, e deu uma virada brusca. Sorriu, então, ao notar que estava tal qual uma alegoria de carnaval.

Era dia de festa na quadra da Portela e sua avó, Ribeirinha, estava mergulhada num copo de cerveja, fofocando com as amigas. O menino, agora ostentando uma volumosa cauda, desfilava pelo salão, com as mãos na cintura e o nariz empinado. Aos treze anos, mesmo que prematuramente, já apresentava claros sinais de efeminação, com trejeitos voluptuosos e olhar lascivo.

Ao avistar aquele enorme cacho de bolas serpenteando por entre os foliões, o pequeno Pedrinho entrou em êxtase. Seus olhos ganharam um brilho só comparável ao das festivas noites natalinas. No mesmo instante, devolveu a gordurosa asinha de frango ao prato de papelão e limpou a boca com as costas das mãos. Mastigou apressadamente a carne que ainda tinha dentro da boca e disparou a falar.

Insistente, exigiu que a sua tia Suzana conseguisse alguns balões, dos que Douglas arrastava sinuosamente quadra afora. No que ela recusou o pedido, Pedrinho pôs-se a espernear. Caiu no pranto, e o fez com primor. Lágrimas transbordavam de seus olhos e escorriam-lhe pelas bochechas, numa birra mais convincente que atriz de novela.

Deveras paciente, a tia chamou por Douglas, antes que o pequeno criasse mais escândalo. Certo de que teria seu desejo atendido, o pirracento danou a rir, apoiando as mãos na barriga. Chegou, inclusive, a dobrar o riso e engasgar, quando notou aquele amontoado de balões coloridos vindo em sua direção.

– Mas que bolas lindas, você tem aí! – elogiou Suzana.
É meu rabo – retrucou o menino, todo orgulhoso.
Ah, olha só, Pedrinho! É o rabo dele! – exclamou, sorridente.
Sou um dinossauro, e sou muito colorido! – apresentou-se, abrindo os braços e inclinando a cabeça.

Os olhos de Pedrinho arregalaram. Sempre ouvira falar de dinossauros mas, do alto de seus três anos de idade, nunca teve a chance de ver um de perto. Ficou quieto por alguns segundos, só a observar o outro menino. Cutucou a tia, chegando perto de seu ouvido, e reiterou o desejo pelos balões.

Então… você pode me dar um pedaço do teu rabo? – pediu, com delicadeza.
Porque? – perguntou o menino, colocando as mãos na cintura, num tom desafiador.
– É que o meu sobrinho quer uma bola – explicou-se.
– Não dou, não. O rabo é meu!

E Douglas correu, lépido como um esquilo, para o outro lado do salão. Magoado, e sem entender o motivo da recusa, o pequeno Pedrinho caiu novamente no choro. Desta vez, porém, sem pirraça ou fingimento. Estava, de fato, muito sentido. Soluçando, abraçou a tia e pediu pra irem embora.

Já estavam perto da saída, quando Pedrinho avistou um grupo de meninos cercando o tal “dinossauro”. Eram bem mais velhos, aliás. Douglas estava acuado, gesticulando agressivamente para que o deixassem em paz. Munidos com espetinhos de churrasco e palitos de dente, os meliantes estouraram todas as bolas, numa questão de segundos, escangalhando-se de rir ao ver o pavor do garoto.

Pedrinho, perplexo, acompanhou a tudo com seus olhos esbugalhados, completamente mudo. O pequeno havia testemunhado a brutal amputação do rabo de um dinossauro, ou foi o que ele imaginou em sua cabecinha. Suzana, sempre bem humorada, estava achando muita graça de tudo aquilo. Douglas ia passando, quando ela o chamou:

– O que houve com seu rabo, garoto?
– Arrancaram! São uns babacas! Mas deixa pra lá… – resignou-se o menino.
– Pois é, pois é…

Enquanto a tia aproveitava a ocasião para mostrar a Pedrinho que tudo na vida tem volta, Douglas seguiu para o fundo da quadra, onde conseguiu outro cacho de bolas, tão esplendoroso quanto o anterior. Amarrou-o à cintura, exatamente como fizera antes, mandou um beijo para a avó e tornou a correr pelo salão.

Ao notar que Suzana e Pedrinho estavam de saída, Douglas correu ao seu encontro. Parou ao lado deles, deu um giro em torno de si mesmo e mostrou, encantado, que tinha uma nova cauda. Suzana, tentando não rir da cena, perguntou como poderia nascer outro rabo num dinossauro. Dando de ombros, o menino respondeu:

– É que, na verdade, eu sou mesmo uma lagartixa.

E então correu, sumindo por entre as passistas.

Amor materno

setembro 6, 2007

Depois de passar o dia inteiro servindo executivos num sofisticado bistrô de São Conrado, tudo o que Rosália desejava era apreciar uma boa taça de vinho tinto, ao lado de Cristina, sua filha e, consequentemente única companhia, desde o problemático divórcio. Estava tão empolgada com a idéia que decidiu fazer uma surpresa para a menina.

– Cristina, querida. Está indo para casa?
– Sim, mãe. Mas vou dar uma passada no shopping antes. Por quê?
– Ah, tenho uma surpresa para você!

Sempre muito afetuosa, Rosália prepararia um dos pratos favoritos de garota: medalhões com arroz à piamontese. Comprou um quilo de filé mignon e algumas tiras de bacon, além de temperos exóticos. Há séculos que não se dava um luxo desses, mas valeria a pena. Poucas eram as oportunidades de sentar-se à mesa, para apreciar uma refeição junto à filha. Adiantou-se o máximo que pode, para servir o jantar tão logo Cristina chegasse em casa.

– Mãe, tô aqui, hein?!
– Que bom, minha filha! Venha me dar um beijo!
– Depois! Vou tomar um banho logo, porque to toda suada!
– Não demore, querida! A surpresa está quase pronta!

Como toda mãe zelosa do subúrbio, ela terminou de por a mesa com seu esmero habitual, usando a prataria que só era vista em ocasiões muito especiais. Estava preparando-se para retirar o tabuleiro com as carnes do forno quando ouviu a filha descendo as escadas, como se fosse um foguete.

– Vou ali fora, manhê! Já volto!
– Aonde está indo, minha filha, com essa pressa toda?
– Comer um podrão, ué? To morta de fome e com preguiça de esperar!

Por alguns segundos, Rosália chegou a pensar que teria um colapso, mas só sentiu as têmporas latejarem. Apoiou os medalhões numa das bocas do fogão, tirou as luvas protetoras e tomou um gole de vinho. Com uma quase imperceptível alteração no tom de sua voz, demonstrou seu desconforto.

– Mas eu já estou com a janta quase pronta, Cristina!
– Ah, foi mal! É que eu to a fim de dar uma variada, hoje!
– Como assim, dar uma variada? Quase não conseguimos sentar à mesa juntas!
– Tava a fim de comer outra coisa, sabe? Que não fosse a tua comida, sei lá…

Naquele momento, ela precisou controlar seu primeiro impulso, quase animalesco. Por pouco, não estrangulou a própria filha. Tamanho atrevimento era motivo mais do que justo para cometer uma loucura. Mas Rosália era conhecida e admirada por sua complacência, e acabou se contendo.

– Azar o ser. Vai perder um banquete!
– Banquete? O que tem aí na fogão? Macarronada, de novo?
– Medalhão, com arroz a piamontese e temperos exóticos!

Dito isso, a mãe abriu um sorriso cheio de cinismo e apoiou a mão na cintura, como que desafiando Cristina a mudar de opinião. Visivelmente confusa, a garota foi até a porta, girou a maçaneta e, quando estava quase saindo, arrependeu-se. Fez gesto carinhoso, passando a mão por cima do peito e desabafou.

– Ai, mãe. Mudei de idéia!
– Jura?
– É! Desisti do podrão!
– E vai comer o que?
– O nosso jantar, ora bolas! Afinal, você teve tanto trabalho, né?

Rosália esboçou uma feição de agradecimento, inclinando suavemente a cabeça em direção ao ombro, e jogando uma das pernas para trás, como se estivesse sem jeito. Estendeu os braços, pegando o tabuleiro, onde os medalhões reluziam de tão suculentos, e mostrou-os para a filha.

– Isso aqui?
– Claro! Adoro o teu medalhão!
– Então coma aqui, querida!

E foram todos para a lata do lixo, num piscar de olhos. Atônita, Cristina ficou sem saber o que fazer diante daquela atitude, tão absurda e surreal. Ao olhar novamente para a mãe, notou que a mesma havia adotado um semblante totalmente atormentador. Seus olhos transbordavam ira, e os dentem rangiam, uns contra os outros.

– Mãe, a senhora ta louca? Porque jogou tudo fora? Ta desequilibrada?
– Você não disse que queria um podrão? Pois coma! Devem estar uma delícia.

De súbito, Rosália pegou-a pelos cabelos, enfiando sua cabeça na lixeira, onda há pouco jogara os medalhões, insistindo para que os comesse antes que esfriassem. Babando como um cachorro louco, vociferava descontroladamente que até mesmo um podrão deveria ser consumido enquanto estivesse quente e crocante.

– Coma tudo, sua vadia! Caso contrário, não terá sobremesa!

Continuou naquela insanidade até que a filha perdesse os sentidos, sufocada pelo cheiro do lixo misturado ao calor da comida. Rosália, então, lavou as mãos, passou uma escova nos cabelos e tomou o que restava da garrafa de vinho. Sentou-se de frente a janela e pediu um Bic Mac pelo telefone. Sem pickles, logicamente, pois pepino lhe causava gases.

Em algum lugar do Leblon

agosto 17, 2007

Dheline regou a salada com um generoso fio de azeite, e sentou-se à mesa, onde suas amigas falavam alegremente sobre as aventuras do fim de semana. Com um muxoxo, pediu a palavra e desabafou.

– Peguei um cara do subúrbio, lá de Ramos.
– Mentira! Conta isso, garota!
– Conheci na quadra da Imperatriz. Tava de bobeira e ele chegou em mim.
– Mas o que você tava fazendo em Ramos? Lá é um perigo!
– Que nada, Regina, foi super tranquilo. Até dormi na casa dele.
– Não acredito! Conta mais!
– Pois é, já marcamos de sair hoje.
– Só falta ele te levar no piscinão de Ramos, olha a derrota!
– Ah, deixem de ser preconceituosas! Ele é um amor!
– Qual o nome?
– Uóstom.
– Ih, nome de pobre! Ta querendo dar o golpe!
– Não fode, Ana Célia. Ele tem uma oficina de motos.
– Ah, então ta metido com o tráfico.
– Ai, que horror! Ele é do bem!
– Deu pra ele?
– Ainda não. Ele estava sem camisinha e resolvemos não arriscar.
– Então ele é viado, Dheline! Desculpa, mas é…
– Só porque não tinha camisinha em casa? Me poupe, Regina!
– Você dorme na casa do cara e não rola nada? Estranho demais, isso!
– Ficamos agarradinhos, namorando. Oquê que tem demais?
– Daqui a pouco você vai estar comendo até cachorro-quente de rua, Dheline.
– Ah, depois dessa, perdi o apetite.
– Eu também. Querem minha rúcula?
– Vocês que se fodam. Estão todas com invejinha.
– Garçom, a conta por favor!

Dinamismo conjugal

agosto 7, 2007

Ela estava debruçada sobre o peitoril, limpando o vidro da janela com um chumaço de jornal amassado, quando Carlos saiu do banheiro. Visivelmente desorientado, ele sentou-se no sofá e chamou a esposa.

– Quero falar contigo.
– Oque houve, amor? Algum problema?
– Sim, dos grandes!
– Er… o que foi?
– Eu vou falar só uma vez, e não vou repetir, Izenilce…
– Fala!

E Carlos ficou calado, com as mãos juntas, olhando para o teto. O tom de sua voz era quase mórbido. Angustiada, a mulher tentou aproximar-se, mas foi abruptamente repelida. Com um semblante preocupado, ele sussurrou:

– Me contaram que você trouxe o Seu Zé aqui…

As pernas de Izenilce se desencontram, e ela foi ao chão. Com os olhos marejados, esticou uma das mãos e segurou no braço do marido. Soluçando compulsivamente, revelou:

– Eu confesso, Carlos! Eu confesso! Trepei com o pedreiro!
– …
– Por favor, Carlos! Me perdoa! Diz alguma coisa!

Olhando firmemente nos olhos da esposa, Carlos cerrou os punhos, respirou fundo e levantou-se do sofá. Permaneceu assim por alguns minutos, e então abaixou-se. Segurou-a pelos ombros, abrindo um sorrisinho irônico.

– Então… o pedreiro só veio aqui pra te comer?
– Sim, mas foi só uma vez, coisa de momento. Me perdoa?
– Ufa! Que alívio!
– Hein?

Izenilce não conseguia acreditar no que tinha ouvido. Sacudiu a cabeça, como se o cérebro precisasse de uma ajuda para processar a informação. Depois de algumas gargalhadas, Carlos, enfim, desabafou:

– Por alguns segundos achei que você já estava me arrumando mais uma obra aqui pra casa!

Empreendedorismo criativo

agosto 2, 2007

“Eu tavo sem dinhêro e num tinho comarranjá mais. Já tavo começâno a passa fômea, sinti as custela aparecêno… Tava foda pra dá dicumê pra crionça, né? Fui pido prus outro um cadinho duquicumê. Minha vizinha, Marilêndea, tavo com o galinheiro cheinho. Num pensei mais de três veiz, pulei lá e peguei umas cinco galinha. Quando eu tavo colocando elas pra cuzinhá, vivinha da silva, piscou uma lampadinha daquelas de idéia encima da minha cabeça. Perguntei pra Manel se ele tinha tinta preta e o maldito me chamo de maluca. Apelei pra creatchividade, né? Pintei as galinha toda, dexei elas pretinha e fui na casa de macumba vende quenem que fosse galinha preta de macumba. Foi um sucesso só, minina. Hoje eu tenho um galinhêro meu, com as minha galinha que eu depois pinto de preto. As criança tudo agora tem uquicumê. Gabriel tá crecêno bunito de se vê e a cabeçona dele nem parece que é mais grande que das outra. Suelle já ta até de peitinho, aquela vadia. Num demora muito ela me aparece dibarriga e eu metolheaporrada. As gêmia tão bem, tãmem. Mas oquieu me mijo toda é de pensá nas macumba que tão tudo dano errada… Galinha branca pintada de preta num presta, né?”

Um dia Comum

julho 26, 2007

Abriu os olhos, tirou o lençol que lhe cobria o rosto, e percebeu que havia dormido com as janelas escancaradas. A claridade já invadia furiosamente seu quarto, denunciando o acúmulo de poeira sobre os móveis, além dos restos da pizza espalhados pelo piso. Sua mãe reprovaria tamanho desleixo, se ao menos pudesse ver o chiqueiro em que se transformara aquele apartamento. Enquanto reunia forças para desgrudar o corpo do colchão, esticou os dedos até o criado mudo e pegou o celular. Já passava de meio-dia…

Apontou o controle remoto para o espelho, ligando o televisor. A apresentadora do noticiário local anunciava, com um leve ar empolgação, que cinco das modelos mais famosas no mundinho fashion saltariam de pára-quedas usando somente lingerie e salto agulha. Tudo em nome de uma campanha publicitária em prol da luta contra a anorexia. O primeiro sorriso do dia brotou, de forma pervertida, em seu rosto amassado. Seria um espetáculo se pudesse conhecer uma daquelas beldades, quase desnuda, em carne, osso e maquiagem.

Sua vida, no entanto, era de um marasmo sem precedentes. O máximo que ele já conseguira se aproximar de uma celebridade foi quando ajudou Narjara Turetta a se levantar de um tombo, no calçadão de Madureira. Na ocasião, ela tentava se eleger vereadora, e estava distribuindo panfletos aos transeuntes. Nunca foi eleita. Na verdade, ninguém sequer lembra de sua candidatura, mas ele sempre comenta o ocorrido, com o orgulho de um verdadeiro herói.

Espreguiçou, sentindo a coluna estalar, e deu uma bocejada. Viu no teto uma teia de aranha meneando com a brisa, prova irrefutável de seu pouco caso com a limpeza. Lembrou-se da vez em que cogitou chamar uma faxineira, indicada pela prima do açougueiro. A cabocla cobrava oitenta dinheiros só para limpar, e mais vinte se fosse para deixar tudo brilhando, mas acabou perdendo o serviço quando se recusou a tocar na imagem de São Jorge, que adornava uma prateleira sobre a porta da cozinha.

Pulou da cama, pôs-se a caminhar até o banheiro e, ainda cambaleante, ligou o chuveiro. Enquanto esperava a água esquentar, olhou-se no espelho e percebeu que os fios brancos já lhe cobriam quase toda a cabeça. Nem mesmo seu avô tinha uma cabeleira tão acinzentada, aos setenta e cinco anos. O charme de parecer um quarentão com o rosto de um moleque, porém, era inegável.

– Se elas gostam tanto de um grisalho, porque, então, não está chovendo mulher em minha horta? Pensou consigo mesmo, cerrando os punhos e fazendo uma careta, contra a imagem refletida no espelho, já embaçado. Entrou no box, fechou a cortina de plástico e deixou a água quente bater nos ombros. Há tempos que não conseguia se envolver com uma rapariga, e aqueles banhos demorados tinham se tornado sua única fonte de prazer.

No fundo, ele sabia que não era o charme dos cabelos brancos que interessava às mulheres, e sim um bolso cheio de grana. Só que esse não era o seu caso. Morava de aluguel numa quitinete do subúrbio, não tinha carro, estava desempregado e, para piorar a situação, não se importava com nada disso. Levava a vida numa boa, sem grandes preocupações.

Desde a formatura, fazia bicos como tradutor para se sustentar. O pouco dinheiro que ganhava era o suficiente para bancar as despesas e o maldito vício no cigarro mentolado. Queria mesmo era ser escritor de novelas, mas sabia que para entrar nesse ramo é preciso ter muito mais que talento e idéias mirabolantes. Ainda assim, anunciava aos quatro ventos que ainda ficaria famoso por ter um folhetim exibido no horário nobre.

Estava se enxaguando quando ouviu um forte estouro do lado de fora. No susto, acabou saindo com espuma escorrendo pelas pernas. Enxugou-se com um pouco de pressa e correu para o quarto, temendo se tratar de um confronto entre traficantes e policiais. Pela cortina entreaberta, percebeu que as crianças continuavam brincando normalmente, e que aquele barulho não era o prenuncio de um tiroteio.

Mais aliviado, tomou um gole de coca-cola, colocou uma bermuda de cintura frouxa e foi estender a toalha no varal. Acendeu um cigarro, o último do maço, e aproveitou para recolher alguns lençóis, que já estavam secos há mais de uma semana. Foi então que a viu, estatelada, sobre o canteiro de margaridas. Tão branca, tão delicada… e tão comprida!

Não podia acreditar naquilo que seus olhos teimavam em mostrar. Era inusitado demais, até mesmo para um sonho. Beliscou o próprio braço e certificou-se de que estava acordado. Vestindo apenas calcinha de renda e soutien meia-taça, ali estava uma das modelos mais belas do mundo, toda contorcida e com os olhos semi-abertos.

Estupefato, ele permaneceu quase duas horas, completamente inerte, apenas observando-a. O que teria acontecido para aquela beldade ter um fim tão trágico? E cair justamente em seu quintal, no meio do subúrbio? Porque diabos ela não estava com o pára-quedas? Teria ocorrido um atentado, ou só uma desavença com outra modelo vingativa? Agora, de nada adiantavam as respostas. Ele precisava dar um jeito de resolver a situação.

Tentou ligar para o irmão, repetidas vezes, mas não conseguiu. O maldito devia estar em alguma de suas importantíssimas reuniões de negócios. Com medo de chamar a polícia e ser acusado de terrorismo, preferiu não arriscar. Voltou ao quintal, com um lençol branco para cobri-la, até decidir o que fazer. Como que por um milagre, ela arregalou os olhos, tossiu fortemente e resmungou algo indecifrável.

Sem acreditar no que estava vendo, correu até ela e constatou o improvável: estava viva, de fato. Visivelmente desorientada, a modelo descruzou as pernas e cobriu um dos seios, que estava à mostra por todo aquele tempo. Sem conseguir compreender sequer uma palavra do que a moça sussurrava, ele decidiu colocá-la para dentro. Com sorriso malicioso estampado no rosto, ele levantou as mãos para o céu e bradou:

– Eu sabia que esse cabelo grisalho ainda ia me servir pr’alguma coisa! Agora sim ta começando a chover mulher na minha horta!

Correio elegante

julho 24, 2007

“Querido, não se esqueça de pegar as crianças na creche, às cinco horas em ponto. A diretora me disse que vai cobrar uma exorbitante multa para cada meia hora de atraso. Ana Carolline precisa tomar o xarope antes de jantar, mas não repare se ela vomitar tudo. Caso isso aconteça, limpe o que ela sujar e dê mais uma dose. Para o Jorge Phelipe, não dê nada com gás para beber. Refrigerante deixa ele com gases e muita dor na barriga.
Tem roupa batendo na máquina, e você vai precisar estender no varal assim que puder. Mas tome cuidado para não pendurar errado, senão as golas ficam todas embeiçadas. Seu remédio para as hemorróidas está na mesinha de cabeceira, como sempre. Tente aplicar sozinho, dessa vez. Nem pense em pedir ajuda para alguma das crianças. Elas não merecem.
Se o cãozinho estiver com muita fome, esquente uma das marmitinhas de sobras que eu deixei etiquetadas na terceira gaveta do freezer. Já o pagamento da empregada, acho melhor você entrar num acordo. Ela agora só passa as roupas, nada mais. Se pedir dinheiro a mais para a passagem, negue. Sei que ela vai de carona numa kombi, mesmo.
Deixei vagas duas portas do armário caso você precise acomodar alguém. Nunca se sabe quando sua mãe pode aparecer para fazer uma daquelas visitinhas surpresas, né? Sempre tão desagradável… Mas é melhor eu deixar isso para lá. Acho que já falei muito sobre o assunto.
Ah, sim! Caso você não tenha percebido, estou te largando. Peguei o que precisava e enfiei numa mochila. Vou viver com um tatuador que mora em Miami. Ele me leva ao orgasmo só com o olhar. Mas você pode ficar com as crianças, estou pouco me lixando. Quero mais que o mundo exploda e minha bunda cresça.

Beijos, Charis.”

Leve três, pague um

julho 20, 2007

Patricia estava de banho tomado, quando notou o pote de Kolene vazio. Mais do que atrasada para o baile no Clube do Olaria, não podia sair de casa com o cabelo naquele estado. Indignada, calçou os chinelos e desceu até a farmácia da esquina. Por sorte, estavam com o estoque farto e ela pegou logo o combo de três cremes com um shampoo grátis. Enquanto esperava para pagar, avistou uma velhinha, toda esbaforida, furando a fila:

– Me vê uma telesena, me vê uma telesena!

A atendente de caixa, com ar debochado, explicou que ali não se vendia esse tipo de produto, indicando a casa lotérica do outro lado da rua. Mas a velhinha parecia não entender nada. Só repetia a mesma coisa, agitando uma nota de real amassada. A morena, impaciente, começou a bater com as longas unhas na fórmica verde do balcão.

– Me vê uma telesena, me vê uma telesena!

Já que ninguém se dispunha a ajudar, Patrícia largou os potes de creme e pegou-a pela mão, levando até a outra loja. Furando mais uma fila, a velha pediu pela maldita telesena que tanto queria. Ninguém reclamou, só que, para seu desespero, não havia mais nenhuma. Só raspadinha. E mesmo assim, ela continuava…

– Me vê uma telesena, me vê uma telesena!

Preocupada com a hora, Patrícia a convenceu de pegar uma raspadinha, já que a tal telesena estava difícil de encontrar. Na emoção do momento, a idosa pegou o bilhete, entregou o dinheiro amassado à moça da lotérica e saiu correndo. Com a sensação de dever cumprido, a moça já estava atravessando a rua, em direção à farmácia, quando ouviu um grito.

– Oôoo, coisinha! Volte aqui!

Sem entender nada, e superlativamente atrasada, ela voltou até a casa lotérica, olhando desolada para o relógio. Com um ar desafiador, a atendente segurava a nota entregue pela velhinha, onde se lia, em letras garrafais, “Pegue a sua no Banco Cacique”. Tratava-se de uma daquelas reproduções, que são atiradas ao vento pelas garotas nos sinais de trânsito.

– Essa nota não vale nada, e você vai ter que pagar pela raspadinha daquela velha!

Patrícia tentou se explicar, dizendo que só estava ajudando aquela idosa a atravessar a rua, mas não houve acordo. Foi obrigada a pagar, do próprio bolso, a maldita raspadinha. Um sorriso irritante brotou no rosto da atendente, que mascava o mesmo chiclete desde o começo do dia, ao receber uma autêntica nota de dez reais.

– Quer o troco em raspadinhas, coisinha?!

Só não levou um tapa porque estava detrás de um vidro, e tinha pinta de encrenqueira. Já desanimada, e sem a menor vontade de ir ao baile, Patrícia retornou à farmácia e pegou, além daquele combo de cremes, duas cartelas de analgésicos. Uma enxaqueca das brabas começava a despontar, e ela pretendia cortar o mal pela raiz.

– Como eu sou idiota… Devia era ter comprado meus cremes e picado mula pro baile!

No caminho de casa, com a testa latejando, Patrícia avistou a velha sentada num banquinho da praça, perto da barraca de cachorro-quente. Num primeiro momento, achou que seria perda de tempo ir até lá, mas acabou mudando de idéia. Aquela biscate havia feito Patrícia de palhaça, e merecia levar um sermão.

– Sacanagem a tua, hein? Me colocou na maior furada! Pelo menos ganhou alguma coisa?

A senhora, então, estendeu o braço, mostrando o bilhete. Seu rosto murcho e triste não traduzia com exatidão o que acabara de lhe acontecer. Estava, de fato, premiado. Cinqüenta mil reais. Patrícia não se conteve e, esfuziante, tomou o papel de sua mão. Hesitou por alguns segundos, pensou em fugir e resgatar a bolada sozinha, mas resignou-se.

– Toma, velhota! Esse prêmio é seu, mesmo que não mereça.

Ao ouvir as palavras de Patrícia, aquela velhinha derramou-se em lágrimas. Era analfabeta. Não sabia sequer distinguir um número de uma letra. Estava ali descontente, por não saber o que significavam aquelas figuras. Quiçá, tinha noção do quanto valia aquele bilhete. De tanta tristeza, abraçou a jovem e desabafou. A ela, só interessava uma coisa.

– Fique, você, com o bilhete. Para mim, não tem serventia. O que eu queria mesmo era conhecer o Silvio Santos.